Archive for April, 2008

Paz no Campo

Friday, April 18th, 2008

                 “Quando a agricultura vai bem, o comércio limpa as prateleiras, e quando o comércio limpa as prateleiras, não existe capacidade ociosa na indústria e nem desemprego”.Guilherme Afif Domingos, 17/01/89.

 

 

Regina Caldas

05/09/2004

 

 

 

                 Em 1997, no ultimo encontro mantido pelos lideres empresariais, o atual Ministro da Indústria e Comércio Exterior, Sr Luiz Fernando Furlan, ao comentar que precisaríamos incrementar um retorno ao campo, foi rebatido por um empresário paranaense que, repetindo uma famosa frase de Roberto Campos, gritou lá do seu cantinho: “Mas isto é andar na contra-mão da história!”.  Será?

 

                  Juscelino Kubistchek, quando se tornou Presidente (1956/60), tinha como meta inicial de governo, dar um impulso ao desenvolvimento industrial brasileiro, e, numa segunda fase, proporcionar um novo ciclo de investimentos na agricultura. O mote era o mesmo usado anteriormente para a industrialização: “50 anos de desenvolvimento em 5 anos”, e, a seguir: “Cinco anos de agricultura, 50 anos de fartura”. Mas Juscelino não retornou ao governo como pretendia, e o Brasil desviou-se de sua rota. A partir de 64, o Estado assumiu a maior parte dos investimentos nacionais com mega projetos que privilegiavam o crescimento de pólos industriais voltados para a industria pesada, e, com raras exceções, homens de visão como Roberto Selmi-Dei, continuaram investindo em agro-pecuária.

 

                 Graças à farta disponibilidade de terras e de uma tradição agrícola que desde a época da colonização tem gerado riquezas e sustentado a economia nacional, ainda que de forma cíclica (cana-de-açúcar, café), a partir da década de 70, a atividade no campo recuperou o fôlego. Motivados pelas péssimas condições socioeconômicas, agricultores sulistas migraram para o centro-oeste. Levando na bagagem suas experiências no trato da terra, investiram na modernização do setor. A partir deste recomeço o aumento dos pequenos e médios proprietários, o nascimento das cooperativas agrícolas, a mecanização, os defensivos e o crescimento da agroindústria, mudaram a face da agricultura brasileira. Porém, se, em 1995 alcançávamos uma safra recorde de 80 milhões de toneladas de grãos, já em 1997, a colheita  baixava para 74 milhões de toneladas. O governo não liberou a tempo os 5,2 bilhões prometidos até o inicio do plantio, a falta de taxação dos importados como o algodão, por exemplo, e uma incompreensão por parte de alguns bancos privados quanto a securitização que alongou os prazos para o pagamento das dívidas rurais, foram os responsáveis pelo desanimo no campo. Mais uma vez o governo não cumpria a sua parte! Em 1999, houve uma recuperação do setor. Os agricultores colheram uma safra de mais de 81 milhões de toneladas, que alimentou o crescimento do PIB, e ajudou a afastar a inflação, deixando claro que a contribuição do campo para a economia nacional era incontestável. Em 2000, constatávamos que, em duas décadas, a produtividade de grãos aumentara 70%, tendo o índice de produtividade dado um salto de 71%, equivalentes a uma produção média por hectare de 2.171 quilos, quando 21 anos atrás o índice era de 1.267 quilos/hectare. 

 

                O campo aos poucos se tornou independente, criando novas modalidades de crédito rural. O próprio agricultor, através das CPRs , emite um título avalizado por uma instituição de crédito que permite a venda antecipada da safra. Além disso, houve mudança de mentalidade por parte do governo. Permitiu investimentos estrangeiros na Bolsa de Mercadorias & Futuros, o que aumentou o número de negócios e criou nova fonte de financiamento para a Agricultura, além de criar meios para a rápida comercialização da safra, diminuindo a formação de estoques como ocorria no passado para garantir preços mínimos. Mas ainda falta muito para que os negócios da agro-pecuária atinjam patamares ideais. Falta crédito, a infra-estrutura é deficiente (muitas vezes é o próprio agricultor que precisa investir em estradas para o escoamento da safra, como ocorreu recentemente no Estado do Mato Grosso). Falta marketing adequado ao mundo globalizado. Mas isso não impede que as exportações de alimentos cresçam cada vez mais.          

