Archive for January, 2009

Percepção Politica

Friday, January 30th, 2009

PERCEPÇÃO POLÍTICA

O exemplo de Brunetto Latini

 

Regina Caldas

2004

 

 

 

        A vida de Brunetto Latini ( 1220-1294), coincide com um dos períodos mais agitados da história política florentina . Tendo recebido formação para se tornar notário, Brunetto foi treinado para escrever em latim nas mais variadas formas de contratos e na redação de atos e documentos governamentais. Como praticante de notário, atestou mortes, atos de ultima vontade, acordos de negócios particulares e do estado, entre Florença e outras cidades.

 

         Brunetto Latini foi uma proeminente figura da vida pública florentina. Ocupou vários cargos de confiança como chefe de chancelaria, conselheiro e por duas vezes, embaixador. Foi também escritor, e seus livros são relatórios baseados em experiências adquiridas na vida pública. Foi na França, durante um curto período de exílio, como Dante e Machiavelli, que escreveu seus melhores livros: “Li Livres dou Tresor” (no estilo das enciclopédias medievais), o inacabado “Il Tesoretto”, um trabalho alegórico e didático em versos, e “Rettorica”, um comentário do livro de Cícero, “De inventione”. Seus escritos revelam a sua maior paixão na vida pública: a palavra e seu efeito na vida comunitária.

 

           Aos olhos de Brunetto, a vida urbana significava a verdadeira forma de sociedade civilizada. Exagerando uma visão de Cícero, ele considerava a retórica, a suprema ciência de governar uma cidade. A arte de falar sem a qual a cidade não existia, pois faltariam justiça e solidariedade. Para ele a civilização originava-se na palavra, unindo os homens e levando-os a viverem juntos em algum lugar e debaixo de leis.

 

            Li Livres dou Tresor, foi a primeira enciclopédia a ser escrita para ensinar as leis, e dirigida aos burgueses. Entretanto isto também trata de teologia, ciências naturais e história, mas os temas centrais são a ética, retórica e governo urbano. Seus mentores intelectuais foram Aristóteles e Cícero. O primeiro ajudou o autor a perceber as conexões entre ética, vida comunitária e política, enquanto com o segundo aprendeu a importância da retórica. Mas ele  foi além de endossar  seus inspiradores revelando uma extrema preocupação com os problemas políticos e morais dos espaços urbanos. Discutiu a dinâmica dos negócios e do dinheiro, a civilidade, a usura, o serviço comunitário, os departamentos de estado, a autoridade política e a justiça civil. A parte mais importante do Tresor aparece no livro III. Aqui ele trata da retórica e da “boa fala”, e se envolve com as cidades italianas e seus regimes comunais durante o período central do século XIII , discutindo as funções do “podestà”. Seus escritos nos oferecem uma percepção do homem como indivíduo e também uma visão acurada dos problemas de seu tempo. Ele aborda a natureza e origem dos governos, a ligação ideal entre o “podestà” e a comunidade, incluindo eleições e qualidades requeridas num bom governante. Trata também de todas as formalidades necessárias à chegada de um novo governante, a relação com o seu staff, reuniões com os conselhos comunitários, indicação de embaixadores, administração da justiça, suas responsabilidades sobre os direitos e propriedades dos cidadãos, preparo de seu sucessor, e tudo o que deve executar antes de deixar o governo. O livro é dirigido ao “podestà” e aos cidadãos. É um tratado prático e preciso, que além de ensinar as solenidades do cargo, também fala de justiça, imparcialidade, vontade divina e os benefícios da paz. ´

 

               Uma preocupação de Brunetto a respeito das eleições para o cargo de governar uma cidade, referia-se a seleção dos candidatos, quase sempre de origem nobre. Ele recomendava aos cidadãos que, ao fazerem suas escolhas considerassem acima de tudo a nobreza do coração, uma vida de costumes honrados,  seu trabalho e seu lar. Para tanto ele concluía: “Muitas pessoas não consideram os hábitos do candidato, mas sim o poder que ele comanda para a sua linhagem ou para os seus desejos. Eles estão, entretanto enganados, pois o ódio e a guerra têm se multiplicado entre nós, sendo isto o sinônimo de uma divisão entre os burgueses. E os cidadãos que amam uma facção odeiam as outras. Tiranos como Ezzelino da Romano, Torriani e outros, desfilavam aos olhos de Brunetto como resultado da tendência popular de eleger candidatos na base do seu poder, de suas ambições ou sua popularidade. Para ele, o poder deveria ser partilhado entre a experiência, os bem sucedidos e as eminências. Nas sociedades fortemente marcadas pelo status, deferências e  intelectualidade, a tendência é  que as altas classes tornem-se elitistas e cuidem apenas de proteger seus próprios interesses.

 

                  Outra preocupação do notário, relativa ao governo, era de que os governantes deveriam manter afastadas suas relações de amizade enquanto ocupassem cargos de poder, já que isto diminuiria a dignidade do cargo, levantava suspeitas e estimulava a discórdia civil. A implicação era de que o “podestà” poderia ser tentado a ajudar os amigos violando as leis. Um podestà jamais deveria vender justiça ou receber presentes, afirmava ele.. E concluia que sendo a comunidade sempre dividida pelos interesses dos vários grupos sociais, a melhor maneira de se impor barreiras à corrupção e às dissidias seria obedecer a lei e temer a Deus.

 

                    O código de Brunetto, a ser seguido pelo bom governante determinava:

 

Não aceite um segundo termo;

Não faça amigos enquanto estiver governando;

Não mantenha contactos pessoais;

Não adquira débitos com pessoa alguma;

Não se permita ser louvado pelo conselho;

Esteja acima das partes e facções;

Sempre consulte os cidadãos mais capazes;

Favoreça a opinião e o conselho da maioria;

Obedeça estritamente a lei em todas as circunstancias;

Não aumente as taxas e impostos deixando a população endividada, salvo por manifesto benefício à cidade e pela aprovação do conselho.

 

                   Como fica muito claro na concepção do notário, justiça não soluciona todos os problemas existentes dentro de uma comunidade, pois as pessoas diferem umas das outras e assim sempre será. O homem sempre tem uma concepção arbitrária ao reclamar para si os bens terrenos. Mas, estando a justiça no meio deles torna-se possível a convivência social. 

              

                     Em vários aspectos de seus escritos, Brunetto manifestou pensamentos e atitudes que retrataram a percepção local própria do século XIII. Porém, quando fala de política e sociedade, seus pensamentos são extraídos de um forte apego à cidade tendo-a como um fim em si mesma. E, numa época em que todo ato de governo era considerado fruto da vontade divina, sua visão política vai além de seu tempo. A noção medieval de que todo poder político provinha de Deus não era uma abstração. Continuamente, nas falas públicas o homem era conduzido a aceitar plenamente a vontade divina em seu destino. A doutrina era enunciada sob o juramento de que reis e governantes reconheciam a origem divina de sua autoridade. As conseqüências eram de ordem prática. Se toda a atividade política  origina-se de uma concepção religiosa e sujeita à uma ordem de valores eternos, quem governava estava imbuído de um poder superior incontestável para criar as leis, julgar, administrar  e decidir os destinos da cidade e de seus cidadãos, conduzi-los à guerra ou à paz. E as conseqüências para os cidadãos eram claras, os heréticos eram condenados à morte. Foi Brunetto Latini que, durante o tempo em que esteve exilado na França, primeiro manifestou sua compreensão da necessidade de separar a gestão do Estado de suas origens de cunho espiritual tornando-o secular. Mas, para que a semente de seu pensamento se espalhasse e provocasse mudanças para governos seculares levou tempo.

