Dead in Venice

Dead in Venice: Thomas Mann:

Aschenbeck é um famoso escritor, divorciado, alemão residente em Munique que comumente passa suas férias de verão nas montanhas onde tem casa. Mas desta vez decide viajar para fora do país e escolhe Veneza para onde parte. Sente-se feliz e sonhador enquanto um gondoleiro o conduz através do canal até o hotel onde se hospeda.

Durante o jantar distrai-se com uma familia polonesa: duas filhas jovens, um rapaz de uns 17 anos (Tadzio), a dama de companhia e a mãe, uma dama de aspecto nobre cujo colo está ornado com um colar de pérolas do tamanho de cerejas. Aschenbeck, desde este primeiro momento sente-se atraido pelo jovem. Compara-o ao deus Apolo.

Mas constrange-se com tais pensamentos e se incrimina, tenta confundir uma paixão nascente com admiração pelo que é belo. Reflete que seu sentimento por Tadzio é semelhante a admiração que sentimos diante da luz refletida nas ondas marinhas, o sol se pondo, ou às estátuas gregas talhadas no mais puro mármore. Entrementes ele faz todas as tentativas de ver Tadzio. Na praia, no restaurante, na cidade. E enquanto tece todas as formas de justificativas para seus sentimentos, não se dá conta de que já está ultrapassando os sinais do bom senso. Temendo os impulsos da paixão, Aschenbeck decide viajar para outra praia. Paga suas contas no hotel e segue até a estação. Mas o destino lhe prepara uma armadilha. Sua bagagem não foi levada consigo e não chega ao destino. Sem a bagagem ele retorna ao hotel em Veneza. Dois dias depois a bagagem é reencontrada, mas ele não vai embora.

Aschenbeck está na praça São Marcos e vê tabuletas com alertas para que todos os que estão na cidade evitem o consumo de frutos do mar encapsulados (ostras, musles, etc), que poderiam causar infecção intestinal dado o excesso de calor. Ao mesmo tempo, a brisa traz um odor fétido, preocupado Aschenbeck vai até uma das lojas da cidade para descobrir que cheiro é aquele. Parece-lhe desinfetante. O lojista lhe responde que é o siroco. O escritor insiste dizendo que além do cheiro ruim há tabuletas na praça alertando os turistas para que evitem o consumo de certos alimentos. “-apenas precauções do prefeito, signore” Um tanto desconfiado, quando retorna ao hotel, Aschenbeck procura alguma notícia nos jornais, não há nada. Só pelo jornal alemão ele fica informado sobre algum problema intestinal que ocorre em Veneza.

Certo dia o escritor retorna á cidade e vê Tadzio e sua familia se divertindo numa praça. Começa a segui-los furtivamente. E quando eles tomam a gôndola para um passeio, Aschenbeck faz o mesmo, pedindo ao gondoleiro que siga à certa distãncia a gôndola dos poloneses. Durante o passeio sofre conflitos de consciencia, pois seus sentimentos por Tadzio o perturbam e estão fora de controle.

Em outra ocasião, quando se retira para o quarto após o jantar, desvia-se em direção ao segundo andar onde se situa o quarto de Tadzio. Aschenbeck reclina a cabeça na porta e vive a fantasia de que está ternamente recostado junto ao peito do amado. Desperta do sonho horrorizado e foge para seu quarto. Senta-se da forma habitual na poltrona que está em frente a janela e dá vista para o mar. Pensa na paixão avassaladora pelo jovem que o leva a praticar atos temerários que poderiam até despertar a atenção de outros, da familia do rapaz e abalar sua reputação.

Certa tarde apresenta-se no hotel um conjunto musical da região. São cancioneiros italianos. Os hóspedes estão espalhados pelo terraço e jardins. Aschenbeck vê Tadzio reclinado sobre o parapeito do terraço. Seu olhar apaixonado desliza sensualmente pelo corpo do rapaz, observa seus gestos, seu perfil, faz conjeturas, alimenta esperanças. Mas aquele cheiro insuportavel de desinfetante chega até suas narinas. Vai à recepção do hotel e pede os jornais. Nenhuma noticia. E não encontra mais os jornais alemães….Retira-se para a cidade à procura de noticias. Num jornal alemão lê que a peste (la plague) está fazendo vítimas em Veneza. Muitos já morreram na região portuária. No dia seguinte Aschenbeck vai à cidade disposto a saber a verdade. Entra numa loja de passagens e questiona o lojista ingles que a principio nega que haja alguma epidemia na cidade. Mas ao perceber o olhar inquiridor de Aschenbeck pousado sobre seu rosto revela tudo. La Plague já fez centenas de vítimas, mas todas residentes na região do porto. O escritor se retira da loja, entra numa quitanda, compra algumas frutas e as consume alí por perto. Retorna ao hotel, procura a mãe de Tadzio e conta o que está acontecendo.

O romance termina com Aschenbeck vendo Tadzio pela última vez. O jovem brinca na praia e na brincadeira é agredido por um amigo, cambaleia e corre para o mar onde brinca com seus braços de encontro às ondas, e a seguir olha para trás. Seu olhar encontra o ávido olhar de Aschenbeck, enquanto este em meio a delirios de amor sente-se mal e morre. E o mundo fica informado do falecimento de um grande escritor.

