Archive for July, 2007

Corvina

Sunday, July 29th, 2007

Regina Caldas

17/09/2006

Davies, Norman; Europe; Oxford University Press; 1996; page 522

Tradução Regina Caldas

Certa ocasião, em 1.460, Corvinus, rei da Hungria, iniciou uma coleção de livros. Sua paixão foi inspirada pelo seu velho mentor, Janos Vítez, Bispo de Várad (Oradea), e pelo sobrinho do bispo, Janos Csezmiczei. Ambos foram eruditos educados na Itália, e ardorosos bibliófilos. O primeiro dos dois recebeu a primazia do bispado húngaro e o último, como “Janus Pannonius” liderou os poetas latinos da época. Mas ambos caíram em desgraça por uma mudança política, o bispo aposentou-se e o poeta cometeu suicídio, e o rei encampou suas bibliotecas.

Em 1.476, Matthias casou-se com Beatriz de Aragão, que levou sua rica coleção de livros de Nápoles. Em 1.485, o rei capturou Viena, tecendo planos para uma nova monarquia húngaro-austriaca, cujo centro cultural seria a Biblioteca real, que estava sendo construída em Buda. Dirigida por um staff de arquivistas, copistas, tradutores, encadernadores e ilustradores, e por uma rede transcontinental de agentes, a Biblioteque Corviniana foi designada para ser uma excelência no resgate das letras na Europa. Deveria superar a magnífica Biblioteca de Lorenzo “O Magnífico” de Florença.

Nenhum dos desejos do rei Matthias tornou-se realidade. Quando ele faleceu em 1.490, seu filho não o sucedeu. Os Habsburgos recuperaram Viena, enquanto os nobres se rebelaram contra seus impostos. O trabalho na Biblioteca parou. Quando os Otomanos capturaram Buda em 1.526, a Biblioteca foi pilhada. Muitos de seus conteúdos, incluindo 650 manuscritos antigos, de valor único, desapareceram.

Entretanto, nem tudo se perdeu. No quinto centenário da morte do Rei Matthias, a Biblioteca Nacional´Húngara, montou uma exposição para reunir os tesouros sobrados. Soube-se então, que a rainha Beatriz havia maquinado para devolver alguns itens para Nápoles. Sua nora levara outros para a Alemanha. Mary, irmã de Charles V, quando rainha da Hungria, levou alguns volumes para Bruxelas. Mas o fato mais importante é que o estoque de livros pilhados pelos otomanos e levados para Constantinopla, foram usados durante séculos como um fundo para presentear embaixadores estrangeiros. O inestimável catálogo descritivo da Corviniana, preparado pelo agente do rei florentino, Naldo Nadi, foi presenteado por um sultão, para o Embaixador polonês, e preservado em Torun. As tragédias de Sêneca, presenteadas ao Embaixador inglês, estão em Oxford, O bizantino “Book of Ceremonies”, foi preservado em Leipzig. Vinte e seis manuscritos enviados para Francis-Joseph, foram encontrados em Viena. Outros encontraram seu caminho na Biblioteca do Duque Augustus de Wolffenbüttel. Em Uppsala, estavam peças de acervos que o staff da rainha Christina pilhou de Praga…Madri, Besançon, Roma e Volterra.

A exposição de 1990 contém apenas fragmentos da coleção perdida. Mas foi o suficiente para mostrar que bibliofilia foi uma urgência para o coração da Renascença. Em tamanho e variedade, a Biblioteca Corviniana só foi superada pela do Vaticano.

Bibliotecas

Sunday, July 29th, 2007

Regina Caldas

Março/2006

O dia do meu nascimento foi comemorado com um brinde ao futuro: meu pai me presenteou com o livro “O Mundo em que Vivemos”, de H, van Loon, muito comentado na época. Amante da leitura, papai escolheu um presente que simbolizasse a esperança de que a filha recém-nascida viesse a curtir a boa leitura.

Citando Dante no vestíbulo do Inferno, “nel mezzo del camino”, também ultrapassei a meia idade. E é tempo de viajar pelo passado. Posso concluir que aquela esperança de meu pai não foi em vão. Querem ver? Acompanhem-me na viagem que juntos faremos pelo circuito de todas as bibliotecas que freqüentei ao longo de minha vida.

Eu ainda engatinhava. Mas que prazer sentia quando colocava minhas mãos nos livros que meu pai lia. (ou será que eu apenas queria que ele se distraísse comigo?) Ou então, de segurar ainda de forma frágil, a velha gramática em alemão gótico na qual minha avó tivera contato com a língua materna. O livrinho, amarelado pelo tempo me fascinava pelo desenho das letras góticas. Talvez este pequeno livro tenha sido o responsável pela rapidez com que fui alfabetizada por volta dos seis anos de idade. E tão logo aprendi a ler, tornei-me freqüentadora assídua e fascinada da biblioteca de meu pai. Ele era bioquímico, e parte de seus livros de estudos era escrito em inglês, francês e espanhol. Tal constatação fez-me entender desde cedo que o mundo era bem maior do que os horizontes que eu divisava além das janelas de minha casa. Entendi que existiam outros povos falando línguas diferentes da minha, que também se manifestavam através de outras culturas, algumas muito mais evoluídas que a de meu país. Deduzi que além da necessidade de conhecer outras línguas deveria iniciar-me nos estudos de História e Geografia.

Quando aos sete anos entrei para o Grupo Escolar levava comigo o anseio genuíno de descobrir o Mundo através dos livros. Mas logo percebi que a Escola caminhava lenta, e que só nas bibliotecas eu haveria de compatibilizar a minha pressa em adquirir conhecimento com a capacidade de absorvê-lo. Cada vez que me dirigia à bibliotecária da escola a fim de registrar a retirada de um livro, eu tremia de emoção. Levava para casa um livro que partilharia comigo meus momentos de solidão passados sob a copa de uma frondosa mangueira!

Os livros retirados da biblioteca escolar marcaram alguns momentos do mais puro deleite em minha vida. Torno-me criança quando relembro trechos das leituras de Monteiro Lobato. Àquela época, debruçava-me sobre a terra do quintal, enquanto conhecia a comunidade das formigas. Minha imaginação prendia-se ao formigueiro e, ora eu me tornava uma laboriosa formiga acumulando as folhas das plantas e apreensiva com a proximidade do inverno, ora dançava sob a versão generosa do conto infantil “A Cigarra e a Formiga”, na qual a imprudente é perdoada e vem alegrar com o seu canto o inverno no formigueiro. Volto a ser criança quando sobre meus joelhos outras crianças se debruçam ouvindo atentamente as historias que lhes conto. A imaginação infantil amplia sobremaneira sons, cores e movimentos. Assim, armazena de um jeito especial qualquer conhecimento. Mesmo não sendo psicóloga ou pedagoga, creio que muito do que somos é fruto das experiências que temos durante a infância, em especial aquelas adquiridas nos livros que lemos. Não se trata apenas de reafirmar a frase bastante comum de que os livros alargam nossos horizontes. Os livros significam muito mais em nossas vidas. São nossos companheiros de jornada e nos servem de bússola, estímulo e alegria. Outro ponto relevante, é que, quando saímos do espaço em que vivemos, e nos transferimos para os espaços que encontramos nos livros, nossas experiências de convivência nos educam sobre as diferenças culturais

Os livros preenchem nossos momentos de solidão. Fiz o final do primário e o ginásio num internato na capital. A distancia obrigava-me a passar todo o período letivo sem a visita de meus pais. Minha distração era após o almoço do sábado e do domingo recolher-me na biblioteca do colégio. Li o Tesouro da Juventude e a vida da maioria dos Santos. Além de distanciar-me dos sentimentos de saudades da família misturados com a inveja que sentia das amigas que eram visitadas pelos pais, aquelas leituras sedimentaram a formação de caráter que eu recebera em casa e no colégio.

A partir de um certo momento, quando eu já me encontrava em casa para seguir adiante com os estudos, coube-me o privilégio de cuidar da nossa biblioteca e discoteca. E nesta época fui assídua freqüentadora da biblioteca de tia Paula. Ela era casada com um jornalista muito culto e a biblioteca de sua casa era excepcional, com muitas raridades. Generosa, tia Paula permitia-me levar qualquer de seus livros para casa. Foi um período em que li livros de grande impacto como Les Inquisitions, e as biografias de muitos imperadores romanos além de alguns filósofos. Li também a obra de Albert Schwaitzer, organista alemão especialista em Bach e que aos trinta anos de idade foi cursar medicina. Finda a Faculdade, o dr Schwaitzer foi residir com sua família em Lambarenné, colônia que à época pertencia à França. Sua vida, dedicada ao hospital que construiu em plena selva africana calou fundo em minha memória. Um exemplo de amor e generosidade que jamais perdi de foco.

Ler é uma benção dos céus. Entrar na Rússia trágica de Dostoievski, navegar pelas águas do Mississipi de mãos dadas com Mark Twin, deixar-se levar pelo Minuano ou infiltrar-se nas sociedades urbanas com Machado de Assis e Eça de Queiroz, sentir as poesias apaixonadas de Fernando Pessoa ou derramar lágrimas com Inês de Castro, rir com as aventuras do Asterix , só através dos livros. O livro é tal qual o Universo, infinito com seus milhões de personagens e ambientes, são estrelas iluminando nossas estradas para sempre.

Tirania

Thursday, July 26th, 2007

                                                     Regina Caldas, 24/03/2006

 

 

 

“Tirania e Liberdade não se podem considerar isoladas, mesmo se, vistas temporalmente, se revezam uma à outra. Não há dúvidas que se pode dizer que a tirania suprime e aniquila a liberdade-mas, por outro lado, uma tirania só pode ser possível, quando a liberdade se domestica e se volatiliza no seu conceito vazio. O ser humano tende a confiar no aparelho político ou ainda a submeter-se-lhe, quando devia haurir das suas próprias fontes. O que é uma falha em imaginação. Ele tem de conhecer os pontos nos quais não pode deixar que a sua decisão soberana seja negociada. Enquanto as coisas estiverem em ordem, a água estará canalizada e a corrente elétrica ligada. Se a vida e a propriedade forem ameaçadas, um grito de alarme fará afluir magicamente Bombeiros e Polícia. O grande perigo está em que o ser humano conta em excesso com estas ajudas e fica desamparado quando lhe faltam. Todo o conforto tem de ser pago. A situação do animal doméstico arrasta atrás de si a do animal de abate”

                                                                  Ernst Junger em “O Passo na Floresta”.

 

 

 

 

   Quem ama a Liberdade e abomina a escravidão vê a tirania como o fim daquela e o principio desta.