                

 

Katherine Mansfield

Friday, January 30th, 2009

Katherine Mansfield

Regina Caldas

 

 

Escritora neo-zelandesa, nascida em 1888, especializou-se em pequenos contos e poemas. Tornou-se notável pela sua delicadeza poética, psicologia e sensibilidade principalmente ao tratar de mulheres e crianças. Grande admiradora de Chekhov. Foi educada no Queen’s College em Londres. Retornou á terra natal para estudar música durante dois anos. Voltando à Londres casou-se mas abandonou seu marido alguns dias depois. Esteve a seguir na Bavária para dar à luz um nati-morto, filho do irmão gêmeo de um seu colega estudante de música pelo qual se apaixonara. A experiencia serviu de background à primeira parte de sua obra.

Muito da curta vida de Mansfield foi gasta com relações lésbicas infelizes. Impulsivamente casou-se com um músico que abandonou na noite de núpcias. Em 1918, casou-se com John Murry quando já estava tuberculosa e fazia inúmeras internações em sanatórios franceses e alemães. Colaborou com seu marido para escrever um trabalho sobre criticismo e editá-lo no Little Magazines e no Athenaeum. Faleceu em 1923, aos trinta e cinco anos.

A obra de Katherine Mansfield é daquelas que permanecem à cabeceira de nossa cama para ser relida muitas vezes. É com muita leveza que ela nos conduz aos recônditos da mente humana. Não foi sem razão que despertou o ciúme de Virginia Woolf. Esta última, embora seja também autora de belos contos, não lida com as palavras com a mesma clareza e facilidade que percebemos em Mansfield.

Breve exposição da obra de K. Mansfield:

Sua primeira coleção de contos: “In a German Pension” foi escrita na Alemanha, em 1911, muitos dos quais foram publicados antes em “Orage’s New Age”. Foi nesta época que conheceu Murry com quem se casou em 1918. Em 1916, ela e Murry fundaram um magazine “Signature” que resistiu apenas a 3 edições. “Prelude” foi publicado pelo Hogarth Press, e mais tarde fez parte da coleção ” Bliss, and other stories” . “The Garden Party, and other stories” foi sua última coleção. Duas coleções foram publicadas após sua morte: “The Dove’s Nest” e “Something Childish”, além de cartas e extratos de seu jornal.

Uma excelente coletânea de alguns de seus contos foi recentemente publicada em 2005 pela COSAC 

Justiça segundo Platão

Friday, January 30th, 2009

JUSTIÇA, SEGUNDO PLATÃO

Regina Caldas

2004

Platão legou-nos a primeira idéia do conceito de Justiça , ao narrar-nos em dois dos seus diálogos, República e Gorgias, as disputas entre Sócrates e Thrasymachus, e entre Sócrates e Callicles. O tema é universal, e através dos séculos tem sido discutido entre os grandes autores. Trata-se do conflito entre o poder e o que é correto, entre aqueles que acreditam que quem tem o poder age corretamente e que a justiça é mero expediente que serve para validar o poder do indivíduo e dos estados. Há também aqueles que afirmam que justiça não pode ser mensurada pela sua utilidade.

Sobre o tema encontramos em Platão, um episódio da guerra do Peloponeso, narrado pelo historiador Tucidides, reconstruindo um diálogo entre enviados atenienses e os representantes de Melos, uma pequena ilha pertencente a Esparta, que não queria se submeter aos seus invasores, os atenienses. Reconhecendo a superioridade de Atenas, os habitantes de Melos dirigem-se à reunião com um sentimento de inutilidade, pois, conforme acreditavam, se insistissem nos seus direitos e se recusassem a submissão, nada lhes restaria além da guerra e subseqüente escravidão. Quanto aos atenienses, aproximam-se informando que não estavam dispostos a perder muito tempo com aquela discussão, pois tinham um direito sobre eles, ou seja, estariam atacando a ilha por algum mal que os melienses lhes tinham causado. Por que falar tanto sobre coisas que não acreditamos? Perguntam os atenienses. Vamos direto ao ponto: vocês sabem tão bem quanto nós como o mundo funciona, trata-se apenas de uma questão entre poderes. De resto, o mais forte age conforme a sua vontade, e o mais fraco sofre o que lhe é imposto. A isto os melienses respondem: “vocês estão diante de nós falando de justiça e querem nos obrigar a obedecer a seus interesses”, querendo advertir que aquela política terminaria em desastre para os atenienses.

A história dos melienses induz Thrasymachus (A República), a concluir que “justiça não é nada além do interesse do mais forte”. Os governos criam leis democráticas, monárquicas ou ditatoriais com os olhos pregados em seus interesses. E estas leis que são feitas por eles tornam-se a justiça, e quem as transgride é punido e considerado injusto. E como se supõe que ser governo é ter o poder nas mãos, a conclusão é que onde quer que haja poder, qualquer principio de justiça reflete o interesse do mais forte. Da tese surgem algumas implicações: para o mais forte, outorga-se-lhe o direito como prerrogativa que fundamenta a justiça aplicada por ele, portanto suas demandas não podem ser consideradas injustas. Mas eles podem falhar na imposição de suas leis quando aqueles que se sentem prejudicados fazem suas objeções.

 

 


Dead in Venice

Friday, January 30th, 2009

Dead in Venice: Thomas Mann:

Aschenbeck é um famoso escritor, divorciado, alemão residente em Munique que comumente passa suas férias de verão nas montanhas onde tem casa. Mas desta vez decide viajar para fora do país e escolhe Veneza para onde parte. Sente-se feliz e sonhador enquanto um gondoleiro o conduz através do canal até o hotel onde se hospeda.

Durante o jantar distrai-se com uma familia polonesa: duas filhas jovens, um rapaz de uns 17 anos (Tadzio), a dama de companhia e a mãe, uma dama de aspecto nobre cujo colo está ornado com um colar de pérolas do tamanho de cerejas. Aschenbeck, desde este primeiro momento sente-se atraido pelo jovem. Compara-o ao deus Apolo.

Mas constrange-se com tais pensamentos e se incrimina, tenta confundir uma paixão nascente com admiração pelo que é belo. Reflete que seu sentimento por Tadzio é semelhante a admiração que sentimos diante da luz refletida nas ondas marinhas, o sol se pondo, ou às estátuas gregas talhadas no mais puro mármore. Entrementes ele faz todas as tentativas de ver Tadzio. Na praia, no restaurante, na cidade. E enquanto tece todas as formas de justificativas para seus sentimentos, não se dá conta de que já está ultrapassando os sinais do bom senso. Temendo os impulsos da paixão, Aschenbeck decide viajar para outra praia. Paga suas contas no hotel e segue até a estação. Mas o destino lhe prepara uma armadilha. Sua bagagem não foi levada consigo e não chega ao destino. Sem a bagagem ele retorna ao hotel em Veneza. Dois dias depois a bagagem é reencontrada, mas ele não vai embora.

