O Retorno da Senhora Pontes

NTES

A vida passa como um rio, e o som tumultuoso deste rio me amedronta”

Eleonora Duse

Regina Caldas

Junho/2009

Quatro horas da tarde. Jubilosa pela decisão de rever a terra natal, é com o melhor dos ânimos que a Sra. Pontes entra no ônibus. Fizera-se acompanhar de Sandra, sua neta adolescente. Sentam-se no lugar que lhes está reservado. Já acomodadas , a avó comenta com a neta:

- “No meu retorno relembro uma frase de St Exupèry, um escritor francês, autor mais conhecido pelo seu livro “O Pequeno Príncipe”: “O que salva o homem é dar o primeiro passo”. Ao longo da vida preparei-me para rever minha terra. Relutei por tantos anos em retornar à Pedra Branca. Agora que superei todos os obstáculos, ao dar meu primeiro passo na realização deste sonho, sinto-me rejuvenescida”. Enquanto se dirige à neta, dá beliscões no próprio braço para constatar que o retorno é real. Ela ri satisfeita, dá um suspiro de alívio, e sem esperar alguma resposta, esconde a bolsa de mão e fecha os olhos por alguns segundos.

O motorista confere a lista de passageiros, fecha-se na cabine e a seguir dá partida ao veículo. A anciã espia pela janela e respira a brisa primaveril que acaricia seu rosto. Os contornos da capital aos poucos desaparecem na distancia. Descortina-se diante de seu olhar a inesquecível paisagem interiorana.

Casas antigas caiadas de branco, algumas com seus tijolos expostos salpicados de sujeira, as chaminés fumegantes, e no seu entorno, o gado que muge enquanto é conduzido ao curral. Alguns moleques, empoleirados nas cercas apodrecidas acenam adeus e assobiam aos passageiros dos veículos que transitam pela estrada. O asfalto lavado pela chuva parece novo e brilha como um espelho. No céu, a luz solar atravessa as nuvens espalhadas aqui e ali, e um arco-íris sinaliza paz à natureza. A primavera explode em cores exuberantes que convidam ao passeio pelas matas afim de sentir seus perfumes, e ouvir o murmúrio dos regatos. De sua janela, a Sra. Pontes se encanta com esta aquarela de um mestre, que se reflete em seu olhar apaixonado que capta árvores, pássaros, montanhas distantes engolidas pela neblina. Seu olhar perscruta o interior das matas, embrenha-se nos cipoais de suas fantasias entranhadas com um medo tardio – que surgiu em sua vida depois que as filhas nasceram- de suas aventuras juvenis. Arrepia-se ao relembrar que não temia as cobras que a espreitavam enroladas nos galhos das árvores. Seu único pavor era causado pelas histórias que ouvia dos caboclos sobre a onça-pintada. Eles se acocoravam sob as árvores, para contar vantagens sobre o tamanho das onças que enfrentavam com suas espingardas e cães de caça. Ela, ao contrário, fora alertada desde criança para se manter distante das armas de fogo. Em suas aventuras, seu companheiro e protetor era o cachorro-vinagre, o cachorro das matas que tem fama de ser bom caçador e que seguia à sua frente farejando o ar, as moitas, os troncos das árvores frondosas.. A Sra. Pontes se agita ao recordar os perigos que enfrentou no passado. Desvia o pensamento destes sustos retardatários e se concentra nos passageiros. A maioria cochila.

O motorista diminui a marcha, estaciona no acostamento, e abre a porta do ônibus para um caboclo com sua sacola de estopa abarrotada de frangos que se debatem agitados.Uma senhora de busto avantajado, o rosto salpicado de sardas e a cabeça envolta num imenso turbante de cores vibrantes, acorda assustada com o cacarejo das aves. Olha para o caboclo e exclama indignada: – “Santo Deus! Só faltava esta!”. Os passageiros caem na gargalhada. No fundo do ônibus, um idoso com pele de pergaminho amassado acende seu cigarro de palha, e o aroma do fumo de corda invade o ambiente e se mistura ao cheiro apetitoso dos lanches que alguns desembrulham e oferecem aos vizinhos: -“Tá servido cumpadi ?” A anciã assiste estas cenas inusitadas e comenta com a neta: – “ Afinal, estamos em Minas!..”

