Archive for the ‘Sociologia’ Category

Pacto social

Thursday, June 12th, 2008

 

Regina Caldas

Junho/30/2007

Quando a representação popular tem voz dentro de um governo? Quando surge a possibilidade de uma ruptura dessa representatividade? Qual o ponto de equilíbrio entre o exercício do poder e a vontade da maioria? 

Quando um grupo social se une em busca de determinados objetivos sua primeira decisão é estabelecer uma hierarquia entre seus componentes. Sem a existência desta hierarquia e sem o respeito às regras de convivência estabelecidas por vontade do grupo cresce a insatisfação que termina por dispersá-los, e o propósito que os uniu não é alcançado. 

Quando um casal se une por laços afetivos almejando construir uma vida em comum, certos princípios ainda que tácitos ficam estabelecidos entre eles. Respeito mútuo, amparo, lealdade são alguns deles, sem os quais, passado o encanto da paixão, nada mais existe além de cada um retomar seu próprio caminho. 

Empresas são constituídas debaixo de uma determinada formalidade, dentre elas a definição de quem é quem dentro de uma hierarquia pré-estabelecida. E aí existe uma relação entre patrões e empregados com deveres e obrigações definidos, que para serem cumpridos exigem o conhecimento e o consentimento prévio de ambos os lados. 

O princípio é o mesmo dentro de uma sociedade organizada: associações de grupos demandam objetivos, consentimento, organização, administração, respeito a todos os princípios estabelecidos, além do respeito mútuo entre os partícipes. 

Quando refletimos sobre a existência do Estado, certos princípios surgem com clareza em nossas mentes. São eles: Divisão de Poder aglutinada no topo e assentada sobre uma base composta por toda a sociedade. Isto significa que em qualquer momento da vida nacional quem está no poder também é parte inseparável da base. E existe uma interdependência entre todos os indivíduos que constituem a Nação, pois de ambos, Poder e sociedade, depende a sobrevivência e o bem-estar geral. Trata-se de um pacto nacional estabelecido pelo consentimento de todos os cidadãos. O consentimento sempre será a base da formação do poder independente de sua forma.

COOPERAÇÃO

Sunday, September 2nd, 2007

COOPERAÇÃO

Regina Caldas 2007

Quando o Homem colocou pela primeira vez os seus pés na savana e caminhou ereto, aí se iniciou a sua grande aventura sobre a Terra. A partir daquele momento fomos nos transformando no que somos hoje: atores interagindo com o universo à sua volta, refletindo, observando, tornando-se capazes de trabalhar com símbolos de linguagem e sofisticados cálculos de matemática. Tais ações se repetem continuadamente em cada ser humano, pois dependem de um comando. Por volta dos onze meses de idade, sob um comando do cérebro, o bebê deixa de engatinhar e fica em pé. Cada ação humana retorna em alguma parte às suas origens. Se cortássemos nossas ligações de sangue com nossas origens seriamos criaturas frias e distantes. Cabe-nos, portanto indagar quais dons físicos partilhamos com os animais e quais que nos diferenciam deles. A diferença está em que nossas ações são o fruto de nosso esforço intelectual. As ações dos animais são desprovidas de senso prático. Atuam direcionadas ao presente. Já o ser humano atua usando a sua mente para colocar a sua imaginação no futuro afim de construí-lo. Por conseqüência a cabeça é para o ser humano muito mais que um selo simbólico de sua imagem. É da cabeça que partem as idéias que promoveram e promovem a sua evolução cultural.

Com um cérebro primitivo ao Homem foi possível dar seus primeiros passos no empreendedorismo. Usando pedras ele construiu suas primeiras ferramentas. Por outro lado, como a média de vida entre os primitivos era baixa, havia um número muito alto de crianças órfãs. Exigiam cuidados. Daí o homem primitivo ter se agregado socialmente para cuidar de suas crianças. Ainda assim foi necessário o transcurso de milhões de anos para que de fato o Homem iniciasse sua evolução cultural de forma continuada.

Através da evolução cultural o Homem deixa traços do que ele cria. Mas nem todos os humanos são dotados desta capacidade criativa. Muito se deve à mudança de vegetariano a carnívoro, que propiciou o encurtamento do tempo gasto com alimentação. Isto concedeu ao Homem um tempo maior para se preocupar com outras coisas. O tempo livre deu chance do Homem procurar recursos mais eficientes para se alimentar. Evidentemente isto ajudou a promover a tendência de todos os primatas a dilatar em sua mente a compreensão de estímulo e resposta e a seguir, a gratificação do desejo. Mas o mais marcante na influencia indireta causada por este entendimento foi nutrir a comunicação. Pois o Homem adaptado às savanas e destinado a uma vida primitiva, através do aprendizado da comunicação entende que se liberta do seu destino primitivo por meio da cooperação. Caçar requer planejamento consciente e organização através da linguagem e de armas especiais.

O Homem sobreviveu aos primeiros testes de sua evolução cultural porque teve a capacidade de criar e entregar à comunidade o objeto de sua criação.

