Archive for the ‘Bibliotecas’ Category

Art Buchwald

Sunday, March 15th, 2009

I’ll Always Have Paris

Regina Caldas

Livro de memórias esquecido em minha biblioteca sem que eu o lesse. Mas nestes dias de carnaval estou com ele em minhas mãos. É muito mais interessante do que imaginava. Em tempos passados li algumas cronicas de Art Buchwald e gostei de seu senso de humor , talvez por isto adquiri o livro. 

Passei quase uim ano sem retornar à minha atividade de comentar os livros que leio. E li uma infinidade deles. Alguns soberbos, como “Adeus China”,  de Li Cunxin sobre o qual comentarei em breve. 

Em “I’ll always have Paris”, Buchwald relata suas aventuras como estudante da USC em Paris no pós-guerra (II Guerra Mundial quando ele serviu na Marinha), e como se tornou jornalista conhecido internacionalmente, um jovem do Queens reinventando-se por quarenta anos e convivendo com a nata da elite mundial. Seu senso de humor é excepcional o que transforma suas memórias numa leitura leve onde os fatos são narrados de maneira inesquecivel. Citarei a seguir algumas destas passagens.

Os “Cafés” , segundo Art, são o centro da vida parisiense. É nos cafés que circulam os estudantes, artistas, escritores, jornalistas, impostores, senhoras de todas as classes sociais e turistas. É nos cafés que se leem os jornais, se conseguem a preciosa assinatura dos famosos e onde correm as noticias do país e do mundo.

A primeira passagem que me chamou a atenção referiu-se a uma história que lhe contou Robert Redford. Quando Redford estudava em Paris, conheceu dois cantores folcloricos norteamericanos com os quais fez amizade. Eles cantavam no Bar L’Abbaye e todas as noites Redford estava ali ao lado deles. Mais tarde retornou aos Estados Unidos, tornou-se ator de cinema, e na época em que encenava “All the President’s men”, de passagem por Paris retornou ao L’Abbaye para rever os amigos. Redford perguntou-lhes se sabiam quem ele era. Um deles respondeu: “voce é o ator Robert Redford, não reconheceram nele o amigo de antigamente….

….Garry Davis (filho do lider de uma banda, Meyer Davis), queria iniciar uma campanha em prol de um governo mundial. Decidiu então ser o primeiro cidadão mundial, e para tanto planejou destruir seu passaporte americano em frente ao Palais de Chaillot onde a ONU teria um encontro. Sua ação foi planejada no bar do “Hôtel des Etats-Unis”.  Com os amigos planejou os pros e os contra, e foi advertido que a policia francesa poderia prende-lo se não apresentasse provas sobre quem era. Mas era exatamente isto que ele desejava, ser preso para chamar a atenção para seu projeto de um governo mundial. A novidade se espalhou e ele foi chamado a conversar com Eleanor Roosevelt que se encontrava em Paris para o evento na ONU. Ela o advertiu que ficaria muito mal ele destruir seu passaporte norteamericano durante um encontro de líderes internacionais. Ele não recuou, foi ao Palacio de Chaillot e fez seu passaporte em pedaços, sendo preso a seguir por falta de identificação. “Nasce uma estrela” comentou Art, pois todos os jornais publicaram o fato com enormes manchetes. Por alguns momentos todos ficaram fixados na idéia de uma cidadania mundial….( vale notar, que atualmente a ONU encabeça algo similar, apoiada por algumas fundações).

Certa ocasião, Art estava presente numa recepção oferecido por De Gaulle ao lider russo Nikita Krushov, no Paris Opera House.  Art dirigiu-se até o segundo andar onde as janelas cobertas por cortinas davam para a Place de L’Opéra. Concentrados na praça estavam 20.000 membros do Partido Comunista Frances. Ele se inclinou no balcão de uma das janelas, e o grupo na praça festejou. Ele acenou a mão e o grupo de 20.000, acenou de volta..Ele repetiu e o grupo enlouqueceu…de entusiasmo…

Art sentava-se nos cafés ao invés de assistir às aulas como estava comprometido a faze-lo, e travou amizades com grandes escritores, jornalistas e outras personalidades. Um destes escritores contou-lhe que certa ocasião, ao ser apresentado a Hemingway, que em Paris era carinhosamente chamado de Papa, perguntou: ” O que eu faço para ser um escritor?” Hemingway respondeu: ” Primeiro voce precisa descongelar o refrigerador.” Hemingway foi o ídolo de Art, embora quando se conheceram houve um incidente que o fez dismistificar o escritor. Foram apresentados, os joelhos de Art tremiam, mas ele estava preparado para discutir qualquer das obras do escritor. Estavam num bar, Hemingway tomava um drink e após olhar para Art lhe perguntou: -”Jovem, voce já lutou contra um urso?”

Herald Tribune: Ao tempo de Art, o sonho de todo jornalista era trabalhar para o Herald Tribune. E ele, ainda totalmente despreparado, inclusive não sabendo quase nada de frances, considerou que pelo fato de já ter trabalhado com o Variety estava habilitado para o HT. Então certo dia apresentou-se no famoso jornal e foi entrevistado pelo diretor administrativo Eric Hawkins. Após ouvi-lo, Eric respondeu: ” O jornal não está interessado em colunistas para entretenimentos, e quando estiver voce não será indicado, e agora vá para o inferno, fora daqui!” Art não se conformou com a rejeição. Passado alguns dias soube que Eric viajara para o interior da Inglaterra. Apresentou-se ao editor Geoff Parsons e disse: ” O senhor Hawkins e eu conversamos que eu faria a coluna de entretenimentos” Foi contratado de imediato. Para terminar, relevo este fato pelo significado que teve na vida de Art. Como ele mesmo comenta em seu livro, passou a vida criando histórias sobre si mesmo. Histórias mentirosas, para ele, no contexto em que pretendia realizar sua vida não havia espaço para um garoto criado no Queens. E quando, 41 anos após uma vida bem sucedida em Paris, ele retorna aos USA, sua observação revela o tamanho de suas ambições puramente materiais. Ele afirma que, para ele e Ann, que chegaram em Paris cada um com uma pequena bolsa e um pouco de dinheiro, retornar à pátria levando 15 malas era a prova evidente de que Paris fora generosa com eles. Nada diferente de muitos que medem seu proprio sucesso pelo aumento dos bens materiais que acumulam vida afora. Esquecem que um dia um pouco mais à frente, tudo isto perde a razão de ser.

I”ll always have Paris: Buchwald, Art-G.P.Putnam’s Sons NY-1996

KNB

Thursday, February 5th, 2009

Den Haag, 2 mei 2008

ons kenmerk                  1919200703040/mr R.Wisse

betreft                            afwikkeling nalatenschap

geachte mevrouw CS Caldas

Uw brief zonder datum mocht de KNB op 29 april 2008 ontvangen. |U geeft in deze brief reactie op de brief van notaris mr A.J.M. van Velzer en stelt drie aanvullende vragen.

Al eerder is dat u vragen met betrekking tot de nalatenschap van Ir J M van Swaay rechtstreeks aan de notaris kunt stellen. De tussenkomst van KNB is slechts bedoeld om het contact tussen u en de notaris weer zodanig te herstellen dat dat mogelijk is.

Nu de notaris tot nu toe uw vragen heeft beantwoord, zal ik uw brief doorsturen aan notaris mr AJM van Velzen van Buren van Velzen Guelen Netwerk notarissen te Den Haag met het verzoek om uw vragen rechtstreeks te beantwoorden. Ik heb verzocht KNB een kopie van deze reactie te sturen ten behoeve van het dossier.

Ik wijs u er nogmaals op dar de tussenkomst door KNB slecths een informele bemiddelingsprocedure is.

Hoogachtend,

mr M W E van Esch

Chekov

Friday, January 30th, 2009

Chekov ( Anton Pavlovich)- 1860/1904

October 26th, 2008

1860/1904: escritor russo de pequenos contos e peças teatrais. Nascido no sul da Rússia, em Taganrog, filho de um comerciante e neto de um ex-servo que comprou sua liberdade. Graduou-se em medicina em 1884 tendo inicialmente exercido a profissão numa pequena cidade do interior e as experiencias sobre doenças e comportamentos de seus pacientes serviram de base para muitos de seus contos.

