Archive for the ‘Filosofia e Política’ Category

Os quatro cavaleiros do Apocalipse

Monday, September 1st, 2008

Existem cenas de filmes que jámais esquecemos. Uma destas assisti no filme acima. O casal se encontra no hall de entrada do apartamento. A mulher retorna de uma “traição” ao marido. O marido retorna do trabalho, traz o lunch da tarde. Embaraçada a mulher mente sobre o que fez durante a tarde. E ali, naquele pequeno quadrado de acesso ao apartamento se desenrola a cena que jamais esqueci. Indignado, sabendo-se traido, o marido diz á esposa:

“- Mentiras, traições, até que ponto suportamos?”

A frase calou fundo em mim, pois desde então tonei-me uma observadora do caráter humano e de minhas atitudes. Eu era bastante jovem quando assisti ao filme. Nem sei o quanto esta frase influiu na formação da minha lealdade comigo e com meus semelhantes. Sei que naquele momento tornei-me adulta, quando percebi como deveria assumir a responsabilidade pelas minhas palavras e ações. Desde então reflito sobre este tema. A lealdade que devemos às nossas ações e aos nossos pensamentos. Suponho que aqueles que não são leais consigo não se encontram, vivem no escuro emaranhado das fantasias e mentiras.

Quem deseja conhecer a si proprio deve partir da compreensão do “ser leal”. Ser leal é uma virtude. Mas os Homens falam raramente da prática das virtudes. Relegam-na áqueles que praticam religiões. Virtudes são entretanto qualidades do bom caráter: lealdade, generosidade, fidelidade, gratidão, alegria, magnanimidade e tantas outras. Nascemos com elas ou pela educação e ambiente em que vivemos somos treinados para praticá-las? È uma questão dificil de ser respondida, mas penso que um caráter bom ou mau se forma desde a mais tenra idade. È a soma da educação que recebemos com as nossas tendencias naturais. A tendência hoje é jogar a culpa do mau caráter no meio em que a criança nasce e se desenvolve. Mas sabemos que não é por ai. Milhões de crianças que nasceram e continuarão nascendo em lares pobres, localizados em ambientes inadequados ao seu desenvolvimento tornaram-se (ou tornam-se), entretanto, cidadãos excepcionais. tais crianças cresceram à sombra de alguém que as amparou, que lhes deu amor, dedicação e bons exemplos. O máu caráter decorre do descaso que se dá à educação. Aquela educação que chamamos de “educação de berço”. Berço no sentido de um braço adulto e responsavel que guie os passos da criança pelo caminho certo.

Não podemos confundir quantidade com qualidade quando se fala em educação infantil. Muitos pais   quando não se concedem tempo para conviver com seus filhos adotam um sentimento de culpa e tendem compensá-lo com presentes e mimos em excesso. Não é o tempo que se passa ao lado de uma criança que fará dela “um bom caráter”. São os bons exemplos, a disciplina, o respeito do adulto pela criança e vice-versa, ensiná-la a cumprir com seus deveres, a cordialidade e o amor. Citarei um exemplo: tive um casal de empregados pais de um menino de uns oito anos e uma menina de seis. O marido trabalhava como faxineiro na fábrica. A mulher trabalhava em minha casa. Moravam numa casa situada no terreno da fábrica que fazia fundos com um grupo escolar. Os pais saiam logo de manhã para o trabalho. Ao menino cabiam algumas tarefas como preparar o almoço para ele e a irmã e deixar a casa organizada. enfim, ele era o responsavel para que num certo horário, no inicio de cada tarde, ambos estivessem no grupo. E á tarde quando retornassem da escola cabia-lhe orientar a irmã nas tarefas escolares. Só no final do dia usufruiam da companhia dos pais. Eu acompanhava maravilhada a forma como aquela familia vivia, feliz, unida e bem organizada. Nunca ouvi aquela mãe se queixar que seus filhos não iam bem na escola ou que estivessem dando algum trabalho em casa. Isto se chama educação de berço, algo que ninguem ou nada nos rouba. Foi uma pena que após alguns anos aquela familia precisou retornar ao seio de sua familia. O pai sofria do mal de Chagas, não estava bem e o casal preferiu retornar para junto da familia afim de obter maior apoio emocional que lhes desse suporte nos momentos dificeis que logo enfrentariam. Mas eu tenho certeza que hoje, passado tantos anos, aquelas crianças são adultos sérios e responsaveis e devem viver bem, pois receberam na infancia as melhores ferramentas que os pais podem legar aos filhos: formação de um bom carater.

Pacto social

Thursday, June 12th, 2008

 

Regina Caldas

Junho/30/2007

Quando a representação popular tem voz dentro de um governo? Quando surge a possibilidade de uma ruptura dessa representatividade? Qual o ponto de equilíbrio entre o exercício do poder e a vontade da maioria? 

Quando um grupo social se une em busca de determinados objetivos sua primeira decisão é estabelecer uma hierarquia entre seus componentes. Sem a existência desta hierarquia e sem o respeito às regras de convivência estabelecidas por vontade do grupo cresce a insatisfação que termina por dispersá-los, e o propósito que os uniu não é alcançado. 

Quando um casal se une por laços afetivos almejando construir uma vida em comum, certos princípios ainda que tácitos ficam estabelecidos entre eles. Respeito mútuo, amparo, lealdade são alguns deles, sem os quais, passado o encanto da paixão, nada mais existe além de cada um retomar seu próprio caminho. 

Empresas são constituídas debaixo de uma determinada formalidade, dentre elas a definição de quem é quem dentro de uma hierarquia pré-estabelecida. E aí existe uma relação entre patrões e empregados com deveres e obrigações definidos, que para serem cumpridos exigem o conhecimento e o consentimento prévio de ambos os lados. 

O princípio é o mesmo dentro de uma sociedade organizada: associações de grupos demandam objetivos, consentimento, organização, administração, respeito a todos os princípios estabelecidos, além do respeito mútuo entre os partícipes. 

Quando refletimos sobre a existência do Estado, certos princípios surgem com clareza em nossas mentes. São eles: Divisão de Poder aglutinada no topo e assentada sobre uma base composta por toda a sociedade. Isto significa que em qualquer momento da vida nacional quem está no poder também é parte inseparável da base. E existe uma interdependência entre todos os indivíduos que constituem a Nação, pois de ambos, Poder e sociedade, depende a sobrevivência e o bem-estar geral. Trata-se de um pacto nacional estabelecido pelo consentimento de todos os cidadãos. O consentimento sempre será a base da formação do poder independente de sua forma.

Paz no Campo

Friday, April 18th, 2008

                 “Quando a agricultura vai bem, o comércio limpa as prateleiras, e quando o comércio limpa as prateleiras, não existe capacidade ociosa na indústria e nem desemprego”.Guilherme Afif Domingos, 17/01/89.

 

 

Regina Caldas

05/09/2004

 

 

 

                 Em 1997, no ultimo encontro mantido pelos lideres empresariais, o atual Ministro da Indústria e Comércio Exterior, Sr Luiz Fernando Furlan, ao comentar que precisaríamos incrementar um retorno ao campo, foi rebatido por um empresário paranaense que, repetindo uma famosa frase de Roberto Campos, gritou lá do seu cantinho: “Mas isto é andar na contra-mão da história!”.  Será?

 

                  Juscelino Kubistchek, quando se tornou Presidente (1956/60), tinha como meta inicial de governo, dar um impulso ao desenvolvimento industrial brasileiro, e, numa segunda fase, proporcionar um novo ciclo de investimentos na agricultura. O mote era o mesmo usado anteriormente para a industrialização: “50 anos de desenvolvimento em 5 anos”, e, a seguir: “Cinco anos de agricultura, 50 anos de fartura”. Mas Juscelino não retornou ao governo como pretendia, e o Brasil desviou-se de sua rota. A partir de 64, o Estado assumiu a maior parte dos investimentos nacionais com mega projetos que privilegiavam o crescimento de pólos industriais voltados para a industria pesada, e, com raras exceções, homens de visão como Roberto Selmi-Dei, continuaram investindo em agro-pecuária.

 

                 Graças à farta disponibilidade de terras e de uma tradição agrícola que desde a época da colonização tem gerado riquezas e sustentado a economia nacional, ainda que de forma cíclica (cana-de-açúcar, café), a partir da década de 70, a atividade no campo recuperou o fôlego. Motivados pelas péssimas condições socioeconômicas, agricultores sulistas migraram para o centro-oeste. Levando na bagagem suas experiências no trato da terra, investiram na modernização do setor. A partir deste recomeço o aumento dos pequenos e médios proprietários, o nascimento das cooperativas agrícolas, a mecanização, os defensivos e o crescimento da agroindústria, mudaram a face da agricultura brasileira. Porém, se, em 1995 alcançávamos uma safra recorde de 80 milhões de toneladas de grãos, já em 1997, a colheita  baixava para 74 milhões de toneladas. O governo não liberou a tempo os 5,2 bilhões prometidos até o inicio do plantio, a falta de taxação dos importados como o algodão, por exemplo, e uma incompreensão por parte de alguns bancos privados quanto a securitização que alongou os prazos para o pagamento das dívidas rurais, foram os responsáveis pelo desanimo no campo. Mais uma vez o governo não cumpria a sua parte! Em 1999, houve uma recuperação do setor. Os agricultores colheram uma safra de mais de 81 milhões de toneladas, que alimentou o crescimento do PIB, e ajudou a afastar a inflação, deixando claro que a contribuição do campo para a economia nacional era incontestável. Em 2000, constatávamos que, em duas décadas, a produtividade de grãos aumentara 70%, tendo o índice de produtividade dado um salto de 71%, equivalentes a uma produção média por hectare de 2.171 quilos, quando 21 anos atrás o índice era de 1.267 quilos/hectare. 

 

                O campo aos poucos se tornou independente, criando novas modalidades de crédito rural. O próprio agricultor, através das CPRs , emite um título avalizado por uma instituição de crédito que permite a venda antecipada da safra. Além disso, houve mudança de mentalidade por parte do governo. Permitiu investimentos estrangeiros na Bolsa de Mercadorias & Futuros, o que aumentou o número de negócios e criou nova fonte de financiamento para a Agricultura, além de criar meios para a rápida comercialização da safra, diminuindo a formação de estoques como ocorria no passado para garantir preços mínimos. Mas ainda falta muito para que os negócios da agro-pecuária atinjam patamares ideais. Falta crédito, a infra-estrutura é deficiente (muitas vezes é o próprio agricultor que precisa investir em estradas para o escoamento da safra, como ocorreu recentemente no Estado do Mato Grosso). Falta marketing adequado ao mundo globalizado. Mas isso não impede que as exportações de alimentos cresçam cada vez mais.          