Thomas Mann teve desde a juventude tendências homosexuais. Fica visível na maioria de seus livros, que sofreu conflitos íntimos por conta disto. Extravasa sua homosexualidade em seus belos livros. Death in Venice, tanto no filme quanto na maioria dos estudos sobre o livro, as análises se voltam para os conflitos intimos de um homosexual. Cada um vê e interpreta os fatos no caminho que mais o atrai. De minha parte reporto-me à explicação que o lojista ingles dá à Aschenbeck sobre o silencio das autoridades. O medo das perdas economicas sendo mais importante que preservar vidas humanas expostas a doenças e calamidades. É assim que funciona o mundo. Prevalecem os interesses de governo ou de individuos que tenham poder para tanto. O poder determina o que ou quem será sacrificado. Vale a lição, pois quantos confiam na Justiça, nas Instituições nacionais ou internacionais, considerando-as baluartes que protegem o direito à Vida, à Paz, e ao progresso, pregando a igualdade entre todos?

Tonio Kröger:

Aponta alguns traços biográficos da infância e juventude de Thomas Mann. A origem de sua mãe (brasileira) considerada suficientemente exótica para influir de maneira negativa na formação do filho, e suas tendências homosexuais manifestadas na adolescencia.

Tonio enquanto adolescente nutre amor por um jovem amigo, Hans, ao lado de quem faz caminhadas todos os dias após as aulas. Nestes momentos entabulam diálogos que quase sempre terminam em conflitos íntimos para Tonio. Seu amado não aprecia literatura como ele. Seu amado tem um olhar frio e distante. Não corresponde ao seu amor? Aprenderá algum dia a valorizar a literatura? Em paralelo ao seu interesse por Hans, Tonio fixa-se em Inge, uma vizinha também adolescente de olhos azuis límpidos e cheios de doçura.

A juventude local constuma tomar aulas de dança de salão. Entretenimento que Tonio detesta, algo impossível de distrair a atenção de quem gasta seu tempo estudando literatura, pois deseja se tornar escritor. Ainda assim para se aproximar de Inge, ele vai ao clube onde chegou um novo professor contratado na França que ensinará os jovens a dançar quadrilha. Tonio é um dos aprendizes. mas quando chega a sua vez de dançar como parceiro de Inge, as emoções o levam a errar os passos e a provocar um pequeno acidente. Humilhado foge do salão. Fica no corredor, infeliz, frustrado enquanto olha pela vidraça da janela. Seu olhar vaga pelos jardins lá fora, pelo azul do infinito e sua mente divaga no desejo de que que num certo momento Inge se aproxime dele, toque seus ombros ternamente e o convide para retornar ao salão. ” Não aconteceu nada meu amor, volte para o salão e dance comigo. Eu o amo” E ele, mergulhado no azul do olhar amado sentirá a força deste amor que o conduzirá pelos caminhos que não deseja trilhar como retornar ao salão e simplesmente dançar. Mas ela não vem, pois não é assim que funciona o mundo conclui Tonio. Ele carregará vida afora a frustração deste sonho irreal.

Após a perda dos pais Tonio vai embora da cidade. Torna-se escritor conhecido, viaja, tem amigos. Um dia sente vontade de partir definitivamente em direção à Dinamarca. Visita a amiga pintora, Lisabeta Ivanovna, com quem mantém a maioria de seus diálogos, para lhe contar que irá embora, viverá na Dinamarca enquanto lhe der prazer. Os amigos mantém diálogos sobre temas recorrentes para Tonio, literatura. O que são os escritores? Guias da humanidade? Expõe seus sentimentos sobre o amor e sobre a arte de escrever, suas frustrações e se despede da amiga com a promessa de lhe dar notícias.