A noite desce sobre a terra. O motorista liga o rádio. A cadencia inconfundível da música sertaneja silencia os passageiros. Luar do Sertão, Minha Viola, Casinha Pequenina..são pequenos dardos que acertam o coração da Sra. Pontes. Seu olhar sonda os céus em busca das estrelas, e mais uma vez se entrega às recordações. Revolve lembranças compactadas na memória como num cartão postal, relíquia sagrada que o tempo preservou. Saudade da terra natal. Saudade da avenida que atravessa a cidade, e desemboca na praça da catedral com seus jardins forrados de margaridas que tornam a vida uma constante primavera. Ao relembrar a catedral, a Sra. Pontes ri baixinho, e comenta com a neta:

-“ No meu tempo, um padre muito bonito foi nomeado Cônego para a catedral de Pedra Branca. As mulheres sofreram um surto de piedade, lotavam a igreja e se acotovelavam nos primeiros bancos para as missas diárias, ou se ofereciam para cantar no coro. A beleza do padre virou notícia nos salões e praças. E as beatas, retorcendo os lábios sussurravam umas às outras: “ele é tão bonitinho, parece um menino Jesus!” A neta aproveitou a deixa e perguntou à avó:

- Por que a senhora foi embora da cidade?

- Enviuvei. Tinha três filhas pequenas para criar. Vendi meus pertences e fui tentar a sorte como costureira na capital. Deu certo.

- Deu muito certo vovó, a senhora se tornou modista conhecida.

- Com o meu trabalho dei uma vida digna às minhas filhas. Estudaram em bons colégios, fizeram faculdade e hoje ocupam merecidos espaços na sociedade.

Sandra sabia que a avó quando recordava a saga bem sucedida que vivera na capital, a conversa ia longe. No momento não estava disposta a ouvir a mesma história. Deu o diálogo por encerrado e silenciou.

O ônibus segue pelo asfalto com o seu sacolejo monótono. O radio foi desligado. Os passageiros ressonam.

Por volta das vinte horas, o veículo adentra a cidade, e o som das rodas sobre os paralelepípedos desperta os viajantes. A Sra. Pontes olha o relógio e surpreende-se que a terra natal parece estar a poucos passos de sua casa. Recordou que no passado a viagem para São Paulo levou um dia inteiro. Por alguns segundos lembrou-se da Maria Fumaça que a despejou com suas filhas na capital, um trem movido a vapor que sacolejava e parava em todos os lugarejos. Sentiu uma pontinha de nostalgia….

Os passageiros já despertos olham curiosos para fora das janelas, enquanto o ônibus estaciona no antigo parque infantil transformado em estação rodoviária. Daquele parque arborizado, onde as crianças passavam suas tardes entre gangorras e pedalinhos, nada sobrou. Um prefeito, sem o menor respeito pelos cidadãos, transformou-o num estacionamento para ônibus. Permitiu que seus apaziguados administrassem o negócio, e instalassem bares e lavatórios sempre cheios de motoristas falantes e bebedores de café. Nas madrugadas o ambiente se transforma em abrigo para prostitutas, bêbados e sem-tetos.

A Sra. Pontes e a neta tomam um táxi. As ruas estão desertas, e a idosa, cansada pela viagem, sente-se invadida pela solidão ao olhar para a sua terra natal e vê-la envolta em luzes fracamente refletidas sob a intensa neblina. Minutos depois são deixadas na recepção de um hotel com fachada acolhedora. -“O melhor da cidade”, garante o motorista.

O hotel localiza-se em frente a uma alameda de manacás. O forte perfume que as flores exalam penetra no quarto, e a anciã adormece sob a alegre ilusão de que nunca se afastou do chão que a viu crescer.