Aschenbeck está na praça São Marcos e vê tabuletas com alertas para que todos os que estão na cidade evitem o consumo de frutos do mar encapsulados (ostras, musles, etc), que poderiam causar infecção intestinal dado o excesso de calor. Ao mesmo tempo, a brisa traz um odor fétido, preocupado Aschenbeck vai até uma das lojas da cidade para descobrir que cheiro é aquele. Parece-lhe desinfetante. O lojista lhe responde que é o siroco. O escritor insiste dizendo que além do cheiro ruim há tabuletas na praça alertando os turistas para que evitem o consumo de certos alimentos. “-apenas precauções do prefeito, signore” Um tanto desconfiado, quando retorna ao hotel, Aschenbeck procura alguma notícia nos jornais, não há nada. Só pelo jornal alemão ele fica informado sobre algum problema intestinal que ocorre em Veneza.

Certo dia o escritor retorna á cidade e vê Tadzio e sua familia se divertindo numa praça. Começa a segui-los furtivamente. E quando eles tomam a gôndola para um passeio, Aschenbeck faz o mesmo, pedindo ao gondoleiro que siga à certa distãncia a gôndola dos poloneses. Durante o passeio sofre conflitos de consciencia, pois seus sentimentos por Tadzio o perturbam e estão fora de controle.

Em outra ocasião, quando se retira para o quarto após o jantar, desvia-se em direção ao segundo andar onde se situa o quarto de Tadzio. Aschenbeck reclina a cabeça na porta e vive a fantasia de que está ternamente recostado junto ao peito do amado. Desperta do sonho horrorizado e foge para seu quarto. Senta-se da forma habitual na poltrona que está em frente a janela e dá vista para o mar. Pensa na paixão avassaladora pelo jovem que o leva a praticar atos temerários que poderiam até despertar a atenção de outros, da familia do rapaz e abalar sua reputação.

Certa tarde apresenta-se no hotel um conjunto musical da região. São cancioneiros italianos. Os hóspedes estão espalhados pelo terraço e jardins. Aschenbeck vê Tadzio reclinado sobre o parapeito do terraço. Seu olhar apaixonado desliza sensualmente pelo corpo do rapaz, observa seus gestos, seu perfil, faz conjeturas, alimenta esperanças. Mas aquele cheiro insuportavel de desinfetante chega até suas narinas. Vai à recepção do hotel e pede os jornais. Nenhuma noticia. E não encontra mais os jornais alemães….Retira-se para a cidade à procura de noticias. Num jornal alemão lê que a peste (la plague) está fazendo vítimas em Veneza. Muitos já morreram na região portuária. No dia seguinte Aschenbeck vai à cidade disposto a saber a verdade. Entra numa loja de passagens e questiona o lojista ingles que a principio nega que haja alguma epidemia na cidade. Mas ao perceber o olhar inquiridor de Aschenbeck pousado sobre seu rosto revela tudo. La Plague já fez centenas de vítimas, mas todas residentes na região do porto. O escritor se retira da loja, entra numa quitanda, compra algumas frutas e as consume alí por perto. Retorna ao hotel, procura a mãe de Tadzio e conta o que está acontecendo.

O romance termina com Aschenbeck vendo Tadzio pela última vez. O jovem brinca na praia e na brincadeira é agredido por um amigo, cambaleia e corre para o mar onde brinca com seus braços de encontro às ondas, e a seguir olha para trás. Seu olhar encontra o ávido olhar de Aschenbeck, enquanto este em meio a delirios de amor sente-se mal e morre. E o mundo fica informado do falecimento de um grande escritor.

Thomas Mann teve desde a juventude tendências homosexuais. Fica visível na maioria de seus livros, que sofreu conflitos íntimos por conta disto. Extravasa sua homosexualidade em seus belos livros. Death in Venice, tanto no filme quanto na maioria dos estudos sobre o livro, as análises se voltam para os conflitos intimos de um homosexual. Cada um vê e interpreta os fatos no caminho que mais o atrai. De minha parte reporto-me à explicação que o lojista ingles dá à Aschenbeck sobre o silencio das autoridades. O medo das perdas economicas sendo mais importante que preservar vidas humanas expostas a doenças e calamidades. É assim que funciona o mundo. Prevalecem os interesses de governo ou de individuos que tenham poder para tanto. O poder determina o que ou quem será sacrificado. Vale a lição, pois quantos confiam na Justiça, nas Instituições nacionais ou internacionais, considerando-as baluartes que protegem o direito à Vida, à Paz, e ao progresso, pregando a igualdade entre todos?

Tonio Kröger:

Aponta alguns traços biográficos da infância e juventude de Thomas Mann. A origem de sua mãe (brasileira) considerada suficientemente exótica para influir de maneira negativa na formação do filho, e suas tendências homosexuais manifestadas na adolescencia.

Tonio enquanto adolescente nutre amor por um jovem amigo, Hans, ao lado de quem faz caminhadas todos os dias após as aulas. Nestes momentos entabulam diálogos que quase sempre terminam em conflitos íntimos para Tonio. Seu amado não aprecia literatura como ele. Seu amado tem um olhar frio e distante. Não corresponde ao seu amor? Aprenderá algum dia a valorizar a literatura? Em paralelo ao seu interesse por Hans, Tonio fixa-se em Inge, uma vizinha também adolescente de olhos azuis límpidos e cheios de doçura.

A juventude local constuma tomar aulas de dança de salão. Entretenimento que Tonio detesta, algo impossível de distrair a atenção de quem gasta seu tempo estudando literatura, pois deseja se tornar escritor. Ainda assim para se aproximar de Inge, ele vai ao clube onde chegou um novo professor contratado na França que ensinará os jovens a dançar quadrilha. Tonio é um dos aprendizes. mas quando chega a sua vez de dançar como parceiro de Inge, as emoções o levam a errar os passos e a provocar um pequeno acidente. Humilhado foge do salão. Fica no corredor, infeliz, frustrado enquanto olha pela vidraça da janela. Seu olhar vaga pelos jardins lá fora, pelo azul do infinito e sua mente divaga no desejo de que que num certo momento Inge se aproxime dele, toque seus ombros ternamente e o convide para retornar ao salão. ” Não aconteceu nada meu amor, volte para o salão e dance comigo. Eu o amo” E ele, mergulhado no azul do olhar amado sentirá a força deste amor que o conduzirá pelos caminhos que não deseja trilhar como retornar ao salão e simplesmente dançar. Mas ela não vem, pois não é assim que funciona o mundo conclui Tonio. Ele carregará vida afora a frustração deste sonho irreal.

Após a perda dos pais Tonio vai embora da cidade. Torna-se escritor conhecido, viaja, tem amigos. Um dia sente vontade de partir definitivamente em direção à Dinamarca. Visita a amiga pintora, Lisabeta Ivanovna, com quem mantém a maioria de seus diálogos, para lhe contar que irá embora, viverá na Dinamarca enquanto lhe der prazer. Os amigos mantém diálogos sobre temas recorrentes para Tonio, literatura. O que são os escritores? Guias da humanidade? Expõe seus sentimentos sobre o amor e sobre a arte de escrever, suas frustrações e se despede da amiga com a promessa de lhe dar notícias.