 

                Entre todos os problemas que o agricultor brasileiro encontra para a comercialização da safra, a invasão de terras é um dos maiores, pois desestabiliza a paz no campo. E o que é pior, conta com o silencio do Estado para o qual falta visão, tanto no planejamento e fiscalização em suas políticas de assentamento, quanto no reconhecimento da importância do atual estagio de nossas atividades agro pastoris no conjunto da economia nacional, que, quanto mais cresce, mais se torna necessário que o agricultor possa contar com o apoio irrestrito por parte do governo e da sociedade. Sua atividade deixou há muito de ser extensiva para tornar-se intensiva. Isto exige permanente investimento em pesquisas cientificas e tecnológicas, financiamentos, armazenagem, transportes, preços, além de dar chance do agricultor poder trabalhar em paz. Os benefícios dos investimentos na agro-pecuária trazem um alto retorno para toda a sociedade porque ocorrem em cadeia e são contínuos. A sobrevivência no campo e o seu constante progresso são vitais para a economia nacional. Pela responsabilidade que recai sobre o campo, as invasões em terras produtivas deveriam ser considerados crimes de lesa-pátria e serem tratadas com o rigor da lei. É um crime que se comete contra a Nação brasileira, pois a o alimento é fundamental para a sobrevivência de um povo. Permitir ou fazer vista grossa às ações de movimentos que, em momento algum objetivam o assentamento, sendo suas motivações de cunho meramente político, é condenar à morte por inanição, como ocorreu no passado na Ucrânia, milhões de seres humanos.

 

                 As cidades não podem se distanciar dos problemas do campo. Devemos ter consciência da grandiosidade de seu desenvolvimento, isto sim é motivo real para elevar a nossa auto-estima.

 

                  O campo gera trabalho em toda a cadeia ligada às atividades agrícolas e pecuárias, além de ser uma força motora para a indústria e comércio, dada a geração de riquezas que promove. Via campo se pode incrementar a oferta de empregos, basta viajarmos pelas zonas rurais  para constatarmos, que ao seu redor desenvolvem-se núcleos urbanos prósperos, com atividades diversificadas quase sempre ligadas ao atendimento das necessidades da agro-pecuária. Ora, sabemos que o desemprego ronda hoje todos os cantos do planeta. E o nosso país, com todas as possibilidades que o campo oferece encontra aí uma fonte inesgotável de trabalho e renda. Se no passado, atraídos pelo boom industrial milhares de brasileiros migraram do campo para a cidade em busca de novas oportunidades de trabalho, atualmente deveríamos estimular o movimento inverso. Seria um recomeço e uma chance para todos aqueles que se iludiram com as luzes das cidades.

 

Nota: O MST foi premiado na Bélgica, pela “eficiência de seu trabalho e de suas conquistas”. O premio foi concedido pela alienada “Fundação Dom Balduino”. Na ocasião, li num jornal belga, uma nova, desconhecida e mentirosa versão da história da agricultura brasileira, na qual creditavam ao movimento dos sem terra, o desenvolvimento agrário brasileiro!               

                     

                

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MUDANÇAS

Sunday, April 13th, 2008

MUDANÇAS

“Tempora mutantur, nos et mutamur in illis”

(Os tempos mudam e nós mudamos com eles)

Dentre milhares de espécies animais que nos cercam, o ser humano é o único que não está fechado em seu ambiente. Só ele é capaz de atuar mudando o seu habitat, e a isto chamamos evolução cultural.

As duas vertentes da História, Tempo e Espaço, ajudam-nos a visualizar o longo caminho que trilhamos ao redor do planeta. As linhas do Tempo correndo através dos séculos, iluminam os espaços ocupados pelo Homem que supera todas as dificuldades, para criar, dominar, assimilar ou aniquilar culturas. Assim tem sido desde que surgiram as primeiras civilizações.

Na medida em que os seres humanos atendem suas necessidades básicas, cresce-lhes a percepção de que devem explorar o mundo que os rodeia. Também percebem que possuem capacidade criativa através da qual podem expressar o que vêm à sua volta. Os estudos que os antropólogos realizam em cavernas; em sítios aparentemente jamais habitados, ou escavando o sub-solo, nos surpreendem pelos caminhos trilhados por nossos antepassados na sua evolução cultural. Os museus e sítios tombados revelam maravilhosas histórias de todas as mudanças experimentadas por civilizações que nasceram e morreram através dos milênios.

Tudo o que existe está sujeito a permanente mudança. Esta é uma das leis fundamentais da natureza. O assunto tem sido objeto de discussões entre os filósofos através dos tempos. A questão envolve três tipos de mudanças intercambiáveis entre si: mudança, moção e “vir a ser”. Aristóteles, por exemplo, distinguia quatro tipos de mudanças: a mudança causada entre o crescer e diminuir (quantidade); de um lugar para outro (loco+moção); mudança na qualidade (alteração); e quando nada persiste daquilo cujo resultado é uma propriedade (o vir a ser). O mesmo principio vale para as mudanças causadas pelas atividades humanas. Só que entre os humanos as mudanças ocorrem de uma forma sem paralelo na natureza.

Quaisquer que sejam as causas das mudanças, elas criam uma seqüência de eventos que, em tempos modernos já não são, em alguns casos, ocorrências de conseqüências irreversíveis. A ciência e a tecnologia adquirem cada vez mais condições de reparar alguns dos danos que o homem causa à natureza, a si próprio ou à sua estrutura social, seja pelo mau uso dos recursos disponíveis, seja por mudanças acidentais.

A maioria de nós teme as mudanças. Quantos não se conformam que alguém possa querer mudar de vida ou sair em busca de coisas novas. Os seres humanos vivem numa permanente luta contra as mudanças que ocorrem em suas vidas. O temor das mesmas torna-se objeto de atitudes emocionais, causando dualidade entre amor e ódio, desejo e aversão pelas mudanças. (Isto explica em parte tanta gritaria contrária à globalização).

As mudanças alimentam o processo criativo que por sua vez funciona como mola propulsora para entrar em contato com o novo. E o novo dá a sua melhor resposta quando propicia continuidade à evolução. Qualquer que seja o seu estágio, a mudança demanda alguma forma de conhecimento que desperte o desejo e a imaginação humanos. O processo criativo requer a organização mental de nossos sonhos e o estabelecimento de metas para realizá-los.

A maneira mais eficiente de mudança ocorre quando assimilamos novas culturas. A assimilação nos instiga à investigação, à comparação, dando-nos a chance de substituir o que está ultrapassado, ampliando os espaços onde atuamos, aperfeiçoando as relações com os nossos semelhantes e melhorando nossa visão de mundo. As descobertas científicas, as novas tecnologias, aliadas aos meios de comunicações podem nos oferecer as melhores formas de mudança eficiente, pois criam novos paradigmas que provocam profundas alterações no comportamento social alem de melhorar a qualidade de vida para um número sempre crescente de pessoas.

A mudança negativa aniquila outra cultura. Assim fizeram alguns colonizadores europeus, na África, no Novo Mundo, exterminando a maioria dos nativos e suas culturas, algumas até com impressionante estrutura social. O extermínio de outras culturas revela a arrogância dos conquistadores que se consideram superiores aos subjugados. Os que destroem culturas para reiniciá-las à imagem de suas utopias insanas sempre causam retrocessos irrecuperáveis na historia da evolução humana. Governos autoritários agem desta forma, pois se consideram capazes de determinar o que é melhor para a sociedade. Dentre os crimes que cometem, um dos mais desastrados é a falsificação ou a eliminação do patrimônio cultural acumulado, que na imaginação deles deveria ser substituído pela nova história que sonham escrever, mas jamais conseguem. Rompendo drasticamente com o passado e ao mesmo tempo impondo regras que inibem a liberdade de expressão, os autoritários castram todos os direitos que ofereçam riscos aos seus planos. Para cooptar as mentes eles utilizam uma linguagem hipócrita permeada de mentiras. E o resultado tem sido sempre o mesmo: campos devastados, patrimônio sucatado, milhões de vidas ceifadas.

Instituições religiosas, jurídicas, morais, levam tempo para reagir e se adequar às mudanças culturais de um povo. Por exemplo, Códigos de Leis quase sempre são defasados em virtude das mudanças de comportamento social, que naturalmente ocorrem muito mais rápidas que a lei ao responder àquelas transformações.

Agradável ou não, a mudança é o caminho que a Vida trilha para se renovar, para que a Humanidade evolua. Também retrata as profundas diferenças existentes entre os povos. Aqueles que são preparados para identificar quais são as mudanças saudáveis que trarão melhores retornos para toda a sociedade, evoluem. Alcançam níveis culturais que beneficiam milhares de seres humanos. As sociedades que temem ou bloqueiam as mudanças, ao contrário, extinguem-se, transformando-se em combustível utilizado pelas sociedades que aceitaram mudar para evoluir.

,


Um exemplo para o mundo

Thursday, January 10th, 2008

  observo que o Mundo hoje é carente de clareza moral


                                 UM EXEMPLO PARA O MUNDO

 

 

 

 

 

Regina Caldas

 

(publicado originalmente no MSM, talvez no início de 2005)

 

 

 

 

 

                                                                   “Estamos indo rumo a uma ditadura do               

                                                                   Relativismo, que não reconhece nada

                                                                   Definitivo, e deixa apenas o ego e os

                                                                   desejos de cada um como medida final”.

 

                                                                    Joseph, Cardeal Ratzinger (Bento XVI)

 

 

 

                                                                     

   

 

 

 

     Grandes teólogos e filósofos do passado debruçaram-se em reflexões e debates sobre o conceito conhecido por “moral natural”. Aristóteles designava-o como “razão intuitiva”, e Tomás de Aquino, mais tarde o classificaria como entendimento.  Já na Gênese, primeiro dos livros bíblicos, aprendemos sobre a razão intuitiva ou senso moral, através da história dos irmãos Caim o agricultor, e Abel o pastor. Ambos ofereciam sacrifícios a Deus que, entretanto se aprazava mais com as ofertas de Abel, por saber da pureza de seus sentimentos. Caim ressentia-se ao perceber o quanto Deus amava Abel. E certo dia, não resistindo às tentações, matou seu irmão. A inveja e o ciúme foram os indutores do crime. Quando Deus perguntou-lhe onde estava Abel, Caim respondeu arrogantemente: – “Não sei. Acaso sou eu o guardião de meu irmão?” Em essência, toda a história humana buscou, até certo ponto, uma resposta a esta pergunta que o Homem se faz “o que fiz?”

 

     Mas… mudamos…

 

     No mundo contemporâneo, estamos sendo treinados para nos tornarmos “cegos, surdos e mudos” perante a nossa consciência. Ao invés de usarmos o livre arbítrio para julgarmos nossas ações, nos projetamos na consciência coletiva para indagar o quê  fizeram de nós. Isto é a relativização de todos os padrões morais.

