Archive for October, 2009

Monday, October 19th, 2009

O véu de lágrimas não cega.

Vejo, a chorar,

O que essa música me entrega-

A mãe que eu tinha, o antigo lar ,

A criança que fui,

O horror do tempo, porque flui,

O horror da vida, porque é só matar!

Vejo e adormeço,

Num torpor em que me esqueço

Que existo inda neste mundo que há…

Estou vendo minha mãe tocar,

E essas mãos brancas e pequenas,

Cuja carícia nunca mais me afagará-,

Tocam ao piano, cuidadosas e serenas, (Meu Deus!)

Un soir à Lima.

Ah, vejo tudo claro!

Estou outra vez ali,

Afasto do luar externo e raro

Os olhos com que o ví.

Mas quê? Divago e a música acabou…

Divago como sempre divaguei

Sem ter na alma certeza de quem sou,

Nem verdadeira fé ou firme lei

Divago, crio eternidades minhas

Num ópio de memória e de abandono.

Entronizo fantásticas rainhas

Sem para elas ter o trono.

Sonho porque me banho

No rio irreal da música evocada.

Minha ‘alma é uma criança esfarrapada

Que dorme num recanto obscuro.

De meu só tenho,

Na realidade certa e acordada,

Os trapos de minha’alma abandonada,

E a cabeça que sonha contra o muro.

Mas, mãe, não haverá

Um Deus que me torne tudo vão,

(ou) Um outro mundo em que isso agora está?

Divago ainda: tudo é ilusão

Un soir à Lima

Quebra-te, coração

17-9-1935

Algumas Poesias de Fernando Pessoa

Sunday, October 18th, 2009

ABDICAÇÃO

Toma-me, ó Noite Eterna, nos teus braços

E chama-me teu filho….Eu sou um Rei

Que voluntariamente abandonei

O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,

Em mãos viris e calams entreguei,

e meu cetro e coroa – eu os deixei

Na antecãmara, feitos em pedaços,

Minha cota de malha tão inútil,

Minhas esporas dum tinir tão fútil-

Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a Realeza, corpo e alma,

e regressei à Noite antiga e calma

Como a paisagem ao morrer do dia.

Lisboa, 01/02/1913