Rumo à Dinamarca Tonio interrompe a viagem para retornar à terra natal. Na tarde chuvosa retorna às ruas do passado, suas caminhadas ao lado de Hans, revê os monumentos da cidade, e tomado de imensa nostalgia, na manhã seguinte visita a casa onde nasceu. Aquela casa onde passou infancia e adolescencia foi transformada em Biblioteca Pública. Sem se revelar, Tonio faz um giro pela casa, toma e acaricia livros, mantém conversas formais com os funcionários. É um turista a mais que passa pela cidade. Segue para Copenhague, viaja pela costa sueca e finalmente aporta na pequena cidade à beira-mar, Aalsgaard, onde pretende viver por tempo indeterminado. Gosta do ambiente, relaciona-se com um homem do mar. No dia seguinte há um grande baile promovido por solicitação de um bando de turistas que chegou no hotel. À noite acomodado numa poltrona, num cantinho com pouca iluminação de onde pode apreciar o salão de baile´e ouvir a música sem chamar a atençao, retorna ao passado. O destino lhe prega uma peça. Não longe dele estáo Hans Hansen e Ingeborg, a loira Inge cujos olhos azuis o levaram a sonhar com o amor que jámais esqueceu. Recorda Hans, seus sentimentos pelo amigo, aquele com quem dividiu seus confusos sentimentos de quem apenas se alimenta com os desejos de se enamorar, sonhos apenas sonhos de poeta. Relembra o salão de baile de sua terra natal onde os jovens tomavam aulas de dança com um dançarino francês, relembra a proximidade de Inge e o perfume de seus cabelos que o inebriava enquanto dançavam a quadrilha, e a sua incapacidade de fixar atenção nos passos da dança que o reconduz à janela em cuja vidraça agora embaçada pelo arfar de sua respiração ansiosa lhe traz de volta aqueles pensamentos confusos que procuram justificativas para as ações de um ser que se julga diferente porque ama as letras e então deve viver ausente da convivência social. Pois as pessoas não entendem os escritores! aqueles seres especiais que sabem lidar com as palavras, que sabem expressar os sentimentos ocultos nos corações humanos..mas afinal, para que servem as palavras? Não encontra respostas, retira-se do salão tentando encontrá-las na carta que escreverá à amiga Lisabeta. Já no quarto, diante da escrivaninha, papel e caneta na mão desperta da visão de Hans e Inge juntos, e escreve sua primeira carta à pintora. E lhe afirma: ” Eu venho aqui e vejo a mesma coisa, os mesmos conflitos e contradições no ar. É extraordinário que se você é tomado por uma idéia , você a encontrará expressada em qualquer lugar. e sempre a sentirá…”

“Mario e o mágico”

Thomas Mann.

Neste conto, o autor relata as experiencias de uma familia alemã que passa férias numa praia italiana, Torre. Descreve o ambiente sob o forte calor do verão, seus frequentadores, seus hotéis, e tem uma visão cômica do comportamento dos italianos com seus gestos exagerados, seu patriotismo que resulta muitas vezes em situações constrangedoras para estes hóspedes, como o caso criado pelo vestuário, usado pela filhinha de quatro anos na praia. A criança veste apenas a parte de baixo de um maillot. Mas se cobre com um roupão. Quando quer se banhar no mar, o pai recomenda que só tire o roupão ao entrar na água. É o que a criança faz. Mas isto bastou para que um senhor se aproximasse do pai da menina para informá-lo que a criança ferira “il honore della nostra Italia”, a seguir chama a policia e comunica o fato. A familia é conduzida à delegacia e deve pagar a multa de 50 liras antes de serem liberados.

A cena principal do conto se passa num salão da cidade onde um mágico se apresenta. Il signore Cipolla. Dai em diante a narração reflete os pensamentos desenrolados na imaginação do visitante alemão, que relata nos mínimos detalhes os gestos, falas e mágicas do prestidigitador. Descreve as provocações da platéia em especial de um jovem romano, a fascinação que o público sente pelos trabalhos desenvolvidos no palco por um mágico que não para de fumar, tomar cognac e falar “tutto in honore della patria mia, la bella Itália”. O público está hipnotizado. Na cena final, Cipolla convoca Mário para o palco. Mario, o garçon gentil que serve os filhinhos do casal de alemão. Mário o puro, o amigo, está sendo humilhado pelo mágico com perguntas sobre a decepção amorosa que o jovem sofre perchè uma bella ragazza rejeita seu amor. O mágico induz o rapaz a expor o fundo de seus sentimentos, a afirmar o que não sente, e o seduz como se o hipnotizasse trazendo-o junto a si, e a beijá-lo como se estivesse beijando a jovem amada. O público está paralizado diante da ousadia. Ouve-se um estampido de revolver. A seguir o corpo de Cipolla tomba ao chão. Mário matou o mágico.

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Os contos acima, além de outros cinco, formam uma coletânea de alguns escritos de Thomas Mann, publicados pela Random House pela primeira vez em 1954.

É admirável a forma como Mann (1875-1955- de origem alemã, ensaista e novelista), se expressa. Suas histórias se passam entre poucos ambientes, e o narrador centraliza a importância dos fatos na subjetividade de seus pensamentos. São pensamentos que refletem um Thomas Mann que talvez jámais tenha digerido sua própria história de vida. Pois a base onde o autor tenta juntar os cacos espalhados pela sua mente é quase sempre a mesma: praias ensolaradas da costa italiana, sua natureza bi-sexual, a mãe brasileira que é música. Sua origem deve te-lo incomodado muito.

Thomas Mann ganhou o peremio Nobel de Literatura em 1929, por suas narrativas que abordam a psicologia do temperamento dos artistas, sua crítica social, a forma como retratou a mitologia grega, alemã e hebreia. Existência e espírito formam a dualidade de seus romances. Recebeu influências de Shoppenhauer, Wagner, Nietzsche, além dos poetas romanticos alemães.

Mann não desenvolve interesses em entender a existência sob o ponto de vista político. Só com a ascenção do nazismo e fascismo ele desperta para uma visão política de cunho liberal exposta em suas obras após 1942: “Apêlo à Razão” e contos como Mário e o Mágico. Após 1933, Hitler assumindo o poder obriga Mann ao exílio. Em 1939 vai para os Estados Unidos, e em 1944, adota a cidadania daquele país. Seu romance pós II guerra, “ 

Chekov

Friday, January 30th, 2009

Chekov ( Anton Pavlovich)- 1860/1904

October 26th, 2008

1860/1904: escritor russo de pequenos contos e peças teatrais. Nascido no sul da Rússia, em Taganrog, filho de um comerciante e neto de um ex-servo que comprou sua liberdade. Graduou-se em medicina em 1884 tendo inicialmente exercido a profissão numa pequena cidade do interior e as experiencias sobre doenças e comportamentos de seus pacientes serviram de base para muitos de seus contos.