 

     Em seu tratado filosófico L’être et lê néant,  publicado em 1943, na plenitude da  II Guerra Mundial, o existencialista Jean-Paul Sartre, afirma que: “Se Deus não existe, os seres humanos não são designados para nenhum propósito particular”. Para os existencialistas, a nossa existência precedia a nossa essência. Com a afirmação eles negavam a proposição aristotélica de que conhecemos o homem bom quando conhecemos a essência da natureza humana. “Nós conhecemos uma boa faca quando sabemos que a essência dela é para cortar”, exemplificava Aristóteles.  Se ela corta é boa. Para Sartre, por não sermos criados para nenhum fim especifico, somos livres  para lidar com nossa própria essência, que define como queremos viver. Assim, somos compelidos por nossa condição, nossa natureza. À medida em que somos autênticos, não existe padrão moral pelo qual nossa conduta  possa ser criticada. E, passando a viver num mundo onde os seres humanos, por tal senso de libertação, adquirem o direito de agir e ser de acordo com seus próprios julgamentos, tudo o mais se torna relativo. È nesta base que se sedimenta a doutrina do relativismo. Uma doutrina que rejeita princípios e valores absolutos. São as circunstâncias, o lugar, a época ou a cultura que definem nossos comportamentos. E, se nossas ações são relativas, quem teria legitimidade para julgá-las quando são conseqüências de nossas decisões subjetivas? Como Kant exemplifica: se alguém salva de afogamento um jovem cujo pai é muito rico, como julgar a ação daquele que o salvou? O que o levou a agir como um herói? O relativismo torna-se má escolha para os julgamentos  de nossas ações tanto quanto de nossos semelhantes porque anula a legitimidade para  se fazer justiça. Tudo é relativo? Os crimes, a pobreza, a corrupção, qualquer decisão humana justificada pela doutrina do relativismo afasta  as responsabilidades sobre as nossas ações. A justificativa é de que agimos de acordo com as circunstâncias. Daí resulta a tolerância da qual deriva a permissividade. Impõe-nos tolerar as diferenças porque tudo é relativo.

 

     Em matéria religiosa o relativismo é mais pernicioso ainda. A moral religiosa forma o Homem para ser ético, disciplinado, para ter clareza interior que lhe baste para saber distinguir entre o bem e o mal e agir conforme o que é correto. É interessante observar que, se tudo é relativo, todos indistintamente assumem responsabilidades sobre as vidas alheias. Pois, se o pobre vive na miséria porque é explorado pelo rico, o marginal comete crimes porque as circunstâncias de seu berço não são boas, o médico mata “porque ignorou que o paciente era alérgico ao medicamento que lhe passou.. e assim por diante, ninguém responde mais pelos próprios erros,  tudo é justificado, dependendo apenas do ângulo sob o qual é analisado.

 

    Bento XVI tem razão ao transformar o seu papado numa luta incessante contra o relativismo moral. É a doença contemporânea que justifica o nazismo, os crimes do comunismo, que justifica governos corruptos, a soltura de bandidos, as traições, as perversões, a desordem pública e todas as mentiras. Bento XVI, tendo sido um homem do mundo antes de optar pela vida religiosa, e vindo de uma terra que primeiro gritou que “DEUS ESTÁ MORTO” (Heiddegger), assumiu a direção da Igreja com a alma calejada por todos os crimes que a humanidade cometeu no século passado. Este é um papa que testemunhou uma era de tantas transformações espirituais, morais e culturais, que deixaram a humanidade sem norte. Mas a barca de Pedro, cuja historia sobrevive às tempestades desde as suas origens, não soçobrará ao sabor dos ventos. Ao contrário, Bento XVI afirmou que almeja trazer Deus de volta ao coração do Homem, e estando o Homem atual tão desamparado, e à procura de uma bússola que o coloque no caminho da fé (o volume de vendas de livros esotéricos confirmam), perdida ao longo dos séculos, podemos crer e esperar que as novas luzes da esperança e da verdadeira sabedoria se reacendam nos corações humanos.             

 

Ortega:

“O relativismo é uma teoria suicida, pois quando se aplica a si mesma, se mata. Na maior parte das vezes, o relativismo é uma espécie de pose acadêmica. Uma cômoda evasão da realidade”.

 

Christopher Derrick:

“A apoteose do relativismo causa esta impressão-vaga, mas persuasiva-de que expressar dúvida é um sinal de modéstia, de democracia, enquanto que falar de certezas, se considera algo de dogmático e quase ditatorial”.

 

Algumas Idéias sobre Teorias Políticas

Thursday, January 10th, 2008

Regina caldas

03/03/2006

Governo e Estado (comunidade política) fundem-se na tradicional teoria política.

O Estado é usualmente designado de acordo com sua forma de governo.

Reconhecemos a diferença entre Estado e governo, quando observamos que o Estado pode manter a sua identidade histórica ainda quando sofre mudanças fundamentais na sua forma de governo.

O Estado não é dissolvido por uma revolução que mude sua forma de Governo. Existe um senso de que Roma, por exemplo, é o mesmo Estado sob o domínio dos Tarquínios, sob a Republica e sob os Cesares. Em contraste, algumas rebeliões, como a Guerra da Secessão na América, sinalizam a dissolução do próprio Estado.

Apesar do fato de que o Estado envolve uma relação entre governantes e governados, a palavra também é usada para designar um termo no qual cabe a afinidade entre os governantes. Quando os cidadãos de uma república falam de Governo, usualmente referem-se à cúpula do governo, e não ao corpo dos cidadãos como um todo. Mas governo não consiste apenas em governantes da mesma forma que não existem educadores sem educandos.

A noção de governo inclui governantes e governados, mas quando se fala de governo a atenção se volta para o poder de governar e para a divisão deste poder em partes relacionadas.

Os grandes livros de teoria política indagam algumas questões básicas sobre governo. Qual a origem do Governo, sua natureza e necessidade? Que finalidade leva o Governo a servir e como estas finalidades definem seu escopo e limites? Qual a distinção entre bom e mau Governo, entre legitimo e ilegítimo, ou, governo justo ou injusto? Quais são as formas do bom ou do mau governo? Quais são os vários departamentos ou ramos do governo, e como podem funcionar na relação entre uns e outros? Estas questões estão relacionadas. A origem, natureza e necessidade de governo tem uma relação em seus fins e limites. Estas mesmas considerações entram na discussão entre a legitimidade e a justiça dos governos. Estes também têm uma classificação na relação e na apreciação das formas de governo. O caminho no qual as diversas divisões do governo podem ser relacionadas é afetado pelo caminho no qual as várias formas de governo diferem. A questão não é sempre vista da mesma forma. Hobbes, Locke e Rousseau, por exemplo, encontram seus princípios fundamentais na origem do governo. Eles começam indagando, o que habilita um homem a governar outro. É o exercício do poder político justificado e limitado pelo fim à que se destina? Respondendo estas questões eles distinguem entre bom e mau governo e apontam os abusos e corrupções aos quais um governo está sujeito. Outros pensadores políticos, entretanto fazem da comparação e classificação do governo o problema central na teoria de governo. Platão, Aristóteles, Montesquieu e Stuart Mills, analisam que a justiça ou a bondade de um governo deve ser julgada. Eles comparam várias formas de governo como mais ou menos desejáveis, próximos ao ideal ou próximos à corrupção, e no decorrer destas considerações, eles questionam a necessidade, legitimidade, e finalidades dos governos em geral.

Há um acordo em comum de que um governo é necessário para a existência do estado. Nenhuma comunidade pode dispensar um governo, pois sem o mesmo ninguém vive junto em paz. Tomás de Aquino entendia que uma vida social não poderia existir sem um governo que velasse pelo bem comum. Ninguém é anarquista como Thoreau ou Kropotkin, mas este último clama que “Guerra e Paz” de Leon Tolstoi , e “Essay on Liberty” de Stuart Mills, contém algumas idéias anarquistas. Marx e Engels talvez sejam outra possível exceção à regra. Se Marx e Engels tiveram uma visão oposta, eles assim agiram porque se encontravam em terreno no qual, com o advento das classes baixas da sociedade emergindo, tornou-se necessário um governo voltado para eles.

Todos concordam que o anarquismo (total falta de governo) é inconveniente à natureza humana. O homem, sendo o que é, qualquer forma de governo lhe cabe melhor do que nenhum. Alguns, como Hobbes e Kant, identificam a anarquia com o estado da natureza que para eles é estado de guerra. Mas Locke pensa que o estado da natureza não é o de guerra, entretanto encontra grandes vantagens vivendo numa sociedade civil justamente porque o governo tem remédios para as inconveniências provocadas pelo anarquismo. E, entre a opção de ter ou não um governo, eles acreditam que ninguém pode usufruir os benefícios de uma vida civilizada sem governo.

O acordo generalizado sobre a necessidade de um governo, tende a incluir ai dois elementos básicos: autoridade e poder. Nenhum governo é possível se o homem não obedece às suas leis. Mas é necessário que reconheça o direito do governo para dar a ele o seu comando, ainda que seja por temer as conseqüências que sofrerá se desobedecer. A obediência corresponde à autoridade e poder do governo. A autoridade é admirada e atrai obediência voluntária. Poder, sendo muitas vezes coercitivo, compele à obediência involuntária. Autoridade e poder são o direito e a força do governo. Um pode existir e talvez operar apartado do outro, mas, como Rousseau aponta, quando o direito é retirado, o governo perde sua legitimidade.

Numa famosa passagem, os Federalistas (USA) expõe que a lei pela autoridade ausente, pode existir numa sociedade de anjos. Mas, desde que o homem é homem, e não anjo, sua obediência só será assegurada pela força. Numa sociedade em que alguns homens são bons e outros maus, e todos, em algum momento podem ser ambas as coisas, a força é o único expediente a ser usado para convencê-los a fazer o que é necessário para o bem comum. Sempre que as instituições de governo têm a sua autoridade consentida pelos governados, eles não podem funcionar sem o uso do poder ou da força. Por tal motivo, Hamilton rejeita a idéia de governar o tempo todo pela simples força da lei, como sugerem aqueles doutores políticos cuja sagacidade desdenha as admoestações da instrução experimental. Se autoridade sem força é inefetiva para os propósitos de governar, talvez sem o direito é tirania. “Onde a lei termina, começa a tirania, afirmou Locke. O uso da força sem autorização adquire a forma de usurpação ou tirania. Se este é o exercício do poder além do direito, isto é tirania. A distinção entre a legitimidade da lei e todos os domínios pela força, resta não no uso do poder, mas se o poder que é usado é ou não autorizado legalmente”.

A noção de soberania envolve considerações de autoridade e poder. A palavra é de origem medieval e feudal. Significa a supremacia de um senhor da terra, que a ninguém deve lealdade, e para quem fidelidade é devida por todos os que estão acomodados em seus domínios. Desde que a supremacia do senhor soberano é revestida de direitos legais, de acordo com os costumes da titulação feudal, soberania é vista como a união do poder com a autoridade, não como o uso evidente da força.