Para ajudar a sustentar sua enorme família, Chekhov se utilizou da publicação de pequenos contos nos jornais locais, sob pseudônimo. Nesta época, quando também exercia a medicina, Chekhov escreveu à um amigo: ” Medicina é a minha legítima esposa, literatura a minha amante. Enquanto alimento uma, passo a noite com a outra. Embora isto seja irregular, nenhuma das duas fica prejudicada com a minha infidelidade” Mas a amante com o tempo superou a esposa. O escritor Dimitri Grigorovich o apresentou a Aleksey Suvorin, proprietario do jornal Novoye vremya que liderava a imprensa em S. Petersburg. Sua reputação cresceu, pois a segurança financeira permitiu-lhe se dedicar mais aos seus trabalhos intelectuais.

Em 1890, Cherkhov viajou até a ilha-prisão de Sakhalin, suas experiencias foram relatadas no livro Ilha de Sakhalin (1893-4). À época ele já carregava consigo o bacilo da tuberculose, e toda a sua curta vida foi marcada por uma constante luta contra o avanço da doença. retornando à Rússia em 1892, durante a onda de fome que assolou seu pais ele executou um trabalho relevante. Em 89, com o agravamento de sua doença mudou-se para Yalta, na Criméia onde encontrou Gorky e Tolstoi. A partir de então sua criatividade voltou-se para o drama. Faleceu na Alemanha, no sanatório Badenweiler, em Julho de 1904.

O tema central da prosa de ficção de Cherkhov é a inabilidade dos seres humanos em não encontrarem respostas uns aos outros em suas comunicações permeadas de maldades e desesperança. É também relembrado por criar uma atmosfera lírica como resposta do homem à natureza.

Em 25 de maio de 1901, Chekhov casou-se com a atriz Olga Knipper. Antes que isto ocorresse, instigado por Suvorín a se casar, Cherkhov lhe afirmara:-” Pois bem, eu posso me casar se voce deseja. Mas minhas condições são: cada um permanece onde está, ela em Moscou e eu no interior. Irei vê-la, se a felicidade for contínua, dia após dia, eu fico” Olga foi esta mulher. Visitavam-se. Trocavam cartas diárias. Numa destas escrita antes de se casarem, ele demonstrou que havia sucumbido ao amor, quando confessou a Olga: ” o destino que nos separa não deve ser amaldiçoado. Foi o demônio que colocou o bacilo em mim e o amor à arte em você.”

Chekhov é considerado um mestre dos pequenos contos. Seu lema era: “concisão é a irmã do talento”.

The Portable Chekhov -NY The Viking Press 1975

“My holy of holies is the human body, health, inteligence, talent, inspiration, love, and absolute freedom-freedom from violence and falsehood, no matter how the last two manifest thenselves.” Chekhov

Resumo de alguns contos:

VANKA

Vanka é o menino de 9 aninhos, órfão de pai e mãe, aprendiz de sapateiro, que à véspera do natal escreve uma carta para seu avô que trabalha de guarda noturno. Na carta ele externa sua miserável condição: a noite dormindo num gélido cantinho da cozinha, de dia da cozinha para a loja do sapateiro. Na carta ficamos sabendo um pouco de sua história, sua mãe trabalhava na casa onde ele continuou a viver depois que ela falecera, época em que era bem tratado especialmente pela jovem Olga que o ensinara a ler e escrever. A ausência materna o jogou na cozinha. Vanka pede ao avô que venha buscá-lo antes que morra de frio e fome. O apêlo de Vanka é pungente, embora ele confunda a realidade com suas fantasias, natural pela idade e sofrimentos.

O CONSELHEIRO PRIVADO

A história é narrada por um menino cuja mãe entra em pânico quando recebe a notícia de que seu único irmão, um general solteirão virá visitá-la. Todo o texto gira em torno desta visita. E o menino, ainda na idade da inocência, com a chegada do tio inicia seu aprendizado sobre a vida além do seu pequeno mundo de criança bem nascida educada por um tutor de caráter enigmático. Dentro deste contexto, o ponto alto é a paixão que seu tio nutrirá por Tatyana, uma jovem casada com um cigano. O casal trabalha na casa do menino. Como o general trouxe seu ajudante de ordens, a mãe pede ao garoto que ceda seu quarto de dormir ao ajudante, assim, ele e o tutor se transferem para um anexo situado fora da casa onde vivem os empregados. A partir de um certo dia, todas as noites enquanto eles jantam o tio aparece no anexo. O menino percebe que há alguma coisa acontecendo mas não entende o quê. Até que uma noite, já tarde, enquanto ele faz um enorme esforço para não adormecer, houve uma declaração de amor que seu tio faz a Tatyana sem a menor consideração pelo marido da moça que se encontra presente ouvindo com olhos estatelados. O general convida a jovem a partir com ele para Moscou. Toma-lhe as mãos para beijá-la, é neste momento que o marido reage seguido pelo tutor. Um após outro, avançam sobre o tio e o expulsam do anexo. Mas, durante o momento em que o tutor vai para cima do general, alguma desconfiança surge na cabeça do cigano relacionada ao tutor. Assim, tão logo o tio sai do anexo lamentando que está muito doente, o cigano pega o tutor pelo pescoço e o agride, expulsando-o a seguir. O tutor vai embora e a dona da casa fica sabendo que durante a briga ele quebrou o braço e foi hospitalizado. A mãe do menino vai até o anexo para saber o que aconteceu na véspera. Lamenta que seu irmão esteja tão doente. O menino recolhe-se no jardim e entrega-se ao pranto. Mas distrai-se ao ver na estrada uma comitiva que se aproxima de sua casa, liderada pela polícia. Assustado corre para dentro de casa e conta à mãe que entra em pânico acreditando que alguem irá preso pela briga da véspera. Mas não se trata de prender alguem, é o tio que recebe a visita do governador. Pede a irmã que prepare uma refeição para seus hóspedes. Há um movimento inusitado na casa. Patos e perús são mortos para a refeição, nem aqueles de estimação foram poupados. Um grande banquete é servido, mas depois que os hóspedes se retiram, o general critica a irmã que não cumprimentou efusivamente o governador , e também faz críticas ao almoço servido. Para a dona da casa tais críticas foram a gota d’água num copo quase cheio pelas tensões sofridas desde a chegada do irmão. Ele percebe o cansaço e a frustração da irmã e sugere que se tivesse 3 mil rublos iria embora. A irmã lhe dá o dinheiro e a seguir a familia está na estação para as despedidas.

UMA CALAMIDADE

Sofya Petrovna é a esposa de Lubyantzeve, o notário público. É uma bela mulher de vinte e ccinco anos, mãe de uma menina. Encontra-se próxima á estação de ferro ao lado de um advogado, Ivan Mihailovich que lhe envia cartas e lhe faz desesperadas declarações de amor. Sofya rejeita o amor de Ivan. Aparentemente. Pois o fato dela ir ao encontro dele para lhe dar aquelas eternas desculpas femininas de que ama e respeita seu marido, que tem uma filha, uma familia, não o convencem. Ao contrário fazem-no acreditar, e ele manifesta esta sua intuição à mulher, que ela também o deseja. Por que estaria ali para rejeitá-lo quando poderia faze-lo por carta? Num certo momento Ivan cai de joelhos aos pés da mulher, declara seu amor e pede que ela vá embora com ele. Sofya sente enorme prazer em ter um homem de joelhos aos seus pés. Mas o rejeita, pois percebe que o trem está chegando e seu marido pode estar viajando nele no retorno à casa onde passam o verão. Desculpa-se afirmando que deveria estar em casa cuidando de sua familia e abandona Ivan.