A luz do novo dia penetra pelas frestas da janela, e desperta a Sra. Pontes. O quarto fica invadido pelo aroma de pão fresco, e ela se lembra da infância, quando acordava na madrugada ouvindo o toc toc dos passos dos cavalos repercutidos no calçamento das ruas. Eram os entregadores de pão em suas carroças puxadas pelos animais. Ela respira fundo para se impregnar do aroma delicioso do pão. Feliz, deixa-se envolver por alguns instantes pela atmosfera que lhe evoca doces recordações. Mas logo acorda a neta:

– Sandra querida, vamos nos levantar, estou ansiosa para iniciar o nosso tour pela cidade.

Emocionada , a Sra. Pontes está na avenida, que desde a ponte sobre o Rio Verde divide a cidade ao meio, até se bifurcar para contornar a praça e terminar em frente à catedral. Que decepção para a anciã! As lembranças da terra natal, fixadas na memória como quadros pendurados nas paredes dos museus, foram corroídas pelo tempo. A cidade cresceu movida pela ambição humana. No entorno da praça surgiram prédios de apartamentos que a sufocam. E se no passado dominava altaneira e bela todo o centro da cidade, agora, incrustada entre os prédios altos, parece minúscula e irrespirável. A anciã sabe que a arquitetura, o vestuário e os costumes mudam ao capricho e às necessidades de cada época. Mas não se trata disto. A praça tornou-se feia, parece mais uma tímida enjeitada que pede desculpas por ainda existir. O antigo centro com seus casarões, lojas e alguns prédios em estilo clássico, transformou-se numa espécie de acampamento improvisado. Escritórios, bazares, barracas instaladas ao longo da praça, a impressionante mistura de sons, cores e cheiros, retratam uma chocante decadência urbana. Ruas superlotadas, onde motoristas, ambulantes e pedestres partilham espaços sem preocupação com a ordem e a limpeza públicas. Ela encara os transeuntes. Alguns fervilham de ansiedade, outros revelam indiferença ou ociosidade. Não reconhece estes cidadãos. Sente-se entre alienígenas. Um bando de jovens barulhentos, vestidos como os hippies da capital, tão criticados por ela, segue em direção ao colégio. Ela os aponta para a neta e diz: -“No meu tempo, as estudantes vestiam uniformes impecáveis, um conjunto de saia e boina azul-marinho, blusa branca de mangas compridas, meias de nylon e sapatos pretos, e não iriam ao colégio com as unhas pintadas”- a seguir- quase num sussurro: – “Como foi que esta moda cruzou as portas da minha cidade?” A neta não escuta, pois, toda sorrisos, olha embevecida para aqueles pássaros palradores aparentados com a sua tribo da capital. A Sra. Pontes, surpresa, chama baixinho pelas antigas amigas. Por onde andam? Não as encontra nestas faces envelhecidas, nestes olhos turvos que olham para o nada e que habitam corpos curvados pelo tempo. Anseia reconhecer alguém. Metamorfoseia faces encarquilhadas em feições amadas no esplendor da juventude. Confusa, crê reconhecer alguém. Aproxima-se com timidez. Com um sorriso gentil indaga por um nome. Mas logo pede desculpas, ludibriou-se com fantasias. A neta se comove com os anseios e titubeios da avó, que excitada questiona sobre as lojas, o antigo cinema, os bares e a charutaria da esquina em frente ao Fórum, que fim levaram? E o que foi feito da padaria do alemão, onde ela consumia parte da pequena mesada nos deliciosos churros recheados com doce de leite? O restante ela gastava no ingresso para a matinê dominical, pois adorava os filmes do Zorro, herói dos seus sonhos, sua primeira paixão! Como ela sonhava correr mundo afora na garupa de Silver, o cavalo que o Zorro montava. Às vezes economizava nos churros para comprar gibis que lia nos intervalos das aulas. Colecionou montanhas destas revistas, guardou-as no sótão de sua casa na esperança de algum dia vê-las saciando a curiosidade das filhas e netos. Pena que eles trocaram a boa leitura pela televisão, pelos joguinhos de computador e o celular. Como ela soube, ao contrário deles, aproveitar sua meninice em grande estilo! Isto é, se atazanar a vida alheia com tantas brincadeiras nem sempre angelicais, merecesse este predicado. Como naquela tarde de Corpus Christi, quando entediadas, ela e as primas aguardavam o horário da procissão. Vestiam seus vestidos mais bonitos, organdi branco com caprichosos bordados, grandes laços de fita de tafetá, compondo tranças e cachos. Desviaram-se da igreja e foram brincar na casa da Sinhá Donana. Mas na casa só estava a tia Dita recolhida em seu quarto, ouvindo um pregador numa rádio religiosa. Viram uma tesoura sobre o gabinete da máquina de costura e decidiram brincar de cabeleireira. Que farra! Cortaram os próprios cabelos!. O chão do corredor ficou forrado de cabelos castanhos, loiros, lisos e crespos. A tia, ouvindo tanta algazarra foi acalmá-las. Mal acreditou quando viu o que tinham feito, e ordenou que sumissem dali.