Os filósofos antigos não usavam o termo soberania. Mas, suas discussões da distribuição do poder político, referem-se certamente à posse da autoridade, como também ao controle da força. Aristóteles questiona, por exemplo, qual é o poder supremo do Estado: a multidão? A riqueza? O bom? O melhor homem? Lidando com o mesmo problema dos grandes escritores modernos que questionam onde a soberania reside, Aristóteles entende, que o conflito entre as constituições oligárquicas e as democráticas, é matéria que se refere à definição legal da classe de leis: onde a constituição põe todo o poder nas mãos dos homens nascidos livres, onde ricos e pobres se assemelham. Deste modo, este sentido de soberania reflete a básica diferença entre governo absoluto e limitado, ou entre despotismo e regime constitucional, guiando para a diferença entre o homem soberano e o cargo soberano. O legislador que mantém a soberania em sua pessoa é um soberano absoluto se seu poder e autoridade não são limitados pela lei positiva.

Após discutir os direitos absolutos que constituem a soberania, Hobbes conclui que:

“A grande autoridade sendo indivisível cria terreno para a opinião daqueles que falam sobre a soberania dos reis, considerando-os “singulis majores” o maior poder que qualquer um dos seus súditos, entretanto, eles são “universis minores” isto é, tem menos poder que todos os súditos juntos” Para Hobbes não há diferença que a soberania seja exercida por um homem ou por uma assembléia. Pois em qualquer dos casos não está subordinado à lei civil. Aquino, entretanto difere de Hobbes, pois acredita que a autoridade do rei é limitada pelo caráter constitucional do governo monárquico. Hobbes concebe a soberania idêntica ao governo absoluto.

Contrastando com Hobbbes e Aquino, uma República, ou um Governo constitucionalmente organizado, substitui o governo soberano pelo homem soberano. De acordo com as noções republicanas de Rousseau, nem sempre um governo é por si só soberano, exceto quando representa a comunidade política como um todo, quando soberano e soberania são revestidos unicamente como uma delegação, um emprego, no qual os governantes exercem o poder como um cargo que lhes é delegado. Desde que este poder não lhes pertence, exceto por delegação, este pode ser limitado, modificado, ou retomado por arbítrio, destituindo o direito, incompatível com a natureza do corpo social, e contrário à finalidade da associação.

A unidade da soberania não é enfraquecida pelo fato de ser partilhada entre várias autoridades, e muito menos quando o governo é dividido entre poderes como Executivo, Legislativo e Judiciário, desde que este poder derive da Carta Constitucional. Já a soberania popular, onde o povo governa sem a magnitude da lei só é possível numa pequena comunidade. Mas ainda não foi encontrado nenhum povo de relativa importância que o tenha exercido. Poderíamos aqui incluir a Autoridade Palestina? Da forma como uma soberania popular é vista por Aquino, sim. Para ele, a fim de ordenar qualquer coisa que vise o bem comum, é necessária a existência de um líder no meio do povo, que ele nomeia de “personagem pública”. E, de forma similar, o uso da força coercitiva, para revestir o povo ou o personagem público, do poder de infligir penalidades. A noção de personagem pública, da forma como Aquino usa, é aquela substituída pela representação popular. O povo, numa primeira instancia executa todas as funções de governo, e só quando for de sua conveniência delega esse poder a um, ou a um grupo para atuar em seu nome e representá-lo.

O princípio fundamental de Locke, de que o homem, sendo livre por natureza, igual e independente ninguém pode colocá-lo fora deste estado e sujeitá-lo ao poder político de outrem fora do seu consentimento, expressa a idéia da soberania popular. Isto reaparece na Declaração da Independência dos Estados Unidos, na afirmação de que, desde que os governos são instituídos pelo homem para assegurar os seus direitos fundamentais, eles deverão derivar seu poder do consentimento dos governados.

Para Hegel, o homem tem falado em soberania popular como algo que se opõe à soberania da monarquia. E ele comenta que a soberania popular é formada por noções confusas baseadas nas idéias rústicas do povo. Mas os republicanos poderiam replicar que o senso no qual eles falam de soberania popular não pode ser oposta á soberania de governo que almeja um governo constitucional e não absoluto. E a supremacia do governo permanece limitada pelo fato que todos os seus poderes são delegados e podem ser retirados ou trocados de acordo com a vontade popular.

A teoria do governo Federal, discutida no “The Federalist” e também em Mills, no “Representative Government”, contempla uma divisão de soberania, não entre o povo e seus governos, mas entre dois diferentes governos, para os quais o povo concede certos poderes. Distinguindo entre o governo de um estado nacional, e o governo de uma União federal, Madison escreve: “Para um povo estabelecido dentro de uma Nação, a supremacia está totalmente revestida pela legislatura nacional. Entre comunidades unidas por propósitos em comum, ela é revestida em parte pela legislatura nacional, e, em parte pela municipal. No caso precedente, todas as autoridades locais são subordinadas ao supremo, e talvez controladas, direcionadas ou abolidas por este, de acordo com o seu desejo. No último, as autoridades municipais formam partes distintas e independentes do poder supremo. Não são mais sujeitas em suas respectivas esferas à autoridade suprema”. O governo federal ou os governos locais extraem do mesmo reservatório da soberania popular, mas a soberania da qual cada um deriva é limitada pela definição de matérias reservadas à jurisdição de cada um. A diferença fundamental entre a condição dos estados numa federação e a condição de colônias dependentes é que o governo imperial, de forma diferente de um governo federal, clama por soberania ilimitada.

Após situar as condições de soberania do Estado em relação ao seu próprio povo, Hegel afirma: “Isto é a soberania do estado em casa. Existe um outro lado da questão, soberania frente aos Estados estrangeiros”. Hegel encontra no Estado autônomo a mais fundamental liberdade que um povo possui, e também sua mais alta dignidade. Diferente da soberania de governo que une autoridade e poder na sua jurisdição interna, Estados Soberanos nas suas relações externas podem usar a força uns contra os outros quando seus interesses entram em conflito.

Em questão de Governo, o mais importante, a saber, não se refere apenas a que forma de governo se refere, mas qual é possível. Os pensadores políticos sempre deram excelentes idéias, mas importa que o legislador não tire suas decisões de conceitos abstratos, mas que perceba o que é melhor em relação às circunstancias. Mills e Montesquieu consideram que a melhor forma de Governo enxerga as circunstancias históricas de um povo num particular momento: suas condições econômicas, seu grau de cultura, suas experiências políticas.

As funções de governo estão divididas entre Legislativo, Executivo e Judiciário. Locke adiciona o que ele chama de “poder federativo”, isto é, o poder de fazer tratados e alianças, e, em geral de conduzir as políticas externas.

Na atualidade, o aumento da Administração pública e o aumento dos planos de governo levam a dar nova dimensão às atividades de governo. Entretanto, o aumento do tamanho do Estado exige respostas no campo legislativo, especialmente no campo dos Decretos administrativos que caem fora do domínio da lei em vigor.

Se a divisão de governo é exaustiva, mais complexa ainda é a relação entre os poderes na forma como se reportam uns aos outros. Segundo Montesquieu, num sistema de poderes separados, o legislativo, por exemplo, sendo dividido em duas partes (Congresso e Senado), estes se vigiam mutuamente através do privilégio da rejeição. E são ambos restringidos pelo executivo como o executivo o é por eles. Mas a questão maior é saber o quanto um governo legal pode ser preservado de cair no despotismo. Para os americanos Federalistas, o sistema de “verificação e equilíbrios” contido na sua Constituição, projeta uma estrutura interior de governo que são suas constituintes, que pelas suas mútuas relações mantém cada uma no seu próprio lugar.

Bibliografia:

“The great ideas” Mortimer J. Adler, Associate Editor- Britannica. Inc., 1952/86


Parlamentares Brasileiros

Tuesday, September 18th, 2007

 

 

 

 

Em 18 de dezembro de 1990, o TELEGRAAF, jornal holandês, publicou a matéria abaixo, sob o título:

“Braziliaanse parlementaries woeden niet moe maar wel rijk” : “ Os parlamentares brasileiros não cansam, mas, apesar disto ficam ricos”

Recentemente, soube da absurda verba que o atual Presidente da Câmara Federal, Sr João Paulo Cunha está reivindicando a título de manter engraxates no recinto daquela nobre Casa, para que os ilustres parlamentares mantenham seus sapatos luzindo. Tal atitude parece-me tão imoral, pois se trata da utilização do dinheiro público do modo mais insultuoso contra o cidadão pagador de impostos. Lembrei-me assim, que num passado não muito distante, senti-me indignada com o jornal holandês “Telegraaf”, quando publicou matéria sobre nossos parlamentares que classifiquei de deboche muito ofensivo! Mas, percebo que não, afinal nossos políticos na verdade não primam pela ética. E não sou eu quem deve corar de vergonha quando me deparo com suas caricaturas nos jornais de países onde a política é levada a sério. Desta forma, mesmo passado tanto tempo, transcrevo abaixo o artigo do “Telegraaf”, nada mais justo que parlamentares e cidadãos partilhem comigo um texto que prima pela atualidade!

“Viver como Deus na França” ou como parlamentar no Brasil, estes sabem como! O Parlamentar brasileiro quase não trabalha. Sua semana se inicia na futuristica Brasília, na terça-feira de manhã e termina na quinta de tarde. A maioria dos parlamentares parte então para seus estados para “trocar idéias com seus eleitores”. Na sala VIP do aeroporto, na quinta à noite, tem mais movimento que no saguão de partidas. Cada parlamentar se rodeia com assistentes, guarda-costas e empregados. Estes também o acompanham na viagem porque não custa nada. O contribuinte enfrenta todos os custos.

O Brasil tem 559 parlamentares. Cada um com escritório próprio e assessoria de 11 pessoas! As verbas, abrangendo 1,5% ou 2% do orçamento do governo, paga as custas do Parlamento.

Carros oficiais: Há 559 carros oficiais, mais um estoque de reserva. Uma tentativa do Presidente Collor de Mello para diminuir esta frota, deu em nada. O Senado fez saber que a Constituição Federal prevê uma representação do povo, independente, e o Presidente não têm autoridade sobre as atividades parlamentares. O fato que o prédio do Parlamento e as Torres dos escritórios sede do Poder Político fique perto dos Ministérios e do Palácio do Planalto em nada influi. E, apesar desta mobilidade, cada parlamentar precisa de 3 horas para almoçar, mas, para serem mobilizados para o trabalho é preciso o maior esforço. É por isto que o Governo precisa governar por Decretos, pois não é nada incomum que o Parlamento precise de 8 meses ou mais, para ratificar uma decisão governamental. Com a desculpa de que já existem leis demais os parlamentares se eximem. Só há uma exceção nesta regra: É quando se trata da verba parlamentar que contém o nível de salários dos representantes. Nesta ocasião, o salão do Parlamento fica lotado até o teto, e a sessão pode continuar ininterruptamente até a madrugada. Para uma nova lei de salários, que teria melhorado um pouquinho a sorte dos trabalhadores mais pobres, não havia quorum no mês passado.