O objetivo do presente artigo é esclarecer para alguns setores da sociedade, que o caminho trilhado pelo ser humano para chegar onde estamos só foi possível porque aprendemos a usar nossa imaginação em benefício da comunidade. Inventar a roda de nada serviria, se a princípio fosse utilizada apenas como meio de tração animal para facilitar o transporte de bens e pessoas. Serviu e muito para diminuir consideravelmente o trabalho dos escravos no transporte de pedras que pesavam toneladas, para serem usadas nas construções dos grandes templos e palácios. Entretanto, não podemos glorificar a força de trabalho como se esta fosse a única responsável por todos os bens e serviços que ao serem colocados à disposição da sociedade melhoram a qualidade de vida das pessoas. Cada um de nós, com nossas capacidades intelectuais, nossos interesses econômicos e de sobrevivência constroe a Nação. Sem o gênio criativo o empresário não tem onde investir seu capital. Sem a sensibilidade do empresário a idealização de um bem ou prestação de serviços não sairá do papel. Sem o operário a fábrica não será levantada e o bem não existirá. A isto se chama COOPERAÇÃO. Assim, a idéia das esquerdas de nivelar todos os seres humanos por baixo igualando-os não tem sentido lógico. Se assim fosse ainda viveríamos nas savanas. Só nas savanas se pode controlar a liberdade humana impedindo-a de usar seu cérebro para imaginar, almejar e criar.

O politicamente correto dentro das sociedades expressa uma visão distorcida da realidade. É uma expressão cunhada para atender aos reclamos de maior tolerância com os erros alheios e para encarar estes mesmos erros como fruto do relativismo. Segundo a cartilha do politicamente correto todas as falhas humanas são justificadas, desde que cometidas por grupos sociais transformados em massa de manobra nas mãos dos que se acham capazes de mudar a sociedade com seus discursos demagógicos. Entendem a cooperação como a ação que deve impor ao outro seus pontos de vista.

Inteligencia Social

Sunday, August 5th, 2007

Li recentemente um artigo no Times sobre o lançamento de mais um daqueles livros que ficam criando teses para encontrar as causas dos preconceitos. Neste caso tratava-se de um estudo sobre a escravidão negra. Uma tentativa pobre de dar sentimento de orgulho aos negros, pelo tanto que colaboraram na formação da riqueza dos brancos. Em paralelo, procurando as causas dos sentimentos de inferioridade que os descendentes de escravos carregam consigo. Segundo o autor, tais sentimentos marcam o caráter dos negros, levando-os ao servilismo e à manifestação daquelas características que podem sentir coladas em sua pele: mau caráter, preguiça, desorganização, menos inteligencia, não merecedores de confiança, indisciplinados…Sentimentos que os brancos lhes impingiram através dos tempos.

Lí à mesma época, “O caçador de Pipas”, romance vivido no Afeganistão, Paquistão e Estados Unidos da América do Norte. O personagem central vinha de uma familia servida pelos “Hazaras”, um povo que foi levado escravo para o Afeganistão. E aqui a velha história de preconceitos acumulados se repete, os mesmos traços de servilismo tornando-se perceptíveis.

Conheci familias descendentes de escravos altamente dígnas e respeitáveis. Posso então falar sobre a matéria sob um ângulo positivo porque aprendi a conviver interagindo com civilidade.

O certo é que havendo respeito elimina-se aquele sentimento negativo que nutrimos por quem, por alguma razão, seja rotulado como inferior. Assim crescí perceptiva ao modo de ser de outros seres humanos. Posso concluir que as pessoas respondem positiva ou negativamente, conforme o tratamento que recebem de seus semelhantes. Isto parece óbvio! só que agora com um respaldo científico baseado em estudos feitos pelo cientista social Daniel Goleman e publicados em seu novo livro “Inteligência social”.

Segundo Goleman, nosso cérebro é programado para transmitir e captar sentimentos. Estamos todos envolvidos numa permanente comunicação cerebral, que se reflete em milésimos de segundos através de gestos e expressões. É assim, que perdurando dentro de um processo cultural, qualquer conceito sobre o “outro” se refletirá nas nossas comunicações, mesmo nas silenciosas. E a resposta do “outro” confirmará e reforçará aquele conceito em função da conexão que foi criada em nossos cérebros.

Estas conclusões nos ensinam que ao manifestarmos sentimentos negativos sobre grupos ou indivíduos, estas características tenderão à perpetuação. As matrizes étnicas, religiosas, e psicopolíticas são forjadas pelos homens. Não eram parte da nossa genética para a qual existia uma programação para sermos racionais e solidários. A natureza humana foi se transformando na medida em que fomos nos organizando socialmente. Daí foram surgindo os grupos sociais, que de acôrdo com suas expectativas foram criando regras para as relações humanas, e, dado a existência de determinados fatôres como o desejo ou necessidade de relevãncia social, levaram as sociedades a se dividirem em classes. Os resultados já conhecemos. Tornamo-nos competitivos e o seu acirramento gerou as matrizes negativas que acentuam nossas diferenças.

A Educação terá que reverter o que somos atualmente. Já em seu primeiro livro “Inteligência Emocional”, Daniel Goleman conclama os professores para que treinem seus alunos no controle de suas emoções desenvolvendo seu lado racional. Em sua obra atual ele afirma, que de posse do conhecimento de que temos uma inteligência social que pode ser treinada e reeducada na forma de sentirmos e transmitirmos nossos sentimentos em relação aos nossos semelhantes, para que as relações humanas sejam harmoniosas e se libertem dos preconceitos herdados socialmente.

O ethos do brasileiro deve ser modificado através de uma Educação isenta das ideologias que geram preconceitos. Na medida em que as ciências sociais mapeiam nosso cérebro e desenvolvem métodos para programá-lo, não se justifica que o Homem atual não use os potenciais de sua mente para se libertar dos preconceitos.

20/03/2007