A praça lembra uma das netas da Sinhá. Aninha, a mais levada e querida entre todas. Eram companheiras inseparáveis. Às vezes iam ao consultório do Tião, um dentista da família. As duas, penduradas na janela faziam caretas para o cliente que se contorcia sem poder rir, e agoniado puxava a camisa do dentista. O doutor interrompia o trabalho: -“ Dói?” -“ Não dói não, as suas sobrinhas estão penduradas na janela e fazem caretas. São muito engraçadas.” Quando o Tião virava para a janela, vapt! Num segundo elas desapareciam. Em outras tardes, elas corriam pela praça, enchiam a boca de sal de frutas para fazer caretas para os casais de namorados…A velha praça… onde flertou e namorou seu marido, e com ele aí desfilava aos sábados e domingos, embasbascada com a dança das águas que surgiam do centro da fonte luminosa, ou sentada num banco sob uma florida primavera, para ouvir as músicas que ecoavam de uma rádio instalada dentro do coreto, ou então simplesmente acompanhar com olhar curioso e juvenil os transeuntes…E o paladar aguçado pelo aroma quente da pipoca? E as diversões nas festivas noites de quermesse?…A velha praça, quanta saudade! Suas lembranças não se resumiram à praça. Dos recônditos da memória surgiram os tempos alegres das férias escolares. Um caminhão coletor de leite arrebanhava as traquinas e as deixava na fazenda da Sinhá. Era um tempo de muita diversão. Andar de carro de boi, tomar garapa, tomar banho na banheira cheia de água quente canalizada do fogão à lenha para todas as torneiras da casa. À cada dia, almoços e jantares perfumados com ervas frescas, e tanta conversa e risos ao redor da mesa de madeira, que anos seguidos suportou a agitação das crianças que não tinham sossego em seus lugares. Ah! quantas historias sufocam sua garganta!.E a obrigam a falar, falar quase em delírio, e a misturar as boas e as más lembranças.

Desorientada a Sra. Pontes interrompe-se e pergunta à neta:

- Viemos parar num mercado persa? Quantas lojinhas abarrotadas de havaianas, jeans, camisetas, cintos, bolsas, sacolas e tapetes de plástico, os caminhões estacionados ao lado do mercado municipal, veja a sujeira que fazem, sinta o cheiro de laranja apodrecida, e o entra e sai na Igreja! Estes caboclos desdentados, perdidos pelas esquinas, receosos de atravessar a rua..Estas moças com seus piercings, tatuagens na barriga expostas sem pudor, de onde vem tanta gente estranha? Eu olho à minha volta e não reconheço nada!