De que maneira os parlamentares preenchem sua semana de três dias? Este é sem dúvida, o mais bem guardado segredo do Brasil. Sabe-se que escrevem muitas cartas e dão muitos telefonemas. Estes telefonemas tomam muito tempo, pois a maioria das linhas do Parlamento está sempre ocupada (mais do que 2.000 no total). Isto é gratuito. Os 559 seletos parlamentares podem telefonar o quanto quiser, e ainda tem uma verba de $900 US, para ligações internacionais. Podem também despachar 3.000 telegramas e 12.000 cartas. Ao lado deste trabalho pesado, os parlamentares podem descansar, outra vez de graça, nos seus palacetes oficiais. Por todo este serviço à Pátria, eles recebem mensalmente uma recompensa de $10.000 US, livre de impostos, naturalmente!”

Telegraaf, 18.12.1990


COOPERAÇÃO

Sunday, September 2nd, 2007

COOPERAÇÃO

Regina Caldas 2007

Quando o Homem colocou pela primeira vez os seus pés na savana e caminhou ereto, aí se iniciou a sua grande aventura sobre a Terra. A partir daquele momento fomos nos transformando no que somos hoje: atores interagindo com o universo à sua volta, refletindo, observando, tornando-se capazes de trabalhar com símbolos de linguagem e sofisticados cálculos de matemática. Tais ações se repetem continuadamente em cada ser humano, pois dependem de um comando. Por volta dos onze meses de idade, sob um comando do cérebro, o bebê deixa de engatinhar e fica em pé. Cada ação humana retorna em alguma parte às suas origens. Se cortássemos nossas ligações de sangue com nossas origens seriamos criaturas frias e distantes. Cabe-nos, portanto indagar quais dons físicos partilhamos com os animais e quais que nos diferenciam deles. A diferença está em que nossas ações são o fruto de nosso esforço intelectual. As ações dos animais são desprovidas de senso prático. Atuam direcionadas ao presente. Já o ser humano atua usando a sua mente para colocar a sua imaginação no futuro afim de construí-lo. Por conseqüência a cabeça é para o ser humano muito mais que um selo simbólico de sua imagem. É da cabeça que partem as idéias que promoveram e promovem a sua evolução cultural.

Com um cérebro primitivo ao Homem foi possível dar seus primeiros passos no empreendedorismo. Usando pedras ele construiu suas primeiras ferramentas. Por outro lado, como a média de vida entre os primitivos era baixa, havia um número muito alto de crianças órfãs. Exigiam cuidados. Daí o homem primitivo ter se agregado socialmente para cuidar de suas crianças. Ainda assim foi necessário o transcurso de milhões de anos para que de fato o Homem iniciasse sua evolução cultural de forma continuada.

Através da evolução cultural o Homem deixa traços do que ele cria. Mas nem todos os humanos são dotados desta capacidade criativa. Muito se deve à mudança de vegetariano a carnívoro, que propiciou o encurtamento do tempo gasto com alimentação. Isto concedeu ao Homem um tempo maior para se preocupar com outras coisas. O tempo livre deu chance do Homem procurar recursos mais eficientes para se alimentar. Evidentemente isto ajudou a promover a tendência de todos os primatas a dilatar em sua mente a compreensão de estímulo e resposta e a seguir, a gratificação do desejo. Mas o mais marcante na influencia indireta causada por este entendimento foi nutrir a comunicação. Pois o Homem adaptado às savanas e destinado a uma vida primitiva, através do aprendizado da comunicação entende que se liberta do seu destino primitivo por meio da cooperação. Caçar requer planejamento consciente e organização através da linguagem e de armas especiais.

O Homem sobreviveu aos primeiros testes de sua evolução cultural porque teve a capacidade de criar e entregar à comunidade o objeto de sua criação.

O objetivo do presente artigo é esclarecer para alguns setores da sociedade, que o caminho trilhado pelo ser humano para chegar onde estamos só foi possível porque aprendemos a usar nossa imaginação em benefício da comunidade. Inventar a roda de nada serviria, se a princípio fosse utilizada apenas como meio de tração animal para facilitar o transporte de bens e pessoas. Serviu e muito para diminuir consideravelmente o trabalho dos escravos no transporte de pedras que pesavam toneladas, para serem usadas nas construções dos grandes templos e palácios. Entretanto, não podemos glorificar a força de trabalho como se esta fosse a única responsável por todos os bens e serviços que ao serem colocados à disposição da sociedade melhoram a qualidade de vida das pessoas. Cada um de nós, com nossas capacidades intelectuais, nossos interesses econômicos e de sobrevivência constroe a Nação. Sem o gênio criativo o empresário não tem onde investir seu capital. Sem a sensibilidade do empresário a idealização de um bem ou prestação de serviços não sairá do papel. Sem o operário a fábrica não será levantada e o bem não existirá. A isto se chama COOPERAÇÃO. Assim, a idéia das esquerdas de nivelar todos os seres humanos por baixo igualando-os não tem sentido lógico. Se assim fosse ainda viveríamos nas savanas. Só nas savanas se pode controlar a liberdade humana impedindo-a de usar seu cérebro para imaginar, almejar e criar.

O politicamente correto dentro das sociedades expressa uma visão distorcida da realidade. É uma expressão cunhada para atender aos reclamos de maior tolerância com os erros alheios e para encarar estes mesmos erros como fruto do relativismo. Segundo a cartilha do politicamente correto todas as falhas humanas são justificadas, desde que cometidas por grupos sociais transformados em massa de manobra nas mãos dos que se acham capazes de mudar a sociedade com seus discursos demagógicos. Entendem a cooperação como a ação que deve impor ao outro seus pontos de vista.

Investindo nas idéias certas

Thursday, August 30th, 2007

Como os filantropos ajudaram a fazer do conservadorismo um governo filosófico

James Piereson

Tradução: Regina Caldas

Wall Street Journal, maio/2005

Recentemente, um pouco antes da eleição de Novembro, uns 300 amigos e admiradores, reuniram-se no Hotel Plaza em Nova York, para homenagear John Kenneth Galbraith e Arthur M. Schlesinger Jr., os dois guerreiros do liberalismo do século XX. O evento, patrocinado pelo Instituto Franklin e Eleanor Roosevelt, foi projetado como “uma saudação à democracia”. Esta também foi uma ocasião para relembrar uma era em que o liberalismo seguia como maré alta nos Estados Unidos. O contraste entre o passado e o presente, talvez tenha sido árduo para muitos no auditório, naquela noite. Hoje, o declínio da fé, é espelhado no fato de que lá não havia ninguém da esquerda cuja influencia ou estatura, ainda que remotamente, se aproximasse daqueles que atados às décadas passadas, eram homenageados naquela tarde.

A longa queda do liberalismo nas décadas recentes tem sido, sem dúvida, não justamente árdua, mas uma perturbação revelada por aqueles convencidos de que o futuro poderia ser moldado por seus ideais. A ascensão do conservadorismo talvez revele dupla perplexidade. Mr Galbraith, em 1964, observou: “Estes são, sem dúvidas, os tempos do liberal. Quase todos descrevem a si próprio”. E ambos, ele e Mr Schlesinger, descartaram o pensamento conservador irrisòriamente, como sem substancia intelectual de qualquer natureza. Hoje, o conservadorismo não só ascende na esfera eleitoral, mas o pensamento conservador tem capturado a iniciativa no mundo das idéias também.

Naturalmente, tem sido tentado pelos liberais explicar esta mudança de sorte; porém alguns têm sido acurados, pensativos, ou construtivos. Durante o último ano da campanha presidencial, o tom geral foi bem capturado nos ataques dos liberais a George Bush, qualificando-o como “mentiroso” ou “idiota”, por seguir precisamente a espécie de causa-desdobramento do poder americano a favor da liberdade e democracia, num mundo em que liberais como Galbraith e Sclesinger, certa vez defenderam. Endereçado à ascensão do conservadorismo, a esquerda recorreu a explicações que realçam manipulação e astúcia, com a ajuda de pagamentos por fora aos políticos agigantando-se cada vez mais na historia. As idéias conservadoras jogam, mas muito menos, e são, estes jogos, geralmente caracterizados como armadilhas usadas para interesses corporativos. Uma regra particularmente sinistra é atribuída àqueles conservadores filantropos que tem ajudado nos fundos para pensadores, magazines e instituições de pesquisa, na presunção de que ninguém assumiria idéias ocultas para colocá-las adiante, se não fosse pago para fazê-lo.

Na verdade, a esquerda tem exposto um quase obsessivo interesse nas filantropias conservadoras. Alguns web sites são direcionados inteiramente para mapear as atividades das fundações filiais, estabelecidas pelas maiores corporações poluidoras, como o ativista Robert F. Kennedy as descreve em seu livro “Crimes contra a natureza”. De forma similar, os jornalistas David Brock e Eric Alterman, tem devotado muita energia para expor os projetos garantidos por aquelas instituições, bem como com suas ligações com outras organizações e seus lugares na ampla constelação do ativismo conservador. Relatos do “People for the American Way” e o “National Committee for responsive Philanthropy” , frisam com muita ênfase as supostamente nefandas estratégias e táticas usadas pelas fundações para avançarem em suas causas altamente duvidosas.

Invariavelmente, estes atacantes ignoram a substância das idéias, mais ou menos como se a famosa caracterização dos conservadores como “o partido dos néscios”, feita por John Stuart Mills , ainda fosse a regra no inicio do século XXI. Mas o fato é que os conservadores modernos tem sido engajado com o mundo das idéias de forma muito mais intensa, que a maioria dos liberais modernos. O colunista David Brooks, tem observado que, questionados para nomear as influencias em seus pensamentos, a maioria dos conservadores são capazes de listar um número de livros ou autores, enquanto liberais tem dificuldade de identificar algum. Este claro engajamento com um corpo coerente de idéias gera uma crucial ascensão dos conservadores, no qual eles têm centrado suas fundações.

No período entre o fim da II Guerra Mundial e os dias atuais, a filantropia conservadora chega através de duas fases distintas, entrando agora numa terceira. Surpreendente como isto aparenta: as duas fases anteriores foram definidas por idéias mais que por negócios mesquinhos ou interesses corporativos. A primeira fase, que começa em meio aos anos quarenta, indo bem até os setenta, foi mais guiada por um interesse no liberalismo clássico e libertarianismo que no conservadorismo, da forma como foi entendido mais recentemente. Os principais doadores foram o Fundo Wolker, as Fundações Relm e Eahart, o Liberty Fund, e líderes empresariais como Jasper Crane da Du Pont, Henry Weaver da General Motors, B.E. Hutchinson da Chrysler, e o empresário britânico Anthony Fischer. Aqueles doadores tinham modestas somas à sua disposição, dando juntos ao redor de três milhões de dólares ao ano, comparado com os 300 milhões que a Fundação Ford alocava anualmente na década de sessenta. Lá existiam seguramente importantes diferenças entre aqueles doadores. O Wolker Fund era geralmente libertário, enquanto a Fundação Eahart construía uma ponte dividida entre o liberalismo clássico com sua ênfase na liberdade, e conservador moderno, com sua ênfase na tradição e na ordem. Mas os interesses de todos eles foram, por designação, intelectual e teórico.