Para ajudar a sustentar sua enorme família, Chekhov se utilizou da publicação de pequenos contos nos jornais locais, sob pseudônimo. Nesta época, quando também exercia a medicina, Chekhov escreveu à um amigo: ” Medicina é a minha legítima esposa, literatura a minha amante. Enquanto alimento uma, passo a noite com a outra. Embora isto seja irregular, nenhuma das duas fica prejudicada com a minha infidelidade” Mas a amante com o tempo superou a esposa. O escritor Dimitri Grigorovich o apresentou a Aleksey Suvorin, proprietario do jornal Novoye vremya que liderava a imprensa em S. Petersburg. Sua reputação cresceu, pois a segurança financeira permitiu-lhe se dedicar mais aos seus trabalhos intelectuais.

Em 1890, Cherkhov viajou até a ilha-prisão de Sakhalin, suas experiencias foram relatadas no livro Ilha de Sakhalin (1893-4). À época ele já carregava consigo o bacilo da tuberculose, e toda a sua curta vida foi marcada por uma constante luta contra o avanço da doença. retornando à Rússia em 1892, durante a onda de fome que assolou seu pais ele executou um trabalho relevante. Em 89, com o agravamento de sua doença mudou-se para Yalta, na Criméia onde encontrou Gorky e Tolstoi. A partir de então sua criatividade voltou-se para o drama. Faleceu na Alemanha, no sanatório Badenweiler, em Julho de 1904.

O tema central da prosa de ficção de Cherkhov é a inabilidade dos seres humanos em não encontrarem respostas uns aos outros em suas comunicações permeadas de maldades e desesperança. É também relembrado por criar uma atmosfera lírica como resposta do homem à natureza.

Em 25 de maio de 1901, Chekhov casou-se com a atriz Olga Knipper. Antes que isto ocorresse, instigado por Suvorín a se casar, Cherkhov lhe afirmara:-” Pois bem, eu posso me casar se voce deseja. Mas minhas condições são: cada um permanece onde está, ela em Moscou e eu no interior. Irei vê-la, se a felicidade for contínua, dia após dia, eu fico” Olga foi esta mulher. Visitavam-se. Trocavam cartas diárias. Numa destas escrita antes de se casarem, ele demonstrou que havia sucumbido ao amor, quando confessou a Olga: ” o destino que nos separa não deve ser amaldiçoado. Foi o demônio que colocou o bacilo em mim e o amor à arte em você.”

Chekhov é considerado um mestre dos pequenos contos. Seu lema era: “concisão é a irmã do talento”.

The Portable Chekhov -NY The Viking Press 1975

“My holy of holies is the human body, health, inteligence, talent, inspiration, love, and absolute freedom-freedom from violence and falsehood, no matter how the last two manifest thenselves.” Chekhov

Resumo de alguns contos:

VANKA

Vanka é o menino de 9 aninhos, órfão de pai e mãe, aprendiz de sapateiro, que à véspera do natal escreve uma carta para seu avô que trabalha de guarda noturno. Na carta ele externa sua miserável condição: a noite dormindo num gélido cantinho da cozinha, de dia da cozinha para a loja do sapateiro. Na carta ficamos sabendo um pouco de sua história, sua mãe trabalhava na casa onde ele continuou a viver depois que ela falecera, época em que era bem tratado especialmente pela jovem Olga que o ensinara a ler e escrever. A ausência materna o jogou na cozinha. Vanka pede ao avô que venha buscá-lo antes que morra de frio e fome. O apêlo de Vanka é pungente, embora ele confunda a realidade com suas fantasias, natural pela idade e sofrimentos.

O CONSELHEIRO PRIVADO

A história é narrada por um menino cuja mãe entra em pânico quando recebe a notícia de que seu único irmão, um general solteirão virá visitá-la. Todo o texto gira em torno desta visita. E o menino, ainda na idade da inocência, com a chegada do tio inicia seu aprendizado sobre a vida além do seu pequeno mundo de criança bem nascida educada por um tutor de caráter enigmático. Dentro deste contexto, o ponto alto é a paixão que seu tio nutrirá por Tatyana, uma jovem casada com um cigano. O casal trabalha na casa do menino. Como o general trouxe seu ajudante de ordens, a mãe pede ao garoto que ceda seu quarto de dormir ao ajudante, assim, ele e o tutor se transferem para um anexo situado fora da casa onde vivem os empregados. A partir de um certo dia, todas as noites enquanto eles jantam o tio aparece no anexo. O menino percebe que há alguma coisa acontecendo mas não entende o quê. Até que uma noite, já tarde, enquanto ele faz um enorme esforço para não adormecer, houve uma declaração de amor que seu tio faz a Tatyana sem a menor consideração pelo marido da moça que se encontra presente ouvindo com olhos estatelados. O general convida a jovem a partir com ele para Moscou. Toma-lhe as mãos para beijá-la, é neste momento que o marido reage seguido pelo tutor. Um após outro, avançam sobre o tio e o expulsam do anexo. Mas, durante o momento em que o tutor vai para cima do general, alguma desconfiança surge na cabeça do cigano relacionada ao tutor. Assim, tão logo o tio sai do anexo lamentando que está muito doente, o cigano pega o tutor pelo pescoço e o agride, expulsando-o a seguir. O tutor vai embora e a dona da casa fica sabendo que durante a briga ele quebrou o braço e foi hospitalizado. A mãe do menino vai até o anexo para saber o que aconteceu na véspera. Lamenta que seu irmão esteja tão doente. O menino recolhe-se no jardim e entrega-se ao pranto. Mas distrai-se ao ver na estrada uma comitiva que se aproxima de sua casa, liderada pela polícia. Assustado corre para dentro de casa e conta à mãe que entra em pânico acreditando que alguem irá preso pela briga da véspera. Mas não se trata de prender alguem, é o tio que recebe a visita do governador. Pede a irmã que prepare uma refeição para seus hóspedes. Há um movimento inusitado na casa. Patos e perús são mortos para a refeição, nem aqueles de estimação foram poupados. Um grande banquete é servido, mas depois que os hóspedes se retiram, o general critica a irmã que não cumprimentou efusivamente o governador , e também faz críticas ao almoço servido. Para a dona da casa tais críticas foram a gota d’água num copo quase cheio pelas tensões sofridas desde a chegada do irmão. Ele percebe o cansaço e a frustração da irmã e sugere que se tivesse 3 mil rublos iria embora. A irmã lhe dá o dinheiro e a seguir a familia está na estação para as despedidas.

UMA CALAMIDADE

Sofya Petrovna é a esposa de Lubyantzeve, o notário público. É uma bela mulher de vinte e ccinco anos, mãe de uma menina. Encontra-se próxima á estação de ferro ao lado de um advogado, Ivan Mihailovich que lhe envia cartas e lhe faz desesperadas declarações de amor. Sofya rejeita o amor de Ivan. Aparentemente. Pois o fato dela ir ao encontro dele para lhe dar aquelas eternas desculpas femininas de que ama e respeita seu marido, que tem uma filha, uma familia, não o convencem. Ao contrário fazem-no acreditar, e ele manifesta esta sua intuição à mulher, que ela também o deseja. Por que estaria ali para rejeitá-lo quando poderia faze-lo por carta? Num certo momento Ivan cai de joelhos aos pés da mulher, declara seu amor e pede que ela vá embora com ele. Sofya sente enorme prazer em ter um homem de joelhos aos seus pés. Mas o rejeita, pois percebe que o trem está chegando e seu marido pode estar viajando nele no retorno à casa onde passam o verão. Desculpa-se afirmando que deveria estar em casa cuidando de sua familia e abandona Ivan.