Em casa Sofya descobre-se em êxtase. Um homem ajoelhou-se aos seus pés. Seu corpo freme de emoções enquanto se esforça para se desculpar diante da própria consciencia. Neste momento não se sente mais dona de si. Insulta-se, recrimina-se, compara-se às piores mulheres. Mas ao mesmo tempo sente-se tomada de estranho prazer e desejo. Diz para si mesma que fará a melhor refeição para seu marido, toma a filhinha nos braços e quase a sufoca de beijos. Aos poucos se acalma quando conclui que o melhor para fugir de Ivan seria uma pequena viagem com sua familia. O marido chega e após o jantar se prepara para um pequeno repouso. Sofya o convida para uma viagem. Ele diz que não é possivel, falta dinheiro e não teria quem cuidasse do cartório na sua ausência. Conclui que compreende que não deve ser agradável para ela aquela estadia no campo, então que vá viajar sozinha. Enquanto o marido adormece, Sofia sabendo que lhe foi concedida a liberdade de viajar sozinha, sonha novamente com Ivan. Viajariam juntos no trem, e quando fosse noite e os passageiros estivessem dormindo ou saissem um pouco durante as paradas, Ivan outra vez se ajoelharia ao seus pés para lhe declarar amor.

No final da tarde chegam vizinhos para jogar baralho e ouvi-la ao piano. Ivan também chega. Sofya está histérica com a presença do rapaz. Canta velhas cantigas de amor, ri, suas faces queimam feito brasas. Mas ao mesmo tempo imagina que o rapaz, silencioso naquela noite, está sofrendo por ela. O que fazer?

A reunião termina por volta de meia noite. O último convidado a sair é Ivan. Sofya o acompanha até o portão e permite que o rapaz a toque e lhe declare amor convidando-a para partirem juntos. Quando ele a envolve avançando um pouco mais, ela indignada solta-se e corre para dentro da casa. Seu marido já está na cama. Sofya senta-se diante da janela do quarto e pensa em Ivan. Nisto ouve do lado de fora da casa uma voz de tenor iniciando uma canção. Entra em desespero. Sacode o marido e o convida para acompanhá-la num passeio. Ele pede-lhe que vá sozinha. Ela pergunta se ele não ficaria preocupado se ela fosse e não voltasse mais. Ele nada responde. Ela lhe grita -” Nós vamos embora!” O marido desperta, senta-se na cama e quer saber com quem ela vai embora. E faz-lhe uma preleção sobre fidelidade, casamento, responsabilidades. Ela se lamenta que ele só pense nisto e não em seus sentimentos de mulher. Depois de dez minutos de lições morais o marido volta a dormir. Sofya dá a última cartada: ” vou sair, você vem comigo? Se vou sozinha talvez não volte.” O marido não responde. Ela reflete: “é agora ou nunca” Sai apressada para o meio da noite. Avança na escuridão sem olhar para trás.

At the Mill

Nos dois contos anteriores Chekhov nos revela os comportamentos diferentes de duas mulheres: a casta Tatyana passiva diante das investidas de um general solteirão que não resiste aos seus encantos e quer levá-la consigo para Moscou; e Sofya leviana que ao mesmo tempo se excita com a perspectiva de viver uma aventura amorosa e transforma suas sensações em tortura para sí mesma e para o homem que a ama; ao mesmo tempo estamos diante de dois maridos que agem de forma diferente um do outro, em relação à mulher que amam: o cigano cuida do seu amor, protege-a dos cantos das sereias, defende-a; o notário deixa a mulher solta para se entregar às diversões e aos sonhos, não se dando conta ou talvez sendo indiferente que ela siga sua própria vida se assim o desejar. Entretanto, no conto seguinte At the Mill, Chekhov nos convida a conhecer um caráter mesquinho que coloca seus ganhos financeiros acima da compaixão e do amor filial e fraternal. Trata-se de Alexey Birukov, dono de um moinho, proprietário de terras, que no seu dia-a-dia se confronta com as mazelas que os necessitados jogam sobre seus ombros. São quatro páginas que delineam à perfeição os impulsos primitivos que afloram do fundo da mente daqueles que se apegam ao Ter e pouco se importam de mostrar ao mundo que em relação ao Ser nada são. Não se importam com a má reputação, a indignação dos mais próximos, ou o olhar surpreso de quem acredita que poderiam em algum momento demonstrar rasgos de generosidade. Pequenos gestos falam muito. E aqui Chekhov revela sua magistral percepção do comportamento humano. O ser mesquinho, encurralado pelas lágrimas maternas e pelo olhar indignado de terceiros que assistem cena tão deplorável, sente-se obrigado a ceder. Abre sua sacola de dinheiro. Toma entre as mãos um maço de notas, e lentamente devolve-as uma a uma para o interior da sacola. Em suas mãos sobra apenas a moeda de vinte rublos. Olha para a moeda na palma de sua mão. Reflete. E afinal, decide. Coloca o dinheiro nas mãos da mãe. Como diz um ditado judaico: ” é muito longo o caminho entre o coração e o bolso.”

A Sirene

Um pequeno conto divertido, realista e sutil. A começar pelo título. Traduzido do inglês a palavra “siren” significa tanto sereia quanto sirene. Sereia atrai os navegantes com o seu canto suave. Sirene é um aparelho utilizado para emitir sons que alertam para algum perigo. Na presente história alguns juizes estão reunidos na Câmara de Julgamento aguardando que o Juiz presidente da Corte faça o relatório de um caso no qual atuaram juntos. Estão atrasados para o almoço. Sentado diante dos colegas, o secretário da corte comenta baixinho: “estamos famintos agora, porque estamos cansados e já passa das 15 horas. Isto não é, meu caro Grigory, o que podemos chamar de verdadeiro apetite.” E sem dar tempo aos colegas, dispara a falar sobre os mais deliciosos cardápios. Num crescendum suas palavras aguçam a fome de todos. O presidente esbraveja que o secretário deve falar mais baixo, pois aquela conversa o distrai e ele precisa refazer páginas de seu relatório. O secretário promete falar mais baixo, entretanto, no mesmo tom de voz anterior continua falando de assados, caviar, vodka, sopas e saladas. Sádico cria um ambiente onde alguém chega na cozinha e prepara uma refeição completa e requintada. As entradas enquanto se aguarda que o assado fique pronto, o aperitivo colocado em pequenos copos contendo incrições do tipo” As you clink, you may think, monks also thus do drink” ” A sopa, o assado, enfim, uma verdadeira aula de culinária que seria incompleta se tais refeiçoes não fossem seguidas de um descanso onde voce toma um brandy, lê seu jornal, vê a mulher amada e a chama para que lhe de um beijo. Um a um, os juizes pedem licença, passam a mão em seus chapéus e vão se retirando com ares de urgencia. O Presidente não consegue completar seu relatório e impaciente vai embora. O secretário lhe pergunta: ” meu querido amigo, quando terminará seu relatório?” O presidente levanta suas mãos em desespero e se apressa em direção a porta. O assistente faz o mesmo. Enquanto o secretário falante olha atrás deles desaprovando e começa a recolher os papéis.