A influência seminal naqueles fundadores veio da leitura do livro “ The Road to Serfdom”, de Hayek , publicado em 1944, em Londres, e nos Estados Unidos no ano seguinte. Este delgado volume, uma chamada bem articulada para o combate ao socialismo, transformou seu autor, até então um obscuro professor da London School of Economics, em um herói entre os conservadores e liberais clássicos , em ambos os lados do Atlântico. Nenhum outro escritor àquela época tinha feito uma cobertura contra as idéias e políticas coletivistas com tanta audácia e clareza. Por tal razão, “The Road to Serfdom”, tornou-se o ponto de referencia para todos aqueles que temiam a expansão do Bem-estar Social (Welfare State).

Tido como um dos livros mais influentes do século vinte, “The Road to Serfdom”, causou sensação quando foi publicado, provocando exames e comentários de figuras de proa como Keynes e Orwell, e semeando censura e refutações de razões menos iluminadas. Uma versão condensada apareceu em 1945, no Reader’s Digest , atingindo mais de dois milhões de assinantes do magazine, e provocando bastante interesse em levar Hayek aos US, para um tour de conferências.

O “Road to Serfdom”, promoveu dois amplos temas: um negativo e outro positivo. O primeiro foi que o socialismo encaminhava quase inevitavelmente para a tirania e a perda da liberdade em todas as suas formas. O segundo era que o antídoto para o socialismo seria encontrado no renascimento do liberalismo clássico da forma como foi articulado por pensadores do Iluminismo britânico como Adam Smith, David Hume e Edmund Burke. O livro era de alguma forma altamente pessimista, pois o socialismo avançava em toda parte e tornava-se irresistível. (Para confirmar a análise de Hayek, a eleição parlamentar inglesa de 1945, viu o Partido Trabalhista vencendo na plataforma onde conclamou explicitamente para a nacionalização da indústria britânica, e, vitorioso, atuou para realizar a promessa). Ao mesmo tempo, Hayek viu um caminho lateral, através da reconstrução de uma tradição de pensamento que estava em processo de se perder.

Como o conservadorismo nos dias atuais, a visão de Hayek sofria de uma fraqueza fatal. Repousando na tradição mais que nos princípios, poderia cair lentamente ou resistir, mas nunca alterar fundamentalmente a direção na qual os eventos foram se movendo. Este foi o motivo pelo qual ele entrou em pânico ao enfatizar que ele próprio não era um conservador acima de tudo, mas, ao contrário, um liberal na tradição Whig. (um posterior ensaio dele, foi intitulado simplesmente: “ Why I am not a conservative”). Isto, como aconteceu, foi uma característica do pensamento de Hayek, que apelava em particular aos americanos.

A política americana, como Hayek entendia, foi originalmente construída nos princípios da Liberdade, e sua tradição política foi grandemente influenciada pelos ideais de Whig, de governo limitado e o preceito legal. Como uma conseqüência, defensores da tradição americana, foram eles próprios freqüentemente liberais no sentido europeu. Para americanos interessados na expansão governamental, a alternativa ao socialismo e ao Bem-Estar social não era o conservantismo e sim o individualismo.

Outra contribuição do “Road to Serfdom”, talvez mais influente na longa corrida de Hayek na crítica ao socialismo, foi sua ênfase na importância das idéias no crescimento dos movimentos políticos. Trocando a escalada da histórica escola do pensamento, Hayek insistiu que socialismo e estatismo eram produtos não de forças econômicas fora de qualquer controle, mas de idéias errôneas e destrutivas. Os princípios de Whig, que tinham influencia continental durante os séculos 18 e 19, foram postos de lado pelos pensadores germânicos, de Hegel e Marx, chegando em Sombart e Mannheim, cujas doutrinas coletivistas tinham capturado a imaginação dos intelectuais. Em outro ensaio: “ The Intellectuals and Socialism” (1949), Hayek mapeou uma ampla estratégia a longo prazo para combater esta mudança.

Homem prático de negócios, Hayek escreveu: “ Homens de negócios , acima de tudo, não entendem a linha entre idéias e movimentos políticos, e portanto, não vêem a necessidade para montar uma sustentada defesa intelectual de seus próprios interesses. Ele conclamou seus seguidores a aprender do sucesso do socialismo, o qual tinha se originado como uma construção de teóricos e filósofos, e só mais tarde emergiu como movimento político jogando candidatos para cargos, e apelando para eleitores.

“O que nós perdemos, escreveu Hayek, foi uma utopia liberal, um programa visto não como uma defesa das coisas como elas são, nem uma diluída espécie de socialismo, mas um verdadeiro radicalismo liberal, o qual não limita a si próprio ao que surge hoje como politicamente possível”. O conteúdo positivo daquele programa era necessariamente vago, mas ficou claro que Hayek enxergava um movimento operando ao grau de princípios e teoria, separado das agendas eleitoral e legislativa ou de imediatas controvérsias da vida política. Ele propôs, em outras palavras, uma verdadeira guerra de idéias, que pudesse apelar para o melhor e para as mais fervorosas almas da época, porém, que levasse uma geração ou mais para frutificar.

A plataforma de Hayek, teórica, abstrata e utópica, revelava uma singular base na qual construir um programa filantrópico. Não havia nenhum pretexto promovendo porções de reformas, ajudando um partido ou um candidato, passando alguma legislação, ou, deveras, produzindo conseqüências de qualquer natureza. Entretanto, os filantropos, eu tenho mencionado isto, responderam a este chamado.

Os escritos de Hayek tinham mais ou menos impacto direto na Grã-Bretanha, onde Anthony Fischer (com o encorajamento de Hayek) estabeleceu o Instituto para Affairs Econômicos em Londres, em 1955. Dirigido pelo economista Ralph Harris, o IEA, foi o reservatório original da liberdade de pensamento, publicando livros e panfletos que documentavam as ineficiências do socialismo e dos empreendimentos estatais.

Em 1947, o Fundo Volker enviou um grupo de norte-americanos para a Suíça, para organizar um encontro da Sociedade Monte Pellerin, fundada por Hayek para promover o livre mercado nas economias, e ampliar os ideais do liberalismo clássico. Em conformidade com a visão de Hayek, Mont Pellerin funcionou como um empreendimento exclusivamente para estudantes, evitando debates políticos em favor de um aprofundamento teórico sobre os fundamentos de uma sociedade livre. Um pouco mais tarde, Volker inscreveu Hayek apontando-o como professor de Ciências Sociais, ao título Adan Smith, para a Universidade de Edinburgh, no Comitê de Pensamento Social da Universidade de Chicago e também providenciou fundos para a Universidade de Nova York para contratar Ludwig Von Mises, mentor austríaco de Hayek e amigo.

Em adição àquelas indicações, Volker e outros doadores deram assistência à Escola de Chicago de Economia, assistida por Milton Friedman e George Stigler, e para a escola de Economia Política da Universidade da Virginia, assistida por James Buchanan, os três, mais tarde ganhadores do prêmio Nobel de Economia. Eles sustentaram dezenas, talvez milhares de estudantes graduados, a maioria em economia, mas também em campos afim como administração pública e História, muitos dos quais tornaram-se proeminentes professores por seu próprio mérito. Eles subsidiaram algumas instituições, geralmente de visão libertariana, incluindo a Fundação para Educação Econômica, o Instituto para Estudos Humanos, e o “Intercollegiate Society of Individualists”, que ajudaram a circular orientação de idéias de mercado entre professores, alunos e empresários.

É difícil relembrar hoje quão radical as idéias de um Friedman ou de um Hayek aparentavam ser nos anos 50 e 60, quando o futuro já apontava numa direção de planejamento central, socialismo e bem-estar social. Nesta fase dos acontecimentos, a lei da filantropia existia para manter a vitalidade de um remanescente de pensamento até que este brilhasse novamente, indo outra vez como uma alternativa para doutrinas que tinham falhado. Este movimento não encontrou o seu caminho no vasto mundo da política, e o debate público foi, em parte como temos visto, deliberado: dirigido segundo influencia além dos cabeçalhos do dia. Hayek e seus seguidores evitaram uma estratégia que talvez os tenha incapacitado a encontrar uma audiência ampliada. Mas, trabalhando como eles trabalharam contra as sementes intelectuais da época, tinham também pouco sucesso dentro das Universidades, e sem conquistar uma posição segura na Academia, era pequena a esperança de converter a próxima geração de professores. Em meados de 70, Hayek foi dispensado como um extremista, como um reacionário, e a influencia dos liberais clássicos decaiu.

Se o trabalho das fundações conservatoras neste período atraiu pouca atenção, além de seu círculo imediato- Waldemar Nielsen sequer os menciona em suas histórias: “As Grandes Fundações” e “Doadores de Ouro”- os líderes liberais filantropos foram, em contraste, avançando sua própria agenda com vigor e para aplauso geral. Aquelas fundações, Ford e Rockefeller, juntamente com a Carnegie Corp., guiaram-se pela visão de que o progresso social seria obtido através de sábios do conhecimento e trabalhos científicos, pela expansão de leis governamentais em novas áreas, e pelo uso de organizações internacionais para promover a cooperação entre os maiores poderes. Seus fundos foram bem entrincheirados e se relacionavam com as instituições: universidades, centros de pesquisas, organizações internacionais, e, ocasionalmente, corpos governamentais. Em suma, as fundações liberais formaram uma parte integral do estabelecimento liberal da época, uma circunstancia pela qual foram abertamente criticados (com pouco efeito) pelos conservadores e esquerdas radicais.

Uma significativa mudança na filantropia liberal ocorreu após McGeorge Bundy (diretor em Harvard e conselheiro de segurança nacional nas administrações Kennedy e Johnson), ter sido apontado presidente da Fundação Ford, em 1966. Preferindo ativismo às pesquisas e aos graduados, Bundy promoveu uma estratégia de “apelo filantrópico”. Mais tarde, Ford e outros doadores liberais investiram em um labirinto de grupos ativistas, promovendo feminismo, ações afirmativas, ecologia, desarmamento e outras causas afiliadas. O Fundo de Defesa Ecológica, o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, o Fundo de Leis da Mulher, foram produtos destas iniciativas.

Aqueles grupos consideravam-se representantes legitimados de suas respectivas causas. Naquela capacidade, promoveram idéias que conduziram para legislação, e então buscaram influenciar os corpos regulatórios e as cortes federais que implementavam e interpretavam as leis. Assim, Ford e Bundy, ajudaram a desenvolver uma estrutura institucional que, por meios de litígios e a força que isto exercia sobre as agencias administrativas, puderam puxar programas favorecidos além de qualquer limite contemplado pelos políticos que os decretavam.

Uma estratégia planejada para produzir grandes mudanças logrando o processo eleitoral, foi bem acionada pelas instituições filantrópicas ligando-as a especialistas e advogados. Isto, indiscutivelmente conduzia para resultados: quotas para mulheres e grupos minoritários, a expansão do bem-estar social, novas legislações para o meio ambiente e outras. Isto também produziu alguns barulhos espetaculares, mais notavelmente o esforço feito em 1968, pela Fundação Ford, para descentralizar as escolas publicas da cidade de Nova York. Acima de tudo, a aproximação de Bundy foi o instrumento usado para criar o que até agora é um fenômeno familiar no cenário político americano: o bem colocado grupo de advocacia alimentando um ressentimento contra a sociedade americana, e buscando compensação no interesse de seus membros.