     A palavra tirano originou-se na Lídia e não na Grécia como normalmente se imagina. Segundo Heródoto (I.8, ss), o vocábulo designaria alguém que tomasse o poder de forma ilegal e não para qualificar moralmente o exercício deste poder. Àquela época a palavra que mais se identificava com o conceito moderno de tirano era déspota. Foi na Grécia que o vocábulo adquiriu nova interpretação, quando o tirano Pisistrato governava Atenas (600-527 aC), com o apoio dos agricultores. Seus filhos, aproveitando-se do poder paterno, dominaram os espaços públicos como se fosse privado (abuso de poder), e terminaram banidos e mortos. Desde então, tirania passou a ser vista como poder absoluto, onde, entretanto o governante não perde o senso de que representa a vontade popular.

     Se o tirano Pisistrato em Atenas foi adorado pelo povo, pois fizera a reforma agrária e deu subsídios, mais tarde em Roma, Gaius Julius Caesar Germanicus, apelidado de Calígula, imperador romano, passou para a História como o exemplo do tirano depravado e cruel que se serve do poder para impor todos os seus caprichos.

     Alguns tiranos gregos promoveram reformas necessárias ao desenvolvimento de suas cidades, dando origem a períodos de grande afluência como foi o caso de Atenas.

      Enquanto na Grécia o tirano procedia em geral da aristocracia, nos governos ocidentais contemporâneos é comum que saia das massas encabeçando movimentos populares de descontentamento, não raro associado ao poder militar. É uma figura demagoga, é o caudilho que conquista a confiança das massas.

     Na atualidade tirano tem conotação negativa, sendo a tirania considerada a pior forma de governo, pois representa o mau uso do poder e abuso daqueles que lhes estão sujeitos.

     Dois governantes modernos se contrapõem como exemplo de tirania. Tito da Iugoslávia, e Fidel Castro em Cuba. Josip Broz Tito (croata), comunista que participou da I Guerra Mundial, e que ao final da II, liderou o governo federal, vindo a controlar a Iugoslávia com mãos de ferro. Liderada pelo comunista Tito, a Iugoslávia foi o único país que possuindo ligações com o Ocidente, rejeitou Moscou, desvinculando-se do Cominform.  Tito era stalinista com um sujo passado de repressões, mas tornou-se um dos principais expoentes do não-alinhamento durante o período da guerra fria Soube como poucos controlar as etnias que formavam a Confederação Iugoslava. Na economia incluiu os trabalhadores na gestão das fábricas. Do lado oposto da moeda está Fidel Castro, o tirano comunista que assumiu o poder em Havana em 1959, permanecendo no governo até os dias atuais. Antiamericano, suas relações com os Estados Unidos tem sido tensas. Coletivizou a agricultura, nacionalizou as industrias e impôs modelos para a Educação e Saúde. Lidera os governos latino-americanos diante dos quais tenta impor sua visão ditatorial. Mantém as prisões cubanas abarrotadas de presos políticos, e sua desastrada política econômica levou Cuba à pobreza e miséria social.  

 

     O conceito de tirania que define o comportamento de alguns governantes quando abusam do poder e destroem a liberdade de seus cidadãos, ampliou-se nas sociedades modernas atingindo os meios de comunicações, ONGs, e todo tipo de instituição que procura  subjugar a sociedade a determinados padrões de comportamento. Na política o exercício da tirania fica confundido no simpático apelo contido na frase “politicamente correto” E tem conexão com partidos políticos com tendências dirigistas.  Subjugam a sociedade moldando-a segundo padrões que a torne maleável a implantação de políticas igualitárias.  A Mídia é treinada nos mínimos detalhes para noticiar os fatos políticos de acordo com o modelo imposto pela maioria política que domina a Nação, ou pelos partidos políticos com pretensões ditatoriais, cria fatos e narra histórias capazes de induzir as massas a adotar comportamentos típicos, sejam de ordem moral, religiosa ou social. E da prática desta tirania ninguém escapa, pois vem embrulhada no atraente papel do marketing e da propaganda institucionalizados. Marketing  e propaganda que tanto servem para incrementar o volume de vendas de um determinado produto como para induzir comportamentos sociais ou anti-sociais. É uma tirania de mercado que faz parte do jogo político e social, e se aproxima do terrorismo psicológico.       

 

 

Percepção política- o exemplo de Brunetto Latini

Thursday, July 26th, 2007

Regina Caldas

2004

 

 

 

        A vida de Brunetto Latini ( 1220-1294), coincide com um dos períodos mais agitados da história política florentina . Tendo recebido formação para se tornar notário, Brunetto foi treinado para escrever em latim nas mais variadas formas de contratos e na redação de atos e documentos governamentais. Como praticante de notário, atestou mortes, atos de ultima vontade, acordos de negócios particulares e do estado, entre Florença e outras cidades.

 

         Brunetto Latini foi uma proeminente figura da vida pública florentina. Ocupou vários cargos de confiança como chefe de chancelaria, conselheiro e por duas vezes, embaixador. Foi também escritor, e seus livros são relatórios baseados em experiências adquiridas na vida pública. Foi na França, durante um curto período de exílio, como Dante e Machiavelli, que escreveu seus melhores livros: “Li Livres dou Tresor” (no estilo das enciclopédias medievais), o inacabado “Il Tesoretto”, um trabalho alegórico e didático em versos, e “Rettorica”, um comentário do livro de Cícero, “De inventione”. Seus escritos revelam a sua maior paixão na vida pública: a palavra e seu efeito na vida comunitária.

 

           Aos olhos de Brunetto, a vida urbana significava a verdadeira forma de sociedade civilizada. Exagerando uma visão de Cícero, ele considerava a retórica, a suprema ciência de governar uma cidade. A arte de falar sem a qual a cidade não existia, pois faltariam justiça e solidariedade. Para ele a civilização originava-se na palavra, unindo os homens e levando-os a viverem juntos em algum lugar e debaixo de leis.

 

            Li Livres dou Tresor, foi a primeira enciclopédia a ser escrita para ensinar as leis, e dirigida aos burgueses. Entretanto isto também trata de teologia, ciências naturais e história, mas os temas centrais são a ética, retórica e governo urbano. Seus mentores intelectuais foram Aristóteles e Cícero. O primeiro ajudou o autor a perceber as conexões entre ética, vida comunitária e política, enquanto com o segundo aprendeu a importância da retórica. Mas ele  foi além de endossar  seus inspiradores revelando uma extrema preocupação com os problemas políticos e morais dos espaços urbanos. Discutiu a dinâmica dos negócios e do dinheiro, a civilidade, a usura, o serviço comunitário, os departamentos de estado, a autoridade política e a justiça civil. A parte mais importante do Tresor aparece no livro III. Aqui ele trata da retórica e da “boa fala”, e se envolve com as cidades italianas e seus regimes comunais durante o período central do século XIII , discutindo as funções do “podestà”. Seus escritos nos oferecem uma percepção do homem como indivíduo e também uma visão acurada dos problemas de seu tempo. Ele aborda a natureza e origem dos governos, a ligação ideal entre o “podestà” e a comunidade, incluindo eleições e qualidades requeridas num bom governante. Trata também de todas as formalidades necessárias à chegada de um novo governante, a relação com o seu staff, reuniões com os conselhos comunitários, indicação de embaixadores, administração da justiça, suas responsabilidades sobre os direitos e propriedades dos cidadãos, preparo de seu sucessor, e tudo o que deve executar antes de deixar o governo. O livro é dirigido ao “podestà” e aos cidadãos. É um tratado prático e preciso, que além de ensinar as solenidades do cargo, também fala de justiça, imparcialidade, vontade divina e os benefícios da paz. ´

 

               Uma preocupação de Brunetto a respeito das eleições para o cargo de governar uma cidade, referia-se a seleção dos candidatos, quase sempre de origem nobre. Ele recomendava aos cidadãos que, ao fazerem suas escolhas considerassem acima de tudo a nobreza do coração, uma vida de costumes honrados,  seu trabalho e seu lar. Para tanto ele concluía: “Muitas pessoas não consideram os hábitos do candidato, mas sim o poder que ele comanda para a sua linhagem ou para os seus desejos. Eles estão, entretanto enganados, pois o ódio e a guerra têm se multiplicado entre nós, sendo isto o sinônimo de uma divisão entre os burgueses. E os cidadãos que amam uma facção odeiam as outras. Tiranos como Ezzelino da Romano, Torriani e outros, desfilavam aos olhos de Brunetto como resultado da tendência popular de eleger candidatos na base do seu poder, de suas ambições ou sua popularidade. Para ele, o poder deveria ser partilhado entre a experiência, os bem sucedidos e as eminências. Nas sociedades fortemente marcadas pelo status, deferências e  intelectualidade, a tendência é  que as altas classes tornem-se elitistas e cuidem apenas de proteger seus próprios interesses.

 

                  Outra preocupação do notário, relativa ao governo, era de que os governantes deveriam manter afastadas suas relações de amizade enquanto ocupassem cargos de poder, já que isto diminuiria a dignidade do cargo, levantava suspeitas e estimulava a discórdia civil. A implicação era de que o “podestà” poderia ser tentado a ajudar os amigos violando as leis. Um podestà jamais deveria vender justiça ou receber presentes, afirmava ele.. E concluia que sendo a comunidade sempre dividida pelos interesses dos vários grupos sociais, a melhor maneira de se impor barreiras à corrupção e às dissidias seria obedecer a lei e temer a Deus.

 

                    O código de Brunetto, a ser seguido pelo bom governante determinava:

 

Não aceite um segundo termo;

Não faça amigos enquanto estiver governando;

Não mantenha contactos pessoais;

Não adquira débitos com pessoa alguma;

Não se permita ser louvado pelo conselho;

Esteja acima das partes e facções;

Sempre consulte os cidadãos mais capazes;

Favoreça a opinião e o conselho da maioria;

Obedeça estritamente a lei em todas as circunstancias;

Não aumente as taxas e impostos deixando a população endividada, salvo por manifesto benefício à cidade e pela aprovação do conselho.

 

                   Como fica muito claro na concepção do notário, justiça não soluciona todos os problemas existentes dentro de uma comunidade, pois as pessoas diferem umas das outras e assim sempre será. O homem sempre tem uma concepção arbitrária ao reclamar para si os bens terrenos. Mas, estando a justiça no meio deles torna-se possível a convivência social. 

