Monday, August 20th, 2007
Regina Caldas
2004
“Eu estou em Berlin!”
J.F.Kennedy.
(reflexões sobre a queda do Muro de Berlin)
25 de dezembro de 1989. Acompanhada de minha família festejo o Natal em Berlin no Schausoielhaus. Leonard Bernstein e sua orquestra executam a “Ode à Alegria”, de Beethoven. A vibração musical que paira no ar mistura-se às lágrimas dos alemães, que externam a exultação que sentem pela reunificação da pátria querida. A letra da Ode não poderia ser mais apropriada ao momento, emocionada canto com eles:
“Meus irmãos, cessou o nosso pranto
que uma lágrima de alegria eleve aos céus
nosso canto de festa e nossos acordes piedosos!”
Em 31 de dezembro, festejamos a entrada do novo ano em frente ao Portão de Brandemburg. após a ceia num restaurante em Kurfürstendamm. A alegria mágica pairava no ar, a profusão de luzes, as pessoas circulando soltas como se mal tocassem os pés nos chãos. A festa maior naquele reveillon era simplesmente comemorar a Liberdade diante do Portão.
Hoje, primeiro dia do ano 2000, meus filhos enfrentam as baixas temperaturas e trabalham animados com suas ferramentas durante horas ajudando a derrubar o “muro da vergonha”.(Guardo como lembrança, pedacinhos daquele muro). Ao longo da cerca restam alguns soldados em posição de sentido olhando para o nada. Minha filha mais velha, com aquela verve de humor irreverente dos jovens mostra-lhes suas latinhas de coca-cola, um ícone da liberdade ocidental. Milhares de transeuntes caminham tranqüilamente em direção ao “Charlie chekpoint”. E eu não me dispondo a enfrentar o frio permaneço dentro do carro, enquanto meus pensamentos revivem o final da II Guerra Mundial. Relembro o D-Day e a extraordinária vitória dos aliados na Normandie devolvendo a liberdade à França e mais tarde à Europa.. Recordo os diálogos e acordos feitos entre Churchill, Truman e Stalin (os Big Three). A última conferencia entre eles foi nesta praça em julho de 1.945, quando ficou decidido que a Alemanha seria repartida em quatro zonas de ocupação. Recordo, que de agosto de 1961, a Novembro de 1989, o muro de Berlin com suas cercas elétricas, suas pedras e desenhos separando a Alemanha Oriental da Berlin Ocidental, formou um enclave que dividiu a cidade em duas. Por quase três décadas Berlin sofreu o mais negro período de sua gloriosa história. Berlin, a cidade cosmopolita, caíra nas mãos dos comunistas! Comparo Churchill e Stalin. Quanta diferença nas atitudes de cada um, Churchill anotando em seu diário de guerra: “Na guerra, resolução na derrota, desafio, na vitória, magnanimidade, na paz, boa vontade!”, que diferença do modo de pensar e agir dos comunistas que impuseram a divisão da Alemanha!
No final da tarde atravessamos o Portão de Brandenburger, e seguimos até a Berlin ex-comunista. Atrás das cercas ha um enorme campo abandonado coberto com o lixo deixado pelos que festejaram a chegada do Novo Ano. Sinto um aperto no coração quando vejo os miseráveis que procuram objetos de algum valor no meio daqueles entulhos, revelação pungente do que resulta do comunismo! Prometem o paraíso a uma turba de incautos e lhes dão o inferno!