Rumo à Dinamarca Tonio interrompe a viagem para retornar à terra natal. Na tarde chuvosa retorna às ruas do passado, suas caminhadas ao lado de Hans, revê os monumentos da cidade, e tomado de imensa nostalgia, na manhã seguinte visita a casa onde nasceu. Aquela casa onde passou infancia e adolescencia foi transformada em Biblioteca Pública. Sem se revelar, Tonio faz um giro pela casa, toma e acaricia livros, mantém conversas formais com os funcionários. É um turista a mais que passa pela cidade. Segue para Copenhague, viaja pela costa sueca e finalmente aporta na pequena cidade à beira-mar, Aalsgaard, onde pretende viver por tempo indeterminado. Gosta do ambiente, relaciona-se com um homem do mar. No dia seguinte há um grande baile promovido por solicitação de um bando de turistas que chegou no hotel. À noite acomodado numa poltrona, num cantinho com pouca iluminação de onde pode apreciar o salão de baile´e ouvir a música sem chamar a atençao, retorna ao passado. O destino lhe prega uma peça. Não longe dele estáo Hans Hansen e Ingeborg, a loira Inge cujos olhos azuis o levaram a sonhar com o amor que jámais esqueceu. Recorda Hans, seus sentimentos pelo amigo, aquele com quem dividiu seus confusos sentimentos de quem apenas se alimenta com os desejos de se enamorar, sonhos apenas sonhos de poeta. Relembra o salão de baile de sua terra natal onde os jovens tomavam aulas de dança com um dançarino francês, relembra a proximidade de Inge e o perfume de seus cabelos que o inebriava enquanto dançavam a quadrilha, e a sua incapacidade de fixar atenção nos passos da dança que o reconduz à janela em cuja vidraça agora embaçada pelo arfar de sua respiração ansiosa lhe traz de volta aqueles pensamentos confusos que procuram justificativas para as ações de um ser que se julga diferente porque ama as letras e então deve viver ausente da convivência social. Pois as pessoas não entendem os escritores! aqueles seres especiais que sabem lidar com as palavras, que sabem expressar os sentimentos ocultos nos corações humanos..mas afinal, para que servem as palavras? Não encontra respostas, retira-se do salão tentando encontrá-las na carta que escreverá à amiga Lisabeta. Já no quarto, diante da escrivaninha, papel e caneta na mão desperta da visão de Hans e Inge juntos, e escreve sua primeira carta à pintora. E lhe afirma: ” Eu venho aqui e vejo a mesma coisa, os mesmos conflitos e contradições no ar. É extraordinário que se você é tomado por uma idéia , você a encontrará expressada em qualquer lugar. e sempre a sentirá…”

“Mario e o mágico”

Thomas Mann.

Neste conto, o autor relata as experiencias de uma familia alemã que passa férias numa praia italiana, Torre. Descreve o ambiente sob o forte calor do verão, seus frequentadores, seus hotéis, e tem uma visão cômica do comportamento dos italianos com seus gestos exagerados, seu patriotismo que resulta muitas vezes em situações constrangedoras para estes hóspedes, como o caso criado pelo vestuário, usado pela filhinha de quatro anos na praia. A criança veste apenas a parte de baixo de um maillot. Mas se cobre com um roupão. Quando quer se banhar no mar, o pai recomenda que só tire o roupão ao entrar na água. É o que a criança faz. Mas isto bastou para que um senhor se aproximasse do pai da menina para informá-lo que a criança ferira “il honore della nostra Italia”, a seguir chama a policia e comunica o fato. A familia é conduzida à delegacia e deve pagar a multa de 50 liras antes de serem liberados.

A cena principal do conto se passa num salão da cidade onde um mágico se apresenta. Il signore Cipolla. Dai em diante a narração reflete os pensamentos desenrolados na imaginação do visitante alemão, que relata nos mínimos detalhes os gestos, falas e mágicas do prestidigitador. Descreve as provocações da platéia em especial de um jovem romano, a fascinação que o público sente pelos trabalhos desenvolvidos no palco por um mágico que não para de fumar, tomar cognac e falar “tutto in honore della patria mia, la bella Itália”. O público está hipnotizado. Na cena final, Cipolla convoca Mário para o palco. Mario, o garçon gentil que serve os filhinhos do casal de alemão. Mário o puro, o amigo, está sendo humilhado pelo mágico com perguntas sobre a decepção amorosa que o jovem sofre perchè uma bella ragazza rejeita seu amor. O mágico induz o rapaz a expor o fundo de seus sentimentos, a afirmar o que não sente, e o seduz como se o hipnotizasse trazendo-o junto a si, e a beijá-lo como se estivesse beijando a jovem amada. O público está paralizado diante da ousadia. Ouve-se um estampido de revolver. A seguir o corpo de Cipolla tomba ao chão. Mário matou o mágico.

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Os contos acima, além de outros cinco, formam uma coletânea de alguns escritos de Thomas Mann, publicados pela Random House pela primeira vez em 1954.

É admirável a forma como Mann (1875-1955- de origem alemã, ensaista e novelista), se expressa. Suas histórias se passam entre poucos ambientes, e o narrador centraliza a importância dos fatos na subjetividade de seus pensamentos. São pensamentos que refletem um Thomas Mann que talvez jámais tenha digerido sua própria história de vida. Pois a base onde o autor tenta juntar os cacos espalhados pela sua mente é quase sempre a mesma: praias ensolaradas da costa italiana, sua natureza bi-sexual, a mãe brasileira que é música. Sua origem deve te-lo incomodado muito.

Thomas Mann ganhou o peremio Nobel de Literatura em 1929, por suas narrativas que abordam a psicologia do temperamento dos artistas, sua crítica social, a forma como retratou a mitologia grega, alemã e hebreia. Existência e espírito formam a dualidade de seus romances. Recebeu influências de Shoppenhauer, Wagner, Nietzsche, além dos poetas romanticos alemães.

Mann não desenvolve interesses em entender a existência sob o ponto de vista político. Só com a ascenção do nazismo e fascismo ele desperta para uma visão política de cunho liberal exposta em suas obras após 1942: “Apêlo à Razão” e contos como Mário e o Mágico. Após 1933, Hitler assumindo o poder obriga Mann ao exílio. Em 1939 vai para os Estados Unidos, e em 1944, adota a cidadania daquele país. Seu romance pós II guerra, “ 

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