Tanto tempo passou. Torna-se impossível encontrar referencias neste tardio retorno ao passado. Os olhos da anciã se turvam pelas lágrimas incontidas, está confusa porque nada do que vê relembra o passado. Num esforço para assimilar tais mudanças, convida a neta para conhecer o lar onde viveu, da infância ao casamento. Foi no colo da Siá Zeca que entrou pela primeira vez na casa. Era órfã de pai e mãe. A Siá Zeca lecionava artesanato no Orfanato. Ao vê-la ainda bebê, apaixonou-se, adotou-a.

Que horror!. A casa onde viveu transformou-se em restaurante “de quilo!”. Seu olhar revela profunda indignação quando atravessam o hall que se abre para vários salões. A velha senhora examina o novo ambiente, e comenta com a neta:

-Isto aqui era uma sala de jantar, a mais linda que vi em minha vida. O chão de madeira tinha um desenho geométrico em cores contrastantes igual ao tampo da mesa de jantar. Ao lado ficava a cristaleira. E ali separando esta sala da copa e cozinha, havia colunas de mármore rosa da Bahia, que realçavam a caviúna, madeira de lei também conhecida como jacarandá-cabiúna, que usavam para os móveis. As colunas se abriam para um jardim de inverno. As festas de aniversário da Sinhá começavam neste salão. Logo cedo, após a missa celebrada por um parente sacerdote, era servido um farto café-da-manhã com quitandas, chocolate quente, chás, eu me esbaldava! Lembro-me da última missa, quando a Sinhá nos deixou. A cidade toda passou por aqui. Até a Assembléia Legislativa de Minas fez um minuto de silencio por ela.

- Ela era importante vovó?

- “Ela morreu centenária, tornou-se um mito na cidade. Enviuvou cedo, deixou as fazendas onde viveu ao lado do marido, e veio morar em Pedra Branca para educar os filhos. Quando o Sinhozinho era vivo os filhos mais velhos iam para o internato. O dia de ir para o colégio era o dia da choradeira. Sabe por que foram internos? Por causa da Siá Zeca. O Sinhozinho contratou um professor no Rio de Janeiro para alfabetizar os filhos. E a Siá Zeca apaixonou-se por ele. Ela era uma menina! Vivia pelos cantos da casa suspirando por ele. A família descobriu a paixão, dispensou o professor, e daí em diante as crianças foram para o internato. O Sinhozinho presenteava o colégio com sacas de café. Quando retornava, durante o jantar, para distrair a mãe chorona que lamentava tantas cadeiras vazias ao redor da mesa, contava uma pequena historia. Dizia ele que depois de cumprimentar a madre superiora, avisava que trazia algumas sacas de café. A madre se abria num sorriso enorme. Então ele brincava: -“ Isto é, este ano a colheita diminuiu, trago pouco café para as senhoras” E imitava com muita graça como variava o sorriso da freira a depender da quantidade de café…Você me perguntou se a Sinhá era importante..Sim, foi respeitada e querida porque legou cidadãos de bem ao país.”

Na antiga sala de jantar, a cristaleira, a mesa e as cadeiras foram substituídas pelo prosaico buffet onde os fogareiros mantém as panelas aquecidas, e ao lado um caixa não cessa de calcular as despesas dos comensais. As duas mulheres servem-se e vão para o refeitório. Os salões estão lotados. Os comensais falam todos ao mesmo tempo. A Sra. Pontes admira-se que o local onde nasceram os netos da Sinhá, e onde a família partilhou alegrias e tristezas, abrigue esta gente estranha, que jamais dará valor à historia daqueles que habitaram a casa. Ela aponta para a janela:

- Ao lado desta janela, a Sinhá passava as tardes acomodada em sua poltrona, crochetando ou lendo até que chegasse a hora do terço. Mostrou uma das paredes, e continuou: -“ Ali havia um nicho que abrigava a imagem da Virgem Maria. Neste salão a família se reunia às seis horas da tarde todos os dias, para rezar o terço. Às vezes acontecia um momento solene. Alguma neta colocava no colo da Sinhá um novo herdeiro. Ela examinava o recém-nascido e comentava: –“ parece com a nossa gente.” E presenteava a criança com um lindo babador de crochê feito por ela, igual a uma renda valenciana.”. A anciã interrompe suas recordações. O coração se aperta ao imaginar o espanto que as tias demonstrariam se pudessem testemunhar este recinto sagrado, fonte de bens materiais e espirituais esgotada para sempre. Que vazio na alma!. Sons musicais ressoam nos salões –“Que banda barulhenta!”, ela reclama, “embrulha meu estomago!”

