Chekov

January 30th, 2009

Chekov ( Anton Pavlovich)- 1860/1904

October 26th, 2008

1860/1904: escritor russo de pequenos contos e peças teatrais. Nascido no sul da Rússia, em Taganrog, filho de um comerciante e neto de um ex-servo que comprou sua liberdade. Graduou-se em medicina em 1884 tendo inicialmente exercido a profissão numa pequena cidade do interior e as experiencias sobre doenças e comportamentos de seus pacientes serviram de base para muitos de seus contos.

Para ajudar a sustentar sua enorme família, Chekhov se utilizou da publicação de pequenos contos nos jornais locais, sob pseudônimo. Nesta época, quando também exercia a medicina, Chekhov escreveu à um amigo: ” Medicina é a minha legítima esposa, literatura a minha amante. Enquanto alimento uma, passo a noite com a outra. Embora isto seja irregular, nenhuma das duas fica prejudicada com a minha infidelidade” Mas a amante com o tempo superou a esposa. O escritor Dimitri Grigorovich o apresentou a Aleksey Suvorin, proprietario do jornal Novoye vremya que liderava a imprensa em S. Petersburg. Sua reputação cresceu, pois a segurança financeira permitiu-lhe se dedicar mais aos seus trabalhos intelectuais.

Em 1890, Cherkhov viajou até a ilha-prisão de Sakhalin, suas experiencias foram relatadas no livro Ilha de Sakhalin (1893-4). À época ele já carregava consigo o bacilo da tuberculose, e toda a sua curta vida foi marcada por uma constante luta contra o avanço da doença. retornando à Rússia em 1892, durante a onda de fome que assolou seu pais ele executou um trabalho relevante. Em 89, com o agravamento de sua doença mudou-se para Yalta, na Criméia onde encontrou Gorky e Tolstoi. A partir de então sua criatividade voltou-se para o drama. Faleceu na Alemanha, no sanatório Badenweiler, em Julho de 1904.

O tema central da prosa de ficção de Cherkhov é a inabilidade dos seres humanos em não encontrarem respostas uns aos outros em suas comunicações permeadas de maldades e desesperança. É também relembrado por criar uma atmosfera lírica como resposta do homem à natureza.

Em 25 de maio de 1901, Chekhov casou-se com a atriz Olga Knipper. Antes que isto ocorresse, instigado por Suvorín a se casar, Cherkhov lhe afirmara:-” Pois bem, eu posso me casar se voce deseja. Mas minhas condições são: cada um permanece onde está, ela em Moscou e eu no interior. Irei vê-la, se a felicidade for contínua, dia após dia, eu fico” Olga foi esta mulher. Visitavam-se. Trocavam cartas diárias. Numa destas escrita antes de se casarem, ele demonstrou que havia sucumbido ao amor, quando confessou a Olga: ” o destino que nos separa não deve ser amaldiçoado. Foi o demônio que colocou o bacilo em mim e o amor à arte em você.”

Chekhov é considerado um mestre dos pequenos contos. Seu lema era: “concisão é a irmã do talento”.

The Portable Chekhov -NY The Viking Press 1975

“My holy of holies is the human body, health, inteligence, talent, inspiration, love, and absolute freedom-freedom from violence and falsehood, no matter how the last two manifest thenselves.” Chekhov

Resumo de alguns contos:

VANKA

Vanka é o menino de 9 aninhos, órfão de pai e mãe, aprendiz de sapateiro, que à véspera do natal escreve uma carta para seu avô que trabalha de guarda noturno. Na carta ele externa sua miserável condição: a noite dormindo num gélido cantinho da cozinha, de dia da cozinha para a loja do sapateiro. Na carta ficamos sabendo um pouco de sua história, sua mãe trabalhava na casa onde ele continuou a viver depois que ela falecera, época em que era bem tratado especialmente pela jovem Olga que o ensinara a ler e escrever. A ausência materna o jogou na cozinha. Vanka pede ao avô que venha buscá-lo antes que morra de frio e fome. O apêlo de Vanka é pungente, embora ele confunda a realidade com suas fantasias, natural pela idade e sofrimentos.

O CONSELHEIRO PRIVADO

A história é narrada por um menino cuja mãe entra em pânico quando recebe a notícia de que seu único irmão, um general solteirão virá visitá-la. Todo o texto gira em torno desta visita. E o menino, ainda na idade da inocência, com a chegada do tio inicia seu aprendizado sobre a vida além do seu pequeno mundo de criança bem nascida educada por um tutor de caráter enigmático. Dentro deste contexto, o ponto alto é a paixão que seu tio nutrirá por Tatyana, uma jovem casada com um cigano. O casal trabalha na casa do menino. Como o general trouxe seu ajudante de ordens, a mãe pede ao garoto que ceda seu quarto de dormir ao ajudante, assim, ele e o tutor se transferem para um anexo situado fora da casa onde vivem os empregados. A partir de um certo dia, todas as noites enquanto eles jantam o tio aparece no anexo. O menino percebe que há alguma coisa acontecendo mas não entende o quê. Até que uma noite, já tarde, enquanto ele faz um enorme esforço para não adormecer, houve uma declaração de amor que seu tio faz a Tatyana sem a menor consideração pelo marido da moça que se encontra presente ouvindo com olhos estatelados. O general convida a jovem a partir com ele para Moscou. Toma-lhe as mãos para beijá-la, é neste momento que o marido reage seguido pelo tutor. Um após outro, avançam sobre o tio e o expulsam do anexo. Mas, durante o momento em que o tutor vai para cima do general, alguma desconfiança surge na cabeça do cigano relacionada ao tutor. Assim, tão logo o tio sai do anexo lamentando que está muito doente, o cigano pega o tutor pelo pescoço e o agride, expulsando-o a seguir. O tutor vai embora e a dona da casa fica sabendo que durante a briga ele quebrou o braço e foi hospitalizado. A mãe do menino vai até o anexo para saber o que aconteceu na véspera. Lamenta que seu irmão esteja tão doente. O menino recolhe-se no jardim e entrega-se ao pranto. Mas distrai-se ao ver na estrada uma comitiva que se aproxima de sua casa, liderada pela polícia. Assustado corre para dentro de casa e conta à mãe que entra em pânico acreditando que alguem irá preso pela briga da véspera. Mas não se trata de prender alguem, é o tio que recebe a visita do governador. Pede a irmã que prepare uma refeição para seus hóspedes. Há um movimento inusitado na casa. Patos e perús são mortos para a refeição, nem aqueles de estimação foram poupados. Um grande banquete é servido, mas depois que os hóspedes se retiram, o general critica a irmã que não cumprimentou efusivamente o governador , e também faz críticas ao almoço servido. Para a dona da casa tais críticas foram a gota d’água num copo quase cheio pelas tensões sofridas desde a chegada do irmão. Ele percebe o cansaço e a frustração da irmã e sugere que se tivesse 3 mil rublos iria embora. A irmã lhe dá o dinheiro e a seguir a familia está na estação para as despedidas.

UMA CALAMIDADE

Sofya Petrovna é a esposa de Lubyantzeve, o notário público. É uma bela mulher de vinte e ccinco anos, mãe de uma menina. Encontra-se próxima á estação de ferro ao lado de um advogado, Ivan Mihailovich que lhe envia cartas e lhe faz desesperadas declarações de amor. Sofya rejeita o amor de Ivan. Aparentemente. Pois o fato dela ir ao encontro dele para lhe dar aquelas eternas desculpas femininas de que ama e respeita seu marido, que tem uma filha, uma familia, não o convencem. Ao contrário fazem-no acreditar, e ele manifesta esta sua intuição à mulher, que ela também o deseja. Por que estaria ali para rejeitá-lo quando poderia faze-lo por carta? Num certo momento Ivan cai de joelhos aos pés da mulher, declara seu amor e pede que ela vá embora com ele. Sofya sente enorme prazer em ter um homem de joelhos aos seus pés. Mas o rejeita, pois percebe que o trem está chegando e seu marido pode estar viajando nele no retorno à casa onde passam o verão. Desculpa-se afirmando que deveria estar em casa cuidando de sua familia e abandona Ivan.

Em casa Sofya descobre-se em êxtase. Um homem ajoelhou-se aos seus pés. Seu corpo freme de emoções enquanto se esforça para se desculpar diante da própria consciencia. Neste momento não se sente mais dona de si. Insulta-se, recrimina-se, compara-se às piores mulheres. Mas ao mesmo tempo sente-se tomada de estranho prazer e desejo. Diz para si mesma que fará a melhor refeição para seu marido, toma a filhinha nos braços e quase a sufoca de beijos. Aos poucos se acalma quando conclui que o melhor para fugir de Ivan seria uma pequena viagem com sua familia. O marido chega e após o jantar se prepara para um pequeno repouso. Sofya o convida para uma viagem. Ele diz que não é possivel, falta dinheiro e não teria quem cuidasse do cartório na sua ausência. Conclui que compreende que não deve ser agradável para ela aquela estadia no campo, então que vá viajar sozinha. Enquanto o marido adormece, Sofia sabendo que lhe foi concedida a liberdade de viajar sozinha, sonha novamente com Ivan. Viajariam juntos no trem, e quando fosse noite e os passageiros estivessem dormindo ou saissem um pouco durante as paradas, Ivan outra vez se ajoelharia ao seus pés para lhe declarar amor.

No final da tarde chegam vizinhos para jogar baralho e ouvi-la ao piano. Ivan também chega. Sofya está histérica com a presença do rapaz. Canta velhas cantigas de amor, ri, suas faces queimam feito brasas. Mas ao mesmo tempo imagina que o rapaz, silencioso naquela noite, está sofrendo por ela. O que fazer?

A reunião termina por volta de meia noite. O último convidado a sair é Ivan. Sofya o acompanha até o portão e permite que o rapaz a toque e lhe declare amor convidando-a para partirem juntos. Quando ele a envolve avançando um pouco mais, ela indignada solta-se e corre para dentro da casa. Seu marido já está na cama. Sofya senta-se diante da janela do quarto e pensa em Ivan. Nisto ouve do lado de fora da casa uma voz de tenor iniciando uma canção. Entra em desespero. Sacode o marido e o convida para acompanhá-la num passeio. Ele pede-lhe que vá sozinha. Ela pergunta se ele não ficaria preocupado se ela fosse e não voltasse mais. Ele nada responde. Ela lhe grita -” Nós vamos embora!” O marido desperta, senta-se na cama e quer saber com quem ela vai embora. E faz-lhe uma preleção sobre fidelidade, casamento, responsabilidades. Ela se lamenta que ele só pense nisto e não em seus sentimentos de mulher. Depois de dez minutos de lições morais o marido volta a dormir. Sofya dá a última cartada: ” vou sair, você vem comigo? Se vou sozinha talvez não volte.” O marido não responde. Ela reflete: “é agora ou nunca” Sai apressada para o meio da noite. Avança na escuridão sem olhar para trás.

At the Mill

Nos dois contos anteriores Chekhov nos revela os comportamentos diferentes de duas mulheres: a casta Tatyana passiva diante das investidas de um general solteirão que não resiste aos seus encantos e quer levá-la consigo para Moscou; e Sofya leviana que ao mesmo tempo se excita com a perspectiva de viver uma aventura amorosa e transforma suas sensações em tortura para sí mesma e para o homem que a ama; ao mesmo tempo estamos diante de dois maridos que agem de forma diferente um do outro, em relação à mulher que amam: o cigano cuida do seu amor, protege-a dos cantos das sereias, defende-a; o notário deixa a mulher solta para se entregar às diversões e aos sonhos, não se dando conta ou talvez sendo indiferente que ela siga sua própria vida se assim o desejar. Entretanto, no conto seguinte At the Mill, Chekhov nos convida a conhecer um caráter mesquinho que coloca seus ganhos financeiros acima da compaixão e do amor filial e fraternal. Trata-se de Alexey Birukov, dono de um moinho, proprietário de terras, que no seu dia-a-dia se confronta com as mazelas que os necessitados jogam sobre seus ombros. São quatro páginas que delineam à perfeição os impulsos primitivos que afloram do fundo da mente daqueles que se apegam ao Ter e pouco se importam de mostrar ao mundo que em relação ao Ser nada são. Não se importam com a má reputação, a indignação dos mais próximos, ou o olhar surpreso de quem acredita que poderiam em algum momento demonstrar rasgos de generosidade. Pequenos gestos falam muito. E aqui Chekhov revela sua magistral percepção do comportamento humano. O ser mesquinho, encurralado pelas lágrimas maternas e pelo olhar indignado de terceiros que assistem cena tão deplorável, sente-se obrigado a ceder. Abre sua sacola de dinheiro. Toma entre as mãos um maço de notas, e lentamente devolve-as uma a uma para o interior da sacola. Em suas mãos sobra apenas a moeda de vinte rublos. Olha para a moeda na palma de sua mão. Reflete. E afinal, decide. Coloca o dinheiro nas mãos da mãe. Como diz um ditado judaico: ” é muito longo o caminho entre o coração e o bolso.”