              

                     Em vários aspectos de seus escritos, Brunetto manifestou pensamentos e atitudes que retrataram a percepção local própria do século XIII. Porém, quando fala de política e sociedade, seus pensamentos são extraídos de um forte apego à cidade tendo-a como um fim em si mesma. E, numa época em que todo ato de governo era considerado fruto da vontade divina, sua visão política vai além de seu tempo. A noção medieval de que todo poder político provinha de Deus não era uma abstração. Continuamente, nas falas públicas o homem era conduzido a aceitar plenamente a vontade divina em seu destino. A doutrina era enunciada sob o juramento de que reis e governantes reconheciam a origem divina de sua autoridade. As conseqüências eram de ordem prática. Se toda a atividade política  origina-se de uma concepção religiosa e sujeita à uma ordem de valores eternos, quem governava estava imbuído de um poder superior incontestável para criar as leis, julgar, administrar  e decidir os destinos da cidade e de seus cidadãos, conduzi-los à guerra ou à paz. E as conseqüências para os cidadãos eram claras, os heréticos eram condenados à morte. Foi Brunetto Latini que, durante o tempo em que esteve exilado na França, primeiro manifestou sua compreensão da necessidade de separar a gestão do Estado de suas origens de cunho espiritual tornando-o secular. Mas, para que a semente de seu pensamento se espalhasse e provocasse mudanças para governos seculares levou tempo.

                

 

 

Partido Trabalhista Britânico

Thursday, July 26th, 2007

Regina Caldas

Dezembro/2004

“Onde quer que Sir Stafford Cripps* (Partido Trabalhista Inglês) tenta incrementar riqueza e felicidade,

a grama jamais volta a crescer” Margaret Thatcher

Em 1900, no Congresso do Sindicato dos Trabalhadores, numa cooperação com o independente Labour Party (fundado em 1893), estabeleceu-se o Comitê de Representação do Trabalhador, que, a partir de 1906 adotou o nome de Partido Trabalhista (Labour Party). O partido obteve adesão imediata e usufruiu a coalisão de governos durante a I Guerra Mundial. Em 1918, nas eleições gerais, tornou-se o segundo maior partido na “House of Commons”, chegando ao final da guerra, como o partido da oposição. Em janeiro de 1924, com o apoio dos liberais, Ramsay MacDonald formou o primeiro governo do Partido Trabalhista, que caiu logo a seguir. Em 1929, o partido obteve outra vez votação suficiente para formar uma administração apoiada pelos liberais, e governou até 1931 quando por desentendimentos sobre políticas econômicas lideradas por MacDonald**, resignou-se a formar uma coalisão governamental com os Conservadores.

Em 1945, uma campanha baseada em nacionalização, reconstrução e o aumento dos investimentos nas políticas públicas da Saúde, deram ao Partido Trabalhista uma vitória extraordinária. Nas eleições de 1950, entretanto a maioria do Partido, na “House of Commons”, ficou reduzida a cinco representantes e, em 1951 perdeu as eleições para os Conservadores. Na década de 50, a questão de quando e como adaptar um partido tradicionalmente socialista à uma sociedade afluente, especialmente em questões de nacionalização das indústrias, dividiu o partido. Os seguidores de Aneurin Bevan (Bevanites), queriam uma política econômica de cunho mais socialista além de se libertarem da dependência norte-americana. Os revisionistas desejavam abandonar o comprometimento com a nacionalização das industrias. O Partido não recuperou seu poder até 1964.

Uma política de governo é, em si mesma, o agente de importantes mudanças na vida de uma Nação. Na Inglaterra, alguns programas implementados pelo Partido Trabalhista após 1945, resultaram em modificações no funcionamento do sistema político: o aumento da ingerência do Estado na economia, o uso dos impostos para aumentar o atendimento à Saúde (foi introduzido o Serviço Nacional de Saúde), e à Educação Publica, e um incremento na organização das legislações trabalhistas além da implementação de programas nacionais de previdência social.

O governo do Partido Trabalhista nacionalizou algumas das maiores industrias inglesa: minas de carvão, aço, além das estradas de ferro, Banco da Inglaterra, aviação civil, serviços de cabogramas e telegramas, gás, eletricidade, estradas, fato ocorrido em parte pela doutrina socialista, bem como pela falência da industria britânica em se manter competitiva nos mercados internacionais. Entretanto, dadas as circunstâncias do momento político vivido pela Inglaterra na década de 40, não se pode afirmar que o Partido Trabalhista foi o único responsável pela terrível carestia que assolou o país na década de 50. Aliás, a opinião de historiadores e políticos ingleses não encontra unanimidade em tais afirmativas. Lawrence James (historiador), pondera que o país passava por um período de intensa descolonização, acatou as imposições norte-americanas para que desenvolvessem bombas nucleares além de manterem bases de defesa na região do canal (Suez) para atacar a URSS durante a guerra fria caso fosse necessário, uma desvalorização da libra dentre outras mazelas responderam pelo encolhimento da economia inglesa no pós-guerra. Já Margaret Thatcher , com a fleuma inglesa, afirma que a década de 50 foi muito boa para a economia do país. Na visão de Thatcher não havia carestia. Pelo contrário, a época era de reconstrução. Já o brasileiro Jorge Ernesto Macedo Geisel***, que residiu no país durante o período, afirma que a carestia era intensa , a tal ponto que as mulheres chegavam a economizar os sapatos colocando placas de metal em suas solas para que não fossem gastos. É dentro deste quadro que se deve incluir a colaboração que as medidas políticas, tanto externas quanto internas, adotadas pelo governo do Partido Trabalhista, contribuíram durante a década de 40, para que na subseqüente o país enfrentasse graves problemas econômicos.

Atualmente existe a tendência entre os ingleses para debater as condições políticas do país, em especial do período que vai entre 1940 e 1951. Estes debates revelam muito mais as dissensões internas no Partido Trabalhista, chamando a atenção para a necessidade de convergência política entre os partidos, do que o quanto contribuiu com suas políticas interna e externa para a pobreza experimentada durante décadas seguidas. Assim não é surpresa que o debate se fixe no Partido Trabalhista, pois a comparação entre o comportamento do partido durante a II Guerra e o pós-guerra aponta um avanço do mesmo em busca de consenso. O vigoroso debate sobre a direção que tomaram as estratégias do Partido foi atiçado pelas criticas de Harold Laski e Aneurin Bevan. E daí surgiram as dissidências entre suas lideranças. Os termos como estes debates foram conduzidos, mostraram que o partido manteve uma diferenciada aproximação política durante a guerra e que não submergiu na atmosfera da coalizão. Da mesma forma, as apaixonadas desavenças internas sobre estratégias mostrou que não encontrou suporte na coalizão , mas apenas a oportunidade para fazer as reformas que pretendia. Participação no governo nacional representava a chance para mudanças seguras no front doméstico, que fossem aceitáveis. Na área externa, Attlee deu continuidade às políticas adotadas por Churchill. Apesar disto, dentro do partido houve dissabores a respeito das políticas adotadas, mesmo havendo harmonia entre Attllee e Bevin. O consenso britânico na área externa, entretanto, após a guerra, representou a marginalização do partido, com o Gabinete se apossando de políticas mais conservadoras que o próprio partido dos Conservadores. Contrastando, nas questões referentes às colônias foram os Conservadores que aceitaram as políticas adotadas pelo Partido Trabalhista. Entretanto, não se deve exagerar a natureza do consenso desenvolvido entre os dois partidos em relação à política colonial. Descolonização foi matéria de intensa ideologia e geraram divisões internas em ambos os partidos.

O tema do consenso tem dominado muito mais a discussão dos partidos ingleses na atualidade, do que uma busca por responsáveis pelas políticas adotadas no passado que redundaram na decadência econômica inglesa. O que existe é um saudável debate sobre o quanto a política britânica mudou nas últimas décadas, apesar da ideologia, do pragmatismo e do estilo pessoal. O advento do governo Thatcher, a partir de 1979, é visto como modelo que veio para mudar o consenso político estabelecido imediatamente no pós-guerra, colocando limites para o Estado, uma grande ênfase no mercado e nos negócios, e novos modelos para a Saúde e Educação. Thatcher sabia fechar a boca de políticos que gritavam “estarem no meio do caminho”, observando que, na sua experiência, o povo também estava no meio de uma estrada usualmente correndo além deles. A clareza de Thatcher formou um contraste com as políticas do Partido Trabalhista, que na atualidade, liderado por Tony Blair, aparentemente aceitou muitos dos caminhos do Thatcherismo, e que, em conseqüência busca novo consenso.

*Sir Stafford Crips (Labour Party): Liderou em 1946, missão para entrar em acordo com a Índia sobre o futuro do país.

**Clement Attlee escreveu sobre MacDonald em sua auto-biografia:

“No passado eu vi MacDonald como um grande líder. Ele tinha uma fina presença e grande poder de oratória. A linha impopular que ele adotou durante a I Guerra Mundial deu a ele a pecha de homem de grande caráter. Apesar de alguns fatos negativos, não deixei de admirá-lo até que ele retornou ao governo pela segunda vez. Então percebi sua relutância para adotar ações positivas e notei decepcionadas sua imensa vaidade e esnobação, além do fato dele me falar mal de seus colegas de Gabinete, tudo isto me causou enorme decepção. Eu de fato não podia esperar que ele pudesse perpetrar a grandeza política de nosso país. Percebi que Snowden tinha se transformado num dócil discípulo da ortodoxia financeira. Mas eu não esperava que ele se tornasse vitima da violenta aversão daqueles que servia com lealdade. O choque para o partido foi enorme, especialmente para os trabalhadores que fizeram grandes sacrifícios por aquele homem”.

Muitos membros do Governo, dentre eles, eu, estavam seriamente descontentes pela falta de uma política construtiva exibida pelos membros do Governo. Percebíamos também um estranhamento entre MacDonald e os membros do partido. Ele se mantinha envolvido com pessoas que não partilhavam a visão do partido. Esta oposição não se cristalizou por causa da lealdade do único homem que poderia assumir o lugar de MacDonald: Arthur Henderson. Apesar da queda das medidas políticas adotadas, MacDonald e Snowden convenceram o partido à formação de um Comitê de Economia, sob o comando de Sir George May, chairmam da Prudential Insurance Company. As conseqüências já eram previstas. As propostas eram direcionadas para cortar os serviços sociais e, especialmente os benefícios dos desempregados. O remédio deles para uma crise econômica encabeçada pelo excesso de commodities sobre efetiva demanda foi cortar o poder de compra da massa dos trabalhadores. A maioria rejeitou aquelas propostas e foi por ai que o Governo quebrou. MacDonald teve que se resignar a aceitar uma Comissão Real para formar um Governo Nacional”.