Um ataque de nervos

Esta história é hilária. Vasilyev, o terceiranista da faculdade de direito é convidado por seus dois amigos, um cursando medicina e o outro a Escola nacional de Pintura, para que passem a tarde num bordel. Ele nunca esteve num bordel e aceita. No caminho ele fantasia um ambiente caloroso, repleto de glamour. Após uma caminhada sobre a neve os amigos chegam na S….Streeet repleta de casas de tolerância. Entram na primeira, são recebidos por um valet de feição glacial e indiferente. Subindo as escadas que conduzem a um ambiente mal iluminado, mulheres de faces pintadas e roupas escandalosas, não dão margem á dúvidas para Vasilyev, entraram pela porta errada. E assim, sucessivamente, os amigos cedem às críticas do futuro advogado indo de casa em casa, até que entram numa que fica mais ou menos aprovada por ele. Nesta há uma orquestra e dança-se a quadrilha. Enquanto os amigos dançam, Vasilyev acomoda-se bastante constrangido numa poltrona e analisa o ambiente. Horroriza-se sabendo que ai as mulheres se vendem em troca de um pouco de dinheiro que lhes garanta abrigo, alimento e roupas. Sente-se curioso para saber suas origens, como são suas famílias, como chegaram até aquela vida para a qual não há perdão, já estão condenadas ao inferno. Acreditando na condenação das mulheres decaídas, Vasilyev também reflete que os homens, todos os homens são criminosos duplamente: matam as esperanças daquelas mulheres e as condenam ao inferno. E num crescendum, o jovem estudante olha com nojo para as faces de cada um dos presentes, sente-se mal, excitado, e seus pensamentos sobre o ambiente são cada vez mais trágicos e sufocantes. A tarde finda e os dois amigos finalmente atendem aos apelos de Vasilyev e retornam à casa onde moram. Vasilyev recolhe-se em seu quarto e não consegue dormir. Reflete sobre bordeis e suas mulheres, seus frequentadores. Agonia-se, mas decide se manter sob controle. “Sou um advogado não sou? Defendi uma tese brilhantemente, então devo saber me controlar. Vou traçar um plano para salvar estas mulheres, e de início vou criar tres ambientes de salvação para elas” Imagina-as salvas sob tres condições diversas: 1) homens querendo tirar mulheres de um bordel instalando-as num quarto, dando-lhes máquina de costura para que possam ganhar a vida com decência, e eles em pouco tempo transformando-as em suas amantes. Neste caso a mulher decaída continua decaída. 2) Outros, após comprá-las colocam-nas em apartamento com a inevitável máquina de costura, dão-lhes aulas e elas aprendem a rezar e a ler. Enquanto tudo é novidade elas aguentam, mas logo reiniciam suas antigas atividades… continuam decaídas portanto. 3) um terceiro grupo de homens que casam-se com elas. E o casamento, a maternidade as transformam em boas mulheres. Mas Vasilyev depara-se com uma dificuldade. Mulheres em bordéis há aos milhares em todos os cantos do mundo. E ainda que todas fossem salvas outras seriam seduzidas e em breve estariam ocupando os espaços deixados vazios. Que agonia. Como salvar estas almas decaídas? Sim! uma boa idéia, talvez tornando-se missionário. Toma um pedaço de papel, lápis e rascunha um discurso de salvação das mulheres decaídas e de convencimento dos homens a não matá-las duas vezes. Sentar-se-á próximo à rua dos bordéis e à cada transeunte masculino indagará se acredita em Deus, se não teme o inferno, se…se….A noite passa, o rapaz não dorme. Sente dor no fundo do coração. Tem a cabeça confusa. Muitos são bons em vários segmentos da vida. Mas ele nasceu com um coração generoso. E a dor alheia entra fundo em seu ser. É-lhe insupórtavel o sofrimento alheio. Amanhece. Os amigos vão para a faculdade. Ele continua no quarto, prisioneiro de um ataque de nervos. Decide sair para a rua e caminha a esmo pela cidade. Vai até o rio agora congelado. Aproxima-se da ponte. Tem idéias suicidas. Sente medo e volta para casa. Os amigos chegam da faculdade e vão ao seu quarto. Em prantos Vasilyev pede-lhes ajuda afirmando que desejou se matar. É levado ao médico psiquiatra, que,friamente sorrindo de um lado só, o questiona sobre seus antecendentes. Dadas as respostas, Vasilyev pergunta ao médico se a prostituição é um mal ou não. O médico responde: meu querido cliente, quem as disputa? E Vasilyev:- O senhor é um psiquiatra não é? Talvez vocês estejam certos….

O médico dá um remédio para Vasilyev e ele se acalma. Os tres rapazes saem do consultório, o paciente levando entre as mãos duas receitas, uma de brometo a outra de morfina. Ele exclama: ” mas já tomei estes remédios antes!” e serenamente afasta-se de seus amigos e segue em direção à faculdade.

Gusev

Aqui são marinheiros retornando ao lar, num barco onde reina o cáos onde a maioria está a beira da morte. Gusev é o personagem principal, um pobre coitado que conta à um outro colega, Pavel, que um soldado em Sucham enquanto estava navegando, seu barco chocou-se com um enorme peixe causando um buraco em seu fundo. Pavel parece não ouví-lo. Trés inválidos jogam cartas e deliram. O tempo está ruim, o mar agitado e Gusev também delira. A curta história se limita a narrar a briga entre o barco e as ondas agitadas, o delírio dos doentes sujeitos ao calor estafante e com dificuldades respiratórias, (um drama que deve ter corroído a mente de Chekhov que desde os tempos de faculdade tinha em sí incubado o bacilo da tuberculose). Um dos jogadores morre e é atirado ao mar. Gusev se aproxima da morte, mas não a pressente e sonha com sua chegada na terra natal, pensa em sua familia. Passam-se dois dias. Pavel parece estar muito mal, mas quando Gusev pergunta sobre sua saúde ele afirma que está bem melhor. E Gusev se pavoneia afirmando que quando se compara com o amigo embora sinta pena dele, sente-se feliz porque seus pulmões estão bem e pode ficar no inferno…sozinho no mar Vermelho. As horas passam silenciosas até que chega a noite. Pavel tambem faleceu. Um dos soldados que jogavam cartas depois de questionar se Pavel entraria no Reino dos Céus, senta-se diante de Gusev e afirma: ” Você também Gusev, logo partirá deste mundo. Não retornará à Rússia. Eu vejo a morte em você. A conversa deixa Gusev atormentado. Tenta pensar no lar. mas não aguenta e pede ao amigo que o leve para o deck para que possa respirar melhor. No deck soldados mortos e marinheiros parecem dormindo lado a lado. Estrelas brilham nos céus, lá em cima há quietude e paz, mas abaixo ondas gigantes agitam o mar, Gusev quebra o silêncio: ” não há nada atemorizando aqui..só você se percebe esquisito como se entrasse numa floresta escura, mas se eles me mandassem cinco milhas adiante para pescar eu iria..se um cristão caisse na água agora eu o salvaria…”- você está preocupado em morrer, lhe pergunta o soldado. -Sim, penso na fazenda, meu irmão bebe, bate em sua esposa, não honra seu pai e mãe. …Mas as minhas pernas não me aguentam, deixa-me dormir, irmão….Gusev retorna à enfermaria onde dorme por dois dias seguidos. No terceiro, à tarde, dois marinheiros vão vê-lo, e o carregam fora da enfermaria. Ele é costurado dentro de um saco de marinheiro, e para torná-lo pesado, colocam junto dois pesos de metal. Quando o sol desaparece levam-no para o deck. O sacerdote ora: “Abençoado é nosso Deus…” Gusev é jogado ao mar e está numa escola de peixes chamados “peixe piloto”. O peixe pilôto está em êxtases. Brinca com o corpo de Gusev….enquanto lá em cima finda o cepúsculo e as nuvens maciças formam desenhos: um arco, um leão, um par de tesouras…Os céus se transformam em tinta lilás…enquanto este magnífico poente tem suas luzes captadas pelo mar em cores e beleza que não podem ser descritas por ninguem.

O HOMEM NUMA CONCHA

Nos limites de uma pequena vila dois caçadores conversam. Eram o veterinário Ivan Ivanych e o professor Burkin. Ivan vivia próximo da cidade e saíra aquela noite para respirar um pouco de ar fresco. De um comentário que fizeram sobre a senhora Mavra, que nunca saira da cidade e sequer sabia o que seria uma estrada de ferro, Burkin refletiu que existiam pessoas anti-sociais que se mantinham dentro de uma concha como o caranguejo. Aqui mesmo tínhamos Belikov, um professor meu colega sempre vestido com um casaco de inverno e levando um guarda-chuva mesmo nos dias mais claros, em resumo, era um tipo que construia ao seu redor uma membrana, uma capa protetora.. Lecionava grego, e mantinha um sorriso adocicado quando pronunciava a palavra: “Anthropos”. Para ele o que interessava eram as regulamentações do governo e as notícias dos jornais onde alguma coisa ficava proibida. Quando alguma lei proibia estudantes de 2o grau a ficarem nas ruas após as nove horas da noite, ou algum artigo censurando amor carnal, para Belikov isto se tornava proibido e assim tinha que ser. Mas aqui sempre existia alguma coisa vaga e indefinida para ele, algo não totalmente expresso em qualquer sanção ou permissão. Quando algum clube de drama ou casa de chá eram licenciados, ele chacoalhava a cabeça e cochichava: Tudo bem, mas você não sabe o que pode vir dai. Ele tinha o costume de visitar nossos quartos. Sentava-se e permanecia em silêncio por uma, duas horas, e então ia embora, e isto ele designava como manter boas relações com os colegas. na escola o diretor e todos nós, professores, nos preocupavamos com ele. Por quinze anos ele teve a cidade debaixo de seu polegar. Todos se preocupavam com o que faziem por temer as críticas de Belikov. Até que um dia….