A Sirene

Um pequeno conto divertido, realista e sutil. A começar pelo título. Traduzido do inglês a palavra “siren” significa tanto sereia quanto sirene. Sereia atrai os navegantes com o seu canto suave. Sirene é um aparelho utilizado para emitir sons que alertam para algum perigo. Na presente história alguns juizes estão reunidos na Câmara de Julgamento aguardando que o Juiz presidente da Corte faça o relatório de um caso no qual atuaram juntos. Estão atrasados para o almoço. Sentado diante dos colegas, o secretário da corte comenta baixinho: “estamos famintos agora, porque estamos cansados e já passa das 15 horas. Isto não é, meu caro Grigory, o que podemos chamar de verdadeiro apetite.” E sem dar tempo aos colegas, dispara a falar sobre os mais deliciosos cardápios. Num crescendum suas palavras aguçam a fome de todos. O presidente esbraveja que o secretário deve falar mais baixo, pois aquela conversa o distrai e ele precisa refazer páginas de seu relatório. O secretário promete falar mais baixo, entretanto, no mesmo tom de voz anterior continua falando de assados, caviar, vodka, sopas e saladas. Sádico cria um ambiente onde alguém chega na cozinha e prepara uma refeição completa e requintada. As entradas enquanto se aguarda que o assado fique pronto, o aperitivo colocado em pequenos copos contendo incrições do tipo” As you clink, you may think, monks also thus do drink” ” A sopa, o assado, enfim, uma verdadeira aula de culinária que seria incompleta se tais refeiçoes não fossem seguidas de um descanso onde voce toma um brandy, lê seu jornal, vê a mulher amada e a chama para que lhe de um beijo. Um a um, os juizes pedem licença, passam a mão em seus chapéus e vão se retirando com ares de urgencia. O Presidente não consegue completar seu relatório e impaciente vai embora. O secretário lhe pergunta: ” meu querido amigo, quando terminará seu relatório?” O presidente levanta suas mãos em desespero e se apressa em direção a porta. O assistente faz o mesmo. Enquanto o secretário falante olha atrás deles desaprovando e começa a recolher os papéis.

Um ataque de nervos

Esta história é hilária. Vasilyev, o terceiranista da faculdade de direito é convidado por seus dois amigos, um cursando medicina e o outro a Escola nacional de Pintura, para que passem a tarde num bordel. Ele nunca esteve num bordel e aceita. No caminho ele fantasia um ambiente caloroso, repleto de glamour. Após uma caminhada sobre a neve os amigos chegam na S….Streeet repleta de casas de tolerância. Entram na primeira, são recebidos por um valet de feição glacial e indiferente. Subindo as escadas que conduzem a um ambiente mal iluminado, mulheres de faces pintadas e roupas escandalosas, não dão margem á dúvidas para Vasilyev, entraram pela porta errada. E assim, sucessivamente, os amigos cedem às críticas do futuro advogado indo de casa em casa, até que entram numa que fica mais ou menos aprovada por ele. Nesta há uma orquestra e dança-se a quadrilha. Enquanto os amigos dançam, Vasilyev acomoda-se bastante constrangido numa poltrona e analisa o ambiente. Horroriza-se sabendo que ai as mulheres se vendem em troca de um pouco de dinheiro que lhes garanta abrigo, alimento e roupas. Sente-se curioso para saber suas origens, como são suas famílias, como chegaram até aquela vida para a qual não há perdão, já estão condenadas ao inferno. Acreditando na condenação das mulheres decaídas, Vasilyev também reflete que os homens, todos os homens são criminosos duplamente: matam as esperanças daquelas mulheres e as condenam ao inferno. E num crescendum, o jovem estudante olha com nojo para as faces de cada um dos presentes, sente-se mal, excitado, e seus pensamentos sobre o ambiente são cada vez mais trágicos e sufocantes. A tarde finda e os dois amigos finalmente atendem aos apelos de Vasilyev e retornam à casa onde moram. Vasilyev recolhe-se em seu quarto e não consegue dormir. Reflete sobre bordeis e suas mulheres, seus frequentadores. Agonia-se, mas decide se manter sob controle. “Sou um advogado não sou? Defendi uma tese brilhantemente, então devo saber me controlar. Vou traçar um plano para salvar estas mulheres, e de início vou criar tres ambientes de salvação para elas” Imagina-as salvas sob tres condições diversas: 1) homens querendo tirar mulheres de um bordel instalando-as num quarto, dando-lhes máquina de costura para que possam ganhar a vida com decência, e eles em pouco tempo transformando-as em suas amantes. Neste caso a mulher decaída continua decaída. 2) Outros, após comprá-las colocam-nas em apartamento com a inevitável máquina de costura, dão-lhes aulas e elas aprendem a rezar e a ler. Enquanto tudo é novidade elas aguentam, mas logo reiniciam suas antigas atividades… continuam decaídas portanto. 3) um terceiro grupo de homens que casam-se com elas. E o casamento, a maternidade as transformam em boas mulheres. Mas Vasilyev depara-se com uma dificuldade. Mulheres em bordéis há aos milhares em todos os cantos do mundo. E ainda que todas fossem salvas outras seriam seduzidas e em breve estariam ocupando os espaços deixados vazios. Que agonia. Como salvar estas almas decaídas? Sim! uma boa idéia, talvez tornando-se missionário. Toma um pedaço de papel, lápis e rascunha um discurso de salvação das mulheres decaídas e de convencimento dos homens a não matá-las duas vezes. Sentar-se-á próximo à rua dos bordéis e à cada transeunte masculino indagará se acredita em Deus, se não teme o inferno, se…se….A noite passa, o rapaz não dorme. Sente dor no fundo do coração. Tem a cabeça confusa. Muitos são bons em vários segmentos da vida. Mas ele nasceu com um coração generoso. E a dor alheia entra fundo em seu ser. É-lhe insupórtavel o sofrimento alheio. Amanhece. Os amigos vão para a faculdade. Ele continua no quarto, prisioneiro de um ataque de nervos. Decide sair para a rua e caminha a esmo pela cidade. Vai até o rio agora congelado. Aproxima-se da ponte. Tem idéias suicidas. Sente medo e volta para casa. Os amigos chegam da faculdade e vão ao seu quarto. Em prantos Vasilyev pede-lhes ajuda afirmando que desejou se matar. É levado ao médico psiquiatra, que,friamente sorrindo de um lado só, o questiona sobre seus antecendentes. Dadas as respostas, Vasilyev pergunta ao médico se a prostituição é um mal ou não. O médico responde: meu querido cliente, quem as disputa? E Vasilyev:- O senhor é um psiquiatra não é? Talvez vocês estejam certos….

O médico dá um remédio para Vasilyev e ele se acalma. Os tres rapazes saem do consultório, o paciente levando entre as mãos duas receitas, uma de brometo a outra de morfina. Ele exclama: ” mas já tomei estes remédios antes!” e serenamente afasta-se de seus amigos e segue em direção à faculdade.

Gusev

Aqui são marinheiros retornando ao lar, num barco onde reina o cáos onde a maioria está a beira da morte. Gusev é o personagem principal, um pobre coitado que conta à um outro colega, Pavel, que um soldado em Sucham enquanto estava navegando, seu barco chocou-se com um enorme peixe causando um buraco em seu fundo. Pavel parece não ouví-lo. Trés inválidos jogam cartas e deliram. O tempo está ruim, o mar agitado e Gusev também delira. A curta história se limita a narrar a briga entre o barco e as ondas agitadas, o delírio dos doentes sujeitos ao calor estafante e com dificuldades respiratórias, (um drama que deve ter corroído a mente de Chekhov que desde os tempos de faculdade tinha em sí incubado o bacilo da tuberculose). Um dos jogadores morre e é atirado ao mar. Gusev se aproxima da morte, mas não a pressente e sonha com sua chegada na terra natal, pensa em sua familia. Passam-se dois dias. Pavel parece estar muito mal, mas quando Gusev pergunta sobre sua saúde ele afirma que está bem melhor. E Gusev se pavoneia afirmando que quando se compara com o amigo embora sinta pena dele, sente-se feliz porque seus pulmões estão bem e pode ficar no inferno…sozinho no mar Vermelho. As horas passam silenciosas até que chega a noite. Pavel tambem faleceu. Um dos soldados que jogavam cartas depois de questionar se Pavel entraria no Reino dos Céus, senta-se diante de Gusev e afirma: ” Você também Gusev, logo partirá deste mundo. Não retornará à Rússia. Eu vejo a morte em você. A conversa deixa Gusev atormentado. Tenta pensar no lar. mas não aguenta e pede ao amigo que o leve para o deck para que possa respirar melhor. No deck soldados mortos e marinheiros parecem dormindo lado a lado. Estrelas brilham nos céus, lá em cima há quietude e paz, mas abaixo ondas gigantes agitam o mar, Gusev quebra o silêncio: ” não há nada atemorizando aqui..só você se percebe esquisito como se entrasse numa floresta escura, mas se eles me mandassem cinco milhas adiante para pescar eu iria..se um cristão caisse na água agora eu o salvaria…”- você está preocupado em morrer, lhe pergunta o soldado. -Sim, penso na fazenda, meu irmão bebe, bate em sua esposa, não honra seu pai e mãe. …Mas as minhas pernas não me aguentam, deixa-me dormir, irmão….Gusev retorna à enfermaria onde dorme por dois dias seguidos. No terceiro, à tarde, dois marinheiros vão vê-lo, e o carregam fora da enfermaria. Ele é costurado dentro de um saco de marinheiro, e para torná-lo pesado, colocam junto dois pesos de metal. Quando o sol desaparece levam-no para o deck. O sacerdote ora: “Abençoado é nosso Deus…” Gusev é jogado ao mar e está numa escola de peixes chamados “peixe piloto”. O peixe pilôto está em êxtases. Brinca com o corpo de Gusev….enquanto lá em cima finda o cepúsculo e as nuvens maciças formam desenhos: um arco, um leão, um par de tesouras…Os céus se transformam em tinta lilás…enquanto este magnífico poente tem suas luzes captadas pelo mar em cores e beleza que não podem ser descritas por ninguem.

O HOMEM NUMA CONCHA

Nos limites de uma pequena vila dois caçadores conversam. Eram o veterinário Ivan Ivanych e o professor Burkin. Ivan vivia próximo da cidade e saíra aquela noite para respirar um pouco de ar fresco. De um comentário que fizeram sobre a senhora Mavra, que nunca saira da cidade e sequer sabia o que seria uma estrada de ferro, Burkin refletiu que existiam pessoas anti-sociais que se mantinham dentro de uma concha como o caranguejo. Aqui mesmo tínhamos Belikov, um professor meu colega sempre vestido com um casaco de inverno e levando um guarda-chuva mesmo nos dias mais claros, em resumo, era um tipo que construia ao seu redor uma membrana, uma capa protetora.. Lecionava grego, e mantinha um sorriso adocicado quando pronunciava a palavra: “Anthropos”. Para ele o que interessava eram as regulamentações do governo e as notícias dos jornais onde alguma coisa ficava proibida. Quando alguma lei proibia estudantes de 2o grau a ficarem nas ruas após as nove horas da noite, ou algum artigo censurando amor carnal, para Belikov isto se tornava proibido e assim tinha que ser. Mas aqui sempre existia alguma coisa vaga e indefinida para ele, algo não totalmente expresso em qualquer sanção ou permissão. Quando algum clube de drama ou casa de chá eram licenciados, ele chacoalhava a cabeça e cochichava: Tudo bem, mas você não sabe o que pode vir dai. Ele tinha o costume de visitar nossos quartos. Sentava-se e permanecia em silêncio por uma, duas horas, e então ia embora, e isto ele designava como manter boas relações com os colegas. na escola o diretor e todos nós, professores, nos preocupavamos com ele. Por quinze anos ele teve a cidade debaixo de seu polegar. Todos se preocupavam com o que faziem por temer as críticas de Belikov. Até que um dia….