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Dominado o Judiciário, dominada a Nação

Thursday, July 26th, 2007

Regina Caldas

2005

Onde quer que a Lei termine, a tirania começa” Locke

A Lei não é a lógica, mas sim a experiência. As necessidades filtradas no tempo, a prevalência das teorias moral e política, a intuição das políticas públicas, o medo ou a inconsciência, até mesmo os danos que os juizes partilham com seus semelhantes, tem tido uma boa intervenção na determinação de regras sob as quais os homens podem ser governados. A Lei incorpora a história do desenvolvimento das nações através dos séculos, e isto não pode ser medido como se contivesse apenas axiomas e corolários de um livro de matemática. Para entender como funciona a Lei precisamos conhecer seu passado a fim de compreendermos o que dela se espera no futuro .De forma alternativa consultamos sua história e as legislações. Mas o trabalho mais difícil é confrontá-las com novas legislações em cada estágio. A substância da Lei em qualquer tempo avizinha-se do que entendemos ser conveniente, mas a sua forma e estrutura dependem de seu passado “. (Extrato da Introdução do livro”The Common Law”- Oliver Wendell Holmes, JR)

É desnecessário afirmar que o Direito Romano tornou-se um dos pilares da civilização ocidental. A Lex latina é o laço do qual deriva o contrato, o que representa a chave da legalidade romana: “pactum”, acordado livremente entre duas partes, criando obrigações a serem cumpridas. Os romanos sabiam que um contrato – o cumprimento da lei – assegurava a legalidade de um governo, gerava confiança e organizava a sociedade.

As tradições das leis romanas foram legadas à moderna Europa. Muitos dos códigos imperiais que caíram em desuso com a queda dos impérios foram redescobertos na Idade Média, e provavelmente afetaram a formulação das leis canônicas do Vaticano. Na esfera mundana, as leis romanas competiam com outras não-romanas, pois Roma era apenas um dos recursos da jurisprudência européia. Habitualmente, resistiram ao tempo em paises como a França e Alemanha. Na Inglaterra, excepcionalmente, a lei comum (common law), modificada pelos princípios de igualdade, foi adquirindo um virtual monopólio.

A distinção romana entre a propriedade pública e a privada atendeu aos propósitos de crescimento dos governos europeus. A lei civil, em muitos paises europeus, era para ser baseada em princípios moldados pelas codificações romanas, exceto nos conceitos anglo-americanos de precedente legal. Em relação a isto, a mais influente instituição viria a ser o Código de Napoleão, de 1804.

No entanto, quaisquer que sejam suas conexões, legisladores bem instruídos, reconhecem seu débito com Cícero e seus sucessores. Foi Cícero que escreveu em sua obra “De legibus”: “Salus popoli suprema lex”: “a segurança do povo é a suprema lei”. Pode-se afirmar dai que a principal função da lei é prover o povo com o maior grau de segurança.

Dentre as heranças deixadas pelos antigos sistemas de governos ocidentais, estão a formação do Estado Moderno, nascido das experiências das cidades-repúblicas italianas, realizações que serviram de exemplo para a formulação do Direito Constitucional dos Estados. Mas foi a Revolução Francesa de 1789, que conduziu aos regimes constitucionais.

A história das leis, com todas as suas peculiaridades, mais do que nos revelar o longo caminho pavimentado com os estudos e comparações feitas por aqueles que se dedicam ao ofício de legislar e fazer cumprir a Lei, também aponta o rumo que toma um Estado no seu processo de evolução política e social. As leis, do modo como são dispostas, refletem os pensamentos e as decisões de governantes, as rejeições e consentimentos dos governados. Revelam também o compromisso que os nacionais assumem com a Ética e a moral vigente, tanto na gestão da coisa pública como na vida privada.

Se aprendermos com o passado que as leis são conseqüentes da tendência humana de se agregar, e que têm, portanto a incumbência de regular as relações entre o estado e o cidadão, e dos cidadãos entre si, para que possam viver em harmonia, entenderemos porque a Lei tem sido fundamental para o estabelecimento da ordem, desenvolvimento e dinamismo de uma sociedade.

Foi de um regime monárquico, que nosso país passou a uma República Federativa. Nossas leis nos foram legadas pelo Direito Ocidental, e nossa Carta Magna deu forma ao Estado brasileiro assentando-o sobre três pilares: Legislativo, Executivo e Judiciário. Embora os três poderes atuem de forma independente o governo neles se harmoniza. Tendo, cada um destes poderes, as suas funções delimitadas pela Carta Magna, é de se esperar que o respeito àquela independência prevaleça na sua convivência, e que violações neste sentido desorganizariam o sistema jurídico sob o qual se assenta a nação, causando instabilidades políticas, econômicas e sociais.

Entretanto, a Lei, vista sob o angulo da sua história na política nacional, mais parece letra morta. Nossos políticos assumem o poder, sem se libertarem de seus vícios e interesses partidários e pessoais. Falta-lhes, com as devidas exceções, conhecimentos mais consistentes sobre quais são as suas responsabilidades no cargo que exercem. Falta-lhes visão de homens de Estado para que executem suas tarefas em beneficio do povo que os elegeu, e não para usufruto pessoal ou do partido ao qual pertençam. Em conseqüência, é com extrema leviandade que juram assumir suas obrigações com a Nação e cumprir a Lei.

Distantes do povo, nossos legisladores, encastelados num poder excepcional que obstrui a compreensão necessária para que entendam o que seja legislar de forma justa para o bem-estar do cidadão, são ainda continuamente acossados pelo poder executivo que governa à base de fisiologismo e Medidas Provisórias. Não respeitando os limites impostos pela Constituição, abusando das leis sem se sentirem ameaçados pelo povo, nossos políticos inviabilizam a governabilidade no país.

Insaciáveis em suas reivindicações, Executivo e Legislativo caminham de mãos dadas. Inconformados com a independência do Judiciário tramaram a sua reformulação para sujeitá-lo a interesses corporativos. Subjugam o Poder Judiciário para colocar a Nação de joelhos! Colocam o garrote em quem garante a aplicação da Lei, sabendo que um Judiciário livre e respeitado oferece o único remédio efetivo que resta ao cidadão na defesa de seus direitos.

Nós os brasileiros, estamos nas mãos de uma oligarquia imposta sob uma forma oculta que sabe onde fazer pressão para influir no atendimento de seus interesses. Somos reféns de uma oligarquia que, ferindo nosso sistema legal, nos coloca sob o domínio de um partido único de idéias totalitárias. O preço que pagamos pelas suas irresponsabilidades tem sido alto demais. Estamos à deriva caminhando entre as brumas da ilegalidade, da corrupção, do salve-se quem puder. Sem o devido respeito às leis vigentes (exemplo que deveria vir de cima), seremos subjugados pelo império do mal. E até onde retrocederemos já está simples de prever.

Felizmente o cidadão está acordando. E tem dado mostras que não tolera mais os abusos do Governo. As críticas contra leis que amordaçam a Imprensa, que coíbem a livre expressão artística, que desarmam a população, deixando-a a mercê dos bandidos, que controla as universidades interferindo em seus conteúdos didáticos e em suas administrações, que aumentam a carga tributária, demonstram que o cidadão quer partilhar decisões que lhe digam respeito. E quanto mais a sociedade se levantar contra a aprovação de leis autoritárias e invasivas barrando-as, melhor para todos os brasileiros. Democracia exige permanente vigilância.

“Tem sido uma longa opinião minha, e que jamais teve a sua expressão reduzida, que o germe da dissolução de nosso governo federal, reside na constituição do judiciário federal, operando como a gravidade, noite e dia, ganhando um pouco hoje e um pouco amanhã, avançando com seus passos silenciosos como os de um ladrão sobre o campo jurisdicional, até que tudo tenha sido usurpado” – Thomas Jefferson

Diferenças entre Despotismo e tirania

Thursday, July 26th, 2007

 

Regina Caldas

 

22/03/2006

 

 

     A tradicional associação da palavra despotismo com tirania requer considerações sobre nossa compreensão destes termos para identificarmos qual delas denota um caráter universal. Seriam despotismo e tirania a mesma coisa?

 

     A palavra déspota, de origem grega significa o “pai de família”, que exerce absoluta autoridade sobre os escravos e sobre os filhos. Em contraste, a palavra tirania, também de origem grega, refere-se ao estado mais que à família, mas ambas as palavras referem-se ao poder absoluto.

 

     A dificuldade para determinar o que é essencial à natureza da tirania e do despotismo, originalmente proposta pelos gregos a fim de distinguir entre rei e tirano, ou entre leis monárquicas e tirânicas, surge dos conceitos elaborados por filósofos da antiguidade que designavam um rei como um bom monarca, e um tirano, como mau. Para Aristóteles, alguns desses critérios também se aplicam ao despotismo, e sempre para o governo real, na medida como este é distinguido do governo, político ou constitucional, governar pela lei, mais que pelo homem.

 

     A natureza da tirania é mais difícil de ser definida precisamente porque de forma universal, é tida como a pior perversão de um governo. A palavra tirania é usada em diversas maneiras pelos gregos, e também através da tradição dos grandes livros. Alguns escritores identificam tirania e despotismo. Outros não. Alguns as conectam com monarquia. Outros as conectam com outras formas de governo. A tirania também é vista de acordo com a circunstancia em que se desenvolve. Quanto ao despotismo, alguns estudiosos o justificam pela conquista, ou pela necessidade do povo de um governo absoluto, ou seja, na forma de uma ditadura temporária por condições emergenciais. Nem sempre a condenação da tirania é tida de forma unânime.

 

     A diferença entre escravidão doméstica e política é entendida num caminho no qual despotismo e tirania são diferenciados.

 

     Platão e Aristóteles tratam a tirania como o protótipo da injustiça, e os tiranos como homens da pior espécie. Entretanto, nas “Leis” por exemplo, um bom tirano é proposto como o melhor caminho para impor as leis. Para a questão: “Quais são as condições requeridas de um Estado antes de organizá-lo?” Para o Ateniense estrangeiro, a resposta é: “Conceda-me um estado que seja governado por um tirano, e que ele seja jovem e tenha boa memória. Que ele seja capaz de aprender, que seja corajoso e de natureza nobre; que ele seja virtuoso”.  De acordo com o Ateniense a tirania é a pedra de toque para o melhor estado, porque envolve o maior poder concentrado num único homem. A combinação da virtude e do poder raramente é encontrada, mas ele considera que: “quando o poder supremo de um homem coincide com a maior visão e a temperança, daí se originarão as melhores leis e a melhor constituição”.

 

    

 

 

 

Cidadão/Cidadania

Thursday, July 26th, 2007

REGINA CALDAS,

26/03/2006

Cidadão, da mesma forma que camarada, tornou-se uma palavra revolucionária. Ambas as palavras tem sido adotadas para marcar a liberação dos seres humanos do despotismo ou da tirania. Ambas são usadas também por aqueles que ainda não conquistaram a liberdade e a igualdade. A etimologia da palavra significa habitante da cidade em oposição ao camponês.

