Archive for the ‘Romancistas famosos’ Category

Art Buchwald

Sunday, March 15th, 2009

I’ll Always Have Paris

Regina Caldas

Livro de memórias esquecido em minha biblioteca sem que eu o lesse. Mas nestes dias de carnaval estou com ele em minhas mãos. É muito mais interessante do que imaginava. Em tempos passados li algumas cronicas de Art Buchwald e gostei de seu senso de humor , talvez por isto adquiri o livro. 

Passei quase uim ano sem retornar à minha atividade de comentar os livros que leio. E li uma infinidade deles. Alguns soberbos, como “Adeus China”,  de Li Cunxin sobre o qual comentarei em breve. 

Em “I’ll always have Paris”, Buchwald relata suas aventuras como estudante da USC em Paris no pós-guerra (II Guerra Mundial quando ele serviu na Marinha), e como se tornou jornalista conhecido internacionalmente, um jovem do Queens reinventando-se por quarenta anos e convivendo com a nata da elite mundial. Seu senso de humor é excepcional o que transforma suas memórias numa leitura leve onde os fatos são narrados de maneira inesquecivel. Citarei a seguir algumas destas passagens.

Os “Cafés” , segundo Art, são o centro da vida parisiense. É nos cafés que circulam os estudantes, artistas, escritores, jornalistas, impostores, senhoras de todas as classes sociais e turistas. É nos cafés que se leem os jornais, se conseguem a preciosa assinatura dos famosos e onde correm as noticias do país e do mundo.

A primeira passagem que me chamou a atenção referiu-se a uma história que lhe contou Robert Redford. Quando Redford estudava em Paris, conheceu dois cantores folcloricos norteamericanos com os quais fez amizade. Eles cantavam no Bar L’Abbaye e todas as noites Redford estava ali ao lado deles. Mais tarde retornou aos Estados Unidos, tornou-se ator de cinema, e na época em que encenava “All the President’s men”, de passagem por Paris retornou ao L’Abbaye para rever os amigos. Redford perguntou-lhes se sabiam quem ele era. Um deles respondeu: “voce é o ator Robert Redford, não reconheceram nele o amigo de antigamente….

….Garry Davis (filho do lider de uma banda, Meyer Davis), queria iniciar uma campanha em prol de um governo mundial. Decidiu então ser o primeiro cidadão mundial, e para tanto planejou destruir seu passaporte americano em frente ao Palais de Chaillot onde a ONU teria um encontro. Sua ação foi planejada no bar do “Hôtel des Etats-Unis”.  Com os amigos planejou os pros e os contra, e foi advertido que a policia francesa poderia prende-lo se não apresentasse provas sobre quem era. Mas era exatamente isto que ele desejava, ser preso para chamar a atenção para seu projeto de um governo mundial. A novidade se espalhou e ele foi chamado a conversar com Eleanor Roosevelt que se encontrava em Paris para o evento na ONU. Ela o advertiu que ficaria muito mal ele destruir seu passaporte norteamericano durante um encontro de líderes internacionais. Ele não recuou, foi ao Palacio de Chaillot e fez seu passaporte em pedaços, sendo preso a seguir por falta de identificação. “Nasce uma estrela” comentou Art, pois todos os jornais publicaram o fato com enormes manchetes. Por alguns momentos todos ficaram fixados na idéia de uma cidadania mundial….( vale notar, que atualmente a ONU encabeça algo similar, apoiada por algumas fundações).

Certa ocasião, Art estava presente numa recepção oferecido por De Gaulle ao lider russo Nikita Krushov, no Paris Opera House.  Art dirigiu-se até o segundo andar onde as janelas cobertas por cortinas davam para a Place de L’Opéra. Concentrados na praça estavam 20.000 membros do Partido Comunista Frances. Ele se inclinou no balcão de uma das janelas, e o grupo na praça festejou. Ele acenou a mão e o grupo de 20.000, acenou de volta..Ele repetiu e o grupo enlouqueceu…de entusiasmo…

Art sentava-se nos cafés ao invés de assistir às aulas como estava comprometido a faze-lo, e travou amizades com grandes escritores, jornalistas e outras personalidades. Um destes escritores contou-lhe que certa ocasião, ao ser apresentado a Hemingway, que em Paris era carinhosamente chamado de Papa, perguntou: ” O que eu faço para ser um escritor?” Hemingway respondeu: ” Primeiro voce precisa descongelar o refrigerador.” Hemingway foi o ídolo de Art, embora quando se conheceram houve um incidente que o fez dismistificar o escritor. Foram apresentados, os joelhos de Art tremiam, mas ele estava preparado para discutir qualquer das obras do escritor. Estavam num bar, Hemingway tomava um drink e após olhar para Art lhe perguntou: -”Jovem, voce já lutou contra um urso?”

Herald Tribune: Ao tempo de Art, o sonho de todo jornalista era trabalhar para o Herald Tribune. E ele, ainda totalmente despreparado, inclusive não sabendo quase nada de frances, considerou que pelo fato de já ter trabalhado com o Variety estava habilitado para o HT. Então certo dia apresentou-se no famoso jornal e foi entrevistado pelo diretor administrativo Eric Hawkins. Após ouvi-lo, Eric respondeu: ” O jornal não está interessado em colunistas para entretenimentos, e quando estiver voce não será indicado, e agora vá para o inferno, fora daqui!” Art não se conformou com a rejeição. Passado alguns dias soube que Eric viajara para o interior da Inglaterra. Apresentou-se ao editor Geoff Parsons e disse: ” O senhor Hawkins e eu conversamos que eu faria a coluna de entretenimentos” Foi contratado de imediato. Para terminar, relevo este fato pelo significado que teve na vida de Art. Como ele mesmo comenta em seu livro, passou a vida criando histórias sobre si mesmo. Histórias mentirosas, para ele, no contexto em que pretendia realizar sua vida não havia espaço para um garoto criado no Queens. E quando, 41 anos após uma vida bem sucedida em Paris, ele retorna aos USA, sua observação revela o tamanho de suas ambições puramente materiais. Ele afirma que, para ele e Ann, que chegaram em Paris cada um com uma pequena bolsa e um pouco de dinheiro, retornar à pátria levando 15 malas era a prova evidente de que Paris fora generosa com eles. Nada diferente de muitos que medem seu proprio sucesso pelo aumento dos bens materiais que acumulam vida afora. Esquecem que um dia um pouco mais à frente, tudo isto perde a razão de ser.

I”ll always have Paris: Buchwald, Art-G.P.Putnam’s Sons NY-1996