 

                Entre todos os problemas que o agricultor brasileiro encontra para a comercialização da safra, a invasão de terras é um dos maiores, pois desestabiliza a paz no campo. E o que é pior, conta com o silencio do Estado para o qual falta visão, tanto no planejamento e fiscalização em suas políticas de assentamento, quanto no reconhecimento da importância do atual estagio de nossas atividades agro pastoris no conjunto da economia nacional, que, quanto mais cresce, mais se torna necessário que o agricultor possa contar com o apoio irrestrito por parte do governo e da sociedade. Sua atividade deixou há muito de ser extensiva para tornar-se intensiva. Isto exige permanente investimento em pesquisas cientificas e tecnológicas, financiamentos, armazenagem, transportes, preços, além de dar chance do agricultor poder trabalhar em paz. Os benefícios dos investimentos na agro-pecuária trazem um alto retorno para toda a sociedade porque ocorrem em cadeia e são contínuos. A sobrevivência no campo e o seu constante progresso são vitais para a economia nacional. Pela responsabilidade que recai sobre o campo, as invasões em terras produtivas deveriam ser considerados crimes de lesa-pátria e serem tratadas com o rigor da lei. É um crime que se comete contra a Nação brasileira, pois a o alimento é fundamental para a sobrevivência de um povo. Permitir ou fazer vista grossa às ações de movimentos que, em momento algum objetivam o assentamento, sendo suas motivações de cunho meramente político, é condenar à morte por inanição, como ocorreu no passado na Ucrânia, milhões de seres humanos.

 

                 As cidades não podem se distanciar dos problemas do campo. Devemos ter consciência da grandiosidade de seu desenvolvimento, isto sim é motivo real para elevar a nossa auto-estima.

 

                  O campo gera trabalho em toda a cadeia ligada às atividades agrícolas e pecuárias, além de ser uma força motora para a indústria e comércio, dada a geração de riquezas que promove. Via campo se pode incrementar a oferta de empregos, basta viajarmos pelas zonas rurais  para constatarmos, que ao seu redor desenvolvem-se núcleos urbanos prósperos, com atividades diversificadas quase sempre ligadas ao atendimento das necessidades da agro-pecuária. Ora, sabemos que o desemprego ronda hoje todos os cantos do planeta. E o nosso país, com todas as possibilidades que o campo oferece encontra aí uma fonte inesgotável de trabalho e renda. Se no passado, atraídos pelo boom industrial milhares de brasileiros migraram do campo para a cidade em busca de novas oportunidades de trabalho, atualmente deveríamos estimular o movimento inverso. Seria um recomeço e uma chance para todos aqueles que se iludiram com as luzes das cidades.

 

Nota: O MST foi premiado na Bélgica, pela “eficiência de seu trabalho e de suas conquistas”. O premio foi concedido pela alienada “Fundação Dom Balduino”. Na ocasião, li num jornal belga, uma nova, desconhecida e mentirosa versão da história da agricultura brasileira, na qual creditavam ao movimento dos sem terra, o desenvolvimento agrário brasileiro!               

                     

                

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As mãos de minha mãe

Friday, April 18th, 2008

Regina Caldas

1980

Orgulha-me ter entre as minhas mãos,

As mãos de minha mãe

Perco o meu olhar pelos caminhos,

Que o tempo fez em suas mãos.

Mãos que recendem a rosas,

Carregadas de trabalho, anéis e amor.

As mãos de minha mãe:

Envelhecidas e cansadas, repousando aconchegadas…

Entre as mãos que um dia acolheu.