Mihail Kovalenko, um ucraniano, chegou na vila para tornar-se o novo professor de geografia. Veio acompanhado da irmã, Varenka, uma jovem de trinta anos, bem feita de corpo, que sempre cantava pequenas canções russas e sorria. Sua risada às vezes soava como um sino Ha-Ha-Ha! Ela nos fascinava e tambêm a Belikov que comentava com um açucarado sorriso: ” A pequena língua russa lembra o velho grego na sua suavidade e agradavel sonoridade”. Nós viamos os dois conversando e uma idéia passou pelas nossas cabeças, casá-los. E foi só nesta ocasião que nos demos conta que o nosso Belikov não era casado. E nós poderiamos pinçar Belikov de seu quarto para casá-lo com Varenka. Eu poderia dar uma recepção e convidá-los. E assim, a máquina foi acionada. Em breve Belikov trouxe um retrato de Varenka para seu quarto, e viamos os dois caminhando juntos em longas conversas, e começou a me falar sobre casamento e suas responsabilidades. Eu gosto dela costumava me dizer, mas preciso pensar um pouco mais sobre casamento. Mas o romance foi se tornando assunto de todos na vila. Embora o irmão de Varenka odiasse Belikov, não colocava impecilho para um futuro casamento.

Certa ocasião, circulou pela escola uma caricatura de Belikov vestindo seus trajes habituais, caminhando com seu guarda-chuva, com Veranka se apoiando em seu braço e abaixo a legenda: “Anthropos apaixonado” A caricatura causou pânico em Belikov. Era domingo, Io de maio, e todos pretendiam se encontrar na escola de onde partiriam para um passeio pelos arredores da cidade. Belikov tendo saído em minha companhia queixava-se da malícia popular, quando Kovalenko e Varenka passaram pelo nosso caminho pedalando suas bicicletas. – ” Céus, o que é isto, exclamou Belikov apontando para Valenka. Ele estava escandalizado ao vê-la na bicicleta, que voltou para casa. Ferchou-se em seu quarto permanecendo incomunicável. No final da tarde ele foi até a casa de Kovarenko. Embora mal recebido despejou uma série de críticas sobre a caricatura e advertindo Kovarenko sobre a inconveniência de um professor pedalar bicicleta dando máu exemplo aos estudantes. Kovarenko não entendeu nada! Mas deixou claro que não era da conta de ninguém que ele e a irmã andassem de bicicleta. Ambos discutiram nervosamente. E já se retirando Belikov informou que levaria ao diretor da escola o conteúdo daquela discussão entre eles. Kovarenko enquanto lhe respondia de forma malcriada agarrou Belikov pelo pescoço e lhe deu um empurrão. Belikov rolou escada abaixo. naquele momento Varenka chegava em casa acompanhada de duas senhoras e ao reconhecer Belikov, supondo que ele caira por acidente, deu aquela sua gargalhada, Ha-Ha-Ha!! E este reverberante sino colocou um ponto final no romance entre os dois. Berlikov voltou para sua casa, trancou-se no quarto e, dois dias depois, seu criado Afanásio procurou-me preocupado para dar péssimas notícias sobre seu patrão. Fui vê-lo. Ele não se alimentava, respondendo às minhas perguntas apenas com um sim ou não. Um mes mais tarde faleceu. Uma semana mais tarde a vida em nossa vila voltou ao normal. Tão estúpida quanto antes. Nada explicitamente proibido, mas também nada plenamente permitido.

-Que lua! comentou Burkin. Era meia-noite. À direita podiamos ver a vila onde cada coisa permanecia em silencio. Quando numa noite de luar voce vê as ruas vazias da cidade, com suas casas, e os seus habitantes estão dormindo, você fica tomado de serenidade e imagina que as estrelas estão olhando para isto ternamente e que não existe mais o mal sobre a terra.

Burkin foi dormir e Ivanych sentou-se outra vez à porta de sua casa, acendeu seu cachimbo e alí ficou.

Thomas Mann

October 26th, 2008

Dead in Venice: Thomas Mann:

Aschenbeck 

Maitena e um poeta amigo…

November 2nd, 2008

October 18th, 2008

recordar é viver…

P:-Olhe o mundo que eu fiz para você..

uma estrela a noite,

na janela, duas flores de geranio,

uma rede encostada na parreira,

um sabiá cantando às nove horas,

e o meu amor beijando o seu amor

no mundo que eu fiz para voce!

PA 17/11/1964

“Momentos de nós dois”

Sobre os teus olhos lindos

ponho os meus.

Pelos momentos de maior ternura…

Sobre tuas mãos perfeitas

ponho as minhas,

pelos momentos de maior carinho…

Enquanto isto,

Cobres o meu mundo

com teu mundo feito

 de flores e pedaços de uma estrela!

E passamos a sonhar

como dois cativos presos lá no ninho

que não se afastam mais e vivem juntos,

e são ternura, amor, eternidade!….

PA 13/11/65

Novembro/1965

Pelos longos momentos dessa espera

ouço queixumes de inconstancia

por um vulto que é feito de distancia

surge a sombra que é vagar de primavera..

Como um tempo passado pela infancia,

outro tempo caminha e desespera…

e no amor meu sonho considera

que esta saciedade é feita de estação..

E em sonhos obliquos, vagos e imperfeitos

as ilusões caminham como um fardo

de folhas caidas em vendavais refeitos..

Pelos momentos dessa espera infinita,

quando ouço um sussurro triste em fardo empalo

numa sublime angustia de poeta..!

Tristeza…

Tristeza minha que é esta

um não sei que de ilusão-

tristeza parece festa

de chuvas no coração…

Tristeza minha que vai

Tristeza minha que vem

-uma estrelinha que cai

sem cor, sem brilho também…

Tristeza, fúria do vento

ferindo as águas do mar

Tristeza, um céu friorento,

enfeitiçando o luar…

Tristeza minha que é esta

-um não sei que de ilusão-

Tristeza parece festa

de chuvas no coração…

 

M: -”Qual foi querido,

a primeira ternura da sua meninice?

daquele tempo que é nosso,

de toda gente,

até dessa gente tão fria

que parece viver num perene inverno..”

P-”Ouça, a primeira grande ternura

foi do derradeiro castelo,

aquele que se pensa e não se faz..”

“Num grão de um punhado de areia,

encontro uma lembrança perdida,

de um tempo perdido, tão longe..

vulto de ternura da minha meninice..

era um pedaço do meu primeiro castelo de areia…

M:-Nosso primeiro duelo. Existirão outros?

P:-Nunca poderiam existir duelos..apenas afinidades…

Vultos

O vento qual um açoite,

bate no vidro da porta,

trazendo dentro da noite,

uma ilusão quase morta…

A procura não sei onde,

olho na várzea florida

e grito ao longe: “Querida!?”

mas nem o eco responde…

Tudo me foge ao olhar,

a vista toda se embaça…

eu só vejo o vento deixar

umas sombras na vidraça…

PA 1965

M:- faz uma poesia para mim?

P:-.Com tal melifluidade ouvi teus lábios

primeiro me falando coisas idas.

depois notei teus olhos desvendando segredos,

nos meus sonhos de futuro…

Passaste as tuas mãos serenamente,

sobre os meus cilios entreabertos..

e calmo, então, segui pelo meu êxtase,

e nunca mais que soube se voltei…

Há tanto que eu buscava te encontrar

que, tendo-te pousada no meu sonho,

não pude perceber quando partiste..

E nem porque, agora, ainda, espero

ouvir dos lábios teus a explicação

de como aquele dia te encontrei!

(Vagueações)

17/02/1966

Nr 4

Sublime e claro como um sol de aurora

cresceu teu vulto no meu peito em chama,

E como as flores num jardim deserto,

nasceu o amor no coração vazio…

Fez-se o silencio numa noite escura,

veio a certeza da manhã sorrindo..

e de saudade que partiu magoada,

restou somente uma esperança alegre..

E a tua imagem foi crescendo assim

como os rosais pela campina agreste

e como a vaga que no mar desmaia..

E ao ver teus olhos doces como a bruma,

a estrela que dormia no meu sonho,

tornou-se clara na manhã do amor!..

M:- escuta meu lamento de saudade:

Meu pedacinho de terra

Quem regressa hoje terra amada,

e tem o olhar te envolvendo comovido,

traz dentro do peito um coração estraçalhado.

estavam descalços os pés que na juventude

deixaram em teu chão o rastro da alegria..

pelo mesmo caminho seguem cansados hoje,

os pes de quem te curva a fronte encanecida.

Quem regressa, chora de saudade..

orvalha com o pranto as flores murchas

daquelas primaveras que o vento outonal

varreu para longe, para o eterno…

pedacinho de terra que tanto amei outrora,

que sonhava eu quando te dei adeus?

Dez/1965 Maitena

P:-Estou em meio a estrada,

não há flores nem pedras pelo chão..

sou como quem anda pelas nuvens…

Agora estou no fim da estrada..

e no fim, pelo chão, não há flores nem pedras..

Por que tanta busca em vão,

se não há flores, nem há pedras pelo chão?

PA 19/10/95

Chekov (Anton Pavlovich) 1860/1904

October 31st, 2008

October 26th, 2008

1860/1904: escritor russo de pequenos contos e peças teatrais. Nascido no sul da Rússia, em Taganrog, filho de um comerciante e neto de um ex-servo que comprou sua liberdade. Graduou-se em medicina em 1884 tendo inicialmente exercido a profissão numa pequena cidade do interior e as experiencias sobre doenças e comportamentos de seus pacientes serviram de base para muitos de seus contos.

Para ajudar a sustentar sua enorme família, Chekhov se utilizou da publicação de pequenos contos nos jornais locais, sob pseudônimo. Nesta época, quando também exercia a medicina, Chekhov escreveu à um amigo: ” Medicina é a minha legítima esposa, literatura a minha amante. Enquanto alimento uma, passo a noite com a outra. Embora isto seja irregular, nenhuma das duas fica prejudicada com a minha infidelidade” Mas a amante com o tempo superou a esposa. O escritor Dimitri Grigorovich o apresentou a Aleksey Suvorin, proprietario do jornal Novoye vremya que liderava a imprensa em S. Petersburg. Sua reputação cresceu, pois a segurança financeira permitiu-lhe se dedicar mais aos seus trabalhos intelectuais.

Em 1890, Cherkhov viajou até a ilha-prisão de Sakhalin, suas experiencias foram relatadas no livro Ilha de Sakhalin (1893-4). À época ele já carregava consigo o bacilo da tuberculose, e toda a sua curta vida foi marcada por uma constante luta contra o avanço da doença. retornando à Rússia em 1892, durante a onda de fome que assolou seu pais ele executou um trabalho relevante. Em 89, com o agravamento de sua doença mudou-se para Yalta, na Criméia onde encontrou Gorky e Tolstoi. A partir de então sua criatividade voltou-se para o drama. Faleceu na Alemanha, no sanatório Badenweiler, em Julho de 1904.

O tema central da prosa de ficção de Cherkhov é a inabilidade dos seres humanos em não encontrarem respostas uns aos outros em suas comunicações permeadas de maldades e desesperança. É também relembrado por criar uma atmosfera lírica como resposta do homem à natureza.

Em 25 de maio de 1901, Chekhov casou-se com a atriz Olga Knipper. Antes que isto ocorresse, instigado por Suvorín a se casar, Cherkhov lhe afirmara:-” Pois bem, eu posso me casar se voce deseja. Mas minhas condições são: cada um permanece onde está, ela em Moscou e eu no interior. Irei vê-la, se a felicidade for contínua, dia após dia, eu fico” Olga foi esta mulher. Visitavam-se. Trocavam cartas diárias. Numa destas escrita antes de se casarem, ele demonstrou que havia sucumbido ao amor, quando confessou a Olga: ” o destino que nos separa não deve ser amaldiçoado. Foi o demônio que colocou o bacilo em mim e o amor à arte em você.”

Chekhov é considerado um mestre dos pequenos contos. Seu lema era: “concisão é a irmã do talento”.

The Portable Chekhov -NY The Viking Press 1975

“My holy of holies is the human body, health, inteligence, talent, inspiration, love, and absolute freedom-freedom from violence and falsehood, no matter how the last two manifest thenselves.” Chekhov

Resumo de alguns contos:

VANKA

Vanka é o menino de 9 aninhos, órfão de pai e mãe, aprendiz de sapateiro, que à véspera do natal escreve uma carta para seu avô que trabalha de guarda noturno. Na carta ele externa sua miserável condição: a noite dormindo num gélido cantinho da cozinha, de dia da cozinha para a loja do sapateiro. Na carta ficamos sabendo um pouco de sua história, sua mãe trabalhava na casa onde ele continuou a viver depois que ela falecera, época em que era bem tratado especialmente pela jovem Olga que o ensinara a ler e escrever. A ausência materna o jogou na cozinha. Vanka pede ao avô que venha buscá-lo antes que morra de frio e fome. O apêlo de Vanka é pungente, embora ele confunda a realidade com suas fantasias, natural pela idade e sofrimentos.