Em casa Sofya descobre-se em êxtase. Um homem ajoelhou-se aos seus pés. Seu corpo freme de emoções enquanto se esforça para se desculpar diante da própria consciencia. Neste momento não se sente mais dona de si. Insulta-se, recrimina-se, compara-se às piores mulheres. Mas ao mesmo tempo sente-se tomada de estranho prazer e desejo. Diz para si mesma que fará a melhor refeição para seu marido, toma a filhinha nos braços e quase a sufoca de beijos. Aos poucos se acalma quando conclui que o melhor para fugir de Ivan seria uma pequena viagem com sua familia. O marido chega e após o jantar se prepara para um pequeno repouso. Sofya o convida para uma viagem. Ele diz que não é possivel, falta dinheiro e não teria quem cuidasse do cartório na sua ausência. Conclui que compreende que não deve ser agradável para ela aquela estadia no campo, então que vá viajar sozinha. Enquanto o marido adormece, Sofia sabendo que lhe foi concedida a liberdade de viajar sozinha, sonha novamente com Ivan. Viajariam juntos no trem, e quando fosse noite e os passageiros estivessem dormindo ou saissem um pouco durante as paradas, Ivan outra vez se ajoelharia ao seus pés para lhe declarar amor.

No final da tarde chegam vizinhos para jogar baralho e ouvi-la ao piano. Ivan também chega. Sofya está histérica com a presença do rapaz. Canta velhas cantigas de amor, ri, suas faces queimam feito brasas. Mas ao mesmo tempo imagina que o rapaz, silencioso naquela noite, está sofrendo por ela. O que fazer?

A reunião termina por volta de meia noite. O último convidado a sair é Ivan. Sofya o acompanha até o portão e permite que o rapaz a toque e lhe declare amor convidando-a para partirem juntos. Quando ele a envolve avançando um pouco mais, ela indignada solta-se e corre para dentro da casa. Seu marido já está na cama. Sofya senta-se diante da janela do quarto e pensa em Ivan. Nisto ouve do lado de fora da casa uma voz de tenor iniciando uma canção. Entra em desespero. Sacode o marido e o convida para acompanhá-la num passeio. Ele pede-lhe que vá sozinha. Ela pergunta se ele não ficaria preocupado se ela fosse e não voltasse mais. Ele nada responde. Ela lhe grita -” Nós vamos embora!” O marido desperta, senta-se na cama e quer saber com quem ela vai embora. E faz-lhe uma preleção sobre fidelidade, casamento, responsabilidades. Ela se lamenta que ele só pense nisto e não em seus sentimentos de mulher. Depois de dez minutos de lições morais o marido volta a dormir. Sofya dá a última cartada: ” vou sair, você vem comigo? Se vou sozinha talvez não volte.” O marido não responde. Ela reflete: “é agora ou nunca” Sai apressada para o meio da noite. Avança na escuridão sem olhar para trás.

At the Mill

Nos dois contos anteriores Chekhov nos revela os comportamentos diferentes de duas mulheres: a casta Tatyana passiva diante das investidas de um general solteirão que não resiste aos seus encantos e quer levá-la consigo para Moscou; e Sofya leviana que ao mesmo tempo se excita com a perspectiva de viver uma aventura amorosa e transforma suas sensações em tortura para sí mesma e para o homem que a ama; ao mesmo tempo estamos diante de dois maridos que agem de forma diferente um do outro, em relação à mulher que amam: o cigano cuida do seu amor, protege-a dos cantos das sereias, defende-a; o notário deixa a mulher solta para se entregar às diversões e aos sonhos, não se dando conta ou talvez sendo indiferente que ela siga sua própria vida se assim o desejar. Entretanto, no conto seguinte At the Mill, Chekhov nos convida a conhecer um caráter mesquinho que coloca seus ganhos financeiros acima da compaixão e do amor filial e fraternal. Trata-se de Alexey Birukov, dono de um moinho, proprietário de terras, que no seu dia-a-dia se confronta com as mazelas que os necessitados jogam sobre seus ombros. São quatro páginas que delineam à perfeição os impulsos primitivos que afloram do fundo da mente daqueles que se apegam ao Ter e pouco se importam de mostrar ao mundo que em relação ao Ser nada são. Não se importam com a má reputação, a indignação dos mais próximos, ou o olhar surpreso de quem acredita que poderiam em algum momento demonstrar rasgos de generosidade. Pequenos gestos falam muito. E aqui Chekhov revela sua magistral percepção do comportamento humano. O ser mesquinho, encurralado pelas lágrimas maternas e pelo olhar indignado de terceiros que assistem cena tão deplorável, sente-se obrigado a ceder. Abre sua sacola de dinheiro. Toma entre as mãos um maço de notas, e lentamente devolve-as uma a uma para o interior da sacola. Em suas mãos sobra apenas a moeda de vinte rublos. Olha para a moeda na palma de sua mão. Reflete. E afinal, decide. Coloca o dinheiro nas mãos da mãe. Como diz um ditado judaico: ” é muito longo o caminho entre o coração e o bolso.”

A Sirene

Um pequeno conto divertido, realista e sutil. A começar pelo título. Traduzido do inglês a palavra “siren” significa tanto sereia quanto sirene. Sereia atrai os navegantes com o seu canto suave. Sirene é um aparelho utilizado para emitir sons que alertam para algum perigo. Na presente história alguns juizes estão reunidos na Câmara de Julgamento aguardando que o Juiz presidente da Corte faça o relatório de um caso no qual atuaram juntos. Estão atrasados para o almoço. Sentado diante dos colegas, o secretário da corte comenta baixinho: “estamos famintos agora, porque estamos cansados e já passa das 15 horas. Isto não é, meu caro Grigory, o que podemos chamar de verdadeiro apetite.” E sem dar tempo aos colegas, dispara a falar sobre os mais deliciosos cardápios. Num crescendum suas palavras aguçam a fome de todos. O presidente esbraveja que o secretário deve falar mais baixo, pois aquela conversa o distrai e ele precisa refazer páginas de seu relatório. O secretário promete falar mais baixo, entretanto, no mesmo tom de voz anterior continua falando de assados, caviar, vodka, sopas e saladas. Sádico cria um ambiente onde alguém chega na cozinha e prepara uma refeição completa e requintada. As entradas enquanto se aguarda que o assado fique pronto, o aperitivo colocado em pequenos copos contendo incrições do tipo” As you clink, you may think, monks also thus do drink” ” A sopa, o assado, enfim, uma verdadeira aula de culinária que seria incompleta se tais refeiçoes não fossem seguidas de um descanso onde voce toma um brandy, lê seu jornal, vê a mulher amada e a chama para que lhe de um beijo. Um a um, os juizes pedem licença, passam a mão em seus chapéus e vão se retirando com ares de urgencia. O Presidente não consegue completar seu relatório e impaciente vai embora. O secretário lhe pergunta: ” meu querido amigo, quando terminará seu relatório?” O presidente levanta suas mãos em desespero e se apressa em direção a porta. O assistente faz o mesmo. Enquanto o secretário falante olha atrás deles desaprovando e começa a recolher os papéis.

