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Rahel Varhagen

Saturday, February 2nd, 2008

RAHEL VARNHAGEN

Regina Caldas

Arendt, Hannah; “Rahel Varnhagen, a vida de uma judia alemã na época do romantismo”. Tradução de Antonio Trânsito e Gernot Kludasch- Relume Dumará- Rio de Janeiro, 1994

Resumo e breve análise

Resumir qualquer livro de Hannah Arendt é tarefa árdua. Hannah não é fácil de ser compreendida, mas assimilar cada um de seus pensamentos compensa o esforço dispendido.

Rahel Varnhagen, como o título do livro informa, é uma judia alemã da época do Romantismo. Um tempo de transição social, quando a nobreza entra em decadência e a burguesia vai ocupar seus espaços. É nesta sociedade que Rahel emprega parte de sua mocidade ao transformar o sótão de sua casa num centro de cultura, ponto de encontro da nobreza, de escritores e artistas. A jovem sabe aglutinar ao seu redor uma inconcebível mistura das mais variadas personalidades de seu tempo.

O essencial da biografia de Rahel é a sua obsessão por ser judia, o que a faz sentir-se como se já tivesse nascido condenada, portanto em desvantagem social desde o berço.

Um ponto de partida desvantajoso requer maior esforço no enfrentamento dos desafios que a vida apresenta. Mas a disposição para enfrentá-los vai depender do grau de sensibilidade e da inteligência de cada um. A vida raramente é gentil conosco, e de uma forma ou outra, todos temos desafios a enfrentar em qualquer caminho que optemos por seguir. Cabe-nos entender de que forma o mundo funciona para que possamos identificar quais nossas melhores escolhas. Mas Rahel tem dificuldade em perceber a realidade, incorre sempre nos mesmos erros, sua percepção é falha.

Ao estudar o caráter de Rahel, sua biógrafa nos ensina que não se pode forjar uma existência fora da realidade sem pagar o preço com infelicidade. Aqui reside o maior problema humano. O direito de viver a própria realidade em igualdade de condições com seus semelhantes é barrado pelos preconceitos e mitos que o cercam desde o nascimento. Daí que a maioria nasce condenada, não só Rahel. É que raramente estamos satisfeitos com nossas condições de berço. Mas não seria esta insatisfação a mola mestra que nos impulsiona para o crescimento? Não é por ai que somos conduzidos aos caminhos que nos libertam dos legados recebidos por nascimento quando estes não nos satisfazem? Descobrir a raiz de nossas insatisfações é nossa missão, pois ao mundo não cabe tirar a nossa inocência. Barreiras impostas pelo mundo real apenas determinam quem somos. Mas em paralelo percebemos que a nossa felicidade e realização pessoal só podem ser alcançadas quando fazemos o esforço necessário para romper nossas limitações. A pior destas limitações é o preconceito, tão enraizado em qualquer sociedade. Superá-lo causa infelicidade, pois nos expõe á dramáticas batalhas entre o “ser ou não ser”, o “desejar e realizar”.

O Homem é um ser dependente. Agrega-se para sobreviver. Mas não é da sua natureza agregar-se com naturalidade. Ao contrário, agrega-se sob tutela para que ao espelhar-se nos comportamentos alheios seja aceito socialmente. Romper com esta teia de referencias causa sofrimento. Libertar-se traz o temor de ser marginalizado. O pertencimento é uma realidade na vida dos indivíduos.

No caso de Rahel, apagar sua origem judaica é a sua realidade. Na expectativa de alcançar tal objetivo ela funda no sótão da casa onde mora um salão, ponto de encontro daqueles que fogem do convencional, e que se entregam aos prazeres que dêem sentido à própria vida. Ignoram suas próprias origens e convivem com todo tipo de indivíduos, desde que nestes extraiam algum prazer. Neste ambiente Rahel se encaixa. Pois ao sentir-se condenada por nascimento também se sente sem status social definido.

A realidade é complexa por ser ilimitada. O Homem tende a ligar sua felicidade á uma realidade que não lhe pertence. É nas outras realidades que moram os nossos desejos e com as quais alimentamos nossos sonhos. Rahel sente-se excluída e se expõe ao acaso porque deseja viver, é um ser desorientado. Repete os mesmos erros, mas talvez as conclusões que tira sobre si mesma apenas ocultem suas ambições. Suas pretensões obrigam-na a fechar-se em si mesma. É por pretender uma vida grandiosa que Rahel seleciona a dedo suas relações afetivas e de amizades. É também para fugir da sua realidade que Rahel segue os passos de seus irmãos quando adota um novo nome e se deixa batizar. Transforma-se em Friedercke Robert para tornar-se “um ser humano entre outros”. Mas, quando assume nova identidade está só…”- À minha mesa de chá… sento-me sem nada além de dicionários” ela afirma em 1.808. Está só porque ainda não percebeu que seu mundo foi destruído pelas mudanças políticas.