Reforçando esta tendência havia a percepção de que, simultaneamente, o Partido Democrático começava a se alterar ao longo de linhas paralelas. Acompanhando o tumulto para sua Convenção de Chicago em 1968, os democratas estabeleceram uma comissão presidida pelo Senador George McGovern, cujo mandato seviria para tornar o nomeado processo, mais representativo. Rapidamente capturada pelos ativistas liberais, a comissão puxou nova seleção de leis delegadas, requerendo a representação da mulher, negros e jovens, e alinhadas com suas respectivas proporções na população.

O efeito foi desalojar funcionários , partidos oficiais e líderes que controlavam as convenções democráticas no passado, substituindo-os por ativistas falando para grupos determinados. Sob este avanço, os grupos que agora encontravam um lar no partido, enxergavam muito mais do que um Bundy tentou organizar, através da Fundação Ford. Em muitos casos foram os mesmos grupos.

Finalmente, o liberalismo foi reformado de acordo com os interesses de grupos. O Bem-Estar Social foi redefinido através de um pacote de programas no qual os americanos concederam assistência aos pobres, ao doente e ao incapaz, por um sistema no qual certos grupos definidos impuseram o suporte governamental como matéria de direito, e como compensação por injustiças passadas. A sociedade foi moldada como responsável, e os recebedores como suas lamentadas vítimas. Estes prestidigitadores tornaram difícil ao governo requerer dos beneficiários desta ajuda que adaptassem seu comportamento aos padrões da vida de classe média.

Como o liberalismo absorveu gradualmente as antagônicas ascensões da época, os clamores de grupos estabelecidos vieram sempre mais estridentes e as acusações de discriminação e injustiças se multiplicaram. À época, a nova ordem podia apagar aquelas características altruístas da filosofia liberal que apelaram à classe média americana, de 1930 até 1960.

Aqueles desdobramentos não foram previstos. Eles foram, não uma conseqüência de tolerância social ou fatores econômicos, ou pressão social. Antes, foram engendrados por um circulo mesquinho de ativistas com acesso ao dinheiro e influencia dentro do Partido Democrático. Eles também provocaram as avaliações de Hayek, que, alcançando longe preparou uma geração ou mais para substituí-los. Aqui, uma doutrina estabelecida e um partido político, com uma orgulhosa tradição, foram colocados de lado em poucos anos.

Naquele tempo, muitos observadores anotaram as regras usadas pelas fundações de caridade neste apoio. Colocando-se na vida política nacional, os filantropos liberais parlamentaram sua habilidade para consolidar técnicos, grupos de pesquisa e advocacia, num novo potencial para influencia. Com suas vantagens ai construídas sobre políticos eleitos e associações de negócios tradicionais, eles foram a quinta-essência expressada do que viria a ser conhecido como “novos políticos” , políticos largamente dirigidos por idéias. Isto era, sem dúvidas, um crucial desenvolvimento na nossa vida política, e, em resposta, alguns conservadores unidos pelos alarmados ou desiludidos liberais, começaram a buscar um caminho diferente.

Isto nos conduz à segunda fase da filantropia conservadora que começa a tomar forma em meados da década de 70, através do trabalho de um punhado de doadores, em especial as Fundações John M. Olin e Smith Richardison, e mais tarde a Fundação Bradley. O “Scaife Trusts” de Pittsburgh também foi envolvido até certo grau.

Estes fundadores foram mais conscientemente conservadores que libertarianos. Enquanto solidários aos escritos de Hayek e aos ideais do liberalismo clássico, adotaram um tolerante ideário intelectual abrangendo campos além dos econômicos: em especial, religião, política externa e caridades tradicionais. Contrastando com Hayek e seus seguidores, foram também preparados para engajar o mundo dos políticos e a política, e para empreender a guerra das idéias num estilo direto e agressivo.

As próprias fundações foram dotadas por negociantes bem sucedidos que desejavam preservar o sistema das empresas privadas que tinha possibilitado a prosperidade. Em meados de 70, a perspectiva para qualquer daqueles programas era especialmente vaga, mas o senso de nadar contra a maré deu aos seus esforços um ar de revigorada urgência. E eles mais tarde descobriram, no mundo intelectual, um grupo similar de aliados imbuídos com não menos urgência, de prioridades estabelecidas.

Da mesma forma como os antigos doadores olharam para Hayek como guia, aquelas fundações olharam para os neoconservadores. Escritores e editores como Irving Kristol, Norman Podhoretz, Hilton Kramer e Michael Novak , gastaram a maior parte do tempo de sua formação na esquerda. Antes, da mesma forma, Hayek tinha sido influenciado por George Orwell, Lionel Trilling e Raymond Aron, intelectuais da geração de Hayek, que tinham repisado no mal do totalitarismo sob um ponto de vista moral e político. Muitos deles, como Hayek, investigaram sua linhagem intelectual desde o século 18 (Whigs: partido liberal inglês à época), mas, fazendo isto, eles outra vez enfatizaram a moral e a cultura um pouco mais que a dimensão econômica, tipicamente preferindo a “Teoria dos sentimentos Morais de Adam Smith, que sua “Riqueza das Nações”. Em resumo, eles entenderam os fundamentos morais de uma sociedade livre como sendo mais importante que os fundamentos econômicos.

Os neoconservadores tinham uma vantagem adicional: Vindos da esquerda, entendiam os métodos de pensamento contemporâneo dos liberais e esquerdistas. Também entendiam que a guerra das idéias tinha que ser encontrada pelo engajamento nas controvérsias da realidade, com estacas assentadas no futuro. Através de seus escritos, e através das advertências que foram capazes de oferecer, ajudaram a orientar as fundações conservadoras para a contestação futura fazendo uso das idéias estabelecidas que poderiam governar a Nação.

A política mundial que esses escritores viram ao redor deles nos anos 70, era muito diferente daquela que preocupava Hayek em 1944, em Londres. Ao invés de liderar-nos sob a trilha do coletivismo, o bem-estar social produzira fragmentação, conflitos de grupos, desordem e perda geral de autoridade na sociedade. Nos Estados Unidos, além disso, o bem-estar social avançara não através da nacionalização das indústrias, mas através da expansão do incremento dos programas sociais, e aumento dos poderes regulatórios federais. Era a intersecção daqueles programas com a revolução cultural dos anos 50 e 70, que ascenderam, da forma como os neoconservadores viram, para o crime urbano, ilegitimidade, destruindo famílias e causando falhas educacionais. O problema contemporâneo era assim não tanto coletivismo ou socialismo, mas a perda da moral e da confiança em si mesmo que, em alguns caminhos é característica de todas as sociedades afluentes , um problema para o qual o liberalismo clássico não prometeu nenhuma solução óbvia.

Contrastando com o liberalismo de Hayek, o neoconservadorismo jamais desenvolveu uma única teoria de governo, economia ou sociedade. Como movimento foi mais uma persuasão, como Mr Kristoll chamava isto, ou como uma tendência, como Mr Podhoretz descrevia isto. Rejeitando ortodoxias e teorias abstratas igualmente, os neoconservadores tendiam a operar próximo a futuros eventos. Mr Kristoll pensava com simpatia em Hayek já que escreveu que “ele dava a impressão que considerava a realidade um enorme desvio da doutrina”.

Pegando com tal estresse o porvir, os neoconservadores drenaram a ciência social para acessar as conseqüências práticas dos vários programas e políticas relevantes do moderno bem-estar social. Documentando as conseqüências perturbadoras das iniciativas que prometiam o fim da pobreza ou a transformação das cidades, analistas como James Q. Wilson e Charles Murray, demonstraram que as idéias adotadas com a melhor das intenções foram pioradas. O efeito daqueles estudos jogou água fria nas enormes expectativas que haviam sido fomentadas pelos teoricos liberais e ativistas. Como as promessas estavam abaixo das expectativas, também estava o momentum atrás do bem-estar social.

Não que por principio os neoconservadores fossem contra o bem-estar social, ou necessariamente tivessem abraçado ou libertado o mercado como uma alternativa. Eles criticaram o bem-estar social porque este desmoralizou os pobres e os tornou dependentes do governo, e também objetaram duramente as bem adestradas medidas para ajudar os desempregados. Um bem-estar social conservador, que encorajasse ao trabalho, e os valores da classe média, era algo que poderiam endossar. Em política externa, acreditavam que a Guerra Fria era um vital esforço moral e político, e rejeitaram os esforços para conciliar a União Soviética, como ingênuo e pior. Em outro tempo, eles seriam chamados de liberais; nos anos 70, e além, foram definitivamente conservadores.

Como Hayek, os neoconservadores esperavam um importante papel dos intelectuais, mas eles não estavam preparados para que uma plena geração de seus esforços produzisse resultados. Era claro que intelectuais liberais e alas esquerdas promoveram idéias e programas que ficaram asperamente fora de influencia para a vasta maioria dos americanos. Isto abriu uma oportunidade. O trabalho do conservadorismo como disse Kristol, era mostrar ao povo americano que eles estavam certos e os intelectuais errados. Acima de tudo, isto é mais ou menos o que aconteceu.

O que os neoconservadores entenderam era que nenhuma aversão por capitalismo, nem a tendência para o socialismo eram uma função da análise econômica. Em meados dos anos 70, a promessa econômica do socialismo estava morta, sendo óbvio para qualquer um, que as economias socialistas não poderiam sempre alimentar seu próprio povo. O que atraia os intelectuais liberais para o socialismo era algo mais: forçosamente, a idéia de comunidade, na qual eles contrastaram individualmente para o individualismo e competição de uma sociedade de mercado.

Assim, como Mr Kristol e outros argüiram, uma defesa efetiva do capitalismo requer uma defesa das conquistas culturais nas quais uma civilização comercial é baseada. Teria que ser mostrado, que sociedades livres encorajam valores muito superiores sobre qualquer outros que o socialismo pudesse dar.

As fundações liberais seguiram este comando. Pensando prosseguir no financiamento de programas na economia de livre mercado, eles também doaram nos campos da história, filosofia, governo, arte e literatura. Considerando religião, moral e casamento como sendo tão importantes quanto economias e mercados, aproximaram-se destas. As fundações esforçaram-se por mudanças em cada área principal de debate e controvérsia. Alocaram fundos para instituições proeminentes, incluindo ILU ( Ivy League Universities) onde as idéias conservadoras foram minoria, e providenciaram o financiamento de magazines e jornais endereçados à um spectrum de matérias controversas.

Aqueles magazines, eles entenderam, foram produzidos não somente para a venda no mercado onde o empresário pudesse vê-los, mas também para Instituições com responsabilidades futuras, reputações a serem construídas e preservadas, e redes de trabalho de autores e financiadores. Acima de tudo, foram semeadores de idéias, cuidando de novos talentos. Não só o seu efeito cumulativo cresceu, mas artigos individuais publicados também puderam gerar conseqüências que alcançaram longe.