Mãos que suavemente acariciam as dobras de minhas mãos,

Enquanto seu pensamento afaga com tanto amor,

A cabeça infantil debruçada em seu regaço.

Orgulha-me ter entre as minhas mãos,

As mãos de minha mãe!

Mãos que trabalharam

Fizeram e desfizeram leitos,

Estenderam o pão, o remédio e o saber.

Mãos generosas na disciplina e no afago.

Orgulha-me ter entre as minhas mãos,

As mãos de minha mãe!

Relembro suas mãos delicadas,

Realçadas pelo esmalte,

Estendidas para mim,

Como gaivotas alçando vôos.

Gaivotas sonhadoras e alegres,

Brincando entre as estrelas e o luar

Nas noites de amor e de entrega do ser.

Gaivotas construindo ninhos,

Com pétalas de rosas,

Em penhascos e esquifes.

Orgulha-me ter entre as minhas mãos,

As mãos de minha mãe.

Enquanto eu, pequeno ser,

Aconchegada em seu regaço adormeço,

Ouço quase num sussurro,

Suas memoráveis cantigas de ninar.

Cantigas guerreiras, bíblicas, folclóricas,

Onde a fé, a coragem e a esperança,

Tecem noite após noite,

As fibras do meu coração.

Orgulha-me ter entre as minhas mãos,

As mãos de minha mãe!

Independencia dos estados Unidos da América do Norte

Friday, April 18th, 2008

Regina Caldas

2 de julho de 2004

Aproximando-se a data do aniversário da Independência dos Estados Unidos da América do Norte, declarada em 4 de julho de 1776, relembro os principais fatos que lhe dizem respeito.

Em retrospecto, a decadência da Casa de Hanover (sucessores dos Stuart), Grã-Bretanha, ocorreu com a perda de suas 13 de suas colônias, durante o período conhecido como “Revolução Americana”, de 1776/83. Àquela época, certamente ninguém imaginaria o potencial daquelas colônias espalhadas num imenso território inexplorado. E John Hancock assinou, sem maiores preocupações, a Declaração de Independência Norte-Americana, com letras enormes para que o Rei George III pudesse ler sem o auxilio de seus óculos. Para os rivais dos ingleses, França e Espanha, a revolta americana dava-lhes uma chance de se intrometerem, pois tinham interesses naquelas terras. Mas para a maioria dos paises europeus a questão era de princípios políticos fundamentais, já que transformaria os costumes monárquicos. O europeu sequer podia imaginar que naquelas distantes colônias despontariam estadistas brilhantes como Thomas Jefferson (Declaração da Independência), Alexander Hamilton, James Madison e John Jay que articularam as políticas para a criação do novo estado e para a elaboração da primeira e única Constituição dos Estados Unidos, além de George Washington que se tornou o primeiro Presidente da nova Nação. Muitos destes eram colonos que já alimentavam princípios radicais em questões de liberdade, igualdade e sufrágio universal.

Pelo conteúdo da declaração de independência dos Estados Unidos da América do Norte, constatamos a vontade manifesta de um povo que percebeu não ser mais possível continuar nas mãos de outros que decidissem a seu bel prazer pelos seus destinos.