O ranking e status da cidadania de início surgiram na antiguidade com os governos constituídos nas cidades-estados da Grécia. À medida que os habitantes das cidades se emancipavam dos feudos, sob o qual continuavam a viver os servos das glebas, e constituíam as cidades-estados, foram adquirindo emancipação. Os gregos foram conscientes deste fato, e nestes termos eles viam a si próprios separados dos bárbaros submissos ao Rei da Pérsia, ou do Faraó Egípcio. Poetas como Ésquilo lamentavam a infelicidade daqueles que viviam submissos ao poder absoluto.

Já na Itália, só a partir do século 11, o conceito de cives* (cidadão), serviu para estabelecer emancipação através de um ato de asserção política e social. Os líderes locais decidiram ter governo próprio. A instabilidade da autoridade, e séculos de conflitos violentos os prepararam para isto. De início queriam garantir o direito à propriedade, dado o temor que sentiam pelo crescimento da nobreza, das famílias constituídas pelos bispos que governavam as comunas e pelas ondas de imigrantes.

A França tomou consciência da cidadania através do estreito contato que manteve com os pais (Father’s Land) da Constituição norte-americana. “Liberté, Egalité, Fraternité” foi o lema inscrito na bandeira que o povo agitava enquanto tomava a Bastilha.

Não há dúvidas, que a Constituição Americana, a primeira feita por um país, inspirou os povos de todos os cantos da Terra. E a emenda número 1, conhecida como “Bill of Rights”, adotada pelo primeiro Congresso, chamado o “Encontro de Nova York” em 4 de março de 1.789, serviu, e continua servindo como modelo de cidadania para os demais países. Desde então, os conceitos de cidadania adquiriram status de lei, recebendo da Carta Magna escrita pela maioria dos países civilizados, a garantia da defesa dos direitos civis concedidos aos seus cidadãos. Tais leis são amparadas por instituições internacionais voltadas para a condição do ser humano. Pela importância que representa no conjunto da vida nacional, qualquer país que queira gozar do respeito de outras Nações, e que almeje desenvolvimento econômico e social harmoniosos, deve considerar que seus cidadãos se familiarizem com o conteúdo de sua Constituição desde a mais tenra idade. É um direito básico do cidadão conhecer quais são as leis que regulam sua relação com o Estado. Conhecer a Constituição de seu país é adquirir consciência de que cidadania é o pleno gozo de todos os direitos civis e políticos concedidos ao cidadão, seja ele natural ou naturalizado. É também difundir estes conhecimentos para que a Nação alcance sua maturidade política.

A educação para a cidadania envolve a questão da igualdade entre o bom homem e o bom cidadão que devem ser idênticos na prática da virtude. A virtude para o bom cidadão é saber governar como um homem livre, e saber como obedecer como um homem livre. Nossos antepassados clamavam por um poder além do Estado. Sócrates exemplificava que era preferível morrer do que não ouvir a voz da própria consciência. Os teólogos, entretanto por darem precedência às leis divinas (Mandamentos), não descartavam as leis do Estado, ou as obrigações do cidadão. Aqueles que respeitam ambas, não raro se defrontam com conflitos de consciência entre a lei do Estado e as leis divinas. Em tais circunstancias a fé não tem escolha. Obedece a lei divina em detrimento da lei do Estado. Lei contrária às leis divinas, afirmava Aquino, não obriga à obediência.

A palavra cidadão também significa uma participação consciente e voluntária na plenitude dos deveres e direitos cívicos. É o exercício da cidadania. É o cidadão cumprindo seus deveres com a Pátria, seja ela natural ou adotiva, e que colabora com o seu engrandecimento e progresso. Esta é a atitude do cidadão consciente. Ser vigilante e agir para que as leis sejam obedecidas, que a ordem seja preservada, que reprima os fatores sociais negativos e colabore em obras sociais. Resulta da convicção interior de um caráter bem formado. Portanto é no lar que se inicia a educação do bom cidadão. Só esta formação lhe permite discernir entre o bem e o mal, vencer o egoísmo, à imitação e à massificação.

Diferente de civismo, o conceito de civilidade indica o conjunto de regras de comportamento que presidem a vida do homem civilizado. No sentido mais estrito significa aquele que se comporta com boa educação, falando corretamente, vestindo-se de forma a não ofender a moral e os bons costumes. Tais regras são encontradas em livros dedicados ao assunto, e também nos protocolos de governo, embaixadas e demais instituições públicas e privadas. Evoluem de acordo com a época e se diferenciam de acordo com a região. Sendo a civilidade fruto de uma boa educação, devemos compreender aqueles que não a receberam.

* Cives: os homens livres podiam ser cives ou peregrini. Os primeiros eram os cidadãos romanos. Os outros, não. Os cives eram regulados pelo ius civili romanorum, os peregrini, pelo ius gentium.

As origens do Totalitarismo

Thursday, July 26th, 2007

“Todo governo totalitário converge para a figura central do tirano. O tirano nas democracias usurpa o poder através das eleições oficiais”.

REGINA CALDAS

11/03/2006

O momento atual brasileiro é de urgência, pois os sinais enviados por condutas inadequadas de nossos políticos demonstram que não pretendem preservar nossa incipiente democracia. Talvez seja necessário nos debruçarmos sobre a obra “Origens do Totalitarismo”, publicada em 1951, de autoria de uma das maiores filósofas do século passado, Hannah Arendt. O livro é classificado pelo “Times Literary Supplement”, como uma obra prima definitiva sobre o Totalitarismo, no qual, em sua parte final, a autora discute as operações e instituições dos movimentos totalitários. Aqui ela focaliza duas autenticas formas de totalitarismo do século XX, o nazismo na Alemanha, e o comunismo na Rússia. Hannah aponta a transformação das classes em massas, e o papel da propaganda em negociar com o mundo não totalitário, além do uso do terror, essenciais para este tipo de governo. E, numa brilhante conclusão final, a autora analisa o isolamento individual e distanciamento, como pré-requisitos para a dominação total.

O que é Totalitarismo?

Totalitarismo é uma forma de governo no qual o estado se envolve com todas as facetas da sociedade, inclusive na vida diária dos cidadãos. Controla matérias econômicas e políticas, como também as crenças, atitudes e valores de sua população, eliminando as diferenças entre estado e sociedade. Através da crítica elimina valores culturais tidos como alienígenas impondo uma cultura popular que ocupa os espaços de lazer da sociedade.

Num governo totalitário, o dever do cidadão com o estado representa primeiro o conceito de comunidade, e o intento do estado é criar uma sociedade perfeita. Vários sistemas totalitários têm, entretanto, metas ideológicas diferentes. A Rússia de Stalin e a China de Mão pretendiam a realização da Humanidade através de uma sociedade em classes, enquanto o nazismo de Hitler pretendia afirmar a superioridade da raça ariana.

Apesar das muitas diferenças que caracterizam os estados totalitários, estes possuem algumas características em comum das quais as duas mais importantes são a existência de uma ideologia que se reporta a todos os aspectos da vida nacional e a pretensões de atingir uma meta final, através da qual o povo é mobilizado para unir energias e apoiar. O partido é geralmente liderado por um ditador, e, tipicamente, a participação na política, ou seja, especialmente o voto, é compulsório. A liderança do partido mantém o controle sobre todo o sistema governamental, o que inclui a polícia, os militares, as comunicações, os sistemas econômico e educacional.

A autocracia tem tentado através dos tempos exercer controle sobre a vida dos cidadãos. Entretanto, só modernamente, através do desenvolvimento de novas tecnologias o tem conseguido.

Perdendo a Liberdade

Não nos imaginamos perdendo o direito de ir e vir, penalidades impostas pelos regimes totalitários aos seus cidadãos. Mas somos acostumados a refletir sobre nossos direitos somente quando corremos o risco iminente de perdê-los.

No século passado, muitos povos perderam a liberdade. Quando Stalin subjugou a população russa, e cidadãos dos países que anexou ao poder central de Moscou, mantendo-as atrás de uma Cortina-de-Ferro, aqueles que perderam a liberdade sentiram na própria carne e de seus descendentes, as conseqüências de viver sob um regime totalitário. Quem fosse pego fugindo do jugo comunista, morria. A Alemanha, dividida entre Stalin e o Ocidente, e sua capital Berlin, sofreram uma separação imposta que só em 28/10/1989, chegou ao seu final com a queda do muro da vergonha. Em Cuba ocorre o mesmo desde que Fidel Castro usurpou o poder através da força. Milhares de cubanos, por décadas seguidas, tentam fugir do país. Mas o sonho da liberdade não raro termina tragicamente com seus frágeis barquinhos naufragando.

Nos países sob um regime totalitário, os cidadãos perdem todos os seus direitos fundamentais. Direito à Vida, à Expressão, Ir e Vir, à Defesa, ao Patrimônio, dentre outros. Embora a Carta das Nações Unidas preveja sanções impostas aos que a assinaram, nenhum país de regime totalitário respeita o direito de seus cidadãos. A Turquia, por exemplo, ao assinar a Convenção para Proteção dos Direitos Humanos, o fez com ressalvas ao artigo 25, cujo conteúdo se refere a uma aceitação explícita que permite à Comissão de Direitos Humanos receber pedidos de qualquer pessoa ou entidade, endereçado ao Secretario Geral do Conselho Europeu. Aproveitando-se disto, o ex-marido de Wagna Bandeira* ocultou-se na casa de parentes na Turquia, levando consigo o filho seqüestrado da casa materna.

Um governo que se propõe dominar de forma totalitária seus cidadãos, inicia suas ações eliminando alguns direitos, como liberdade de imprensa, manipulação cultural, controle sobre o sistema educacional, desarmamento da população, aumento do tamanho do estado colocando seus apaniguados para ocuparem cargos em todos os escalões da administração pública ( nomenklatura), criando impostos cada vez mais escorchantes, inviabilizando o crescimento econômico através de juros altos ou outros mecanismos que tendem a empobrecer ou eliminar a classe média, perseguições políticas, falsa propaganda sobre os benefícios que o estado concede aos cidadãos, informações falsas sobre o andamento da economia. Enfim, tentando aparelhar o estado de forma a atender os objetivos totalitários, desorganizam sistematicamente a vida econômica, política e social da Nação.

Liberdade exige clareza moral para ser entendida e respeitada por todos nós. Os soviéticos eram considerados o que Stalin chamava “the cogs”, ou seja, dentes da máquina totalitária que os transformava de Homo Sapiens em Homo Sovieticus .

