Putin: reabilita o passado comunista
Lê Figaro
02/08/2007
A Rússia de Vladimir Putin parece tentar drenar do período soviético uma forma de legitimidade e de continuidade.
Em nome do “patriotismo”, as autoridades se voltam para a ressovietização da história do país, com o risco de perpetuar os métodos criminosos do regime comunista.
Um vento revisionista sopra sobre a Rússia de Putin e seu retorno à história comunista. Prova que, como disse Orwell “nada é mais imprevisível que o passado”. Durante um reencontro em junho, com especialistas em ciências humanas, Putin julgou que a história da URSS teve “menos páginas negras que aquela dos USA”, e que “as repressões estalinistas foram menos terríveis que a guerra do Vietnam ou o nazismo”. “Nós não temos utilizado armas nucleares contra a população civil”, numa alusão ao bombardeamento de Hiroshima pelos USA, complementando que a Rússia não “ espalhou agentes químicos por milhares de quilômetros de bordas”, como foi o caso no Vietnam, “nossas páginas negras não foram entretanto terríveis”, insistiu o presidente que, em nome de um estranho relativismo histórico, prega uma aproximação “patriótica” da história.
A mensagem é clara. Questão de condenar o totalitarismo comunista e suas milhões de mortes como desejou seu antecessor Boris Yeltsin, que sonhou com um tribunal de Nurenberg do comunismo, antes de renunciar no final de 1992, sob a pressão da nomenklatura ex-soviética. Longe de querer exorcizar os demônios totalitários, a Rússia de Putin parece ao contrário tentar drenar do passado comunista uma forma de legitimidade e de continuidade, sob o risco de perpetuar seus métodos criminosos.
Vemos atualmente ressurgir os métodos esquecidos. Exemplo: o súbito confinamento a quatro dias, da jornalista russa Larissa Arap, punida por ousar denunciar os maus tratos infligidos às crianças de um hospital psiquiátrico. A Rússia não tem jamais feito sua “mea culpa” pela utilização repressiva deste tipo de estabelecimento pela URSS. Além disto, filmes e livros “patrióticos” subestimam os crimes de Stalin, para enfatizar seu papel de vitorioso do nazismo. A cada ano, o “dia do Tchékiste”, (nome histórico dos oficiais da polícia secreta), é celebrado com a participação do presidente, enquanto que o 70º aniversário do terrível ano de 1937, não é objeto de nenhuma manifestação oficial.
A inquietação dos cientistas é tangível.
Vindo de Vladmir Putin, ex-oficial da KGB e admirador do fundador dos serviços secretos comunistas, Felix Dzerjinski, de quem ele tem um busto no Kremlin desde sua chegada, este movimento de pêndulo é um pouco espantoso. O presidente russo declarou um dia que o colapso da URSS foi a maior catástrofe do século XX. Mas este retorno para trás, traduz, entretanto o estado de espírito geral duma população órfã dos sonhos comunistas. “A Rússia não pode encarar o passado, é muito cedo, muito passional, sublinha o polítólogo Fedor Loukianov.
Esta paixão sacraliza a história comunista. Ela está em vias de destruir o espírito da notável “revolução dos arquivos” que foi disciplinada sob Gorbatchev e Yeltsin. No local do “Memorial”, uma ONG dedicou uma lembrança às vítimas do comunismo, a inquietude é tangível. Nos corredores congestionados de papéis, onde o ambiente familiar relembra a época dos dissidentes, um pequeno grupo de historiadores executa um trabalho sobre-humano de classificação de milhões de vítimas, demovendo pequenas fichas. A organização tem consciência de ser daqui para frente perseguida como um inimigo. “Somos tratados como marginais, que remove as más lembranças e divide a nação”, suspira o historiador Nikita Petrov.
Os Fundos para a Democracia, do falecido Alexandre Yakovlev, número dois do Politburo sob Gorbatchev, apesar de estar aparte do debate público, continua a publicação de artigos inéditos sobre os grandes crimes do comunismo (mais de cinqüenta volumes, já foram publicados). Entretanto quando vivo, Yakovlev único homem da hierarquia soviética a se arrepender publicamente por ser membro da organização criminosa do PCUS, foi acusado de ser um traidor. Sua filha possui sua obra de memória enrolada em bobina (catimini)
Outro exemplo: o velho diretor do Instituto dos Arquivos, Iouri Afanassiev, fundador da Universidade Humanitária de |Moscou, deixou seu posto em 2006, por ter sido financiado pelo ex-petroleiro Mikhail Khodorkovski, atualmente encarcerado na Sibéria. As pressões não são diretas, fazem entender que seria melhor sair… Afirma o historiador Nikita Petrov, que observa: “um acesso cada vez mais restrito aos arquivos…”.E “a volta de uma história mitológica”.
O mesmo pessimismo afeta o cineasta Nikolai Dostal, que constata que “Os numerosos filmes ficam suspensos se não estão de acordo com a ideologia patriótica. Seu último filme sobre a vida do grande escritor dos campos, Varlam Chalamov, reflete o terror do século de Lênin foi, entretanto divulgado pela primeira vez em junho na televisão”.
Nenhuma pressão do poder
Os otimistas deduzem que as coisas não são tão catastróficas. Para o Fundo do russo no estrangeiro, notadamente, uma espantosa instituição criada sob o patrocínio de Alexandre Soljenitsyne, se diz confiante: “quem poderia imaginar que um centro traduza para a Rússia a memória de sua emigração pudesse vir à luz!”, se entusiasma o diretor Viktor Moskvine.
Num belo imóvel colocado à disposição pela prefeitura de Moscou, milhares de peças de arquivo estão retornando, especialmente da França. Os Fundos, que possui sua própria editora, tornaram-se uma colméia que permite reconstruir o quebra-cabeça da aventura humana e política dos emigrados, um lado da história no qual a Rússia foi amputada. “Não sentimos nenhuma pressão do poder, ao contrário, assegura Moskvine. Ele garante que o patrocínio de Soljenitsyne assegura aos Fundos uma legitimidade” patriótica “aos olhos do Kremlin. O escritor foi condecorado em junho por Putin. Não menos paradoxal que ver o grande adversário*do totalitarismo comunista se encontrar às costas dum poder russo que ressovietiza sua história”.
Soljenitsyne escreveu o famoso livro “Arquipélago de Gulag” relatando como funcionavam os campos de concentração russos e os trabalhos forçados.
Tradução “Lê Figaro”: Regina Caldas