Mihail Kovalenko, um ucraniano, chegou na vila para tornar-se o novo professor de geografia. Veio acompanhado da irmã, Varenka, uma jovem de trinta anos, bem feita de corpo, que sempre cantava pequenas canções russas e sorria. Sua risada às vezes soava como um sino Ha-Ha-Ha! Ela nos fascinava e tambêm a Belikov que comentava com um açucarado sorriso: ” A pequena língua russa lembra o velho grego na sua suavidade e agradavel sonoridade”. Nós viamos os dois conversando e uma idéia passou pelas nossas cabeças, casá-los. E foi só nesta ocasião que nos demos conta que o nosso Belikov não era casado. E nós poderiamos pinçar Belikov de seu quarto para casá-lo com Varenka. Eu poderia dar uma recepção e convidá-los. E assim, a máquina foi acionada. Em breve Belikov trouxe um retrato de Varenka para seu quarto, e viamos os dois caminhando juntos em longas conversas, e começou a me falar sobre casamento e suas responsabilidades. Eu gosto dela costumava me dizer, mas preciso pensar um pouco mais sobre casamento. Mas o romance foi se tornando assunto de todos na vila. Embora o irmão de Varenka odiasse Belikov, não colocava impecilho para um futuro casamento.

Certa ocasião, circulou pela escola uma caricatura de Belikov vestindo seus trajes habituais, caminhando com seu guarda-chuva, com Veranka se apoiando em seu braço e abaixo a legenda: “Anthropos apaixonado” A caricatura causou pânico em Belikov. Era domingo, Io de maio, e todos pretendiam se encontrar na escola de onde partiriam para um passeio pelos arredores da cidade. Belikov tendo saído em minha companhia queixava-se da malícia popular, quando Kovalenko e Varenka passaram pelo nosso caminho pedalando suas bicicletas. – ” Céus, o que é isto, exclamou Belikov apontando para Valenka. Ele estava escandalizado ao vê-la na bicicleta, que voltou para casa. Ferchou-se em seu quarto permanecendo incomunicável. No final da tarde ele foi até a casa de Kovarenko. Embora mal recebido despejou uma série de críticas sobre a caricatura e advertindo Kovarenko sobre a inconveniência de um professor pedalar bicicleta dando máu exemplo aos estudantes. Kovarenko não entendeu nada! Mas deixou claro que não era da conta de ninguém que ele e a irmã andassem de bicicleta. Ambos discutiram nervosamente. E já se retirando Belikov informou que levaria ao diretor da escola o conteúdo daquela discussão entre eles. Kovarenko enquanto lhe respondia de forma malcriada agarrou Belikov pelo pescoço e lhe deu um empurrão. Belikov rolou escada abaixo. naquele momento Varenka chegava em casa acompanhada de duas senhoras e ao reconhecer Belikov, supondo que ele caira por acidente, deu aquela sua gargalhada, Ha-Ha-Ha!! E este reverberante sino colocou um ponto final no romance entre os dois. Berlikov voltou para sua casa, trancou-se no quarto e, dois dias depois, seu criado Afanásio procurou-me preocupado para dar péssimas notícias sobre seu patrão. Fui vê-lo. Ele não se alimentava, respondendo às minhas perguntas apenas com um sim ou não. Um mes mais tarde faleceu. Uma semana mais tarde a vida em nossa vila voltou ao normal. Tão estúpida quanto antes. Nada explicitamente proibido, mas também nada plenamente permitido.

-Que lua! comentou Burkin. Era meia-noite. À direita podiamos ver a vila onde cada coisa permanecia em silencio. Quando numa noite de luar voce vê as ruas vazias da cidade, com suas casas, e os seus habitantes estão dormindo, você fica tomado de serenidade e imagina que as estrelas estão olhando para isto ternamente e que não existe mais o mal sobre a terra.

Burkin foi dormir e Ivanych sentou-se outra vez à porta de sua casa, acendeu seu cachimbo e alí ficou.

Thomas Mann

October 26th, 2008

Dead in Venice: Thomas Mann:

Aschenbeck 

Jorge E. M. Geisel: SÁTIRAS

Saturday, July 5th, 2008

Vezeiro (18-01-2000)O fanisco bem matreiro,

governador do Maranhão,

acabou inté gazeteiro,

depois presidente do mercadão.

acabou senador, sempre vezeiro,

empolado, também ganhou fardão!

Defesa (20.01.2000)

Na defesa ser ministro,

com Fernando ter posição,

evitando qualquer sinistro,

só no silencio do “quintão”!

Bom Rei ( Fev.1999)

espada do bom rei

é defesa de súdito,

se representa a lei,

que não muda de súbito!

Diferença (Fev. 1999)

Se morrer é só deixar o corpo,

flutuar sobre a Natureza,

quem se anima a pular o fôsso,

que separa a dúvida da certeza?

Fataças ( 1o de abril de 1999- com inspiração lusitana)

Outrora, houvessem mais fataças,

povos mamelucos mais esbanjariam

fortunas em óleo de radiante lume…

Porém, moçoilas não conheceriam de fantasmas, acoitadas pelos cantos

às claras, e até esbirros de facto à noite bateriam sem pejo oficial

às portas…

Hoje, aos que são presentes,

nem moçoilas, quer fantasmas,

e muito menos de fataças.

Quanto a esbirros, seguem ausentes

em paz, amor, encardindo nas fumaças!

Média Televisiva (07-08-1998)

Compostura não mais há

na Média televisiva,

não importando se “b” ou “a”,

com politicagem bem ativa.

Sendo tevê concessão,

do Poder o conceito,

a cota vem da ilação

do apoio no próximo pleito!

Inconveniente (setembro 1998)

Inconveniente é o governo,

que faz a gente penar

com todo nosso empenho,

só para o fim de pagar…

Novelo (21.06.98)

Os que se dizem bom governo,

em conta devem sempre levar

que, para atingir feliz termo,

toda sujeira será preciso lavar…

Governo, tal como um circo,

de palhaços não abre mão

e, certamente, o melhor tipo,

é o que paga pela sessão….

Em verdade, bom governo

é o que já foi destronado

e quando, depois em novelo,

se descobre o atual supurado…

“Brasil legal” (31.10.97)

O Brasil é “legal”

na repetição de tevê,

um conceito “global”

de justiça ao sapê…

“Legal”, também, o Tiririca,

criando jurisprudência,

nesta terra tão rica

de tanta insolência!

“Legal” é o “baseado”

no corno manso,

no bem efeminado

e o lixo no remanso…

Se o Acre, tem mais deputado,

que São Paulo, na proporção,

isso também é legalizado

e “galera” aceita sem comoção…

Por amor ao Mundo- algumas anotações

Sunday, June 22nd, 2008

Biografia de Hannah Arendt

“Se não estou na posse do abstrato, com que poderei controlar o concreto? Se não estou na posse do concreto, com que poderei controlar o abstrato?” Juan-Gris- pag. 139

pag. 230: consta que Heidegger confessa à mulher que Hannah Arendt foi o amor de sua vida e a inspiração de seu trabalho. (desessete anos após seu romance com Hannah!).

pag. 235: Totalitarismo: a combinação de ideologia e terror demoliu o mundo da comunidade e do senso comum, o mundo assegurado, politicamente, por leis e, socialmente, por distinções ocupacionais, propriedade, diferenças individuais, laços particulares de amizade, objetos fabricados pelos homens.