A avó, depois de uma pausa, como se tentasse assimilar as músicas que abafam os sons das conversas e dos talheres, reinicia seu monólogo: - “A Sinhá gostava de jogar baralho. Aos sábados e domingos amanhecia no jogo. Além desta porta à nossa esquerda, havia um corredor que acessava o quarto dela. No alto da porta colocaram uma foto do Sinhozinho. Se ela perdia no jogo entrava no quarto sem olhar para o retrato dele. Se ganhava, olhava e dizia: -“ Viu Tonico? Hoje foi meu dia de sorte!” Seu senso de humor era notório. Quando amanhecia no jogo, ao retornar para casa, às vezes se encontrava com as filhas a caminho da missa. Elas exclamavam indignadas: “ Mamãe, a senhora amanheceu no jogo?” – “Não, estou voltando da missa das cinco na catedral !”

Enquanto a Sra. Pontes narra à neta suas recordações, seu olhar pousa sobre a janela de onde pendem botões entreabertos de brincos de princesa. Refaz o caminho do corredor, que desce na lateral esquerda ao longo da casa até acessar jardins cultivados e espalhados ao redor de um extenso gramado. E comenta: “Em frente ao gramado havia um terraço onde a família almoçava no verão. Ao lado, na cozinha, um fogão à lenha e enormes fornos embutidos usados em ocasiões especiais. Como o dia da pamonha, que acontecia quando as sacas de milho verde chegavam da fazenda, e todos na casa se dedicavam a descascar as espigas, ralar e coar, para cozinhar a pamonha no grande tacho de cobre. Ou o dia da goiabada, com o mesmo ritual de colaboração familiar. O doce rubro, brilhante e perfumado era guardado em caixas de madeira forradas com papel manteiga, e depois distribuído entre os familiares. -“Esta foi a casa do trabalho, da fartura e da união familiar. A casa das mãos laboriosas que a tudo supriam, pão, agasalho e amor. A casa onde as várias gerações se entrelaçavam com palavras carinhosas, gritinhos de crianças, sussurros de adolescentes, tachos fervendo, o perfume das roscas nos fornos e as lágrimas pelos que partiam..”, e conclui -“ Quantos casamentos, nascimentos e desenlaces aconteceram aqui.

A Sra. Pontes interrompe o almoço. Suas lembranças pesam como chumbo, oprimem o coração, amargam o paladar. A vida foi generosa com a órfã adotada por uma família honrada que lhe deu amor incondicional. E por lembrar que fora adotada vinda de um orfanato decidiu visitá-lo. Iria ao encontro do principio da sua história. Queria buscar suas origens nos olhos das meninas órfãs. Os órfãos, segundo ela, carregam no olhar a angustiosa necessidade do encontro com o passado em busca do vínculo sangüíneo. Ela sente isto na carne, pois embora desde a mais tenra infância estivesse sob os cuidados de quem a amou e protegeu, dói-lhe a lembrança de que não conheceu seus verdadeiros pais. Dói-lhe recordar o que ouviu da Siá Zeca. Esta, com seu temperamento franco e sua falta de tato, contou-lhe que certa tarde, sentada à frente da penteadeira, ao invés de ver seu próprio rosto, descobriu em suas feições traços de uma das bisavós, cuja foto se encontrava no livro da genealogia familiar. E a Sra. Pontes ao ouvi-la, sentiu que jamais descobriria em si algum elo com seus antepassados. A morte, ao levar-lhe os pais, enterrou com eles a história de seus ancestrais. Não tinha uma única foto de sua família! Era como se eles jamais tivessem existido. Sentiu-se desde sempre marcada com o sinete da rejeição. Depois destas reflexões, convidou Sandra para que visitassem o orfanato:

- Venha comigo, quero que conheça meu primeiro lar.