O estopim da revolta norte-americana foi a decisão do reino de cobrar taxas pelo carimbo em todos os documentos legais. A pretensão ocorreu quando a colônia francesa no Canadá passou para a possessão britânica em 1763, e as 13 colônias britânicas ficaram dependentes da proteção inglesa. Para fazer frente aos franceses, os britânicos decidiram também cobrar taxas na importação de inúmeros bens para garantir os salários de seus oficiais estabelecidos na Colônia. Os colonos uniram-se para resistir àquela nova taxação e quebraram o maquinário destinado à confecção dos selos. A seguir, o “Act Tea”, baixado pelos britânicos e que permitia à Cia Britânica do Este da Índia, levar chá diretamente para seus agentes nas colônias, forçando a baixa dos preços para seus exportadores, levou um grupo de colonos a destruir um embarque de chá. A Grã-bretanha reagiu e os colonos se uniram e formaram um exercito liderado por George Washington. França, Espanha e Holanda aproveitaram-se da oportunidade para declarar guerra à Inglaterra, que pela vitória na Batalha de Todos os Santos continuou dominando os mares mas perdeu suas colônias, que, em Quatro de Julho de 1776, redigiram uma declaração de independência expondo suas revoltas contra os abusos cometidos pelos ingleses. As treze colônias britânicas, a partir de então vieram a ser os Estados Unidos da América. Suas principais lideranças trabalharam arduamente para tornar realidade o sonho da libertação daquele jugo. Não alimentaram a vã esperança de que um dia talvez deixassem de ser colônia inglesa, saíram à luta pela sua liberdade. Amadureceram um ideal através do esforço conjunto de suas melhores inteligências, que deu como retorno à Nação uma Constituição clara que formulava de maneira prática as idéias mais brilhantes do Iluminismo. Seus sete artigos são democráticos, racionais, firmados na teoria do contrato de Locke, no legalismo inglês e na divisão de poderes de Montesquieu. Uma Constituição escrita em nome do povo norte-americano. A ironia é que alguns de seus autores, como Jefferson e George Washington, foram escravos.

Os Estados Unidos organizaram-se primeiro como uma liga de estados independentes sob um acordo chamado “Artigos da Confederação”. Este acordo tornou-se insuficiente porque não cobria direitos essenciais em relação às taxas e ao comércio entre os estados. Da necessidade de aperfeiçoar aqueles artigos criou-se a Constituição unindo os estados numa federação, porem independentes com o poder dividido entre eles e o governo central. De Montesquieu tiraram a idéia de dividir o Estado em três poderes: Executivo, Judiciário e Legislativo. Ao final, adicionaram à Constituição um “Bill of Rights” contemplando o cidadão com direitos de se manifestar livremente, liberdade de religião, e julgamento mediante provas.

O êxito da campanha norte-americana para se livrar do jugo inglês resultou no exemplo que aos poucos foi sendo seguido por outras colônias espanholas e portuguesas nas Américas Central e do Sul. Quando Napoleão invadiu a Espanha em 1808, os revolucionários das Américas viram ai a sua chance. Seus planos de independência iniciaram-se no México, seguido por áreas na América Central, e todos eles depois de revoltas sangrentas terminaram por conquistar sua Independência. Na América do Sul, o movimento iniciou-se com o crioulo Simon Bolívar conquistando a liberdade da Venezuela. O movimento se alastrou pelas colônias espanholas não sem derramamento de sangue. Apenas no Brasil ocorreu a Independência de Portugal, de forma pacífica.

Ao final da Guerra Civil, os USA já eram ativos jogadores nos affairs internacionais. Sua industria prosperava atraindo milhares de imigrantes do velho continente. Em 1823, o Presidente James Monroe advertiu os poderes europeus a não interferirem no hemisfério ocidental (Doutrina Monroe, pela qual os USA pleiteia o direito de se opor a intervenção estrangeira em qualquer região das Américas). E, quando em 1895, os britânicos entraram em desacordo com a Venezuela por questões de fronteira com a Guiana Inglesa, o USA persistiram na necessidade de levar a questão a uma arbitragem internacional.

Mais de dois séculos se passaram após a decretação da independência dos USA. E o Império Britânico não poderia de forma alguma imaginar no que se transformariam as suas colônias do continente norte-americano que das treze iniciais, evoluíram para 51 estados. O idealismo de um grupo de grandes estadistas traçou a rota de uma Nação que não encontra similar ao redor do mundo. O senso de dever e de liberdade, perceptível na leitura do “American Papers” (Coleção dos trabalhos escritos por Hamilton, Madison e Jay), foi a semente que se espalhou generosamente pelo território norte-americano, dando origem ao florescimento de uma grande Nação, cujos frutos são colhidos ao redor do mundo que, por causa deles, mudou para melhor. E se queremos continuar usufruindo os amplos benefícios desses frutos temos que combater, com todas as forças das nossas almas, o antiamericanismo. Dependemos das riquezas e da democracia norte-americana. Dependemos dos rumos que os USA dão às suas políticas externas. Se a grande Nação do Norte falhar, falharemos todos nós. As democracias e as economias mundiais ficarão acéfalas e expostas a governantes tiranos e a decadência econômica. É, portanto, dever de todo cidadão que preze os valores inerentes à Democracia, orar para que os céus protejam os USA. “God save América!”