“as agruras das montanhas estão atrás de nós, Diante de nós estão as agruras das planícies” B.Brecht

W.S.Maugham: Mackintosh

Monday, June 16th, 2008

Maugham sente prazer em revelar os piores traços de caráter de seus conterrâneos. Ele pinça aqueles tipos mais populares que de sua terra natal partem para as colonias inglesas onde vão ganhar dinheiro geralmente trabalhando a serviço do reino. São funcionários públicos que em seu país de origem passariam despercebidos dentro da sociedade. Mas em contato com os colonos se prevalecem porque são originários de uma cultura superior. É neste ambiente que se tornam soberbos e não raro crueis e exploradores na forma como tratam os nativos.

O Freunde , nicht diese töne! Schiller- Ode à Alegria

Monday, June 9th, 2008

O Freunde, nicht diese töne!

Sondern lasst uns angenehmere anstimmen

und freudenvollere!

Freude, schöner Götterfunken,

Tochter aus Elysium,

Wir betreten feuertrunken,

Himmlische, dein Heiligtum!

Deine Zauber binden wieder,

Was die Mode streng geteilt;

Alle Menschen werden Brüder,

Wo dein sanfter Flügel weilt.

Wem der grosse Wurf gelungen,

Eines Freundes Freund zu sein,

Wer ein holdes Weib errungen,

Mische seinen Jubel ein!

Ja, wer auch nur eine Seele

Sein nennt auf dem Erdenrund!

Und wer’s nie gekonnt,  der stehle

Weinend sich aus diesem Bund.

Freude trinken alle Wesen

an den Brüsten der Natur;

Alle Guten, alle Bösen

Folgen ihrer Rosenspur,

küsse gab sie uns und Reben,

Einen Freund, geprüft im Tod,

Wollust ward dem Wurm gegeben,

Und der Cherub steht vor Gott!

Froh, wie seine Sonnen fliegen

Durch des Himmels prächtgen Plan,

laufet, Brüder, eure Bahn,

Freudig, wie ein Held zum Siegen.

Seid umschlungen Millionen,

Diesen Kuss der ganzen Welt!

Brüder! Uberm Sternenzelt

Muss ein lieber Vater wohnen,

Ihr stürzt nieder Millionen?

Ahnest du den Schöpfer, Welt?

Such’ihn über’m Sternenzelt!

Uber Sternen muss er wohnen.

A queda de Edward Barnard (Somerset Maugham)

Monday, March 17th, 2008

Trasncrição de um diálogo contido neste conto:

Edward to Bateman:

” When I saw you this morning, Batemam, I seemed to see myself as I was two years ago. The same collar, and the same shoes, the same blue suit, the same energy. The same determination. By God, I was energetic. The sleepy methods of this place made my blood tingle. I went about and everywhere I saw possibilities for development and enterprise. There were fortunes to be made here. It seemed to me absurd that the copra should be taken away from here is sacks and the oil extracted in América. It would be far more economical to do all that on the spot, with cheap labour, and save freight, and I saw already the vast factories springing up on the island. Then the way that they extracted it from the coconut seemed to me hopelessly inadequate, and I invented a machine which divided the nut and scooped out the meat at the rate of two hundred and forty an hour. The harbour was not large enough. I made plans to enlarge it, then to form a syndicate to buy land, put up two or three large hotels, and bungalows for occasional residents. I had a scheme for improving the steamer service in order to attract visitors from California. In twenty years, instead of this half French, lazy little town of PapeeteI saw a great American city with ten-story buildings and street-cars, a theatre and an opera house, a stock exchange and a mayor”

“But go ahead Edward”, cried Bateman, “You’ve got the ideas and the capacity. Why, you’ll become the richest man between Australia and the States.”

“But I don’t want to”, Edward said.

Bateman: “Do you mean to say you don’t want money, big money, money running into millions? Do you know what you can do with it? Do you know the power it brings? And if you don’t care about it for yourself think what you can do, opening new channels for human enterprise, giving occupation to thousands. My brain reels at the visions your words have conjured up.”

Edward: ” My machine for cutting the coconuts will always remain unused, and so far as I’m concerned street-cars shall never run in the idle streets of Papeete. It came upon me little by little, I came to like the life here, with its ease and its leisure, and the people, with their good-nature and their happy smiling faces”.

cabe ao leitor tirar suas conclusões.

W. Somerset Maugham (comentário de um de seus contos)

Saturday, March 15th, 2008

William Somerset Maugham ( 1874-1965) Novelista ingles que usava material de forte apelo popular, embora seu trabalho seja reconhecido pelas sátiras, economia de palavras e excelente elaboração. Sua primeira novela “Liza of Lambeth” foi inspirada durante suas experiencias como médico interno em uma favela inlgesa. Sua reputação iniciou-se com suas comédias. É lembrado pela sua capacidade de imergir o leitor na ação narrada em suas histórias. Muitos de seus contos vividos nos trópicos foram estudos de casamentos mixtos, diferenças de classes e os efeitos do estresse que o clima causa nas pessoas. Foi agraciado com a Ordem do Mérito. Abaixo um resumo e pequena anãlise de seus melhores contos.

RAIN

Mr Macphail retorna de suas longas férias. Enquanto fuma tranquilo seu cachimbo confortavelmente acomodado em sua poltrona, de onde observa a chuva e sua esposa que faz companhia ao casal Davidson. Mr. Macphail e Mr Davidson são médicos e missionários. A intimidade entre eles é aquela imposta pelo tédio de uma travessia de navio onde se identificam por execerem as mesmas funções.

A viagem chega ao seu final, e o navio está prestes a aportar em Pago-Pago. No aguardo da chegada, os casais passam o tempo tecendo críticas àqueles que gastam as horas no navio em frente as mesas de jogos ou ouvindo músicas que classificam de indecentes.

Mr Macphail observa as expressões faciais de sua esposa que conversa com Mrs Davidson. Uma conversa que se prolonga por mais de duas horas. Na manhã seguinte, Mrs Davidson completa suas críticas aos nativos das ilhas onde ela e o marido são missionários, quando afirma para Mrs Macphail: ” eu concordo com meu marido quando diz que não entende como um homem fica traquilo ao ver sua esposa nos braços de outro homem. Mas para os nativos a dança é uma outra história não só imoral por si mesma, mas também porque leva à imoralidade. Em nossa missão ninguém mais dançou nos ultimos oito anos…”

O navio aporta e todos festejam. Os nativos vem de todas as partes, seja por curiosidade ou para vender suas frutas, colares de conchas e dentes de animais além de outras bugigangas. Os missionários tomam conhecimento das novidades, como uma epidemia de sarampo entre os Kanakas, com um caso fatal. Por telegrama chega um comunicado de que a escuna não poderá prosseguir viagem até que a epidemia termine. Os missionários são levados para uma casa onde alugam quartos. Miss Thompson também chega na casa em busca de acomodação acompanhada de um negociante. Mr Macphail os observa enquanto negociam o preço do quarto com, o dono da casa. E ele admira a capacidade que Miss Thompson demonstra ao negociar, pois está acostumado a pagar sem questionar.

Já no primeiro dia de estadia forçada em Pago Pago, quando o som de um gramofone chega até o refeitório. Daí o retorno à crítica ao estilo de música tocada no navio que leva os missionários a comentários sobre o modo de se vestir e às danças dos nativos das missões onde trabalham. O casal Davidson se revela intransigente. A depravação dos nativos com suas danças imorais e suas roupas que expõe seus corpos simboliza o pecado.
Os nativos são pecadores, embora não tenham noção alguma de que o sejam. Nestas regiões tropicais de calor infernal não se encontra uma única moça boa. e para que os nativos entendam o que seja o pecado é preciso lhes impor castigos pelas suas faltas. Cada pecado precisa ser remido com dinheiro ou com trabalho. E assim eu os faço entender, afirma Mr Davidson. -”Mas e se eles se recusarem a pagar?”, pergunta Mr Macphail. -” Precisa ser um homem muito corajoso para enfrentar meu marido, conte para ele a história de Fred Ohlson”, fala Mrs Davidson dirigindo-se ao marido que acede ao pedido.