O CONSELHEIRO PRIVADO

A história é narrada por um menino cuja mãe entra em pânico quando recebe a notícia de que seu único irmão, um general solteirão virá visitá-la. Todo o texto gira em torno desta visita. E o menino, ainda na idade da inocência, com a chegada do tio inicia seu aprendizado sobre a vida além do seu pequeno mundo de criança bem nascida educada por um tutor de caráter enigmático. Dentro deste contexto, o ponto alto é a paixão que seu tio nutrirá por Tatyana, uma jovem casada com um cigano. O casal trabalha na casa do menino. Como o general trouxe seu ajudante de ordens, a mãe pede ao garoto que ceda seu quarto de dormir ao ajudante, assim, ele e o tutor se transferem para um anexo situado fora da casa onde vivem os empregados. A partir de um certo dia, todas as noites enquanto eles jantam o tio aparece no anexo. O menino percebe que há alguma coisa acontecendo mas não entende o quê. Até que uma noite, já tarde, enquanto ele faz um enorme esforço para não adormecer, houve uma declaração de amor que seu tio faz a Tatyana sem a menor consideração pelo marido da moça que se encontra presente ouvindo com olhos estatelados. O general convida a jovem a partir com ele para Moscou. Toma-lhe as mãos para beijá-la, é neste momento que o marido reage seguido pelo tutor. Um após outro, avançam sobre o tio e o expulsam do anexo. Mas, durante o momento em que o tutor vai para cima do general, alguma desconfiança surge na cabeça do cigano relacionada ao tutor. Assim, tão logo o tio sai do anexo lamentando que está muito doente, o cigano pega o tutor pelo pescoço e o agride, expulsando-o a seguir. O tutor vai embora e a dona da casa fica sabendo que durante a briga ele quebrou o braço e foi hospitalizado. A mãe do menino vai até o anexo para saber o que aconteceu na véspera. Lamenta que seu irmão esteja tão doente. O menino recolhe-se no jardim e entrega-se ao pranto. Mas distrai-se ao ver na estrada uma comitiva que se aproxima de sua casa, liderada pela polícia. Assustado corre para dentro de casa e conta à mãe que entra em pânico acreditando que alguem irá preso pela briga da véspera. Mas não se trata de prender alguem, é o tio que recebe a visita do governador. Pede a irmã que prepare uma refeição para seus hóspedes. Há um movimento inusitado na casa. Patos e perús são mortos para a refeição, nem aqueles de estimação foram poupados. Um grande banquete é servido, mas depois que os hóspedes se retiram, o general critica a irmã que não cumprimentou efusivamente o governador , e também faz críticas ao almoço servido. Para a dona da casa tais críticas foram a gota d’água num copo quase cheio pelas tensões sofridas desde a chegada do irmão. Ele percebe o cansaço e a frustração da irmã e sugere que se tivesse 3 mil rublos iria embora. A irmã lhe dá o dinheiro e a seguir a familia está na estação para as despedidas.

UMA CALAMIDADE

Sofya Petrovna é a esposa de Lubyantzeve, o notário público. É uma bela mulher de vinte e ccinco anos, mãe de uma menina. Encontra-se próxima á estação de ferro ao lado de um advogado, Ivan Mihailovich que lhe envia cartas e lhe faz desesperadas declarações de amor. Sofya rejeita o amor de Ivan. Aparentemente. Pois o fato dela ir ao encontro dele para lhe dar aquelas eternas desculpas femininas de que ama e respeita seu marido, que tem uma filha, uma familia, não o convencem. Ao contrário fazem-no acreditar, e ele manifesta esta sua intuição à mulher, que ela também o deseja. Por que estaria ali para rejeitá-lo quando poderia faze-lo por carta? Num certo momento Ivan cai de joelhos aos pés da mulher, declara seu amor e pede que ela vá embora com ele. Sofya sente enorme prazer em ter um homem de joelhos aos seus pés. Mas o rejeita, pois percebe que o trem está chegando e seu marido pode estar viajando nele no retorno à casa onde passam o verão. Desculpa-se afirmando que deveria estar em casa cuidando de sua familia e abandona Ivan.

Em casa Sofya descobre-se em êxtase. Um homem ajoelhou-se aos seus pés. Seu corpo freme de emoções enquanto se esforça para se desculpar diante da própria consciencia. Neste momento não se sente mais dona de si. Insulta-se, recrimina-se, compara-se às piores mulheres. Mas ao mesmo tempo sente-se tomada de estranho prazer e desejo. Diz para si mesma que fará a melhor refeição para seu marido, toma a filhinha nos braços e quase a sufoca de beijos. Aos poucos se acalma quando conclui que o melhor para fugir de Ivan seria uma pequena viagem com sua familia. O marido chega e após o jantar se prepara para um pequeno repouso. Sofya o convida para uma viagem. Ele diz que não é possivel, falta dinheiro e não teria quem cuidasse do cartório na sua ausência. Conclui que compreende que não deve ser agradável para ela aquela estadia no campo, então que vá viajar sozinha. Enquanto o marido adormece, Sofia sabendo que lhe foi concedida a liberdade de viajar sozinha, sonha novamente com Ivan. Viajariam juntos no trem, e quando fosse noite e os passageiros estivessem dormindo ou saissem um pouco durante as paradas, Ivan outra vez se ajoelharia ao seus pés para lhe declarar amor.

No final da tarde chegam vizinhos para jogar baralho e ouvi-la ao piano. Ivan também chega. Sofya está histérica com a presença do rapaz. Canta velhas cantigas de amor, ri, suas faces queimam feito brasas. Mas ao mesmo tempo imagina que o rapaz, silencioso naquela noite, está sofrendo por ela. O que fazer?

A reunião termina por volta de meia noite. O último convidado a sair é Ivan. Sofya o acompanha até o portão e permite que o rapaz a toque e lhe declare amor convidando-a para partirem juntos. Quando ele a envolve avançando um pouco mais, ela indignada solta-se e corre para dentro da casa. Seu marido já está na cama. Sofya senta-se diante da janela do quarto e pensa em Ivan. Nisto ouve do lado de fora da casa uma voz de tenor iniciando uma canção. Entra em desespero. Sacode o marido e o convida para acompanhá-la num passeio. Ele pede-lhe que vá sozinha. Ela pergunta se ele não ficaria preocupado se ela fosse e não voltasse mais. Ele nada responde. Ela lhe grita -” Nós vamos embora!” O marido desperta, senta-se na cama e quer saber com quem ela vai embora. E faz-lhe uma preleção sobre fidelidade, casamento, responsabilidades. Ela se lamenta que ele só pense nisto e não em seus sentimentos de mulher. Depois de dez minutos de lições morais o marido volta a dormir. Sofya dá a última cartada: ” vou sair, você vem comigo? Se vou sozinha talvez não volte.” O marido não responde. Ela reflete: “é agora ou nunca” Sai apressada para o meio da noite. Avança na escuridão sem olhar para trás.

At the Mill

Nos dois contos anteriores Chekhov nos revela os comportamentos diferentes de duas mulheres: a casta Tatyana passiva diante das investidas de um general solteirão que não resiste aos seus encantos e quer levá-la consigo para Moscou; e Sofya leviana que ao mesmo tempo se excita com a perspectiva de viver uma aventura amorosa e transforma suas sensações em tortura para sí mesma e para o homem que a ama; ao mesmo tempo estamos diante de dois maridos que agem de forma diferente um do outro, em relação à mulher que amam: o cigano cuida do seu amor, protege-a dos cantos das sereias, defende-a; o notário deixa a mulher solta para se entregar às diversões e aos sonhos, não se dando conta ou talvez sendo indiferente que ela siga sua própria vida se assim o desejar. Entretanto, no conto seguinte At the Mill, Chekhov nos convida a conhecer um caráter mesquinho que coloca seus ganhos financeiros acima da compaixão e do amor filial e fraternal. Trata-se de Alexey Birukov, dono de um moinho, proprietário de terras, que no seu dia-a-dia se confronta com as mazelas que os necessitados jogam sobre seus ombros. São quatro páginas que delineam à perfeição os impulsos primitivos que afloram do fundo da mente daqueles que se apegam ao Ter e pouco se importam de mostrar ao mundo que em relação ao Ser nada são. Não se importam com a má reputação, a indignação dos mais próximos, ou o olhar surpreso de quem acredita que poderiam em algum momento demonstrar rasgos de generosidade. Pequenos gestos falam muito. E aqui Chekhov revela sua magistral percepção do comportamento humano. O ser mesquinho, encurralado pelas lágrimas maternas e pelo olhar indignado de terceiros que assistem cena tão deplorável, sente-se obrigado a ceder. Abre sua sacola de dinheiro. Toma entre as mãos um maço de notas, e lentamente devolve-as uma a uma para o interior da sacola. Em suas mãos sobra apenas a moeda de vinte rublos. Olha para a moeda na palma de sua mão. Reflete. E afinal, decide. Coloca o dinheiro nas mãos da mãe. Como diz um ditado judaico: ” é muito longo o caminho entre o coração e o bolso.”

A Sirene

Um pequeno conto divertido, realista e sutil. A começar pelo título. Traduzido do inglês a palavra “siren” significa tanto sereia quanto sirene. Sereia atrai os navegantes com o seu canto suave. Sirene é um aparelho utilizado para emitir sons que alertam para algum perigo. Na presente história alguns juizes estão reunidos na Câmara de Julgamento aguardando que o Juiz presidente da Corte faça o relatório de um caso no qual atuaram juntos. Estão atrasados para o almoço. Sentado diante dos colegas, o secretário da corte comenta baixinho: “estamos famintos agora, porque estamos cansados e já passa das 15 horas. Isto não é, meu caro Grigory, o que podemos chamar de verdadeiro apetite.” E sem dar tempo aos colegas, dispara a falar sobre os mais deliciosos cardápios. Num crescendum suas palavras aguçam a fome de todos. O presidente esbraveja que o secretário deve falar mais baixo, pois aquela conversa o distrai e ele precisa refazer páginas de seu relatório. O secretário promete falar mais baixo, entretanto, no mesmo tom de voz anterior continua falando de assados, caviar, vodka, sopas e saladas. Sádico cria um ambiente onde alguém chega na cozinha e prepara uma refeição completa e requintada. As entradas enquanto se aguarda que o assado fique pronto, o aperitivo colocado em pequenos copos contendo incrições do tipo” As you clink, you may think, monks also thus do drink” ” A sopa, o assado, enfim, uma verdadeira aula de culinária que seria incompleta se tais refeiçoes não fossem seguidas de um descanso onde voce toma um brandy, lê seu jornal, vê a mulher amada e a chama para que lhe de um beijo. Um a um, os juizes pedem licença, passam a mão em seus chapéus e vão se retirando com ares de urgencia. O Presidente não consegue completar seu relatório e impaciente vai embora. O secretário lhe pergunta: ” meu querido amigo, quando terminará seu relatório?” O presidente levanta suas mãos em desespero e se apressa em direção a porta. O assistente faz o mesmo. Enquanto o secretário falante olha atrás deles desaprovando e começa a recolher os papéis.