Muitas vezes, nossos conceitos de liberdade são colocados em cheque-mate. Na visão de Natan Sharansky **, partilhamos um vasto terreno comum e uma unidade fundamental com aqueles grupos com os quais nos identificamos. Mas, da perspectiva de muitos outros agrupamentos humanos, não passamos de mundos aparte, incapazes de se reconciliarem. Para quem vive numa democracia tal conclusão causa indiferença, afinal pode concluir que onde há liberdade existe a competição de idéias. Mas esta competição pode tornar-se perigosa quando ignoramos que entre o mundo da liberdade e o da escravidão, existe uma diferença muito maior do que entre a competição de facções que se expressam dentro do mundo livre. E se falhamos em identificar esta diferença perdemos a claridade moral. Então a verdadeira linha que separa as sociedades livres das totalitárias poderá não ser mais distinguida.

Hiperdemocracia ou democracia mórbida:

Não é conveniente que a autoridade política seja exercida por quem não é qualificado para o trabalho de governar. Segundo Ortega, existem operações, atividades, funções etc., que são, segundo sua própria natureza, especiais, e, como resultado, elas não podem ser executadas sem habilidades especiais. Por exemplo, funções de governo e julgamentos políticos sobre matérias públicas.

O termo hiperdemocracia está ligado às revoltas que envolvem as massas que assumem o governo fazendo o esforço de trocar o certo pelo vulgar e impor isto a todos. As massas destroem tudo o que é particular e diferente: todo pensamento e ação diferente devem ser eliminados. Cada um seria parte da massa e das minorias especiais. A partir do século XVIII, alguns ilustres nomes se voltaram para os direitos das massas, para a igualdade legal entre todos os indivíduos, mas as massas degeneraram aquela igualdade para o igualitarismo, como se todos fossem iguais social, moral e intelectualmente. Isto é a hiperdemocracia, que difere da velha democracia na qual a igualdade era expressa somente nos campos legais. Os seres humanos são diferentes, com a única exceção do aspecto jurídico-politico, onde todos são iguais perante a lei. Um dos problemas apontados por Ortega, oriundos da hiperdemocracia, é que o excesso de liberdade e igualitarismo conduz para o totalitarismo das massas. Considerar todos iguais, em todos os aspectos sociais, é uma conseqüência da espoliação e manipulação sofrida pelas massas em séculos passados. Durante o Iluminismo, alguns pensadores conceberam idéias que apontavam o que seria melhor para as massas: liberdade, democracia, em contraste com o absolutismo e a opressão. Mas o homem da massa usa isto mal. Quando um soberano atua acima das leis, e age de acordo com a sua própria vontade, transforma-se num tirano porque alguma coisa igual ocorre com a massa. Supõe-se que Ortega imaginou que a rota do totalitarismo passava pelo que ele chamava de democracia mórbida, a figura do tirano vindo das massas. Por exemplo, Hitler conquistou o poder eleito democraticamente pelas massas. Ele podia falar do fascismo com uma base democrática, apesar das contradições dos termos. Fascismo e comunismo, bem como os movimentos representativos das massas, originam-se nas democracias liberais e as fazem declinar. Como falou Hannah Arendt, os movimentos totalitários pretendem organizar as massas e não as classes. Os movimentos totalitários dependem unicamente do vigor dos números. São estes que decretam o fim da democracia.

Bibliografia:

Kohn, Jeromy- Totalitarianism, Hannah Arendt Center , New School University

Ortega Y Gasset- The Revolt of the masses” 1930

Sharansky, Natan- The case for democracy”-The power of freedom to overcome tyranny & terror- NY 2004

Debate sobre Educação em faculdade de Pedagogia

Thursday, July 26th, 2007

agosto/2006

Durante três dias participei de todos os painéis de um debate numa faculdade de Educação paulistana. Abaixo estão as fontes de onde extrai informações, e um pequeno resumo do que foi discutido.

FACULDADE DE PEDAGOGIA DEBATE SOBRE EDUCAÇÃO

ORGANIZAÇÃO DO PAINEL

Três dias

4/9/2006 parte da manhã: das 9 horas às 11.30 hrs

Iniciar a palestra dando um panorama do que será posto em debate:

O que é a Educação?

É o sistema pelo qual as gerações mais velhas transmitem às mais novas seus modos de convivência social, seus valores culturais e morais, além de repassa as ferramentas necessárias para que a proximas gerações tenham acesso ao mercado de trabalho. Todo este sistema é transmitido através da Educação que é cumulativa e precisa ser retransmitida à cada geração. 

 Vamos repassar e discutir cada um destes pontos para sabermos quais são os atrasos, as conquistas e os desafios que detectamos em nosso sistema educacional. 

MÁ QUALIDADE NA EDUCAÇÃO FORMAL:

Gustavo Ioschpe, Veja 30/08 Consultor do MEC e levantamento feito pelo IPEA

Até mais ou menos o início da década de 70, a Educação brasileira era CONSIDERADA de boa qualidade, tanto na escola pública quanto na privada. Entretanto, na medida em que o país passou por um período de grande desenvolvimento gerando renda e dando chance ao surgimento de uma robusta classe média, alem de um enorme crescimento populacional, a demanda por educação aumentou.

A partir da década de 60, a sociedade brasileira experimentou mudanças extraordinárias. Um excepcional aumento da população com forte concentração nas periferias por conta dos movimentos migratórios ocorridos do nordeste em direção à região sudeste em busca de emprego nas fábricas que surgiam no ABC paulista. O fato mudou a face da sociedade brasileira. Após um período de intenso crescimento econômico que chegou a chamar a atenção mundial para o que chamaram de O Milagre Brasileiro, o país passou a oscilar entre fases de desenvolvimento e de estagnação sem, entretanto voltar aos patamares atingidos na época do milagre. . Houve um recrudescimento da florescente classe média que, a cada plano econômico está mais encolhida tornando-se dependente dos serviços públicos. E é no pós milagre brasileiro, que devemos nos situar para entender de que forma criou-se no Brasil um fosso quase intransponível entre analfabetos, semi-analfabetos, jovens que interrompem o ciclo escolar, ombreando com uma oferta exagerada de cursos superior dentro de um sistema educacional da pior qualidade. É como se de repente o Brasil houvesse perdido o rumo. E chegamos ao ponto em que perdemos a condição de competir nos mercados de trabalho, além da visível perda de produtividade. Ficamos para trás. Os emergentes asiáticos cresceram, o nosso vizinho Chile cresceu, e atualmente paises como Índia, China, países do leste europeu, Irlanda estão a caminho acelerado do desenvolvimento. Mas quanto ao Brasil?

Diferentemente do palavrório de alguns, o trabalhador brasileiro não ganha pouco por ser vítima de uma elite branca e má, mas por ser pouco produtivo. È assim porque a escola falhou com ele.

Trabalhadores: o salário é definido pela produtividade e esta pela ênfase na educação

A situação educacional brasileira é trágica. Poucos discordam dessa constatação. Muito poucos se perguntam por que isso é tão ruinoso, e, ainda, por que é tão mais desastroso agora. A primeira e mais óbvia resposta seria: porque estamos privando uma enorme fatia da nossa população dos conhecimentos mínimos necessários para uma vida engajada, consciente, livre e produtiva. Mas basta notar que os cruzamentos de nossas grandes cidades se tornaram abrigos ou espetáculos circenses dos marginalizados para entender que qualquer apelo à solidariedade humana está fadado ao fracasso neste país cordial. Apesar da resistência que educadores e pedagogos têm à intromissão de economistas, empresários e afins em seu território, é neles que se encontrará a revolução educacional de que o país necessita. Porque esses grupos conseguem deixar de tratar a educação unicamente como um fim em si mesma para entender que ela tem um papel vital – e urgente – a cumprir no desenvolvimento do Brasil. Essas vozes dizem e dirão o que a sociedade precisa ouvir: com o nosso sistema educacional atual, estamos condenados ao atraso eterno. Se a fraternidade não o convence a cuidar de nossa educação, faça-o por interesse próprio, portanto.

É impossível a um país desenvolver-se no século XXI quando sua população ainda não resolveu problemas do século XIX. A comparação não é exagerada. Ainda não conseguimos ensinar nossas crianças a ler e a escrever, coisa que outros países já fazem há mais de 100 anos. O resultado final é termos só 26% de nossa população de 15 a 64 anos plenamente alfabetizada. A má qualidade do sistema – e não a falta de vagas – faz com que só 20% de nossos jovens cheguem à educação superior. Países como Coréia do Sul, Finlândia, Estados Unidos e Noruega já passaram dos 80% – quatro vezes mais, portanto. Os outros países desenvolvidos têm taxas próximas de 60%. Chile, Argentina e Uruguai estão na casa dos 40%. A China assusta ainda mais: foi de 6% em 1998 para quase 20% agora.

IPEA:

Ministro Paulo Roberto de Almeida

Trabalho de levantamento feito pela Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo:

Questionário a ser feito em escolas públicas e privadas

Nesta última legislatura, os deputados paulistas se organizaram formando uma comissão que viajou por todas as cidades do Estado, fazendo um levantamento de seus problemas. Mantiveram contatos com as lideranças locais e debateram estes problemas. Sugiro assim, que as estudantes desta Faculdade de Pedagogia, agendem uma visita à Assembléia e tomem conhecimento de quais foram os problemas ligados à área da Educação, apontados por nossas comunidades. Façam a seguir um levantamento estatístico para saber em que volume cada um daqueles problemas afeta a comunidade. Baseadas nestes dados preparem debates, encontrem soluções e a seguir, entreguem estes resultados aos senhores deputados via Comissão da Educação da Assembléia.

1º dia- Parte da tarde: Educação como ferramenta de produtividade

A primeira menção de que a Educação é uma ferramenta que expande a produtividade do trabalhador, veio de Adam Smith, no seu livro A RIQUEZA DAS NAÇÕES. Mas somente a partir da década de 70, a teoria chamou atenção através dos prêmios Nobel, Schultz e Becker ao consagrarem a teoria do capital humano. Sabe-se com segurança que as pessoas com níveis mais altos de educação tem maior probabilidade de receber salários mais altos. Em média no Brasil, a cada ano a mais de escolaridade, tem-se acréscimo de renda de mais de 10%. Mas é mais fácil constatar que a educação não está apenas relacionada ao nível de renda. Relaciona-se muito mais ao nível de desemprego. Mas há, contudo um erro ao se analisar o resultado em termos individuais e transferi-lo para a sociedade, pois o que é verdade para um individuo pode não sê-lo para a sociedade. Mas, em geral, quanto maior a escolaridade de uma sociedade, maior é o seu PIB. Em resumo, educação é necessária, mas não suficiente para o crescimento.