Uma irmã recebe-as com esfuziante alegria. É mais descontraída que as irmãs de outrora, e mais preparada para dar às órfãs uma educação moderna. Vão para o pátio onde as crianças brincam. E a Sra. Pontes, em sua busca obsessiva pelas próprias raízes, fixa-se no fundo do olhar das crianças e se questiona pela milésima vez: “ por que eu?” O coração, no entanto, também pela milésima vez, ignora sua teimosa indagação, e lhe responde como sempre: “agradeça”. Seu pensamento se conforma, e ela acarinha a flor graciosa da gratidão. Eleva o olhar aos céus e deseja que seus verdadeiros pais e sua mãe adotiva estejam em paz. Retira-se do Orfanato abraçada à neta. Como ainda almeja ser surpreendida por algum marco do passado que não sofreu transformações, decide levar a neta para conhecer a estação ferroviária. Logo seriam cinco horas da tarde, horário em que a famosa Maria Fumaça passava pela cidade. Quer reconstituir o dia em que se despediu da família rumo à capital. Quantas tardes antes daquele adeus plantou-se na plataforma da estação só para ver o trem chegar e partir. Tinha uma visão romântica de chegadas e partidas com sua carga de emoções. Era lindo ver o trem aparecer no meio das matas que cercavam a cidade, bufando e espalhando pelos céus a sua fuligem, e próximo à estação apitar com estridência que feria seus ouvidos. Para dar vazão à sua curiosidade, ela bisbilhotava os vagões de passageiros com ares de quem procurava por alguém. Na verdade, seu maior desejo era que algum viajante lhe relatasse nos mínimos detalhes como seria viajar de trem. Sonhava fazê-lo algum dia, em grande estilo como nos filmes que assistia. A movimentação de pessoas solitárias ou em grupos, que chegavam cedo para aguardar o trem a fascinava. Até que chegou a sua vez. Que temor do futuro, e que solidão ao acenar adeus à Siá Zeca! A viagem foi inesquecível, mistura de temor pelo desconhecido com a realização do velho sonho. Da janela em frente ao seu banco via-se paisagens incríveis de sol queimando a natureza, crepúsculo lilás, animais no pasto, lagoas cristalinas, até que a noite veio e ela adormeceu abraçada às suas meninas….

Avó e neta chegam à estação. À primeira vista tudo se parece como outrora. Lá no alto, os pardais apinhados nos fios dos condutores de eletricidade arrulham. Mas tudo está tão vazio…Logo é informada que a Maria Fumaça foi aposentada. Seus vagões enferrujados ficaram estacionados ao longo da antiga ferrovia. O prédio da estação transformou-se em “Museu Municipal”. A ferrovia desativada está contornada pelo asfalto. No museu as duas mulheres se distraem com fotos antigas, documentos encadernados e bem conservados. E a Sra. Pontes, que ainda se lembra nos mínimos detalhes a historia da cidade e de seus antigos conterrâneos, fala sem parar…

No retorno ao hotel a Sra. Pontes sugere á neta que passem pelo Mercado Municipal. A tarde finda, e a azáfama no mercado terminou. Do lado de fora carroças , homens dando água e milho aos cavalos, pequenos caminhões abarrotados de caixotes vazios e algumas mulheres retardatárias com suas sacolas de compras que exibem verduras e frutas. Finalmente a velha senhora reencontra algumas das suas mais queridas reminiscências! Pois o mercado continua o mesmo de sempre. Até o jeito de falar e os rostos dos mercadores são como sempre. A Sra. Pontes circula com familiaridade, acaricia as redes e as flores, e acerta os preços dos deliciosos doces caseiros preparados segundo a velha tradição mineira. Diverte-se na negociação dos queijos frescos e curados, do polvilho branquinho, dos doces de cidra, abóbora, laranja e mamão. Toma entre as mãos as sacolas de suas compras como se fossem objetos sagrados.