Um ataque de nervos

Esta história é hilária. Vasilyev, o terceiranista da faculdade de direito é convidado por seus dois amigos, um cursando medicina e o outro a Escola nacional de Pintura, para que passem a tarde num bordel. Ele nunca esteve num bordel e aceita. No caminho ele fantasia um ambiente caloroso, repleto de glamour. Após uma caminhada sobre a neve os amigos chegam na S….Streeet repleta de casas de tolerância. Entram na primeira, são recebidos por um valet de feição glacial e indiferente. Subindo as escadas que conduzem a um ambiente mal iluminado, mulheres de faces pintadas e roupas escandalosas, não dão margem á dúvidas para Vasilyev, entraram pela porta errada. E assim, sucessivamente, os amigos cedem às críticas do futuro advogado indo de casa em casa, até que entram numa que fica mais ou menos aprovada por ele. Nesta há uma orquestra e dança-se a quadrilha. Enquanto os amigos dançam, Vasilyev acomoda-se bastante constrangido numa poltrona e analisa o ambiente. Horroriza-se sabendo que ai as mulheres se vendem em troca de um pouco de dinheiro que lhes garanta abrigo, alimento e roupas. Sente-se curioso para saber suas origens, como são suas famílias, como chegaram até aquela vida para a qual não há perdão, já estão condenadas ao inferno. Acreditando na condenação das mulheres decaídas, Vasilyev também reflete que os homens, todos os homens são criminosos duplamente: matam as esperanças daquelas mulheres e as condenam ao inferno. E num crescendum, o jovem estudante olha com nojo para as faces de cada um dos presentes, sente-se mal, excitado, e seus pensamentos sobre o ambiente são cada vez mais trágicos e sufocantes. A tarde finda e os dois amigos finalmente atendem aos apelos de Vasilyev e retornam à casa onde moram. Vasilyev recolhe-se em seu quarto e não consegue dormir. Reflete sobre bordeis e suas mulheres, seus frequentadores. Agonia-se, mas decide se manter sob controle. “Sou um advogado não sou? Defendi uma tese brilhantemente, então devo saber me controlar. Vou traçar um plano para salvar estas mulheres, e de início vou criar tres ambientes de salvação para elas” Imagina-as salvas sob tres condições diversas: 1) homens querendo tirar mulheres de um bordel instalando-as num quarto, dando-lhes máquina de costura para que possam ganhar a vida com decência, e eles em pouco tempo transformando-as em suas amantes. Neste caso a mulher decaída continua decaída. 2) Outros, após comprá-las colocam-nas em apartamento com a inevitável máquina de costura, dão-lhes aulas e elas aprendem a rezar e a ler. Enquanto tudo é novidade elas aguentam, mas logo reiniciam suas antigas atividades… continuam decaídas portanto. 3) um terceiro grupo de homens que casam-se com elas. E o casamento, a maternidade as transformam em boas mulheres. Mas Vasilyev depara-se com uma dificuldade. Mulheres em bordéis há aos milhares em todos os cantos do mundo. E ainda que todas fossem salvas outras seriam seduzidas e em breve estariam ocupando os espaços deixados vazios. Que agonia. Como salvar estas almas decaídas? Sim! uma boa idéia, talvez tornando-se missionário. Toma um pedaço de papel, lápis e rascunha um discurso de salvação das mulheres decaídas e de convencimento dos homens a não matá-las duas vezes. Sentar-se-á próximo à rua dos bordéis e à cada transeunte masculino indagará se acredita em Deus, se não teme o inferno, se…se….A noite passa, o rapaz não dorme. Sente dor no fundo do coração. Tem a cabeça confusa. Muitos são bons em vários segmentos da vida. Mas ele nasceu com um coração generoso. E a dor alheia entra fundo em seu ser. É-lhe insupórtavel o sofrimento alheio. Amanhece. Os amigos vão para a faculdade. Ele continua no quarto, prisioneiro de um ataque de nervos. Decide sair para a rua e caminha a esmo pela cidade. Vai até o rio agora congelado. Aproxima-se da ponte. Tem idéias suicidas. Sente medo e volta para casa. Os amigos chegam da faculdade e vão ao seu quarto. Em prantos Vasilyev pede-lhes ajuda afirmando que desejou se matar. É levado ao médico psiquiatra, que,friamente sorrindo de um lado só, o questiona sobre seus antecendentes. Dadas as respostas, Vasilyev pergunta ao médico se a prostituição é um mal ou não. O médico responde: meu querido cliente, quem as disputa? E Vasilyev:- O senhor é um psiquiatra não é? Talvez vocês estejam certos….

O médico dá um remédio para Vasilyev e ele se acalma. Os tres rapazes saem do consultório, o paciente levando entre as mãos duas receitas, uma de brometo a outra de morfina. Ele exclama: ” mas já tomei estes remédios antes!” e serenamente afasta-se de seus amigos e segue em direção à faculdade.

Gusev

Aqui são marinheiros retornando ao lar, num barco onde reina o cáos onde a maioria está a beira da morte. Gusev é o personagem principal, um pobre coitado que conta à um outro colega, Pavel, que um soldado em Sucham enquanto estava navegando, seu barco chocou-se com um enorme peixe causando um buraco em seu fundo. Pavel parece não ouví-lo. Trés inválidos jogam cartas e deliram. O tempo está ruim, o mar agitado e Gusev também delira. A curta história se limita a narrar a briga entre o barco e as ondas agitadas, o delírio dos doentes sujeitos ao calor estafante e com dificuldades respiratórias, (um drama que deve ter corroído a mente de Chekhov que desde os tempos de faculdade tinha em sí incubado o bacilo da tuberculose). Um dos jogadores morre e é atirado ao mar. Gusev se aproxima da morte, mas não a pressente e sonha com sua chegada na terra natal, pensa em sua familia. Passam-se dois dias. Pavel parece estar muito mal, mas quando Gusev pergunta sobre sua saúde ele afirma que está bem melhor. E Gusev se pavoneia afirmando que quando se compara com o amigo embora sinta pena dele, sente-se feliz porque seus pulmões estão bem e pode ficar no inferno…sozinho no mar Vermelho. As horas passam silenciosas até que chega a noite. Pavel tambem faleceu. Um dos soldados que jogavam cartas depois de questionar se Pavel entraria no Reino dos Céus, senta-se diante de Gusev e afirma: ” Você também Gusev, logo partirá deste mundo. Não retornará à Rússia. Eu vejo a morte em você. A conversa deixa Gusev atormentado. Tenta pensar no lar. mas não aguenta e pede ao amigo que o leve para o deck para que possa respirar melhor. No deck soldados mortos e marinheiros parecem dormindo lado a lado. Estrelas brilham nos céus, lá em cima há quietude e paz, mas abaixo ondas gigantes agitam o mar, Gusev quebra o silêncio: ” não há nada atemorizando aqui..só você se percebe esquisito como se entrasse numa floresta escura, mas se eles me mandassem cinco milhas adiante para pescar eu iria..se um cristão caisse na água agora eu o salvaria…”- você está preocupado em morrer, lhe pergunta o soldado. -Sim, penso na fazenda, meu irmão bebe, bate em sua esposa, não honra seu pai e mãe. …Mas as minhas pernas não me aguentam, deixa-me dormir, irmão….Gusev retorna à enfermaria onde dorme por dois dias seguidos. No terceiro, à tarde, dois marinheiros vão vê-lo, e o carregam fora da enfermaria. Ele é costurado dentro de um saco de marinheiro, e para torná-lo pesado, colocam junto dois pesos de metal. Quando o sol desaparece levam-no para o deck. O sacerdote ora: “Abençoado é nosso Deus…” Gusev é jogado ao mar e está numa escola de peixes chamados “peixe piloto”. O peixe pilôto está em êxtases. Brinca com o corpo de Gusev….enquanto lá em cima finda o cepúsculo e as nuvens maciças formam desenhos: um arco, um leão, um par de tesouras…Os céus se transformam em tinta lilás…enquanto este magnífico poente tem suas luzes captadas pelo mar em cores e beleza que não podem ser descritas por ninguem.

O HOMEM NUMA CONCHA

Nos limites de uma pequena vila dois caçadores conversam. Eram o veterinário Ivan Ivanych e o professor Burkin. Ivan vivia próximo da cidade e saíra aquela noite para respirar um pouco de ar fresco. De um comentário que fizeram sobre a senhora Mavra, que nunca saira da cidade e sequer sabia o que seria uma estrada de ferro, Burkin refletiu que existiam pessoas anti-sociais que se mantinham dentro de uma concha como o caranguejo. Aqui mesmo tínhamos Belikov, um professor meu colega sempre vestido com um casaco de inverno e levando um guarda-chuva mesmo nos dias mais claros, em resumo, era um tipo que construia ao seu redor uma membrana, uma capa protetora.. Lecionava grego, e mantinha um sorriso adocicado quando pronunciava a palavra: “Anthropos”. Para ele o que interessava eram as regulamentações do governo e as notícias dos jornais onde alguma coisa ficava proibida. Quando alguma lei proibia estudantes de 2o grau a ficarem nas ruas após as nove horas da noite, ou algum artigo censurando amor carnal, para Belikov isto se tornava proibido e assim tinha que ser. Mas aqui sempre existia alguma coisa vaga e indefinida para ele, algo não totalmente expresso em qualquer sanção ou permissão. Quando algum clube de drama ou casa de chá eram licenciados, ele chacoalhava a cabeça e cochichava: Tudo bem, mas você não sabe o que pode vir dai. Ele tinha o costume de visitar nossos quartos. Sentava-se e permanecia em silêncio por uma, duas horas, e então ia embora, e isto ele designava como manter boas relações com os colegas. na escola o diretor e todos nós, professores, nos preocupavamos com ele. Por quinze anos ele teve a cidade debaixo de seu polegar. Todos se preocupavam com o que faziem por temer as críticas de Belikov. Até que um dia….

Mihail Kovalenko, um ucraniano, chegou na vila para tornar-se o novo professor de geografia. Veio acompanhado da irmã, Varenka, uma jovem de trinta anos, bem feita de corpo, que sempre cantava pequenas canções russas e sorria. Sua risada às vezes soava como um sino Ha-Ha-Ha! Ela nos fascinava e tambêm a Belikov que comentava com um açucarado sorriso: ” A pequena língua russa lembra o velho grego na sua suavidade e agradavel sonoridade”. Nós viamos os dois conversando e uma idéia passou pelas nossas cabeças, casá-los. E foi só nesta ocasião que nos demos conta que o nosso Belikov não era casado. E nós poderiamos pinçar Belikov de seu quarto para casá-lo com Varenka. Eu poderia dar uma recepção e convidá-los. E assim, a máquina foi acionada. Em breve Belikov trouxe um retrato de Varenka para seu quarto, e viamos os dois caminhando juntos em longas conversas, e começou a me falar sobre casamento e suas responsabilidades. Eu gosto dela costumava me dizer, mas preciso pensar um pouco mais sobre casamento. Mas o romance foi se tornando assunto de todos na vila. Embora o irmão de Varenka odiasse Belikov, não colocava impecilho para um futuro casamento.

Certa ocasião, circulou pela escola uma caricatura de Belikov vestindo seus trajes habituais, caminhando com seu guarda-chuva, com Veranka se apoiando em seu braço e abaixo a legenda: “Anthropos apaixonado” A caricatura causou pânico em Belikov. Era domingo, Io de maio, e todos pretendiam se encontrar na escola de onde partiriam para um passeio pelos arredores da cidade. Belikov tendo saído em minha companhia queixava-se da malícia popular, quando Kovalenko e Varenka passaram pelo nosso caminho pedalando suas bicicletas. – ” Céus, o que é isto, exclamou Belikov apontando para Valenka. Ele estava escandalizado ao vê-la na bicicleta, que voltou para casa. Ferchou-se em seu quarto permanecendo incomunicável. No final da tarde ele foi até a casa de Kovarenko. Embora mal recebido despejou uma série de críticas sobre a caricatura e advertindo Kovarenko sobre a inconveniência de um professor pedalar bicicleta dando máu exemplo aos estudantes. Kovarenko não entendeu nada! Mas deixou claro que não era da conta de ninguém que ele e a irmã andassem de bicicleta. Ambos discutiram nervosamente. E já se retirando Belikov informou que levaria ao diretor da escola o conteúdo daquela discussão entre eles. Kovarenko enquanto lhe respondia de forma malcriada agarrou Belikov pelo pescoço e lhe deu um empurrão. Belikov rolou escada abaixo. naquele momento Varenka chegava em casa acompanhada de duas senhoras e ao reconhecer Belikov, supondo que ele caira por acidente, deu aquela sua gargalhada, Ha-Ha-Ha!! E este reverberante sino colocou um ponto final no romance entre os dois. Berlikov voltou para sua casa, trancou-se no quarto e, dois dias depois, seu criado Afanásio procurou-me preocupado para dar péssimas notícias sobre seu patrão. Fui vê-lo. Ele não se alimentava, respondendo às minhas perguntas apenas com um sim ou não. Um mes mais tarde faleceu. Uma semana mais tarde a vida em nossa vila voltou ao normal. Tão estúpida quanto antes. Nada explicitamente proibido, mas também nada plenamente permitido.

-Que lua! comentou Burkin. Era meia-noite. À direita podiamos ver a vila onde cada coisa permanecia em silencio. Quando numa noite de luar voce vê as ruas vazias da cidade, com suas casas, e os seus habitantes estão dormindo, você fica tomado de serenidade e imagina que as estrelas estão olhando para isto ternamente e que não existe mais o mal sobre a terra.

Burkin foi dormir e Ivanych sentou-se outra vez à porta de sua casa, acendeu seu cachimbo e alí ficou.