Ao considerar que sua história se iniciou 2.000 anos antes de seu nascimento, Rahel tem dificuldade em compreender as mudanças políticas de seu tempo real. Sequer percebe a indignação dos prussianos contra Napoleão. Sente apenas a necessidade de colocar-se sob a tutela do vencedor. Não se sente ligada à Prússia como Pátria. Seu ponto de referencia são as pessoas. Não qualquer pessoa, mas aquelas que estão no poder. Se agora a Prússia está nas mãos da França, deve aprender francês e relacionar-se com amigos franceses. Mas felizmente, em breve ela se cura desta alienação ao tomar contacto com os discursos de Fichte. O apelo do filósofo para que se construa um novo mundo onde todos sejam bem-vindos toca de perto na ferida de seu coração, no seu segredo. Numa nova ordem social ela poderá extirpar sua condição e se entrelaçar com toda a humanidade por meio de um pensamento único. Este patriotismo forjado a leva até Praga onde passa a maior parte da Guerra de 1813/14, trabalhando em prol dos soldados feridos. Sem o desejar trabalhou e foi alemã pela primeira vez em sua vida.

Pág. 130: “onde somos separados pelos talentos e pela natureza, somos unidos pela amizade, pela compreensão, paciência, justiça, pela fidelidade, lealdade, cultura verdadeira.” (mendigo junto ao caminho).

A partir de 1808, Rahel mergulha em dois relacionamentos com homens bem mais novos que ela. Conheceu August Varnhagen em 1808 em Berlin e logo tornou-se sua amante. Em 1809, conheceu Aleksander Von der Marwitz, irmão caçula do Junker que mais se opôs ás reformas de Hardenberg.

Foi com Marwitz que Rahel aprendeu a se conhecer melhor e a projetar sua alienação numa Berlin não diferente dela: pobre e desesperada. Foi através de Marwitz que Rahel concluiu que seus sonhos e ambições chegavam ao fim. Percebeu-o através de uma carta que ele lhe escreveu onde afirma: “ do vale verde, fresco, a tempestade do destino elevou-a para o alto da montanha, onde a vista é infinita, o homem distante, mas Deus próximo.” Rahel entendeu o recado de Marwitz. Ele a queria numa posição onde poderia amá-la sem assumir compromissos. Deixava-a nas mãos do destino. Finalmente Rahel rendeu-se à realidade.

Aos quarenta anos Rahel aceitou que nenhum dos seus sonhos tornara-se realidade. Perdera as poucas chances que a juventude lhe concedera. Enquanto suas amigas alcançaram a realização de muitos de seus desejos, Rahel nada conseguira. Permanecera esquecida onde sempre estivera. Seu erro foi ter a sociedade como foco, meta a ser atingida através de alguém de alta posição que a resgatasse para uma nova realidade entre os famosos. Assim agarrou-se ao que considerava ser a última chance que a vida poderia lhe conceder, casar-se com Varnhagen. Ele, que até então fora o “mendigo à beira do caminho”, ao repetir o feito de Marwitz de ir para a guerra, soube aproveitar em benefício próprio o que o patriotismo lhe oferecia. Ao se colocar a serviço de Tettenborn, tornou-se escritor dos fatos políticos que ocorriam naquele momento histórico. Deu rumo à própria vida e carregou Rahel consigo. Tornou-se conhecido, obteve o direito a uma pensão permanente garantida pela Prússia e teve condição financeira para mantê-la em Praga libertando-a da dependência familiar. O destino os unia sem que Rahel ainda entendesse o que fosse o amor verdadeiro. Unia-se a Varnhagen por conveniência. Sabia que ao lado dele poderia realizar seu sonho de tornar-se conhecida, de projetar-se publicamente e de se tornar uma parvenu*. Sobre seu casamento Humbolt ironizou “ Disseram-me que agora Varnhagen casou-se com a pequena Levy, assim finalmente ela pode se tornar a mulher de um Embaixador e Excelência” (Entre paria e parvenu, pág. 166).

Após fracassar na atividade diplomática em Baden, onde Rahel conseguiu cidadania prussiana, o casal fundou em Berlin um salão de culto a Goethe.

No final de sua vida Rahel teve a ventura de ouvir o eco de seus sonhos refletido nos discursos de Heine que prometiam resgatar os judeus e lutar pela sua emancipação civil. Ao ouvir tais promessas Rahel pode morrer tranqüila, seu coração fora apaziguado. Morreu com a certeza de que afinal, durante toda a sua vida jamais deixara de ser uma judia..

  • Parvenu: aquele que alcança posição social mais alta que a de suas origens, sem se elevar nas suas maneiras. (Aurélio)
  • Parvenu: aquele que se eleva social e economicamente a uma alta classe, mas não fica aceito pela mesma. (American Heritage)
  • Parvenu: “É fácil enganar os bocós e puxa-sacos. Leitor, prefira os “inatuais” de Balzac e de Proust. Só o mundo do dinheiro aceita os “parvenu”. O do espírito, não! (Reinaldo Azevedo- Veja, 21/11/2006)