A demanda por educação depende do nível de complexidade da tecnologia, e da velocidade com que ela muda.

O resultado da baixa escolaridade é que de um modo geral, a população brasileira é formada por pessoas que podem ser tuteladas e podem até atingir bons níveis de produtividade, mas tem baixa capacidade para realizar tarefas mais complexas. Liderar, criar novos conhecimentos e tomar decisões que exigem capacidade analítica mais sofisticada. Isso é particularmente grave em um ambiente econômico que depende de emprego gerado no conjunto da micro e pequena empresa.

Educação de qualidade:

Esses dados não persistem apenas nas comparações internacionais. Internamente, os efeitos são sentidos no dia-a-dia de todos nós. E estudos que determinam a desigualdade de renda no Brasil confirmam que a causa mais importante é a desigualdade na educação. Essa desigualdade de renda e educação alimenta de forma brutal o que representa o maior pesadelo hoje em nosso país. A criminalidade. O aumento da escolaridade tem impacto sobre a redução da criminalidade. Isto é constatado em estudos comparativos com paises como os USA. O fato não justifica nem desculpa o crime.

No caso brasileiro fala-se muito que a educação é o gargalo do nosso desenvolvimento. Também afirmam que até a década de 80 a nossa educação era muito pior do que é hoje e não interferiu em nosso desenvolvimento. Por que agora seria uma trava?

Sabe-se que a demanda por educação e formação depende do nível de complexidade da tecnologia e tb da velocidade com que ela muda. Assim compreendemos que àquela época em que o Brasil liderou o ranking dos países em desenvolvimento, as tecnologias usadas eram estáveis, dando tempo para que os trabalhadores fossem treinados. Agora não. E se a tecnologia e os conhecimentos mudam o tempo todo, só quem tem um bom nível de escolaridade é capaz de se adaptar. Quanto mais tecnologia mais necessidade de Educação. Aqui reside uma falha em nosso país. A base da pirâmide social revela um contingente enorme de pessoas cuja educação não chega a sete anos de escolaridade. E sete anos de péssima escola o que impede o trabalhador de receber instruções, de buscar informações, e de produzir comunicações de uma certa complexidade. Além disso, como a maioria depende do emprego na micro e pequena empresa, a péssima formação de seus proprietários e empregados os impede de se modernizarem e assimilarem informações. Daí essa dependência generalizada de contadores, advogados e outros tipos de tutelagem.

Torna-se difícil para a maioria compreender porque o Brasil teve no passado um bom crescimento econômico sem a necessidade da educação e hoje ela se torna indispensável para que possamos progredir.

2º dia de traballho, parte da tarde:

AVALIAÇÃO FEITA PELO WORLD BANK: E UM APANHADO SOBRE A INCLUSÃO SOCIAL ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO

BENEFÍCIOS DA EDUCAÇÃO PRIMÁRIA PARA A MULHER:

Impacto na saúde

Incremento na produtividade agrícola e diminuição da desnutrição

Aumento da produtividade

Promoção do crescimento econômico, incluindo ai a educação do adulto, educação de qualidade e não por quantidade de tempo de escolaridade;

São Paulo, setembro/2006

Introdução:

A Educação nasce de uma responsabilidade social. Esta é a sua finalidade até entre os animais irracionais. Pois, sem educação, nenhum ser vivo pode formar comunidades.

 

Rodrigo Constantino

“Criar pessoas com elevada qualificação em países onde a atividade mais rentável é pressionar o governo por favores não é uma fórmula de sucesso.” (William Easterly)

Poucos pontos são tão consensuais como o caráter milagroso atribuído à educação para o crescimento econômico e prosperidade de um país. Mas será que tal senso comum encontra respaldo nos fatos? O economista William Easterly, que atuou por anos no Banco Mundial, tenta responder essa questão em um capítulo do seu livro O Espetáculo do Crescimento, cuja premissa base é que os indivíduos reagem a incentivos. No mínimo, o autor consegue forçar uma saudável reflexão.

Através de vários estudos estatísticos, Easterly conclui que a resposta do crescimento econômico à expansão educacional dramática nas últimas décadas tem sido bastante desapontadora. A causa do suposto fracasso das medidas governamentais em prol da educação é, segundo o autor, o fato de que os indivíduos respondem aos incentivos, e se estes não estiverem presentes para um investimento no futuro, expandir a educação terá baixo valor. Em resumo, investir em certas habilidades onde não existe sequer tecnologia disponível para seu uso não irá garantir crescimento econômico.

Como exemplo, Easterly cita os avanços no capital humano de determinados países africanos, ainda que largando de uma base baixa, que não foram correspondidos por elevado crescimento econômico. Em contrapartida, o Japão, que não experimentou um crescimento expressivo no seu capital humano, viveu uma forte aceleração econômica. Estatisticamente, não há correlação entre crescimento nos anos de escolaridade e aumento da renda per capita. Alguns estudos apontam, de fato, que um investimento no ensino básico pode surtir um efeito positivo no crescimento econômico, por determinado período. Mas isso está longe de ser a garantia de sucesso de uma nação a longo prazo, em termos de prosperidade. A conclusão é que a educação parece mais uma fórmula mágica que falhou na entrega das expectativas.

Na verdade, não é tão complicado entender a lógica disso. Quando o ambiente é hostil ao empreendedorismo, quando os incentivos para o investimento no futuro não estão presentes, e quando falta uma competição meritocrática calcada no livre mercado, o indivíduo mais educado ou irá migrar para um país mais favorável ou irá ceder aos encantos da “amizade com o rei”. No primeiro caso falamos do conhecido “brain drain”, onde vários indivíduos de bom intelecto partem para países mais livres e com maiores oportunidades de emprego. Basta lembrar a quantidade de cubanos, brasileiros e indianos com bom preparo que migraram para os Estados Unidos. No segundo caso, temos vários exemplos de que, quando o governo não cria as oportunidades devidas para a geração de riqueza, o ensino perde valor, dado que as atividades valorizadas são apenas as ligadas à redistribuição de riqueza. Passar em um concurso público ou obter um favor político e ser um burocrata compensa mais que disputar como engenheiro uma vaga no setor privado.

A grande falácia dos que depositam fé messiânica na educação imposta e financiada pelo Estado é que ignoram os incentivos individuais, partindo da premissa estranha de que os próprios indivíduos vão escolher algo pior para si. Ninguém mais que o próprio pai vai querer o melhor para seu filho. Como acreditar que políticos distantes, em busca de votos, vão realmente querer o melhor para o indivíduo em si? Logo, se o pai prefere a ajuda imediata do filho na roça em vez de investir na sua educação, é provavelmente porque a educação tem um baixo valor esperado, e não compensa o custo. Essa é a conclusão de estudos da própria Organização Internacional do Trabalho. Forçar crianças a freqüentar a escola sem ter uma contrapartida de valor esperado positivo para tamanho investimento parece ser uma medida inócua.

Em outras palavras, criar gente qualificada onde não há demanda para tanto pode representar um desperdício. Como exemplo sintomático, podemos pensar nos taxistas engenheiros, ou mesmo em prostitutas com diploma, além da migração para outros países, como já foi dito. Não pretendo com isso desmerecer o investimento em educação. Ele parece ser fundamental, ainda que não seja uma condição suficiente para o progresso. Mas a educação parece estar longe de ser o milagre que muitos acreditam, como se bastasse mais investimento estatal nesse setor para que um Brasil virasse uma Suíça. Sinto dizer, mas não é o caso. Sem ambiente favorável aos negócios, possível com maior liberdade econômica, teremos apenas subempregos com diplomados. Mas o povo ainda será muito pobre. Afinal, a educação, sozinha, não faz milagre.

# posted by Rodrigo Constantino @ 8:27 AM

A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO

Regina Caldas 24/06/2006

Cerca de 100 empresários brasileiros (Paulo Lehmman, David Feffer, Gerdau dentre outros), participaram na Bahia, da Conferência Internacional “Ações de responsabilidade Social em Educação: Melhores práticas na América Latina”, encerrada em 25/06/2006. Alguns destes empresários manifestaram publicamente seu apoio à urgente necessidade de se investir em Educação, para que possamos progredir e nos situarmos no ranking dos países desenvolvidos, além de criar possibilidades de melhor qualidade de vida ao brasileiro.

De um modo geral, a Educação vai mal, seja nos países desenvolvidos ou naqueles em desenvolvimento e os subdesenvolvidos.

Um dos problemas que mais interfere na decadência da Educação de um modo geral, certamente são as transformações ocorridas em todas as partes do Globo, nas últimas três décadas. Globalização, novas tecnologias e meios de Comunicações evoluíram de tal forma que a Humanidade ainda não assimilou suas conseqüências a fim de propor novos parâmetros na Educação, que sejam ferramentas eficientes para nos situarmos na nova Era. Uma nova Era onde a moeda de troca no mercado de trabalho passou a ser o Conhecimento, e não mais a força braçal.

Segundo a opinião de alguns líderes mundiais, vivemos uma “segunda revolução industrial”, onde o que vale é saber lidar com robôs e os mais variados aparelhos eletrônicos que facilitam e agilizam o trabalho dentro das fábricas, e as comunicações entre os escritórios de todas as partes da Terra. Mas não assimilamos tais mudanças a ponto de entendermos até onde elas se refletem na sociedade e em nossas vidas pessoais, de forma cada vez mais acelerada e irreversível E se confrontarmos nossa cultura passada com o que divisamos em matéria de tecnologias e comunicações atuais, o sentimento que nos envolve é de que vivíamos na idade da pedra. .

O desenvolvimento de novas tecnologias, ao facilitar e agilizar as atividades humanas nos convida a reflexões. Como educar crianças e adultos para que se integrem harmoniosamente à nova era e possam usufruir os ganhos que ela traz consigo? Não é mais possível pensar a educação na sua forma tradicional. Aquele currículo escolar voltado para uma educação formal onde a criança inicia seu processo de alfabetização e está programada para permanecer dentro da escola durante mais de 15 anos, até que obtenha um diploma universitário, perdeu a razão de ser. A forma e o conteúdo da transmissão de conhecimento baseada em currículos de longo prazo tornaram-se incompatíveis com a velocidade das mudanças. Traz na sua maioria a repetição de matérias que hoje, através da Internet oferecem aos estudantes possibilidades mais ricas e condizentes com o grau de maturidade de cada um. Se no passado recente, nossas ferramentas escolares se resumiam em livros, cadernos, lápis e lousas, agora complementam o computador. O computador tornou-se produto de primeira necessidade. E as novas salas de aula não estão mais restritas aos prédios escolares. Escritórios, ciber-cafés, residências, chão de fábrica se tornaram vias utilizadas para uma educação moderna e continuada. Seminários, Congressos, Conferências entre empresas de qualquer parte da Terra, salas de cirurgia e consultórios médicos se beneficiam das Conference-Call, e é também pela Internet que acessamos Bibliotecas e Museus dos mais renomados e “viajamos” para as mais distantes cidades.