Thomas Mann

October 26th, 2008

Dead in Venice: Thomas Mann:

Aschenbeck

James Joyce

October 26th, 2008

um dos maiores talentos literários do séc. XX, James Joyce, irlandês de nascimento (1882-1941), foi poeta, escritor de pequenas histórias e novelas. Suas inovações técnicas no uso da linguagem literária incluem extenso uso de linguagem interior, plavras inventadas, trocadilhos, alusões complexas e uma rede de sìmbolos extraídos da mitologia, história e literatura. Tornou-se também famoso por retratar com acuidade a vida em Dublin. Embora tenha sido imitado por outros escritores, recebeu críticas como ser ininteligível e obsceno.

Filho mais velho de uma familia de 10 crianças, seus pais seriam considerados mediocres e fizeram grande esforço para se manterem dentro de uma classe média respeitável. Joyce foi educado em excelentes escolas jesuitas onde recebeu formação católica e aprendeu várias linguas. Suas rebeliões contra sua família, o nacionalismo irlandês e a Igreja Católica foram largamente descritas em sua auto-biografia: “A portrait of the artist as a young man”. O herói, Dedalus assim se manifesta: “- Não quero servir àquilo em que não mais acredito. Se isto é o meu lar, a minha terra natal, a minha religião, e quero me expressar de algum modo livremente, posso usar em minha defesa o silêncio, o exílio e a astúcia”. Bem mais tarde, a complexidade das idéias de Joyce em Ulysses só poderão ser plenamente entendidas por aqueles que porventura leram “A portrait of the artist as a yound man”. Esta técnica de tecer evasivos temas simbólicos que encontramos no transcorrer da obra de Joyce é algo que ele explora cada vez mais. Sua obra é quase toda interligada. Como se cada um de seus escritos, quando refletem uma viagem ao próprio íntimo passam ao longo do tempo por um processo de amadurecimento em suas constantes indagações.

Primeiros trabalhos publicados de Joyce:

Tendo lido atentamente os poemas líricos da época de Elizabeth I da Inglaterra ele os imitou com elegãncia em Chamber Music (1907). A seguir um exemplo:

Who goes amid the green wood

With springtide all adorning her?

Who goes amid the merry green wood

To make it merrier?

\who passes in the sunlight

By ways that know the light footfall?

Who passes in the sweet sunlight

With mien so virginal?

Joyce sempre teve o desejo de ser conhecido como poeta. E o seu trabalho foi pleno de poesia. Sua prosa é poética em muitos caminhos. O desenvolvimento de sua prosa foi para combinar evocação musical até hoje incomparavel, para brincar sobre as conotações das palavras ampliando-as e embaralhando-as. Se não escreveu muitos versos, o romantismo presente em sua prosa certamente é responsavel por muito da poesia moderna, e por uma reinterpretação daquelas mais antigas.

Algumas das principais obras de Joyce;

“A Portrait od the Artist as a young man” (1916)

Extensa obra auto-biográfica. Relembra a infãncia, os dias de escola, sua terra natal, o catolicismo no qual foi batizado. O herói, Stephan Dedalus que reaparece numa versão mais brilhante como um dos personagens de Ulysses. À medida em que, em Dédalus nasce o artista, ele se vê forçado a rejeitar o que encontra em seu entorno: a familia, religião, terra natal. O romance termina quando o escritor decide trocar Dublin por Paris. As experiências cruciais para o desenvolvimento de Dedalus como um artista são digeridas no final de cada capítulo, a título de conscientização de sí próprio.

O estilo em Portrait é pleno de recursos em vocabulário, sintaxe, rítmo usados para acentuar os contornos das emoções subjacentes.

ULYSSES

obra publicada em Paris, em 1918. As cópias da primeira edição publicada em inglês foram queimadas pelas autoridades novaiorquinas. Várias edições foram publicadas em outras línguas até que a Corte Distrital dos Estados Unidos da América considerasse que a obra não era obscena em 1933. Atualmente Ulysses é considerada a maior obra literária do séc. XX, publicada em língua inglesa. Numa primeira leitura, Yeats, Pound eVirginia Woolf admitiram sentirem-se confusos com a novela. T.S. Eliot ao contrário, logo percebeu a grandeza da obra. Ulysses é um desiludido estudo do estranhamento, paralisia e desintegração da sociedade. Por meio de detalhes como o funcionamento do corpo ou de notícias em jornais, Joyce captura a ligação entre estímulo e resposta com uma percepção jámais encontrada antes em histórias de ficção.

A novela versa sobre os eventos de um dia, em Dublin, 16 de junho de 1904, data de aniversário do primeiro passeio de Joyce com Nora Barnacle que se tornou sua esposa, dia agora conhecido como “Bloomsday”. O herói principal é Stephan Dedalus que já aparecera em “A portrait of an artist as a young man”. Outros personagens são: o judeu Leopold Bloom e sua esposa Molly. A novela está dividida em capítulos que correspondem aos episódios da Odisseia de Homero. Dedalus representa Telemachus; Leopold, Odisseu e Molly, Penélope, além de serem associados a outras figuras. No decorrer da história estão as visitas a um banheiro público, um funeral, uma livraria, uma maternidade e um bordel. Cenas e caracteres de Dublin são inseridos. Estilo alusivo, tem como tema central o exílio, algo que sempre preocupou Joyce. Stephan, rejeitado pela falecida mãe num paralelo à sua rejeiçao à Irlanda; enquanto Leopold é rejeitado pela Irlanda por ser judeu. Bloom simboliza a Humanidade em busca de reconhecimento social, Dedalus como artista procura os valores espirituais e emocionais. No decorrer da história Ulýsses descobre a verdade sobre sí mesmo e finalmente retorna à terra natal. A palavra final no encerramento do livro cabe a Molly, que incorpora o feminino como princípio regenerativo do Universo. Seu solilóquio transcorre num longo parágrafo concluido com um “sim” , sua afirmação da vida e do amor.

Os traços biográficos acima foram extraídos de:

Benét’s Reader’s Encyclopedia: 4a edição- Harper Collins

The Oxford Companion to English literature: 5a edição 1995; Oxford University Press

Points of View: an antology of short stories; 1966; \new American Library: James Joyce pg 457;

 

Thomas Mann

October 26th, 2008

Dead in Venice: Thomas Mann:

Aschenbeck é um famoso escritor, divorciado, alemão residente em Munique que comumente passa suas férias de verão nas montanhas onde tem casa. Mas desta vez decide viajar para fora do país e escolhe Veneza para onde parte. Sente-se feliz e sonhador enquanto um gondoleiro o conduz através do canal até o hotel onde se hospeda.

Durante o jantar distrai-se com uma familia polonesa: duas filhas jovens, um rapaz de uns 17 anos (Tadzio), a dama de companhia e a mãe, uma dama de aspecto nobre cujo colo está ornado com um colar de pérolas do tamanho de cerejas. Aschenbeck, desde este primeiro momento sente-se atraido pelo jovem. Compara-o ao deus Apolo.

Mas constrange-se com tais pensamentos e se incrimina, tenta confundir uma paixão nascente com admiração pelo que é belo. Reflete que seu sentimento por Tadzio é semelhante a admiração que sentimos diante da luz refletida nas ondas marinhas, o sol se pondo, ou às estátuas gregas talhadas no mais puro mármore. Entrementes ele faz todas as tentativas de ver Tadzio. Na praia, no restaurante, na cidade. E enquanto tece todas as formas de justificativas para seus sentimentos, não se dá conta de que já está ultrapassando os sinais do bom senso. Temendo os impulsos da paixão, Aschenbeck decide viajar para outra praia. Paga suas contas no hotel e segue até a estação. Mas o destino lhe prepara uma armadilha. Sua bagagem não foi levada consigo e não chega ao destino. Sem a bagagem ele retorna ao hotel em Veneza. Dois dias depois a bagagem é reencontrada, mas ele não vai embora.

Aschenbeck está na praça São Marcos e vê tabuletas com alertas para que todos os que estão na cidade evitem o consumo de frutos do mar encapsulados (ostras, musles, etc), que poderiam causar infecção intestinal dado o excesso de calor. Ao mesmo tempo, a brisa traz um odor fétido, preocupado Aschenbeck vai até uma das lojas da cidade para descobrir que cheiro é aquele. Parece-lhe desinfetante. O lojista lhe responde que é o siroco. O escritor insiste dizendo que além do cheiro ruim há tabuletas na praça alertando os turistas para que evitem o consumo de certos alimentos. “-apenas precauções do prefeito, signore” Um tanto desconfiado, quando retorna ao hotel, Aschenbeck procura alguma notícia nos jornais, não há nada. Só pelo jornal alemão ele fica informado sobre algum problema intestinal que ocorre em Veneza.

Certo dia o escritor retorna á cidade e vê Tadzio e sua familia se divertindo numa praça. Começa a segui-los furtivamente. E quando eles tomam a gôndola para um passeio, Aschenbeck faz o mesmo, pedindo ao gondoleiro que siga à certa distãncia a gôndola dos poloneses. Durante o passeio sofre conflitos de consciencia, pois seus sentimentos por Tadzio o perturbam e estão fora de controle.

Em outra ocasião, quando se retira para o quarto após o jantar, desvia-se em direção ao segundo andar onde se situa o quarto de Tadzio. Aschenbeck reclina a cabeça na porta e vive a fantasia de que está ternamente recostado junto ao peito do amado. Desperta do sonho horrorizado e foge para seu quarto. Senta-se da forma habitual na poltrona que está em frente a janela e dá vista para o mar. Pensa na paixão avassaladora pelo jovem que o leva a praticar atos temerários que poderiam até despertar a atenção de outros, da familia do rapaz e abalar sua reputação.

Certa tarde apresenta-se no hotel um conjunto musical da região. São cancioneiros italianos. Os hóspedes estão espalhados pelo terraço e jardins. Aschenbeck vê Tadzio reclinado sobre o parapeito do terraço. Seu olhar apaixonado desliza sensualmente pelo corpo do rapaz, observa seus gestos, seu perfil, faz conjeturas, alimenta esperanças. Mas aquele cheiro insuportavel de desinfetante chega até suas narinas. Vai à recepção do hotel e pede os jornais. Nenhuma noticia. E não encontra mais os jornais alemães….Retira-se para a cidade à procura de noticias. Num jornal alemão lê que a peste (la plague) está fazendo vítimas em Veneza. Muitos já morreram na região portuária. No dia seguinte Aschenbeck vai à cidade disposto a saber a verdade. Entra numa loja de passagens e questiona o lojista ingles que a principio nega que haja alguma epidemia na cidade. Mas ao perceber o olhar inquiridor de Aschenbeck pousado sobre seu rosto revela tudo. La Plague já fez centenas de vítimas, mas todas residentes na região do porto. O escritor se retira da loja, entra numa quitanda, compra algumas frutas e as consume alí por perto. Retorna ao hotel, procura a mãe de Tadzio e conta o que está acontecendo.

O romance termina com Aschenbeck vendo Tadzio pela última vez. O jovem brinca na praia e na brincadeira é agredido por um amigo, cambaleia e corre para o mar onde brinca com seus braços de encontro às ondas, e a seguir olha para trás. Seu olhar encontra o ávido olhar de Aschenbeck, enquanto este em meio a delirios de amor sente-se mal e morre. E o mundo fica informado do falecimento de um grande escritor.

Thomas Mann teve desde a juventude tendências homosexuais. Fica visível na maioria de seus livros, que sofreu conflitos íntimos por conta disto. Extravasa sua homosexualidade em seus belos livros. Death in Venice, tanto no filme quanto na maioria dos estudos sobre o livro, as análises se voltam para os conflitos intimos de um homosexual. Cada um vê e interpreta os fatos no caminho que mais o atrai. De minha parte reporto-me à explicação que o lojista ingles dá à Aschenbeck sobre o silencio das autoridades. O medo das perdas economicas sendo mais importante que preservar vidas humanas expostas a doenças e calamidades. É assim que funciona o mundo. Prevalecem os interesses de governo ou de individuos que tenham poder para tanto. O poder determina o que ou quem será sacrificado. Vale a lição, pois quantos confiam na Justiça, nas Instituições nacionais ou internacionais, considerando-as baluartes que protegem o direito à Vida, à Paz, e ao progresso, pregando a igualdade entre todos?

Tonio Kröger:

Aponta alguns traços biográficos da infância e juventude de Thomas Mann. A origem de sua mãe (brasileira) considerada suficientemente exótica para influir de maneira negativa na formação do filho, e suas tendências homosexuais manifestadas na adolescencia.