Poema Indefinivel

Friday, April 18th, 2008

CANTO TRISTE

Coração tombado na estrada,

Coberto pela poeira do inóspito refúgio.

No final da tarde o vento de ti se acerca,

Levará aos céus teus tristes ais.

Sombras delineadas pela noite

Enquanto folhas mortas tombam

E junto ao coração se amontoam.

Quem te despertará da letargia?

Se o pássaro pressuroso se achegar,

Pela tua indiferença,

se afastará.

Coração ferido,

Ouves o lamento da triste cotovia?

No cair da tarde

Teu triste gemido

É como o lamento da cotovia.

maïtena, 09/04/2006- saudade

Sonata ao Luar-Beethoven

UM POEMA INDEFINÍVEL

Maïtena

1965/junho

Queres saber quem sou.

Sou um longo poema indefinível,

Para ser lido, relido, mas jamais compreendido.

Lendo-o encontrarás páginas alegres,

Nas entrelinhas conhecerás tristezas,

Nas páginas em branco, os meus silêncios.

Nas reticências um pouco do meu sorriso…

Rasgando certas páginas,

De pérfidas passagens,

Encontrarás talvez um anjo!

Se quiser saber se amei outrora,

Procure as páginas de patética melancolia.

As minhas lágrimas?

Esqueci-as nas páginas que o tempo amarelou.

Odiando este poema,

Não o entendendo,

Atire-o no fogo da lareira,

Restarão cinzas, nada mais.

MUDANÇAS

Sunday, April 13th, 2008

MUDANÇAS

“Tempora mutantur, nos et mutamur in illis”

(Os tempos mudam e nós mudamos com eles)

Dentre milhares de espécies animais que nos cercam, o ser humano é o único que não está fechado em seu ambiente. Só ele é capaz de atuar mudando o seu habitat, e a isto chamamos evolução cultural.

As duas vertentes da História, Tempo e Espaço, ajudam-nos a visualizar o longo caminho que trilhamos ao redor do planeta. As linhas do Tempo correndo através dos séculos, iluminam os espaços ocupados pelo Homem que supera todas as dificuldades, para criar, dominar, assimilar ou aniquilar culturas. Assim tem sido desde que surgiram as primeiras civilizações.

Na medida em que os seres humanos atendem suas necessidades básicas, cresce-lhes a percepção de que devem explorar o mundo que os rodeia. Também percebem que possuem capacidade criativa através da qual podem expressar o que vêm à sua volta. Os estudos que os antropólogos realizam em cavernas; em sítios aparentemente jamais habitados, ou escavando o sub-solo, nos surpreendem pelos caminhos trilhados por nossos antepassados na sua evolução cultural. Os museus e sítios tombados revelam maravilhosas histórias de todas as mudanças experimentadas por civilizações que nasceram e morreram através dos milênios.

Tudo o que existe está sujeito a permanente mudança. Esta é uma das leis fundamentais da natureza. O assunto tem sido objeto de discussões entre os filósofos através dos tempos. A questão envolve três tipos de mudanças intercambiáveis entre si: mudança, moção e “vir a ser”. Aristóteles, por exemplo, distinguia quatro tipos de mudanças: a mudança causada entre o crescer e diminuir (quantidade); de um lugar para outro (loco+moção); mudança na qualidade (alteração); e quando nada persiste daquilo cujo resultado é uma propriedade (o vir a ser). O mesmo principio vale para as mudanças causadas pelas atividades humanas. Só que entre os humanos as mudanças ocorrem de uma forma sem paralelo na natureza.