Dentro deste novo contexto qual o papel de professores, escolas, governos, empresas e comunidades? Que trabalhem juntos, pois o interesse é de todos. Será de pouca valia reinar estudantes em novas tecnologias e meios de comunicações se existir defasagem de conhecimento nos vários canais de intercomunicação social.

Ao professor caberá especializar-se no conhecimento aprofundado das novas tecnologias além de ser treinado para inserir seus alunos no universo tecnológico. Seu papel é fundamental. Além de orientador dos conteúdos de aprendizado, lhe sobram incontáveis tarefas. E talvez, a mais necessária delas é inserir no exercício do aprendizado diário a visão dos fatos que ocorrem além dos muros das escolas, para que as crianças adquiram formação que lhes dê o suporte necessário para saber lidar com elas. É na sala de aula que os estudantes precisam firmar seus valores de cidadania e civilidade sem preconceitos e ideologias políticas. Às escolas cabe a adaptação eficiente aos novos currículos, e abrir novos espaços de entrosamento entre escola/sociedade. Não só como forma de participação no treinamento e formação da mão-de-obra local, mas disponibilizando espaço para qualquer indivíduo disposto a dar continuidade à sua educação. Adotando as novas tecnologias tanto nas suas grades curriculares quanto na própria administração, a escola terá ao seu dispor sobras de tempo que poderá usar investindo na comunidade. Ao governo caberá investir racionalmente na adaptação dos novos programas. Às comunidades cabe o interesse em disseminar tais conhecimentos inteirando-se dos mesmos e permanecendo atenta para que os investimentos privados e públicos atinjam seus objetivos. Às empresas levarão à comunidade, ao governo e às escolas suas necessidades específicas de profissionais que se adaptem às novas tecnologias.

O conjunto das necessidades de adaptação dos indivíduos à nova era, não se limita à transferência de conhecimento dentro das escolas. Tais conhecimentos devem ser disseminados por toda a sociedade, criando conexões entre todos, obrigando as escolas a ampliarem seus currículos enriquecendo-os com variedade de classes que atendam às novas demandas recém criadas no mercado de trabalho.

Quando Moisés entregou ao seu povo a Tábua das Leis Divinas, o terceiro mandamento foi de fundamental importância para a evolução e acúmulo de conhecimento. Guardar o sábado. Reservar um dia por semana para o descanso do corpo, dando à mente a oportunidade de refletir, estudar, dedicar-se ao lazer, enfim, tempo para sonhar e desenvolver a criatividade. Da mesma forma, as novas tecnologias, facilitando o trabalho humano proporcionam enormes sobras de tempo a todos, que deverão ser preenchidas com educação e lazer que promovam o crescimento pessoal.

O preenchimento daquele tempo favorece as atividades de lazer, e caberá à educação incluir em seus currículos matérias voltadas para os esportes e outras formas de cultura e lazer. Todas estas atividades tornar-se-ão opções novas de trabalho para os excedentes nas fábricas e campo. A questão é jogada sobre os ombros da comunidade, cabe-lhes preparar aqueles excedentes para as novas atividades. Daí a importância do incentivo à educação continuada.

Outra questão a ser planejada pela sociedade em relação à Educação refere-se ao tempo de escolaridade exigido pelos currículos atuais. Partindo do princípio de que estes currículos foram preparados de forma a manter dentro das escolas os jovens durante sua fase de adolescência, atualmente este objetivo perdeu a razão de ser. Vejamos porquê:- Na atualidade os jovens amadurecem e assumem responsabilidades mais cedo que no passado. Assim, quando interrompem os estudos pela necessidade de busca de trabalho estão despreparados para qualquer tipo de atividade porque lhes falta um diploma. Se estes jovens, ao término do processo de alfabetização contassem com a chance de participarem de cursos de curto prazo, voltados para as áreas de serviços seriam mais facilmente absorvidos pelo mercado;

- É sem fundamento socioeconômico incentivar os jovens e suas famílias a valorizarem com obsessão o diploma universitário. Diploma de faculdade não garante emprego bem remunerado e nem status social a ninguém. Universidade é vocação. Faculdade pode ser escolha da maturidade, algo muito melhor que a mera continuidade dos estudos apenas para conquistar um diploma de grau superior porque o mercado exige… É preciso mudar esta mentalidade!

-O valor da Educação reside na sua capacidade de adaptar o indivíduo ao meio em que vive, incutir-lhe sentimentos de cidadania, e respeito aos valores morais e à ética, e dar-lhe a chance de viver através de um trabalho que lhe garanta a subsistência, o respeito dentro de sua comunidade e, se possível a ascensão social.

Sendo verdadeiras estas conclusões, cabe à sociedade unir-se e se propor a realizar uma revolução no ensino. A União faz a força, e se queremos de fato mudar a face de uma sociedade, apagando suas trágicas feições marcadas pelo crescimento de uma juventude que não sabe de si, que não encontra rumo para o próprio futuro, vamos agora realizar todas as mudanças necessárias na Educação. Que os 100 empresários brasileiros, quando se decidiram a participar do evento sobre a Educação na Bahia, liderem dentro de suas comunidades um movimento que concretize ações efetivas no âmbito da Educação. Estes são os meus votos, por um Brasil melhor!

s velhas transmitem às mais novas, seus modos de convivência e seus valores culturais e morais acumulados através do tempo.

O homem das cavernas, por gestos e gritos, expressou suas alegrias, tristezas, raiva e satisfação. Aprendendo a identificar seus sentimentos lhe foi possível organizar seu sistema de cooperação e sobreviver agregado. Suas necessidades básicas foram atendidas porque ele se organizou por meio da Educação. Por exemplo, a morte prematura de mães (parto), de pais (na caça e guerras), levou-o a desenvolver um sistema educacional que lhe permitisse cuidar adequadamente dos órfãos. A caça para alimentar o grupo lhe foi possível porque ele aprendeu a dividir e a transmitir tarefas através da cooperação. Tais atividades nasceram da percepção de uma responsabilidade social para garantir a sobrevivência do grupo. Sua impressão sobre o ambiente que o cercava e a forma como lidava com isto ficou expressa nas pinturas rupestres encontradas no interior das cavernas. Deste legado sabe-se que a sua incipiente Educação já estava voltada para as suas necessidades sociais. Disciplinar as crianças e encontrar a caça para alimentar a comunidade.

A Educação conduz à criatividade e promove a cooperação a fim de que metas sociais sejam alcançadas. A Educação beneficia e transforma a sociedade melhorando a qualidade de vida de todos. Quando a sociedade se organiza no intuito de promover convivência e desenvolvimento harmonioso entre os seus sujeitos, seu raio de ação provém de um projeto educacional. Existem momentos em que a humanidade não visualiza o papel social da Educação. São momentos em que o Homem entra num período de obscurantismo. Mas, cada vez que a sociedade se sente ameaçada de decadência, também percebe que seus desvios ocorreram porque não privilegiou a Educação como uma responsabilidade social.

Qualquer instituição social tem como finalidade primordial o atendimento da comunidade. Este é o significado real da expressão “responsabilidade social”. Na Educação podemos percebê-la através da forma como a sociedade se organizou para atender às necessidades sociais que marcaram cada época da nossa história. Os israelitas educavam suas mulheres porque as consideravam a guardiã do lar, e a elas caberia a missão de educar os filhos nas tradições judaicas. Da mesma forma, quando a palavra escrita pode ser impressa, Martinho Lutero apressou-se em incentivar a alfabetização dos camponeses para que pudessem ler a bíblia em família.

Antes de Lutero, a Educação formal tendia a atender os segmentos mais elevados da sociedade que recebiam uma educação aprimorada com os estudos das Artes Liberais. Esta elite educada liderava a sociedade. Para ocupar posições de liderança deveriam ser bem formados não só para o bom exercício da profissão, como também para que servissem de bons exemplos para toda a sociedade.

Com a iniciativa de Lutero e o nascimento da era industrial a Educação tornou-se acessível às massas. E sua responsabilidade social se voltava para a capacitação profissional. A partir de então o estudo das Artes Liberais foi posto. A Educação entrou em decadência e seus reflexos na sociedade não tardaram a se manifestar. Negaram uma Educação aprimorada dando condições de discernimento ao Homem para que ele entenda o mundo que o rodeia, para que aprenda a se relacionar de forma ética com o seu semelhante, para que seja cívico e responsável com a coisa pública. A ausência da cultura de valores tradicionais no sistema educacional esvaziou a mente humana da valorização do Ser. Conduziu-nos à cultura do Ter, seguida pela cultura das aparências.

A cultura das aparências domina as sociedades modernas. E vivemos um daqueles momentos quando, conforme afirma Fukuyama, sociólogo norte-americano, sentimos que chegamos ao final da História. Isto assinala que passaremos por mudanças profundas cujos ventos já se aproximam trazidos pelo choque de civilizações que presenciamos. Distanciados hoje de nossos valores morais, subjugados pelo Relativismo das ações humanas, olhamos com tolerância os julgamentos negativos que fazem do nosso patrimônio cultural. Estamos desorientados nas escolhas de nossos caminhos. Mas sabemos que temos que mudar. Quais as mudanças necessárias para se retomar um caminho que nos conduza à paz duradoura e ao progresso melhor partilhado entre todos? Qual será a responsabilidade social da Educação neste momento de mudanças? Considero que a responsabilidade social da Educação neste presente será resgatar a Educação humanística do passado. Abrir a nossa mente além da cultura do Ter e da aparência.

Nosso presente em decadência visualiza, em meio às brumas de nossas incertezas quanto ao futuro, uma nova era através de uma nova Educação. Trata-se do retorno à Ética dos nossos antepassados.

Ultimo dia:

Responsabilidade social da Educação

Como nossas idéias podem ser usadas?

Visões diferentes:

Piaget: as pessoas constroem um novo conhecimento como uma função de sua única experiência e caminho de saber. Saber o que as pessoas sabem para facilitar a conexão para a construção do novo conhecimento.

Vygotsky enfatizou a linguagem e a colaboração social na construção do conhecimento. Esta tese aparece nos centros de tecnologia rural. Assim por exemplo, não agrupamos crianças pela idade. Crianças e adultos trabalham juntos

Freire enfatiza a tese do engajamento de cada um com o mundo. Assim as pessoas podem aprender sobre matérias de vital importância para discuti-las e descobrir seus possíveis remédios.