Tonio enquanto adolescente nutre amor por um jovem amigo, Hans, ao lado de quem faz caminhadas todos os dias após as aulas. Nestes momentos entabulam diálogos que quase sempre terminam em conflitos íntimos para Tonio. Seu amado não aprecia literatura como ele. Seu amado tem um olhar frio e distante. Não corresponde ao seu amor? Aprenderá algum dia a valorizar a literatura? Em paralelo ao seu interesse por Hans, Tonio fixa-se em Inge, uma vizinha também adolescente de olhos azuis límpidos e cheios de doçura.

A juventude local constuma tomar aulas de dança de salão. Entretenimento que Tonio detesta, algo impossível de distrair a atenção de quem gasta seu tempo estudando literatura, pois deseja se tornar escritor. Ainda assim para se aproximar de Inge, ele vai ao clube onde chegou um novo professor contratado na França que ensinará os jovens a dançar quadrilha. Tonio é um dos aprendizes. mas quando chega a sua vez de dançar como parceiro de Inge, as emoções o levam a errar os passos e a provocar um pequeno acidente. Humilhado foge do salão. Fica no corredor, infeliz, frustrado enquanto olha pela vidraça da janela. Seu olhar vaga pelos jardins lá fora, pelo azul do infinito e sua mente divaga no desejo de que que num certo momento Inge se aproxime dele, toque seus ombros ternamente e o convide para retornar ao salão. ” Não aconteceu nada meu amor, volte para o salão e dance comigo. Eu o amo” E ele, mergulhado no azul do olhar amado sentirá a força deste amor que o conduzirá pelos caminhos que não deseja trilhar como retornar ao salão e simplesmente dançar. Mas ela não vem, pois não é assim que funciona o mundo conclui Tonio. Ele carregará vida afora a frustração deste sonho irreal.

Após a perda dos pais Tonio vai embora da cidade. Torna-se escritor conhecido, viaja, tem amigos. Um dia sente vontade de partir definitivamente em direção à Dinamarca. Visita a amiga pintora, Lisabeta Ivanovna, com quem mantém a maioria de seus diálogos, para lhe contar que irá embora, viverá na Dinamarca enquanto lhe der prazer. Os amigos mantém diálogos sobre temas recorrentes para Tonio, literatura. O que são os escritores? Guias da humanidade? Expõe seus sentimentos sobre o amor e sobre a arte de escrever, suas frustrações e se despede da amiga com a promessa de lhe dar notícias.

Rumo à Dinamarca Tonio interrompe a viagem para retornar à terra natal. Na tarde chuvosa retorna às ruas do passado, suas caminhadas ao lado de Hans, revê os monumentos da cidade, e tomado de imensa nostalgia, na manhã seguinte visita a casa onde nasceu. Aquela casa onde passou infancia e adolescencia foi transformada em Biblioteca Pública. Sem se revelar, Tonio faz um giro pela casa, toma e acaricia livros, mantém conversas formais com os funcionários. É um turista a mais que passa pela cidade. Segue para Copenhague, viaja pela costa sueca e finalmente aporta na pequena cidade à beira-mar, Aalsgaard, onde pretende viver por tempo indeterminado. Gosta do ambiente, relaciona-se com um homem do mar. No dia seguinte há um grande baile promovido por solicitação de um bando de turistas que chegou no hotel. À noite acomodado numa poltrona, num cantinho com pouca iluminação de onde pode apreciar o salão de baile´e ouvir a música sem chamar a atençao, retorna ao passado. O destino lhe prega uma peça. Não longe dele estáo Hans Hansen e Ingeborg, a loira Inge cujos olhos azuis o levaram a sonhar com o amor que jámais esqueceu. Recorda Hans, seus sentimentos pelo amigo, aquele com quem dividiu seus confusos sentimentos de quem apenas se alimenta com os desejos de se enamorar, sonhos apenas sonhos de poeta. Relembra o salão de baile de sua terra natal onde os jovens tomavam aulas de dança com um dançarino francês, relembra a proximidade de Inge e o perfume de seus cabelos que o inebriava enquanto dançavam a quadrilha, e a sua incapacidade de fixar atenção nos passos da dança que o reconduz à janela em cuja vidraça agora embaçada pelo arfar de sua respiração ansiosa lhe traz de volta aqueles pensamentos confusos que procuram justificativas para as ações de um ser que se julga diferente porque ama as letras e então deve viver ausente da convivência social. Pois as pessoas não entendem os escritores! aqueles seres especiais que sabem lidar com as palavras, que sabem expressar os sentimentos ocultos nos corações humanos..mas afinal, para que servem as palavras? Não encontra respostas, retira-se do salão tentando encontrá-las na carta que escreverá à amiga Lisabeta. Já no quarto, diante da escrivaninha, papel e caneta na mão desperta da visão de Hans e Inge juntos, e escreve sua primeira carta à pintora. E lhe afirma: ” Eu venho aqui e vejo a mesma coisa, os mesmos conflitos e contradições no ar. É extraordinário que se você é tomado por uma idéia , você a encontrará expressada em qualquer lugar. e sempre a sentirá…”

“Mario e o mágico”

Thomas Mann.

Neste conto, o autor relata as experiencias de uma familia alemã que passa férias numa praia italiana, Torre. Descreve o ambiente sob o forte calor do verão, seus frequentadores, seus hotéis, e tem uma visão cômica do comportamento dos italianos com seus gestos exagerados, seu patriotismo que resulta muitas vezes em situações constrangedoras para estes hóspedes, como o caso criado pelo vestuário, usado pela filhinha de quatro anos na praia. A criança veste apenas a parte de baixo de um maillot. Mas se cobre com um roupão. Quando quer se banhar no mar, o pai recomenda que só tire o roupão ao entrar na água. É o que a criança faz. Mas isto bastou para que um senhor se aproximasse do pai da menina para informá-lo que a criança ferira “il honore della nostra Italia”, a seguir chama a policia e comunica o fato. A familia é conduzida à delegacia e deve pagar a multa de 50 liras antes de serem liberados.

A cena principal do conto se passa num salão da cidade onde um mágico se apresenta. Il signore Cipolla. Dai em diante a narração reflete os pensamentos desenrolados na imaginação do visitante alemão, que relata nos mínimos detalhes os gestos, falas e mágicas do prestidigitador. Descreve as provocações da platéia em especial de um jovem romano, a fascinação que o público sente pelos trabalhos desenvolvidos no palco por um mágico que não para de fumar, tomar cognac e falar “tutto in honore della patria mia, la bella Itália”. O público está hipnotizado. Na cena final, Cipolla convoca Mário para o palco. Mario, o garçon gentil que serve os filhinhos do casal de alemão. Mário o puro, o amigo, está sendo humilhado pelo mágico com perguntas sobre a decepção amorosa que o jovem sofre perchè uma bella ragazza rejeita seu amor. O mágico induz o rapaz a expor o fundo de seus sentimentos, a afirmar o que não sente, e o seduz como se o hipnotizasse trazendo-o junto a si, e a beijá-lo como se estivesse beijando a jovem amada. O público está paralizado diante da ousadia. Ouve-se um estampido de revolver. A seguir o corpo de Cipolla tomba ao chão. Mário matou o mágico.

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Os contos acima, além de outros cinco, formam uma coletânea de alguns escritos de Thomas Mann, publicados pela Random House pela primeira vez em 1954.

É admirável a forma como Mann (1875-1955- de origem alemã, ensaista e novelista), se expressa. Suas histórias se passam entre poucos ambientes, e o narrador centraliza a importância dos fatos na subjetividade de seus pensamentos. São pensamentos que refletem um Thomas Mann que talvez jámais tenha digerido sua própria história de vida. Pois a base onde o autor tenta juntar os cacos espalhados pela sua mente é quase sempre a mesma: praias ensolaradas da costa italiana, sua natureza bi-sexual, a mãe brasileira que é música. Sua origem deve te-lo incomodado muito.

Thomas Mann ganhou o peremio Nobel de Literatura em 1929, por suas narrativas que abordam a psicologia do temperamento dos artistas, sua crítica social, a forma como retratou a mitologia grega, alemã e hebreia. Existência e espírito formam a dualidade de seus romances. Recebeu influências de Shoppenhauer, Wagner, Nietzsche, além dos poetas romanticos alemães.

Mann não desenvolve interesses em entender a existência sob o ponto de vista político. Só com a ascenção do nazismo e fascismo ele desperta para uma visão política de cunho liberal exposta em suas obras após 1942: “Apêlo à Razão” e contos como Mário e o Mágico. Após 1933, Hitler assumindo o poder obriga Mann ao exílio. Em 1939 vai para os Estados Unidos, e em 1944, adota a cidadania daquele país. Seu romance pós II guerra, ” Dr Fausto, reflete uma intensa preocupação e consternação pelo destino político de seu país de origem, a Alemanha. Thomas Mann faleceu na Suiça.

John Steinbeck

October 25th, 2008

Dados biográficos mencionados abaixo foram extraídos do: “The Oxford Companion to English Literature” edited by Margaret Drabble GB 1996; Bath-Avon 2d edition

 

São Paulo, Três de julho 2007.

John Steinbeck (1902-68) Este californiano tomou de seu estado nativo os antecedentes para suas pequenas histórias e novelas, descrevendo a vida de seus trabalhadores rurais, com realismo e compreensão. Prêmio Nobel de Literatura em 1962, muitos de seus livros foram transformados em filmes de grande sucesso.

Suas principais novelas são:

East of Éden; The winter of our discontent; The Grapes of Wrath; Of Mice and Men; Tortilla Flat. 

Resumo de:

RATOS E HOMENS 

Dois amigos, George e Lennie, aproximam-se de uma lagoa num final de tarde.  Gostam do local e ali decidem passar a noite, embora devessem continuar a viagem a caminho da fazenda onde irão trabalhar. O dia é quente. Após saciarem a sede na água suja da lagoa, sentam-se para descansar e se alimentar. George vê que Lennie mantém as mãos no bolso e pergunta o que ele esconde. Sabe que o objeto é um rato morto por Lennie, um deficiente mental que tem uma força descomunal nas mãos. Eles são amigos faz tempo. Possuem apenas um ao outro. Lennie foi criado pela tia Clara que antes de falecer recomendou a George que nunca abandonasse aquela criatura enorme com mente de criança. Sem mais conversa, George diz a Lennie que sabe o que ele carrega no bolso e ordena que jogue aquele rato morto no outro lado da lagoa. Lennie obedece a contragosto. 

Quando a tarde declina, George pede a Lennie que procure lenha para aquecer os feijões enlatados que carregam na mochila. Lennie sai, mas demora a voltar, e no retorno traz alguns gravetos. George sabe o que aconteceu e ordena mais uma vez que  o rato seja jogado fora e que Lennie traga a lenha que precisam. Ele obedece.  

Mais tarde enquanto jantam, o diálogo é o de sempre. Pela enésima vez, com exuberante entusiasmo acalentam o velho sonho de juntar dinheiro e comprar um pedaço de terra onde possam plantar e criar alguns animais domésticos, um sonho de emancipação. Lennie, preocupado com suas mãos desastradas choraminga que George não lhe permitirá cuidar dos coelhos como tanto deseja. …Até que arranca a promessa de que poderá cuidar dos coelhinhos. 

Na manhã seguinte, um sábado, a caminho da fazenda, George orienta Lennie, caso apronte alguma confusão no novo trabalho, deverá fugir e vir se esconder entre as moitas existentes na região da lagoa, aguardando-o e, que durante a entrevista não abra a boca! Tudo corre bem e são contratados. Mais tarde, antes do almoço, Slim o carroceiro, aparece no galpão que serve de quarto aos trabalhadores. De personalidade cativante é o líder natural daquele meio rude. Houve com atenção e assustado as revelações que George faz sobre Lennie e sua força, que os leva a abandonar às pressas qualquer emprego. George relata o que aconteceu no último. Lennie se encantou com a cor do vestido de uma jovem, e na tentativa de sentir a sua textura coloca as mãos sobre a saia. A moça se horroriza e grita provocando correria e fuga dos dois a fim de evitar o linchamento de Lennie.

A seguir chega  Candy acompanhado de seu cachorro velho como ele, doente e cego. Outros chegam, como Carlson e Curley filho do dono da fazenda, sempre à procura de sua mulher Cindy, que já passou por ali minutos antes, também à procura do marido.  

À tarde George e Lennie trabalham com a turma de Slim. Colher e ensacar cevada.  

No anoitecer, George brinca com seu baralho, Lennie houve atentamente a notícia de que uma cachorra que pertence à fazenda deu cria e que seis dos cachorros nascidos foram mortos porque não será possível à mãe amamentar doze! Lennie fica fascinado e insiste que lhe dêem um daqueles animais. Sendo-lhe consentido vai ao celeiro e toma posse afetiva do cãozinho que por enquanto ficará com a mãe para que seja alimentado. 