Os magazines neoconservadores “Comentário” e “Interesse Público” em particular, rotineiramente publicaram autores cujas críticas das idéias liberais e políticas foram factuais, direta e cruelmente lógica, e cujas análises apontavam o caminho para toda a reforma do bem-estar social no final dos anos 90, como paradigma alterando a política global americana que está sendo feita na administração Bush. Lá se encontrava também o “New Criterion”, um jornal de literatura e artes editado por Hilton Kramer e, o “The National Interest”, um periódico trimestral criado por Mr Kristol, e, por muito anos, editado por Owen Harries.

Com uma aproximação diferente e ênfase para o conservadorismo moderno, os neoconservadores ampliaram seu apelo, tornando isto mais efetivo na política mundial, e ajudando numa adaptação às mudanças dos tempos. O avanço dos conservadores nas recentes décadas deve muito a eles, e às suas parcerias com as fundações conservadoras.

Ainda ajudando instituições moldadas pelos neoconservadores, as fundações suportaram magazines, “think tanks”, e centros de estudos liderados pelos economistas do livre-mercado, libertarianos, conservadores religiosos e os eternos filósofos straussianos. Quando Ronald Reagan foi eleito em 1980, foi em algumas daquelas organizações que ele pode pesquisar e buscar informação. Quando George Bush foi eleito em 2000, havia uma proliferação daqueles grupos trabalhando ativamente em cada área das políticas públicas. Aquelas organizações tendo desenvolvido idéias e cuidando dos talentos, superaram os tempos e ajudaram a mudar a balança do poder entre liberais e conservadores nas América.

Tudo isto foi executado com modestos recursos financeiros, espantosamente modestos quando comparados com o que foi gasto pelos liberais. Recentemente, as cinco organizações liberais filantrópicas líderes, Fundações Ford, Rockefeller e MacArthur, a Pew Trusts e Carnegie Corporation, juntas noticiaram fundos de US $ 24 bilhões , e gastos anuais de US $ 1.2 bilhão. Contrastando, os fundos combinados das cinco maiores fundações conservadoras não excederam US $ 1.5 bilhão, e seus gastos anuais declarados atingiram US $100 milhões. Entretanto, eles foram capazes de alcançar uma grande porção com foco e disciplina, e por se aliarem a uma geração de escritores e estudantes de talento incomum.

A rede de publicações, programas universitários e centros de estudos construídas a partir de 1970 em diante continuou influenciando nos anos seguintes. Mas como sugeri no princípio, esta fase da filantropia conservadora segue agora o seu curso, em parte porque tem feito o seu trabalho, em parte porque as condições mudaram, e, em parte porque alguns dos principais doadores estão deixando a cena. Nas décadas futuras, novos financiadores, agora entrando em campo, delinearão o próximo capítulo da filantropia conservadora.

Esta próxima fase será necessariamente diferente daquelas que a antecederam. De um lado, a filantropia conservadora será baseada mais nos indivíduos, como tem sido o caso até agora. A prosperidade das últimas décadas, acompanhando o sucesso dos grupos e idéias conservadoras, criou uma coorte daqueles indivíduos, alguns com enorme riqueza, senão bastante mais prósperos para fazer doações significantes para os empreendimentos conservadores. Ao mesmo tempo, algumas fundações conservadoras – Olin, especialmente, dentre elas- gastam ou intencionam gastar fora dos negócios acordados com o desejo de seus fundadores, e outras tem começado a transferir suas prioridades.

A razão para esta mudança tem a ver com o fato que o conservadorismo está se tornando uma filosofia de governo, e governar se apóia na prática. Esta é uma evolução natural de um movimento que tem assumido responsabilidade nacional, e que precisa trabalhar com itens da agenda: bônus escolar, contas de aposentados, reformas legais, eliminação de taxas estaduais e, seguindo adiante, propor e decretar. Alem disso, vários doadores conservadores têm, eles mesmos, se envolvido na promoção de uma ou outra política especifica, vendo a aprovação de leis ou a implementação de uma reforma como a mais tangível medida de seu sucesso.

Significa isto uma necessidade futura de sustentar e renovar a base intelectual do conservadorismo? O dinamismo da vida Americana, e a implacável competição entre partidos políticos, os interesses de grupos, forçam cada movimento de idéias a testá-las em bases mais ou menos continuas, quando isto significa sobreviver e florescer. Qualquer um precisa só pensar sobre isto para render tributo aos senhores Galbraith e Sclesinger, e para se lembrar da precária e temporária natureza da influencia intelectual.

O conservadorismo tem efetuado este processo de renovação mais plenamente que qualquer de seus competidores no pós-guerra. Isto tem sido feito não através de uma ênfase na política, mas muito mais por vastos argumentos sobre onde temos ido, onde devemos ir, e que ameaças e obstáculos existem em nosso caminho.

“Quem é dono do futuro?”, Orwel perguntou. Esta é a grande questão da vida e a grande questão da política. Alguns querem ser persuadidos a abraçar o conservadorismo somente nos terrenos em que isto promova considerações sobre Segurança Social Privada, ou cubram obrigações julgadas. Afinal-como vimos dramaticamente atualizados no furor nacional sobre o destino de uma mulher se agarrando à vida sendo alimentada através de um tubo num hospital da Flórida – o ataque sobre o futuro, é cultural e moral.

Neste sentido, Hayeck e os neoconservadores tem estado corretos todo o tempo: qualquer movimento quer seja para manter ou argumentar sua influencia, precisa ser empreendido na futura batalha de idéias. Para assim fazer, os conservadores, não menos que os liberais, precisam da ajuda dos simpáticos filantropos.

O presente artigo foi publicado no Comentary de maio/2005, do WSJ.com OPINION JOURNAL, do The Wall Street Journal Editorial page.

Discurso equivocado

Thursday, August 30th, 2007

Regina Caldas

21/10/2003

Em Janeiro de 2002, num encontro de paises ricos, realizado no prédio do Fórum das Américas, situado em Nova York, um figurão das finanças mundiais perguntou ao secretário do Tesouro do Governo Norte-americano, John Snow, por que o FMI cobrava juros tão altos do Brasil. A resposta foi curta: “Por causa da corrupção”. Estranhamente, até o presente momento, jamais soube que o Governo Brasileiro ou alguma outra entidade nacional manifestasse repúdio à resposta do Sr Snow.

Recentemente, discursando na ONU, nosso Presidente, Sr Luiz Inácio da Silva, responsabilizou os países ricos pelo aumento da pobreza mundial. Segundo a ótica presidencial, apesar do colonialismo ter chegado ao fim, tal fato ocorreu apenas no âmbito político, pois para fins comerciais o protecionismo, a concentração dos investimentos e da tecnologia seriam barreiras excludentes aumentando o fosso entre ricos e pobres. Este tipo de discurso já não é mais novidade para ninguém. Ao contrário, tornou-se a bandeira preferida das ONGs que se postam diante dos portões de hotéis, estações de ski, ou estâncias onde os representantes dos paises mais influentes se encontram para discutir o Mundo. O interessante é que, num encontro como o desta semana ocorrido na ONU, onde se fizeram presentes 137 países, os jornais não nos informaram da presença de nenhum desses grupos. Não seria uma excelente ocasião para que estas ONGs clamassem por justiça social?

O discurso do Presidente é equivocado. Serve apenas como respaldo de um tremendo engodo. Porque sabemos que os maiores responsáveis pela pobreza no mundo são os governos incompetentes e corruptos. É fácil comprovar esta verdade. Basta rever a história recente de alguns povos dentre os mais pobres. Filipinas, Indonésia, Haiti, Cuba, Iraque, e tantos outros. São países onde o desvio de dinheiro para os bolsos de seus governantes gera a miséria que recai sobre os ombros de suas populações. Quem nunca ouviu falar da impressionante e caríssima coleção de sapatos da Senhora Imelda Marcos mulher do ex-governante filipino, Ferdinand Marcos? Quem não se lembra de um dos escândalos de corrupção na URSS, quando fotógrafos revelaram a suntuosa casa de campo da Ministra da Educação? Fora da Rússia, é claro! Alguém já se esqueceu do famoso Papa Doc, lá do Haiti, país assolado por uma dolorosa pobreza enquanto o seu medíocre presidente passava suas férias em Paris vivendo de forma nababesca? Quem lê a revista Forbes, sabe que Fidel Castro está na lista das maiores fortunas mundiais. E o Sadan Hussein? Com a conivência da ONU, não é ele o protagonista do escândalo denominado “Oil for food?” Sadam Hussein, tendo sido autorizado a vender petróleo embargado desde que o produto das vendas fosse revertido em alimentos para a população iraquiana, não honrando o compromisso assumido, trocou petróleo por armas. Desviou fortunas para bancos franceses, tendo como beneficiários sua própria família. E além de incontáveis práticas criminosas usadas para reprimir o seu povo, Sadan mandou construir luxuosos palácios para habitar com seus familiares de acordo com a época do ano e de seus humores. A Indonésia sofreu uma bancarrota no final de 98, que abalou o mercado financeiro internacional. Na ocasião, num editorial, o Economist revelou que a maior parte do dinheiro que a Indonésia tomava emprestado dos bancos internacionais de investimentos, era desviado para os negócios particulares da família Sukarno, que governava o país. A família Sukarno controla ainda hoje, quase toda a economia do país! No Brasil, escândalos por corrupção estão sempre na ordem do dia.

Quanto à incompetência para governar é desnecessário falar a respeito. Pois, quando um governante assume o comando de sua Nação, intencionado a usufruir o poder em benefício próprio, ele pouco está se importando em governar no interesse do povo.

Basta de discurso equivocado! O próprio presidente tem dado testemunho do quanto os paises ricos ajudam os pobres. Toma a iniciativa de socorrer financeiramente países vizinhos, e tem perdoado dívidas de paises africanos. E certamente não ignora que o volume de ajuda em dinheiro e outros bens que os Estados Unidos dão aos paises pobres têm sido em quantidades inimagináveis. Torna-se uma questão de consciência para o nosso Presidente, aproveitar de seu carisma para gritar a única verdade responsável pela pobreza no mundo: CORRUPÇÃO E INCOMPETENCIA DAQUELES QUE GOVERNAM OS PAISES POBRES.

É necessário que organismos dedicados a investimentos internacionais como o Banco Mundial, por exemplo, encontrem meios de tornar realidade o que pretendiam por volta de 1996 ou 97, quando publicaram alguns anúncios em revistas especializadas como o Economist, propondo financiar projetos de desenvolvimento regional, repassando o dinheiro direto para os autores dos projetos aprovados, sem a intermediação de governos. Só assim, os empréstimos dos investidores internacionais não serão repassados para as mãos de governantes corruptos e beneficiarão as populações pobres sem onerá-las com o peso resultante da malversação de fundos que costumeiramente faz quem os governa.