” Fred Ohlson foi um negociante dinamarquês que residia na ilha por muitos anos e era muito rico. Ele não ficou muito feliz quando chegamos. Ele fazia as coisas funcionarem a seu modo. Pagava os nativos em bens e whisky. Sua esposa era nativa, ele lhe era infiel além de bêbado. Dei-lhe uma chance para se converter, mas riu de mim. Após uma pausa, Davidson concluiu: -”em dois anos ele tornou-se um homem arruinado. Perdeu tudo o que possuia. Eu o quebrei, e ele teve que vir a mim como um mendigo pedir que lhe arrumasse uma passagem para ir embora para Sidney.”

Em seguida Mrs Davidson comenta que seu marido é inteiramente dedicado à salvação daquelas almas pecadoras. E como médico, jámais mediu esforços para atender doentes em qualquer daquelas ilhas, muitas vezes colocando a vida em risco. E Mr davidson conclui: – “Tenho que me colocar em risco, pois se poço aos nativos que se coloquem nas mãos de Deus e confiem nele, tenho que dar o exemplo”…

A chuva continua. E do quarto de Mrs Thompson misturada a vozes masculinas o som das músicas indecentes aborrecem o casal Davidson. Num certo momento Mr Davidson se levanta e vai até o quarto de Miss Thompson. -”Vai fazer o seu trabalho”, comenta Mrs Davidson….Momentos mais tarde o missionário retorna frustrado. Foi ignorado por Miss Thompson, o que para ele soa como um desafio. E promete à esposa e ao casal que envidará todos os seus esforços para converter a moça. a partir de então o missionário faz várias incursões ao quarto de Miss Thompson, mas por suas queixas só ouve por parte da moça ironias e xingamentos. Até que, certa dia, a moça chama em seu quarto Mr Macphail . Quer ve-lo com urgencia, está muito doente. O missionário atende o pedido e fica sabendo que Mr Davdson esteve com o governador e conseguira que ela fosse deportada. Ela estava desesperada, não queria retornar aos Estados Unidos. Que ao menos lhe dessem uma chance de aguardar mais uma semana e pegar o navio para Sidney. Fez com que Mr Macphail se comprometesse de levar sua suplica ao governador. Ele vai, mas o governador se mostra intransigente. E quando retorna à hospedaria desagrada-lhe perceber no olhar de Mr Davidson um ar de vitória como se já soubesse de todo o acontecido.

Mr Macphail vai ao quarto de Miss Thompson para lhe contar o fracasso de sua intercessão, e o desespero da moça é tanto que ele lhe pergunta se o medo dela de retornar aos Estados Unidos seria por ter fugido da prisão. Ela confirma a suspeita, e diante desta circunstãncia o missionário crê ser desumano deportá-la. Vai discutir o assunto com Mr Davidson que implacavel concluiu que neste caso ela deve aceitar a deportação e as punições na prisão como uma prova do amor divino. Ela pecou tem que pagar , única forma de se redimir de seu passado. O fato leva Mr Davidson a passar grande parte de seu tempo no quarto da moça, e á cada retorno junto aos seus dá noticias de que está conseguinda da pecadora o arrependimento e a conformação com sua deportação. Chega o dia em que ela deverá tomar o navio para os Estados Unidos. E logo pela manhã batem na porta do quarto de Mr Macphail. Ao lado de um bando de nativos ele é conduzido até um despenhadeiro. Lá em baixo no mar boia o corpo de Mr Davidson. o missionário está morto e resta agora comunicar o fato á sua esposa e à Miss Thompson. Mr Macphail tomas as providencias para o funeral do amigo, dá a notícia a Mrs Davidson e a seguir bate na porta do quarto de Miss Thompson. A jovem ouve música com a poprta do quarto aberta e com um marinheiro ao seu lado. Já não tem aspecto de doente, está com o rosto pintado e um largo sorriso nos lábios escarlates. Mr Macphail pede que ela desligue o som e entra atrás dela no quarto. “O que voce fez miserável?” Ninguem pode descrever a expressão de desprezo ou de contido ódio da resposta que ela deu a Macphail: ” Vocês homens, obscenos, porcos sujos! Voces são todos iguais, porcos, porcos!”

Dr Macphail suspirou. Ele entendeu……

Rain é considerado um dos melhores contos de Maughan. Os diálogos revelam a forma como nos comportamos em relação ao nosso semelhante. Pensamos e agimos certo, enquanto o outro é o errado. Arrogantes impomos nossos pontos de vista, e se somos revestidos de poder não toleramos que o outro haja fora dos nossos padrões. Esta é uma das piores falhas do caráter humano. Talvez já no primeiro capítulo da Biblia, aquele que trata da criação do Homem, confundimos para sempre a afirmação de que Deus fez o Homem à Sua imagem e semelhança. Não, isto afrontaria as nossas pretensões. Pois para a nossa arrogãncia, soa muito mais legítimo que nosso semelhante seja o reflexo do que somos em nosso íntimo. E como não somos boa coisa enxergamos nosso caráter no outro. dai a origem de nossas críticas. O que faz Mr Davidson? Ele é o dono da Verdade e portanto se arroga o direito de violar a inocência do outro, no caso, dos nativos com os quais trabalha. Ele transfere sem o menor pudor suas malícias e seus pecados para os nativos que comungam sua inocencia com as leis da natureza. não só transfere, mas impõe sua noção de pecado usando a violència e qualquer meio desonesto para “salvar aquelas almas”….E no final do dia, de cara limpa estuda e discute a biblia com sua mulher porque isto “faz muito bem à alma”….como Mrs Davidson afirma. Cego não enxerga um palmo além do próprio nariz, sequer entende que sua temeridade quando enfrenta mau tempo e situações de risco par atender pacientes em ilhas distantes seu comportamento é temerário. Póe em risco a ´própria vida e as vidas daqueles que o acompanham nestas missões. Há virtude nisto? Não. Quando ultrapassamos os limites do bom senso falhamos.Falhamos até em entender que o mandamento máximo “ama teu próximo como a tí mesmo” nos dá a primazia na Lei do Amor. Também na Lei da Transformação. Primeiro o amor por nós mesmos e junto a transformação do nosso caráter. É a partir daí que passamos a enxergar o amor e as virtudes no nosso semelhante. Pois não o vemos como um reflexo daquilo que somos em nosso íntimo?

Rahel Varhagen

Saturday, February 2nd, 2008

RAHEL VARNHAGEN

Regina Caldas

Arendt, Hannah; “Rahel Varnhagen, a vida de uma judia alemã na época do romantismo”. Tradução de Antonio Trânsito e Gernot Kludasch- Relume Dumará- Rio de Janeiro, 1994

Resumo e breve análise

Resumir qualquer livro de Hannah Arendt é tarefa árdua. Hannah não é fácil de ser compreendida, mas assimilar cada um de seus pensamentos compensa o esforço dispendido.

Rahel Varnhagen, como o título do livro informa, é uma judia alemã da época do Romantismo. Um tempo de transição social, quando a nobreza entra em decadência e a burguesia vai ocupar seus espaços. É nesta sociedade que Rahel emprega parte de sua mocidade ao transformar o sótão de sua casa num centro de cultura, ponto de encontro da nobreza, de escritores e artistas. A jovem sabe aglutinar ao seu redor uma inconcebível mistura das mais variadas personalidades de seu tempo.

O essencial da biografia de Rahel é a sua obsessão por ser judia, o que a faz sentir-se como se já tivesse nascido condenada, portanto em desvantagem social desde o berço.

Um ponto de partida desvantajoso requer maior esforço no enfrentamento dos desafios que a vida apresenta. Mas a disposição para enfrentá-los vai depender do grau de sensibilidade e da inteligência de cada um. A vida raramente é gentil conosco, e de uma forma ou outra, todos temos desafios a enfrentar em qualquer caminho que optemos por seguir. Cabe-nos entender de que forma o mundo funciona para que possamos identificar quais nossas melhores escolhas. Mas Rahel tem dificuldade em perceber a realidade, incorre sempre nos mesmos erros, sua percepção é falha.