É quase noite quando avó e neta retornam ao hotel. Recolhem-se ao quarto. Debruçada sobre o parapeito da janela, a anciã fita o horizonte. Os manacás perfumam a tarde. Suas flores arroxeadas se destacam no ton-sur-ton dos véus crepusculares tintos de luz solar. Por vinte e quatro horas realizou o sonho de pisar o solo natal. Uma esperança, que devagarinho foi trocada por decepção e torpor diante da inevitabilidade das mudanças que a trilha do tempo conduz. Anos de uma vida apegada ao passado, num instante desmoronam e deixam atrás de si um vazio inexorável. A lenta preparação para ir de encontro ao passado chega ao seu final. O passado agoniza diante de si, vira história que não pode ser mudada. O sonho de sentar-se na velha praça ao lado das amigas para falar dos netos, dos sucessos na capital é irreal. Queda-se pensativa enquanto o sino da Catedral badala as seis da tarde. A cidade silencia aos acordes da Ave-Maria. Os sonhos se espalham ao vento, depois que ela os queimou na cripta das quimeras. As mudanças em sua vida são irreversíveis. As amigas há muito partiram. A cidade que amou lhe deu adeus faz longo tempo. Por alguns momentos sente-se um fóssil abandonado à beira de uma estrada. A noite chega e salpica o céu de estrelas, e ela, para fugir da tristeza, brinca de nomeá-las: “Sía Zeca, Siá Donana, Siá Dita….”. Quando a lua desponta leitosa, plena, ela se despede das suas estrelas. Geme baixinho, e sente uma súbita pressa de sair da cidade. Sair sem olhar para trás, pois na despedida a antiga cidade não se apresentará para lhe acenar adeus.

Enquanto a Sra. Pontes, perdida em suas cismas se mantém debruçada sobre o peitoril da janela, Sandra encolheu-se no leito abraçada ao travesseiro, e na penumbra se deu conta da dolorosa realidade da avó, que vivia um momento único em sua vida, de pensamentos contraditórios nos quais se debate como um afogado que precisa de socorro. Esta é a primeira vez que a avó toma plena consciência das mudanças ocorridas desde que saiu da cidade. O rio da vida seguia seu curso, e deixava em suas margens as inovações que o futuro trazia.

A neta aproxima-se da avó, abraça-a com ternura, e lhe diz:

-Vovó, nós precisamos de você. Sua sabedoria norteia nossos caminhos. Você é a nossa rainha. Proteja-nos com a seiva das suas bênçãos. Nós somos os galhos e as flores que desabrocharam da sua raiz, por isto nos pertencemos.

Sandra compreendeu que lhe cabe tomar a avó pelas mãos, secar-lhe as lágrimas e ajudá-la a enterrar o passado. Abre os braços e abriga com intenso calor humano a vovó de cabelos prateados, tão forte no passado, tão frágil no presente.

De volta à capital, após um prolongado silencio, a Sra. Pontes se dirige à neta com voz embargada de tristeza:

- Tenho a impressão que errei de cidade…

- Não vovó, foi o tempo que passou. A senhora admirava as mudanças que ocorriam ao seu redor mas não se adaptou a elas. Referia-se ao passado como algo imutável. Sua terra natal e suas sinhás são fantasmas que a senhora teimou em preservar atadas à sua vida. Segure minha mão. Juntas seremos mais fortes.

A senhora Pontes comove-se com as palavras da neta. Sorri-lhe com afeto, fecha os olhos cansados e adormece. Suas mãos envelhecidas descansam sobre as mãos macias, calorosas e receptivas de Sandra. De mãos dadas, passado e futuro se entrelaçam no presente, e assim permanecerão até o final de uma viagem que tem começo, mas jamais terá fim.

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