Existem cenas de filmes que jámais esquecemos. Uma destas assisti no filme acima. O casal se encontra no hall de entrada do apartamento. A mulher retorna de uma “traição” ao marido. O marido retorna do trabalho, traz o lunch da tarde. Embaraçada a mulher mente sobre o que fez durante a tarde. E ali, naquele pequeno quadrado de acesso ao apartamento se desenrola a cena que jamais esqueci. Indignado, sabendo-se traido, o marido diz á esposa:
“- Mentiras, traições, até que ponto suportamos?”
A frase calou fundo em mim, pois desde então tonei-me uma observadora do caráter humano e de minhas atitudes. Eu era bastante jovem quando assisti ao filme. Nem sei o quanto esta frase influiu na formação da minha lealdade comigo e com meus semelhantes. Sei que naquele momento tornei-me adulta, quando percebi como deveria assumir a responsabilidade pelas minhas palavras e ações. Desde então reflito sobre este tema. A lealdade que devemos às nossas ações e aos nossos pensamentos. Suponho que aqueles que não são leais consigo não se encontram, vivem no escuro emaranhado das fantasias e mentiras.
Quem deseja conhecer a si proprio deve partir da compreensão do “ser leal”. Ser leal é uma virtude. Mas os Homens falam raramente da prática das virtudes. Relegam-na áqueles que praticam religiões. Virtudes são entretanto qualidades do bom caráter: lealdade, generosidade, fidelidade, gratidão, alegria, magnanimidade e tantas outras. Nascemos com elas ou pela educação e ambiente em que vivemos somos treinados para praticá-las? È uma questão dificil de ser respondida, mas penso que um caráter bom ou mau se forma desde a mais tenra idade. È a soma da educação que recebemos com as nossas tendencias naturais. A tendência hoje é jogar a culpa do mau caráter no meio em que a criança nasce e se desenvolve. Mas sabemos que não é por ai. Milhões de crianças que nasceram e continuarão nascendo em lares pobres, localizados em ambientes inadequados ao seu desenvolvimento tornaram-se (ou tornam-se), entretanto, cidadãos excepcionais. tais crianças cresceram à sombra de alguém que as amparou, que lhes deu amor, dedicação e bons exemplos. O máu caráter decorre do descaso que se dá à educação. Aquela educação que chamamos de “educação de berço”. Berço no sentido de um braço adulto e responsavel que guie os passos da criança pelo caminho certo.
Não podemos confundir quantidade com qualidade quando se fala em educação infantil. Muitos pais quando não se concedem tempo para conviver com seus filhos adotam um sentimento de culpa e tendem compensá-lo com presentes e mimos em excesso. Não é o tempo que se passa ao lado de uma criança que fará dela “um bom caráter”. São os bons exemplos, a disciplina, o respeito do adulto pela criança e vice-versa, ensiná-la a cumprir com seus deveres, a cordialidade e o amor. Citarei um exemplo: tive um casal de empregados pais de um menino de uns oito anos e uma menina de seis. O marido trabalhava como faxineiro na fábrica. A mulher trabalhava em minha casa. Moravam numa casa situada no terreno da fábrica que fazia fundos com um grupo escolar. Os pais saiam logo de manhã para o trabalho. Ao menino cabiam algumas tarefas como preparar o almoço para ele e a irmã e deixar a casa organizada. enfim, ele era o responsavel para que num certo horário, no inicio de cada tarde, ambos estivessem no grupo. E á tarde quando retornassem da escola cabia-lhe orientar a irmã nas tarefas escolares. Só no final do dia usufruiam da companhia dos pais. Eu acompanhava maravilhada a forma como aquela familia vivia, feliz, unida e bem organizada. Nunca ouvi aquela mãe se queixar que seus filhos não iam bem na escola ou que estivessem dando algum trabalho em casa. Isto se chama educação de berço, algo que ninguem ou nada nos rouba. Foi uma pena que após alguns anos aquela familia precisou retornar ao seio de sua familia. O pai sofria do mal de Chagas, não estava bem e o casal preferiu retornar para junto da familia afim de obter maior apoio emocional que lhes desse suporte nos momentos dificeis que logo enfrentariam. Mas eu tenho certeza que hoje, passado tantos anos, aquelas crianças são adultos sérios e responsaveis e devem viver bem, pois receberam na infancia as melhores ferramentas que os pais podem legar aos filhos: formação de um bom carater.