Seguimos em direção ao centro da cidade. A Berlin comunista assemelha-se a uma cidade fantasma. Entrego-me ao cinza da tarde de inverno, e a todas as recordações que um tempo de acontecimentos extraordinários desperta nos poucos transeuntes que se aventuram a conferir a miséria causada pelo domínio comunista. Alguns Ladas circulam pelas ruas, são latarias enferrujadas pelo uso e falta de manutenção. Os prédios destruídos durante a guerra não passaram por reformas desde os bombardeios sofridos pela cidade. O comércio aberto mostra por trás das cortinas velhas e sujas, as lojinhas “comunistas”. Que visão deprimente! Entramos numa livraria. Os livros expostos insistem nas teorias marxistas e na ideologia comunista. Um destes livros atrai minha atenção: o título? Pasmem! : “Como fazer de seu filho um bom comunista desde a vida intra-uterina” Que título revoltante! Revelam de forma incisiva as obsessões que afligem os comunistas que sofrem de uma fobia: vergar o caráter humano! É fácil à propaganda comunista enganar e conquistar adeptos. Suas artimanhas são bem elaboradas, são pacientes quando se dedicam ao objetivo de doutrinar as pessoas com as suas mentiras impregnadas de fanatismo, com o seu jogo sujo de jogar pobres contra ricos, e de instigar o coração humano a se sentir culpado pelas desgraças alheias. São hábeis em reduzir a História num tosco relato de exploração do mais fraco pelo mais forte. Entretanto, quando conquistam o poder, dada a sua notória incompetência, gerir a “coisa pública”, é-lhes tarefa impossível. Usam de todos os ardis para arrancar o que podem do cidadão e sentem uma compulsão irrefreável de destruir o patrimônio nacional, pois lhes falta capacidade intelectual para entender como funcionam a economia e a administração pública e não entendem o passado. Só entendem que é melhor destruir para recomeçar nivelando por baixo. Não aceitam quanto somos diferentes uns dos outros porque não nos vêm como indivíduos. O comunismo é um amontoado de idéias utópicas que não se encaixa na realidade. São idéias incompatíveis com a natureza humana. Mas o comunista não compreende assim, e não se conforma por ter idealizado e lutado tanto, quando o resultado é o fracasso. Em suas mãos o sonho se desmorona! A miséria se instala no país, o povo perde o ânimo, o patrimônio público e privado, frutos de um trabalho persistente e continuo através dos séculos transforma-se em sucata. Mas são teimosos. Seus planos fracassam, e eles impassíveis incrustados no poder, concedem-se uma vida de luxo e alienação e culpam a humanidade pelo fracasso de suas idéias. Inconformados pelo descrédito e impaciência do povo, que aumenta à medida que compreende que o comunismo não passa de um blefe, os gênios esquerdistas reúnem-se e tramam a idéia absurda de “orientar” as mães a doutrinar seus filhos antes do nascimento! Se me contassem tal história não acreditaria que fosse verdadeira. Mas testemunhei com meus próprios olhos! Reflito que as nações comunistas reconquistaram a liberdade, mas só entenderão os seus significados daqui algumas décadas.
De Berlin viajamos para Dresden e Leipzig. As estradas são de terra, sem indicações e sem iluminação. Na noite de inverno viajar por elas é uma aventura tenebrosa, pois se damos asas às nossas fantasias vemos comunistas por todos os lados a criar emboscadas. Conseguimos vencer o medo e chegamos em Leipzig que está em guerra civil. Ao buscarmos um restaurante passamos pelo desprazer de ver um comunista exaltado estapear o rosto do porteiro chamando-o de traidor, porque ele aceitou nossos cinco marcos para nos dar acesso mais rápido ao restaurante. Após o jantar caminhamos pela praça principal da cidade. Dresden e Leipzig, não refletem mais a excepcional cultura alemã, estão destruídas. Através do silencio expressamos a nossa consternação, sabendo que a ferocidade comunista destrói o passado das nações que domina. Nem sei quanto tempo passo nestas ruas, a olhar para o nada e a indagar o que se passa na cabeça de um comunista.
Nossa viagem se completa na Tchecoslováquia. Talvez tenha sido este o melhor presente que demos aos nossos filhos. Reconhecer in loco as trágicas consequencias para aqueles que crêem nas utopias comunistas. Para que aprendam a valorizar a Liberdade em todas as suas nuances. Para que nunca se esqueçam que o sonho de alguns loucos destruiu cem milhões de vidas, destruiu sociedades inteiras como aconteceu com a Ucrânia.
Dou um salto de seis meses no tempo, e tenho entre as mãos a revista Steiner, de abril/1990. Há uma longa reportagem repleta de entrevistas nas quais os alemães ex-comunistas contam como se sentem usufruindo a liberdade. Eu estava certa quando conclui naquela pequena livraria comunista, que a liberdade não seria compreendida por aquela geração. De fato. Uma enfermeira entrevistada, da janela de seu apartamento, no final da tarde olhava o vai-e-vem dos trabalhadores retornando ao lar. Seus passos já não eram lentos como outrora. O corre-corre nas ruas transpirava expectativas que a enfermeira não entendia. Assim, apontando as pessoas ela perguntou ao repórter: “- Foi para isto que conquistamos a liberdade?”.