Quaisquer que sejam as causas das mudanças, elas criam uma seqüência de eventos que, em tempos modernos já não são, em alguns casos, ocorrências de conseqüências irreversíveis. A ciência e a tecnologia adquirem cada vez mais condições de reparar alguns dos danos que o homem causa à natureza, a si próprio ou à sua estrutura social, seja pelo mau uso dos recursos disponíveis, seja por mudanças acidentais.

A maioria de nós teme as mudanças. Quantos não se conformam que alguém possa querer mudar de vida ou sair em busca de coisas novas. Os seres humanos vivem numa permanente luta contra as mudanças que ocorrem em suas vidas. O temor das mesmas torna-se objeto de atitudes emocionais, causando dualidade entre amor e ódio, desejo e aversão pelas mudanças. (Isto explica em parte tanta gritaria contrária à globalização).

As mudanças alimentam o processo criativo que por sua vez funciona como mola propulsora para entrar em contato com o novo. E o novo dá a sua melhor resposta quando propicia continuidade à evolução. Qualquer que seja o seu estágio, a mudança demanda alguma forma de conhecimento que desperte o desejo e a imaginação humanos. O processo criativo requer a organização mental de nossos sonhos e o estabelecimento de metas para realizá-los.

A maneira mais eficiente de mudança ocorre quando assimilamos novas culturas. A assimilação nos instiga à investigação, à comparação, dando-nos a chance de substituir o que está ultrapassado, ampliando os espaços onde atuamos, aperfeiçoando as relações com os nossos semelhantes e melhorando nossa visão de mundo. As descobertas científicas, as novas tecnologias, aliadas aos meios de comunicações podem nos oferecer as melhores formas de mudança eficiente, pois criam novos paradigmas que provocam profundas alterações no comportamento social alem de melhorar a qualidade de vida para um número sempre crescente de pessoas.

A mudança negativa aniquila outra cultura. Assim fizeram alguns colonizadores europeus, na África, no Novo Mundo, exterminando a maioria dos nativos e suas culturas, algumas até com impressionante estrutura social. O extermínio de outras culturas revela a arrogância dos conquistadores que se consideram superiores aos subjugados. Os que destroem culturas para reiniciá-las à imagem de suas utopias insanas sempre causam retrocessos irrecuperáveis na historia da evolução humana. Governos autoritários agem desta forma, pois se consideram capazes de determinar o que é melhor para a sociedade. Dentre os crimes que cometem, um dos mais desastrados é a falsificação ou a eliminação do patrimônio cultural acumulado, que na imaginação deles deveria ser substituído pela nova história que sonham escrever, mas jamais conseguem. Rompendo drasticamente com o passado e ao mesmo tempo impondo regras que inibem a liberdade de expressão, os autoritários castram todos os direitos que ofereçam riscos aos seus planos. Para cooptar as mentes eles utilizam uma linguagem hipócrita permeada de mentiras. E o resultado tem sido sempre o mesmo: campos devastados, patrimônio sucatado, milhões de vidas ceifadas.

Instituições religiosas, jurídicas, morais, levam tempo para reagir e se adequar às mudanças culturais de um povo. Por exemplo, Códigos de Leis quase sempre são defasados em virtude das mudanças de comportamento social, que naturalmente ocorrem muito mais rápidas que a lei ao responder àquelas transformações.

Agradável ou não, a mudança é o caminho que a Vida trilha para se renovar, para que a Humanidade evolua. Também retrata as profundas diferenças existentes entre os povos. Aqueles que são preparados para identificar quais são as mudanças saudáveis que trarão melhores retornos para toda a sociedade, evoluem. Alcançam níveis culturais que beneficiam milhares de seres humanos. As sociedades que temem ou bloqueiam as mudanças, ao contrário, extinguem-se, transformando-se em combustível utilizado pelas sociedades que aceitaram mudar para evoluir.

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