Um ataque de nervos

Esta história é hilária. Vasilyev, o terceiranista da faculdade de direito é convidado por seus dois amigos, um cursando medicina e o outro a Escola nacional de Pintura, para que passem a tarde num bordel. Ele nunca esteve num bordel e aceita. No caminho ele fantasia um ambiente caloroso, repleto de glamour. Após uma caminhada sobre a neve os amigos chegam na S….Streeet repleta de casas de tolerância. Entram na primeira, são recebidos por um valet de feição glacial e indiferente. Subindo as escadas que conduzem a um ambiente mal iluminado, mulheres de faces pintadas e roupas escandalosas, não dão margem á dúvidas para Vasilyev, entraram pela porta errada. E assim, sucessivamente, os amigos cedem às críticas do futuro advogado indo de casa em casa, até que entram numa que fica mais ou menos aprovada por ele. Nesta há uma orquestra e dança-se a quadrilha. Enquanto os amigos dançam, Vasilyev acomoda-se bastante constrangido numa poltrona e analisa o ambiente. Horroriza-se sabendo que ai as mulheres se vendem em troca de um pouco de dinheiro que lhes garanta abrigo, alimento e roupas. Sente-se curioso para saber suas origens, como são suas famílias, como chegaram até aquela vida para a qual não há perdão, já estão condenadas ao inferno. Acreditando na condenação das mulheres decaídas, Vasilyev também reflete que os homens, todos os homens são criminosos duplamente: matam as esperanças daquelas mulheres e as condenam ao inferno. E num crescendum, o jovem estudante olha com nojo para as faces de cada um dos presentes, sente-se mal, excitado, e seus pensamentos sobre o ambiente são cada vez mais trágicos e sufocantes. A tarde finda e os dois amigos finalmente atendem aos apelos de Vasilyev e retornam à casa onde moram. Vasilyev recolhe-se em seu quarto e não consegue dormir. Reflete sobre bordeis e suas mulheres, seus frequentadores. Agonia-se, mas decide se manter sob controle. “Sou um advogado não sou? Defendi uma tese brilhantemente, então devo saber me controlar. Vou traçar um plano para salvar estas mulheres, e de início vou criar tres ambientes de salvação para elas” Imagina-as salvas sob tres condições diversas: 1) homens querendo tirar mulheres de um bordel instalando-as num quarto, dando-lhes máquina de costura para que possam ganhar a vida com decência, e eles em pouco tempo transformando-as em suas amantes. Neste caso a mulher decaída continua decaída. 2) Outros, após comprá-las colocam-nas em apartamento com a inevitável máquina de costura, dão-lhes aulas e elas aprendem a rezar e a ler. Enquanto tudo é novidade elas aguentam, mas logo reiniciam suas antigas atividades… continuam decaídas portanto. 3) um terceiro grupo de homens que casam-se com elas. E o casamento, a maternidade as transformam em boas mulheres. Mas Vasilyev depara-se com uma dificuldade. Mulheres em bordéis há aos milhares em todos os cantos do mundo. E ainda que todas fossem salvas outras seriam seduzidas e em breve estariam ocupando os espaços deixados vazios. Que agonia. Como salvar estas almas decaídas? Sim! uma boa idéia, talvez tornando-se missionário. Toma um pedaço de papel, lápis e rascunha um discurso de salvação das mulheres decaídas e de convencimento dos homens a não matá-las duas vezes. Sentar-se-á próximo à rua dos bordéis e à cada transeunte masculino indagará se acredita em Deus, se não teme o inferno, se…se….A noite passa, o rapaz não dorme. Sente dor no fundo do coração. Tem a cabeça confusa. Muitos são bons em vários segmentos da vida. Mas ele nasceu com um coração generoso. E a dor alheia entra fundo em seu ser. É-lhe insupórtavel o sofrimento alheio. Amanhece. Os amigos vão para a faculdade. Ele continua no quarto, prisioneiro de um ataque de nervos. Decide sair para a rua e caminha a esmo pela cidade. Vai até o rio agora congelado. Aproxima-se da ponte. Tem idéias suicidas. Sente medo e volta para casa. Os amigos chegam da faculdade e vão ao seu quarto. Em prantos Vasilyev pede-lhes ajuda afirmando que desejou se matar. É levado ao médico psiquiatra, que,friamente sorrindo de um lado só, o questiona sobre seus antecendentes. Dadas as respostas, Vasilyev pergunta ao médico se a prostituição é um mal ou não. O médico responde: meu querido cliente, quem as disputa? E Vasilyev:- O senhor é um psiquiatra não é? Talvez vocês estejam certos….

O médico dá um remédio para Vasilyev e ele se acalma. Os tres rapazes saem do consultório, o paciente levando entre as mãos duas receitas, uma de brometo a outra de morfina. Ele exclama: ” mas já tomei estes remédios antes!” e serenamente afasta-se de seus amigos e segue em direção à faculdade.

Gusev

Aqui são marinheiros retornando ao lar, num barco onde reina o cáos onde a maioria está a beira da morte. Gusev é o personagem principal, um pobre coitado que conta à um outro colega, Pavel, que um soldado em Sucham enquanto estava navegando, seu barco chocou-se com um enorme peixe causando um buraco em seu fundo. Pavel parece não ouví-lo. Trés inválidos jogam cartas e deliram. O tempo está ruim, o mar agitado e Gusev também delira. A curta história se limita a narrar a briga entre o barco e as ondas agitadas, o delírio dos doentes sujeitos ao calor estafante e com dificuldades respiratórias, (um drama que deve ter corroído a mente de Chekhov que desde os tempos de faculdade tinha em sí incubado o bacilo da tuberculose). Um dos jogadores morre e é atirado ao mar. Gusev se aproxima da morte, mas não a pressente e sonha com sua chegada na terra natal, pensa em sua familia. Passam-se dois dias. Pavel parece estar muito mal, mas quando Gusev pergunta sobre sua saúde ele afirma que está bem melhor. E Gusev se pavoneia afirmando que quando se compara com o amigo embora sinta pena dele, sente-se feliz porque seus pulmões estão bem e pode ficar no inferno…sozinho no mar Vermelho. As horas passam silenciosas até que chega a noite. Pavel tambem faleceu. Um dos soldados que jogavam cartas depois de questionar se Pavel entraria no Reino dos Céus, senta-se diante de Gusev e afirma: ” Você também Gusev, logo partirá deste mundo. Não retornará à Rússia. Eu vejo a morte em você. A conversa deixa Gusev atormentado. Tenta pensar no lar. mas não aguenta e pede ao amigo que o leve para o deck para que possa respirar melhor. No deck soldados mortos e marinheiros parecem dormindo lado a lado. Estrelas brilham nos céus, lá em cima há quietude e paz, mas abaixo ondas gigantes agitam o mar, Gusev quebra o silêncio: ” não há nada atemorizando aqui..só você se percebe esquisito como se entrasse numa floresta escura, mas se eles me mandassem cinco milhas adiante para pescar eu iria..se um cristão caisse na água agora eu o salvaria…”- você está preocupado em morrer, lhe pergunta o soldado. -Sim, penso na fazenda, meu irmão bebe, bate em sua esposa, não honra seu pai e mãe. …Mas as minhas pernas não me aguentam, deixa-me dormir, irmão….Gusev retorna à enfermaria onde dorme por dois dias seguidos. No terceiro, à tarde, dois marinheiros vão vê-lo, e o carregam fora da enfermaria. Ele é costurado dentro de um saco de marinheiro, e para torná-lo pesado, colocam junto dois pesos de metal. Quando o sol desaparece levam-no para o deck. O sacerdote ora: “Abençoado é nosso Deus…” Gusev é jogado ao mar e está numa escola de peixes chamados “peixe piloto”. O peixe pilôto está em êxtases. Brinca com o corpo de Gusev….enquanto lá em cima finda o cepúsculo e as nuvens maciças formam desenhos: um arco, um leão, um par de tesouras…Os céus se transformam em tinta lilás…enquanto este magnífico poente tem suas luzes captadas pelo mar em cores e beleza que não podem ser descritas por ninguem.

