October 18th, 2008
recordar é viver…
P:-Olhe o mundo que eu fiz para você..
uma estrela a noite,
na janela, duas flores de geranio,
uma rede encostada na parreira,
um sabiá cantando às nove horas,
e o meu amor beijando o seu amor
no mundo que eu fiz para voce!
PA 17/11/1964
“Momentos de nós dois”
Sobre os teus olhos lindos
ponho os meus.
Pelos momentos de maior ternura…
Sobre tuas mãos perfeitas
ponho as minhas,
pelos momentos de maior carinho…
Enquanto isto,
Cobres o meu mundo
com teu mundo feito
de flores e pedaços de uma estrela!
E passamos a sonhar
como dois cativos presos lá no ninho
que não se afastam mais e vivem juntos,
e são ternura, amor, eternidade!….
PA 13/11/65
Novembro/1965
Pelos longos momentos dessa espera
ouço queixumes de inconstancia
por um vulto que é feito de distancia
surge a sombra que é vagar de primavera..
Como um tempo passado pela infancia,
outro tempo caminha e desespera…
e no amor meu sonho considera
que esta saciedade é feita de estação..
E em sonhos obliquos, vagos e imperfeitos
as ilusões caminham como um fardo
de folhas caidas em vendavais refeitos..
Pelos momentos dessa espera infinita,
quando ouço um sussurro triste em fardo empalo
numa sublime angustia de poeta..!
Tristeza…
Tristeza minha que é esta
um não sei que de ilusão-
tristeza parece festa
de chuvas no coração…
Tristeza minha que vai
Tristeza minha que vem
-uma estrelinha que cai
sem cor, sem brilho também…
Tristeza, fúria do vento
ferindo as águas do mar
Tristeza, um céu friorento,
enfeitiçando o luar…
Tristeza minha que é esta
-um não sei que de ilusão-
Tristeza parece festa
de chuvas no coração…
M: -”Qual foi querido,
a primeira ternura da sua meninice?
daquele tempo que é nosso,
de toda gente,
até dessa gente tão fria
que parece viver num perene inverno..”
P-”Ouça, a primeira grande ternura
foi do derradeiro castelo,
aquele que se pensa e não se faz..”
“Num grão de um punhado de areia,
encontro uma lembrança perdida,
de um tempo perdido, tão longe..
vulto de ternura da minha meninice..
era um pedaço do meu primeiro castelo de areia…
M:-Nosso primeiro duelo. Existirão outros?
P:-Nunca poderiam existir duelos..apenas afinidades…
Vultos
O vento qual um açoite,
bate no vidro da porta,
trazendo dentro da noite,
uma ilusão quase morta…
A procura não sei onde,
olho na várzea florida
e grito ao longe: “Querida!?”
mas nem o eco responde…
Tudo me foge ao olhar,
a vista toda se embaça…
eu só vejo o vento deixar
umas sombras na vidraça…
PA 1965
M:- faz uma poesia para mim?
P:-.Com tal melifluidade ouvi teus lábios
primeiro me falando coisas idas.
depois notei teus olhos desvendando segredos,
nos meus sonhos de futuro…
Passaste as tuas mãos serenamente,
sobre os meus cilios entreabertos..
e calmo, então, segui pelo meu êxtase,
e nunca mais que soube se voltei…
Há tanto que eu buscava te encontrar
que, tendo-te pousada no meu sonho,
não pude perceber quando partiste..
E nem porque, agora, ainda, espero
ouvir dos lábios teus a explicação
de como aquele dia te encontrei!
(Vagueações)
17/02/1966
Nr 4
Sublime e claro como um sol de aurora
cresceu teu vulto no meu peito em chama,
E como as flores num jardim deserto,
nasceu o amor no coração vazio…
Fez-se o silencio numa noite escura,
veio a certeza da manhã sorrindo..
e de saudade que partiu magoada,
restou somente uma esperança alegre..
E a tua imagem foi crescendo assim
como os rosais pela campina agreste
e como a vaga que no mar desmaia..
E ao ver teus olhos doces como a bruma,
a estrela que dormia no meu sonho,
tornou-se clara na manhã do amor!..
M:- escuta meu lamento de saudade:
Meu pedacinho de terra
Quem regressa hoje terra amada,
e tem o olhar te envolvendo comovido,
traz dentro do peito um coração estraçalhado.
estavam descalços os pés que na juventude
deixaram em teu chão o rastro da alegria..
pelo mesmo caminho seguem cansados hoje,
os pes de quem te curva a fronte encanecida.
Quem regressa, chora de saudade..
orvalha com o pranto as flores murchas
daquelas primaveras que o vento outonal
varreu para longe, para o eterno…
pedacinho de terra que tanto amei outrora,
que sonhava eu quando te dei adeus?
Dez/1965 Maitena
P:-Estou em meio a estrada,
não há flores nem pedras pelo chão..
sou como quem anda pelas nuvens…
Agora estou no fim da estrada..
e no fim, pelo chão, não há flores nem pedras..
Por que tanta busca em vão,
se não há flores, nem há pedras pelo chão?
PA 19/10/95