Ao estudar o caráter de Rahel, sua biógrafa nos ensina que não se pode forjar uma existência fora da realidade sem pagar o preço com infelicidade. Aqui reside o maior problema humano. O direito de viver a própria realidade em igualdade de condições com seus semelhantes é barrado pelos preconceitos e mitos que o cercam desde o nascimento. Daí que a maioria nasce condenada, não só Rahel. É que raramente estamos satisfeitos com nossas condições de berço. Mas não seria esta insatisfação a mola mestra que nos impulsiona para o crescimento? Não é por ai que somos conduzidos aos caminhos que nos libertam dos legados recebidos por nascimento quando estes não nos satisfazem? Descobrir a raiz de nossas insatisfações é nossa missão, pois ao mundo não cabe tirar a nossa inocência. Barreiras impostas pelo mundo real apenas determinam quem somos. Mas em paralelo percebemos que a nossa felicidade e realização pessoal só podem ser alcançadas quando fazemos o esforço necessário para romper nossas limitações. A pior destas limitações é o preconceito, tão enraizado em qualquer sociedade. Superá-lo causa infelicidade, pois nos expõe á dramáticas batalhas entre o “ser ou não ser”, o “desejar e realizar”.

O Homem é um ser dependente. Agrega-se para sobreviver. Mas não é da sua natureza agregar-se com naturalidade. Ao contrário, agrega-se sob tutela para que ao espelhar-se nos comportamentos alheios seja aceito socialmente. Romper com esta teia de referencias causa sofrimento. Libertar-se traz o temor de ser marginalizado. O pertencimento é uma realidade na vida dos indivíduos.

No caso de Rahel, apagar sua origem judaica é a sua realidade. Na expectativa de alcançar tal objetivo ela funda no sótão da casa onde mora um salão, ponto de encontro daqueles que fogem do convencional, e que se entregam aos prazeres que dêem sentido à própria vida. Ignoram suas próprias origens e convivem com todo tipo de indivíduos, desde que nestes extraiam algum prazer. Neste ambiente Rahel se encaixa. Pois ao sentir-se condenada por nascimento também se sente sem status social definido.

A realidade é complexa por ser ilimitada. O Homem tende a ligar sua felicidade á uma realidade que não lhe pertence. É nas outras realidades que moram os nossos desejos e com as quais alimentamos nossos sonhos. Rahel sente-se excluída e se expõe ao acaso porque deseja viver, é um ser desorientado. Repete os mesmos erros, mas talvez as conclusões que tira sobre si mesma apenas ocultem suas ambições. Suas pretensões obrigam-na a fechar-se em si mesma. É por pretender uma vida grandiosa que Rahel seleciona a dedo suas relações afetivas e de amizades. É também para fugir da sua realidade que Rahel segue os passos de seus irmãos quando adota um novo nome e se deixa batizar. Transforma-se em Friedercke Robert para tornar-se “um ser humano entre outros”. Mas, quando assume nova identidade está só…”- À minha mesa de chá… sento-me sem nada além de dicionários” ela afirma em 1.808. Está só porque ainda não percebeu que seu mundo foi destruído pelas mudanças políticas.

Ao considerar que sua história se iniciou 2.000 anos antes de seu nascimento, Rahel tem dificuldade em compreender as mudanças políticas de seu tempo real. Sequer percebe a indignação dos prussianos contra Napoleão. Sente apenas a necessidade de colocar-se sob a tutela do vencedor. Não se sente ligada à Prússia como Pátria. Seu ponto de referencia são as pessoas. Não qualquer pessoa, mas aquelas que estão no poder. Se agora a Prússia está nas mãos da França, deve aprender francês e relacionar-se com amigos franceses. Mas felizmente, em breve ela se cura desta alienação ao tomar contacto com os discursos de Fichte. O apelo do filósofo para que se construa um novo mundo onde todos sejam bem-vindos toca de perto na ferida de seu coração, no seu segredo. Numa nova ordem social ela poderá extirpar sua condição e se entrelaçar com toda a humanidade por meio de um pensamento único. Este patriotismo forjado a leva até Praga onde passa a maior parte da Guerra de 1813/14, trabalhando em prol dos soldados feridos. Sem o desejar trabalhou e foi alemã pela primeira vez em sua vida.

Pág. 130: “onde somos separados pelos talentos e pela natureza, somos unidos pela amizade, pela compreensão, paciência, justiça, pela fidelidade, lealdade, cultura verdadeira.” (mendigo junto ao caminho).

A partir de 1808, Rahel mergulha em dois relacionamentos com homens bem mais novos que ela. Conheceu August Varnhagen em 1808 em Berlin e logo tornou-se sua amante. Em 1809, conheceu Aleksander Von der Marwitz, irmão caçula do Junker que mais se opôs ás reformas de Hardenberg.

Foi com Marwitz que Rahel aprendeu a se conhecer melhor e a projetar sua alienação numa Berlin não diferente dela: pobre e desesperada. Foi através de Marwitz que Rahel concluiu que seus sonhos e ambições chegavam ao fim. Percebeu-o através de uma carta que ele lhe escreveu onde afirma: “ do vale verde, fresco, a tempestade do destino elevou-a para o alto da montanha, onde a vista é infinita, o homem distante, mas Deus próximo.” Rahel entendeu o recado de Marwitz. Ele a queria numa posição onde poderia amá-la sem assumir compromissos. Deixava-a nas mãos do destino. Finalmente Rahel rendeu-se à realidade.

Aos quarenta anos Rahel aceitou que nenhum dos seus sonhos tornara-se realidade. Perdera as poucas chances que a juventude lhe concedera. Enquanto suas amigas alcançaram a realização de muitos de seus desejos, Rahel nada conseguira. Permanecera esquecida onde sempre estivera. Seu erro foi ter a sociedade como foco, meta a ser atingida através de alguém de alta posição que a resgatasse para uma nova realidade entre os famosos. Assim agarrou-se ao que considerava ser a última chance que a vida poderia lhe conceder, casar-se com Varnhagen. Ele, que até então fora o “mendigo à beira do caminho”, ao repetir o feito de Marwitz de ir para a guerra, soube aproveitar em benefício próprio o que o patriotismo lhe oferecia. Ao se colocar a serviço de Tettenborn, tornou-se escritor dos fatos políticos que ocorriam naquele momento histórico. Deu rumo à própria vida e carregou Rahel consigo. Tornou-se conhecido, obteve o direito a uma pensão permanente garantida pela Prússia e teve condição financeira para mantê-la em Praga libertando-a da dependência familiar. O destino os unia sem que Rahel ainda entendesse o que fosse o amor verdadeiro. Unia-se a Varnhagen por conveniência. Sabia que ao lado dele poderia realizar seu sonho de tornar-se conhecida, de projetar-se publicamente e de se tornar uma parvenu*. Sobre seu casamento Humbolt ironizou “ Disseram-me que agora Varnhagen casou-se com a pequena Levy, assim finalmente ela pode se tornar a mulher de um Embaixador e Excelência” (Entre paria e parvenu, pág. 166).

Após fracassar na atividade diplomática em Baden, onde Rahel conseguiu cidadania prussiana, o casal fundou em Berlin um salão de culto a Goethe.

No final de sua vida Rahel teve a ventura de ouvir o eco de seus sonhos refletido nos discursos de Heine que prometiam resgatar os judeus e lutar pela sua emancipação civil. Ao ouvir tais promessas Rahel pode morrer tranqüila, seu coração fora apaziguado. Morreu com a certeza de que afinal, durante toda a sua vida jamais deixara de ser uma judia..

  • Parvenu: aquele que alcança posição social mais alta que a de suas origens, sem se elevar nas suas maneiras. (Aurélio)
  • Parvenu: aquele que se eleva social e economicamente a uma alta classe, mas não fica aceito pela mesma. (American Heritage)
  • Parvenu: “É fácil enganar os bocós e puxa-sacos. Leitor, prefira os “inatuais” de Balzac e de Proust. Só o mundo do dinheiro aceita os “parvenu”. O do espírito, não! (Reinaldo Azevedo- Veja, 21/11/2006)