O HOMEM NUMA CONCHA

Nos limites de uma pequena vila dois caçadores conversam. Eram o veterinário Ivan Ivanych e o professor Burkin. Ivan vivia próximo da cidade e saíra aquela noite para respirar um pouco de ar fresco. De um comentário que fizeram sobre a senhora Mavra, que nunca saira da cidade e sequer sabia o que seria uma estrada de ferro, Burkin refletiu que existiam pessoas anti-sociais que se mantinham dentro de uma concha como o caranguejo. Aqui mesmo tínhamos Belikov, um professor meu colega sempre vestido com um casaco de inverno e levando um guarda-chuva mesmo nos dias mais claros, em resumo, era um tipo que construia ao seu redor uma membrana, uma capa protetora.. Lecionava grego, e mantinha um sorriso adocicado quando pronunciava a palavra: “Anthropos”. Para ele o que interessava eram as regulamentações do governo e as notícias dos jornais onde alguma coisa ficava proibida. Quando alguma lei proibia estudantes de 2o grau a ficarem nas ruas após as nove horas da noite, ou algum artigo censurando amor carnal, para Belikov isto se tornava proibido e assim tinha que ser. Mas aqui sempre existia alguma coisa vaga e indefinida para ele, algo não totalmente expresso em qualquer sanção ou permissão. Quando algum clube de drama ou casa de chá eram licenciados, ele chacoalhava a cabeça e cochichava: Tudo bem, mas você não sabe o que pode vir dai. Ele tinha o costume de visitar nossos quartos. Sentava-se e permanecia em silêncio por uma, duas horas, e então ia embora, e isto ele designava como manter boas relações com os colegas. na escola o diretor e todos nós, professores, nos preocupavamos com ele. Por quinze anos ele teve a cidade debaixo de seu polegar. Todos se preocupavam com o que faziem por temer as críticas de Belikov. Até que um dia….

Mihail Kovalenko, um ucraniano, chegou na vila para tornar-se o novo professor de geografia. Veio acompanhado da irmã, Varenka, uma jovem de trinta anos, bem feita de corpo, que sempre cantava pequenas canções russas e sorria. Sua risada às vezes soava como um sino Ha-Ha-Ha! Ela nos fascinava e tambêm a Belikov que comentava com um açucarado sorriso: ” A pequena língua russa lembra o velho grego na sua suavidade e agradavel sonoridade”. Nós viamos os dois conversando e uma idéia passou pelas nossas cabeças, casá-los. E foi só nesta ocasião que nos demos conta que o nosso Belikov não era casado. E nós poderiamos pinçar Belikov de seu quarto para casá-lo com Varenka. Eu poderia dar uma recepção e convidá-los. E assim, a máquina foi acionada. Em breve Belikov trouxe um retrato de Varenka para seu quarto, e viamos os dois caminhando juntos em longas conversas, e começou a me falar sobre casamento e suas responsabilidades. Eu gosto dela costumava me dizer, mas preciso pensar um pouco mais sobre casamento. Mas o romance foi se tornando assunto de todos na vila. Embora o irmão de Varenka odiasse Belikov, não colocava impecilho para um futuro casamento.

Certa ocasião, circulou pela escola uma caricatura de Belikov vestindo seus trajes habituais, caminhando com seu guarda-chuva, com Veranka se apoiando em seu braço e abaixo a legenda: “Anthropos apaixonado” A caricatura causou pânico em Belikov. Era domingo, Io de maio, e todos pretendiam se encontrar na escola de onde partiriam para um passeio pelos arredores da cidade. Belikov tendo saído em minha companhia queixava-se da malícia popular, quando Kovalenko e Varenka passaram pelo nosso caminho pedalando suas bicicletas. – ” Céus, o que é isto, exclamou Belikov apontando para Valenka. Ele estava escandalizado ao vê-la na bicicleta, que voltou para casa. Ferchou-se em seu quarto permanecendo incomunicável. No final da tarde ele foi até a casa de Kovarenko. Embora mal recebido despejou uma série de críticas sobre a caricatura e advertindo Kovarenko sobre a inconveniência de um professor pedalar bicicleta dando máu exemplo aos estudantes. Kovarenko não entendeu nada! Mas deixou claro que não era da conta de ninguém que ele e a irmã andassem de bicicleta. Ambos discutiram nervosamente. E já se retirando Belikov informou que levaria ao diretor da escola o conteúdo daquela discussão entre eles. Kovarenko enquanto lhe respondia de forma malcriada agarrou Belikov pelo pescoço e lhe deu um empurrão. Belikov rolou escada abaixo. naquele momento Varenka chegava em casa acompanhada de duas senhoras e ao reconhecer Belikov, supondo que ele caira por acidente, deu aquela sua gargalhada, Ha-Ha-Ha!! E este reverberante sino colocou um ponto final no romance entre os dois. Berlikov voltou para sua casa, trancou-se no quarto e, dois dias depois, seu criado Afanásio procurou-me preocupado para dar péssimas notícias sobre seu patrão. Fui vê-lo. Ele não se alimentava, respondendo às minhas perguntas apenas com um sim ou não. Um mes mais tarde faleceu. Uma semana mais tarde a vida em nossa vila voltou ao normal. Tão estúpida quanto antes. Nada explicitamente proibido, mas também nada plenamente permitido.

-Que lua! comentou Burkin. Era meia-noite. À direita podiamos ver a vila onde cada coisa permanecia em silencio. Quando numa noite de luar voce vê as ruas vazias da cidade, com suas casas, e os seus habitantes estão dormindo, você fica tomado de serenidade e imagina que as estrelas estão olhando para isto ternamente e que não existe mais o mal sobre a terra.

Burkin foi dormir e Ivanych sentou-se outra vez à porta de sua casa, acendeu seu cachimbo e alí ficou.

Thomas Mann

October 26th, 2008

Dead in Venice: Thomas Mann:

Aschenbeck