Archive for the ‘Pequenas Histórias’ Category

Andréia (Jorgel E. M. Geisel)

Tuesday, July 1st, 2008

Andréia,

vestido vermelho,

busto empinado,

lábios sem pejo,

louco, enciumado..

E o amor sumido,

De olhar perdido,

nem notara o vestido….

Agora, Andréia, despida,

tão sozinha no leito,

sabe que, apenas, sonhara!….

Resposta de uma amiga ao texto “Um vestido vermelho de baile”

Sunday, June 29th, 2008

Vestidos de todas as cores: querida que lindo! fiquei mesmo emocionada! Sabe todas nós já tivemos um vestido…vermelho na vida…ou a vida toda. ..Um sonho, o vestido de noiva trocado por um casamento sem festas, um vestido branco de debutantes …para dançar com quem não apareceu, o de veludo preto!! de uma mulher feita , e que alguém nem percebeu…E fomos vivendo. Hoje, não importa a cor do vestido, ousamos sonhar. E isso é o que vale! MSOA

Um vestido vermelho de baile

Sunday, June 29th, 2008

12/01/1965

 

 

Um diáfano véu de sereno dá à noite um ar de mistério e de quietude. Além do clube de campo, as luzes noturnas parecem estrelas aprisionadas pelos cactos e palmeiras que ornam o jardim. Vaidosa pelo belo vestido que veste, Andréia caminha pela alameda florida aspirando o perfume dos manacás. A noite é de festa, e ela espera fazer sucesso no salão de danças. Ninguém ainda chegou, ela veio cedo e por alguns momentos seguirá tranqüila pela trilha que leva até a beira do lago. Deixará que o frescor da noite acalme sua ansiedade antes da festa ter início. Encontra um envelhecido banco de madeira acostado no tronco de uma árvore e senta-se. Seus pensamentos se voltam para Henrique. Planeja a chegada de seu amor, enquanto olha demoradamente os contornos das matas além do lago. Romântica, deixa que a imaginação traga seu enamorado para junto de si. Ele surge das matas, levita sobre o lago, aproxima-se e lhe estende as mãos. Levanta-a, toma-a nos braços e dançam ao som dos suaves acordes que a brisa traz. A natureza improvisa uma orquestra com o murmúrio das ondas do lago agitadas pela brisa, o farfalhar das folhas que caem ao solo intercalados pelos acentos agudos dos pássaros noturnos. Andréia reclina-se sobre o ombro de Henrique que a envolve com ternura, e espera pelo tão sonhado beijo que dará á noite o toque de magia. Movida pelo sonho, a jovem se levanta e se põe a dançar. Seu vestido esvoaça e acompanha os movimentos de seu corpo. Suas mãos entregam-se a gestos de carinho nas faces de Henrique. Ela flutua entre as nuvens. Está apaixonada!

O tempo passa. De longe uma cascata de sons desperta Andréia de seus devaneios. O baile começou. A jovem se dirige ao salão, e tímida segue devagar a procura de apoio nos amigos. Encontra Marina. Seu belo vestido chama atenção e atrai elogios:

-“ Você está linda Andréia! O vermelho lhe cai bem!”

Andréia relembra o quanto lhe custou em tempo e dinheiro o desejado vestido.

Certa tarde, enquanto aguardava atendimento no consultório de seu dentista, folheava revistas de moda. Uma delas, Vogue, era sofisticada e feita em papel acetinado. Nunca se cansava de folhear tais revistas, beleza demais a engendrar sonhos e desejos secretos em sua cabecinha juvenil. Naquele dia as páginas exibiam desfiles de moda, páginas e páginas que a transportaram para um mundo que talvez jamais conheceria ao longo de sua vida. Numa destas apaixonou-se por um longo vermelho cereja, tafetá ondulado, decote bateaux preso sobre os ombros por um pequeno bouquet de pérolas. Como as festas de fim de ano se aproximavam, discretamente ela arrancou a página e a guardou em sua bolsa. Tempos depois saiu à procura do tecido. Não o encontrou nas lojas da cidade. Encomendou-o à uma tia residente na capital. Logo o correio lhe entregou a encomenda, e a seguir ela viveu momentos que tanto agradam às mulheres: agendar hora com a modista, as várias provas, o vestido no guarda-roupa e a espera de usá-lo.

Quase meia-noite. Nada de Henrique. Para não perder o momento de sua chegada, Andréia recusa convites para dançar e permanece quieta em seu canto, com os olhos fixos na larga porta de entrada do salão. O tempo passa, ela procura desculpas para a ausência do amado. Imagina-o na estrada, acidentado talvez, e sente a garganta sufocada pelo receio que isto seja verdade. De repente seu coração se acelera, Henrique chegou! Desacompanhado, impecável como sempre, olhinhos alegres que perscrutam o salão. A inquietação atormenta Andréia. O rapaz parece não vê-la. Impossível! Seu vestido vermelho chama a atenção, conclui.

A orquestra inicia uma série de blues. “Savoy blues”, “ That’s when I’ll come back to you”; “My heart”; “You’re next..” Uma seqüência de melodias românticas que qualquer casal apaixonado gosta de dançar juntinho e manifestar com gestos de carinho o que um sente pelo outro. Andréia cerra os olhos e espera que Henrique venha convidá-la para dançar. Mas ele não se aproxima, ela reabre os olhos. Ele está á sua frente e dança com outra! Que imagem dolorosa, que sentimento de frustração. Lágrimas turvam sua visão, como se assim evitasse vê-lo nos braços de outra. Afasta-se discretamente do salão e vai para o terraço. Ninguém está ali, ninguém bisbilhotará suas lágrimas. É o cantinho ideal para chorar sem ser vista. Com o rosto entre as mãos, ela não percebe a aproximação de Henrique. Ela chorava, poderia lhe dizer por que? Ela não lhe dá resposta e ele se despede com um leve gesto de adeus.

A noite recende ao perfume das madressilvas. Andréia respira fundo o penetrante perfume das flores e suas mãos deslizam trêmulas sobre o tafetá de seu vestido. Seu pensamento tenta se agarrar aos momentos em que esteve á beira do lago quando delirava fantasias de amor. Tudo ilusão, ela sabe que a noite acabou. Sem se despedir dos amigos retorna à cidade. Estaciona junto à praça e caminha um pouco. Anda a esmo, sem ouvir os lamentos dos bêbados, sem ouvir quando o relógio da catedral soa cinco badaladas. Sequer percebe que àquela hora as portas dos bares e padarias são abertas, e o aroma do pão quente e do café inunda a praça. A mágoa tira-lhe a razão das coisas simples da vida, embota sua percepção. Os lábios se contraem num ricto de amargura ao relembrar quantas vezes Henrique lhe fez a corte. Como soube alimentar sua esperança com olhares apaixonados quando a seguia pelas ruas. A esperança a fez investir num sonho. Suas lágrimas escorrem abundantes pelo decote, suas mãos torturam as saias num gesto de dor.

O sol inunda de luz a praça e o casario ao redor, e Andréia se retira. Em casa, refugia-se em seu quarto, despe-se, atira com desprezo sobre uma poltrona o lindo vestido. Como um bebê desamparado encolhe-se na cama, e o cansaço a faz adormecer. Raios indiscretos de sol atravessam a janela de seu quarto, escaldam o corpo da jovem, e compassivo se reflete num vestido vermelho de baile. Um vestido que agora relembra apenas uma ridícula fantasia…