Quando Candy entra no dormitório, Carlson reclama do cheiro nauseabundo que o velho cão exala. Aconselha Candy a matá-lo. Ele está velho, cego, não se alimenta, e se você o ama deve acabar logo com o seu sofrimento. Por pressão dos companheiros Candy  permite que Carlson leve o animal para longe e o mate. Minutos mais tarde todos ouvem o barulho do estampido da arma de Carlson. George observa Carlson guardar a arma em seu pequeno gavetão. Candy, deitado de costas, os olhos pregados no teto mantém-se em profundo silencio. Chega  Curley  à procura de Cindy. Implica com Lennie e o agride violentamente no rosto. Lennie não reage até que George ordena que se defenda. Lennie pega a mão de Curley esmagando seus ossos. Com dificuldade George e outros ali presentes conseguem livrar Curley que é levado ao hospital. No dormitório estão Candy e Lennie. Cindy aparece perguntando pelo marido. Candy conta que foram à cidade para uma noitada, mas ela diz que sabe que alguém esmagou a mão de Curley e aponta para Lennie, afirmando que ele fez bem por ter revidado a agressão de seu marido. Ouvem-se barulhos lá fora e Candy põe Cindy para fora do dormitório. Lennie retira-se e vai parar no pequeno quarto onde vive Brooks, um negro defeituoso que, após alguma insistência de Lennie lhe permite entrar para conversarem um pouco. Enquanto isto os homens, retornando da cidade,  se acomodam no terreiro para jogar. Candy aparece no quarto de Brooks e a seguir Cindy. A mulher entra sem pedir licença e ofende Brooks que põe os três para fora. Lennie vai para o celeiro visitar seu cãozinho. Acaricia-o só que…Minutos depois sua mão poderosa e sem controle torce o pescoço do animal. Lennie lamenta, jura que não queria fazer aquilo e com medo de George, esconde o animal debaixo de algumas palhas. Cindy aparece e deseja saber o que ele está escondendo. Vendo o cão morto sob as palhas ela o consola sentando-se próxima dele. Lennie sente um incontrolável impulso de passar as mãos nos cabelos cacheados da moça. Ela reage e ele não consegue mais tirar as mãos que lhe agarram o pescoço. Num crescendo de agonia de ambas as partes, Lennie quebra o pescoço de Cindy. A moça está morta. Lennie lembra-se da recomendação de George. “Se você aprontar alguma encrenca fuja para a lagoa até que eu vá buscá-lo”.  É o que faz.  

Slim e George entram no celeiro e descobrem o corpo de Cindy. Logo percebem quem a matou. George pede um tempo a Slim, antes de avisarem Curley.  Mais tarde Slim retorna ao celeiro e chama Curley que chega seguido dos outros empregados. Curley está transtornado e jura matar Lennie. Intima George a informar se sabe para onde Lennie teria fugido exigindo que os  acompanhe nas buscas pelo assassino. George dá indicações erradas, sai atrás do grupo indo meio devagar. Desvia-se do caminho e vai direto para o lago. Chama por Lennie. Eles se reencontram e sentam-se à beira da lagoa. Lennie choraminga que não matou a moça por mal. Não queria matar seu cãozinho e nem a moça. George diz que sabe disto, pede ao amigo que tire o chapéu e fique sentado de costas para ele. Lennie obedece. George começa a lhe falar docemente de seus sonhos, daquele pedacinho de terra onde Lennie poderá criar seus coelhos. As lembranças prosseguem emocionando-os. George aponta o revolver de Carlson na nuca de Lennie, suas mãos tremem, mas, quando percebe a aproximação do grupo, atira em Lennie. Quando o grupo chega Lennie já foi morto.  

Considerações: 

A principio sente-se dificuldade na leitura de um texto num linguajar muito popular. Mas à medida que a leitura avança nos adaptamos, e percebemos que tal linguagem dá mais realismo ao conteúdo do livro. O meio é de homens sem família, que nada possuem além da coragem de sair a cada amanhecer em busca do pão de cada dia e do pouco de alegria que encontram tecendo sonhos que nunca se realizam, das amizades logo desfeitas porque em breve cada um segue seu caminho. São andarilhos em busca do minguado alimento e de um pouco de calor humano. É um romance belíssimo. Abre-nos a porta de uma realidade que não raro desconhecemos, o rústico mundo dos miseráveis que sobrevivem mais às custas dos sonhos do que do mísero pão que recebem em troca de seu  trabalho.  

Steinbeck especializou-se em observar os desprotegidos da sorte. Tornou-se um mestre na arte de retratá-los com emoção e afeto. Conseguiu trazer esta miséria social para perto de seus leitores. Quantas vezes, embora saibamos da existência da pobreza, não entendemos suas dores e carências? Podemos lhes dar alimentos, agasalhos, remédios, mas não nos colocamos no frio de seus leitos, desconhecemos os vazios de suas mesas e corações, não sentimos as distancias que o abandono coloca entre suas vidas e a nossa. São seres humanos colocados dentro de uma tela cuja exposição de suas misérias mescla-se às cores fugidias que mãos divinas como as de Rembrandt, transformam em arte. Literatura também é arte. Através das palavras, escritores como Steinbeck  conseguem ecoar em nossos corações os sentimentos extravasados pelos grandes mestres da pintura. E então já não nos deslumbramos com a perfeição de traços e de cores , pela leitura  retemos para sempre um pouco das lágrimas que os personagens retratados derramam no silencio de suas vidas.

“O inverno da nossa desesperança”

algumas reflexões…

 Steinbeck -1981- (premio Nobel de 1962)

“..ninguem pode ser derrubado; quer dizer, a gente consegue lutar contra coisas grandes. O que mata é a erosão.” JS

E a erosão tem a desvantagem de ser menos perceptivel. É como um cancer que vai silenciosamente se alastrando em nosso corpo.  RC

“Agora que toda a raiva de Ethan tinha se esvaido, ele enxergou aquilo que faz um homem duvidar da circunstancia  das realidades além de si mesmo. Viu o imigrante, o carcamano, o refugiado se transformar diante de seus olhos, viu a curva da testa, o nariz pontudo forte, os músculos rijos e potentes, viu um orgulho tão profundo que podia fazer as vezes de humildade. Foi aquele tipo de descoberta chocante que obriga um homem a perguntar a si mesmo: “se até agora eu não tinha percebido isto, o que mais deixei passar?” JS

 Percebemos pouco do que nos cerca. Não que não notemos a sua existencia. Apenas não fixamos nossa atenção. Até que ocorra algo que nos desperte para o fato.  RC 

” O alcance de um insulto tem relação direta com a inteligencia e a segurança” JS

passamos por cima dos insultos até o ponto em que eles nos causem algum dano, ou nos coloque em situação de risco. RC

“O senhor quer que eu trapaceie o homem para quem trabalho?”

esta pergunta muitos deveriam fazer a sí próprios….. RC

“Voce me ensinou uma coisa. Tres coisas em que ninguem vai acreditar: a verdade, o provavel e o lógico” JS 

“A sexta-feira santa sempre me incomodou. A gente toma a história para si e se identifica com ela. Hoje Marullo me deu instruções, de modo que, pela primeira vez, eu a compreendi na esfera da natureza dos negócios. Pouco depois, recebi minha primeira oferta de suborno. É uma coisa estranha de se dizer na minha idade, mas não me lembro de nenhuma outra. Preciso pensar a respeito de Margie Young-Hunt. Será que ela é maligna? Qual é o objetivo dela? Eu sei que ela me prometeu algo, e me ameaçou caso eu não aceite. Será que um homem tem direito de pensar além de sua vida ou só deve ir empurrando com a barriga?” JS

Não se trata de direito e sim de obrigação.Temos obrigação de pensar além da própria vida. Pois nossas ações tem consequencias que se refletem em outras vidas,  RC

“Será que eu poderia ser conduzido a fazer o que não queria? Existem aqueles que comem e aqueles que são comidos. Como ponto de partida essa é uma boa regra. Será que os que comem são mais imorais do que os que são comidos? No final das contas, todos são comidos, todos mesmo, engolidos pela terra, até mesmo os mais ferozes e os mais astutos”. JS

“Se as leis dos pensamentos são as leis das coisas, então a moral também é relativa, e uma espécie de pecado…isto também é relativo em um universo relativo. ….Os meus ancestrais, aqueles donos de barco e capitães altamente reverenciados, com certeza receberam comissão para atacar os comerciantes na Guerra de Secessão e mais uma vez em 1812. Muito patriótico e virtuoso. Mas para os britanicos eles eram piratas, e o que tomavam guardavam para si. Foi assim que a fortuna da familia começou, para ser perdida pelo meu pai. É daí que vem o dinheiro que atrai dinheiro. Podemos nos orgulhar disso”.

Edificante…RC

” Além do dinheiro não ter coração, não tem honra nem memória. O dinheiro é automaticamente respeitável se a gente fica com ele durante um tempo”. JS

Os corruptos pensam desta forma. RC

“Acho que somos todos, ou pelo menos a maior parte de nós, guardiões daquela ciencia do século 19, que negava a existencia de qualquer coisa que não pudesse medir nem explicar. As coisas que não eramos capazes de compreender continuavam acontecendo, mas com toda certeza não tinham nossa benção. Não enxergavamos o que não éramos capzes de explicar e, por isso, uma enorme parte do mundo ficava abandonada às crianças, aos loucos, aos tolos e aos místicos, que estavam mais interessados no “no que” do que no “porquê”. Tantas coisas adoraveis e antigas estão guardadas no sótão do mundo…não as queremos por perto, mas não temos coragem de jogar fora.” JS

“Será que a vida está tão parada ou a paz é tão doce que pode ser comprada ao preço dos grilhões e da escravidão?”

“-Artimanha?

- Claro, por exemplo, a gente fala que é aleijado e sustenta a mãe de idade com uma criação de pererecas. Isso deixa o público interessado, então eles escolhem a gente..”

“Suponhamos que meu trabalho humilde e interminavel como balconista não seja absolutamente nenhuma virtude, mas apenas preguiça moral. Para que se obtenha sucesso, é preciso ser ousado. Talvez eu simplesmente fosse tímido, temeroso das consequencias; em uma palavra: preguiçoso. O sucesso nos negócios na nossa cidade não é complicado nem obscuro e também não é o que se pode chamar de amplo sucesso, porque quem o pratica impõe limites artificiais para suas práticas. Seus crimes são pequenos crimes, de modo que seu sucesso é um pequeno sucesso. Se o governo da cidade e o complexo comercial de New Bayton fossem investigados com profundidade, descobririam que uma centena de determinações legais e um milhar de regras morais tinham sido quebradas, mas não passavam de pequenas violações: furtos insignificantes. Aboliam parte do Decálogo e ficavam com o resto. E quando um dos nossos homens de sucesso obtinha o que precisava ou desejava, retomava suas virtudes com tanta facilidade quanto trocava de camisa, e até onde todo mundo podia ver, não se abalava devido a seus desvios, sempre partindo do principio de que não seria pego. Será que algum deles pensou nisso? Não sei, e os pequenos crimes podem ser perdoados pela consciencia, então por que não perdoar um rápido, grave e ousado? “

“As palavras não tem significado, a não ser em termos de sentimento. Será que alguem age como resultado do pensamento ou será que o sentimento estimula a ação e, às vezes, o pensamento vem completá-la?

 

O comunismo não passa de um blefe

October 25th, 2008

Monday, August 20th, 2007

Regina Caldas

2004

“Eu estou em Berlin!”

J.F.Kennedy.

(reflexões sobre a queda do Muro de Berlin)

25 de dezembro de 1989. Acompanhada de minha família festejo o Natal em Berlin no Schausoielhaus. Leonard Bernstein e sua orquestra executam a “Ode à Alegria”, de Beethoven. A vibração musical que paira no ar mistura-se às lágrimas dos alemães, que externam a exultação que sentem pela reunificação da pátria querida. A letra da Ode não poderia ser mais apropriada ao momento, emocionada canto com eles:

“Meus irmãos, cessou o nosso pranto

que uma lágrima de alegria eleve aos céus

nosso canto de festa e nossos acordes piedosos!”

Em 31 de dezembro, festejamos a entrada do novo ano em frente ao Portão de Brandemburg. após a ceia num restaurante em Kurfürstendamm. A alegria mágica  pairava no ar, a profusão de luzes, as pessoas circulando soltas como se mal tocassem os pés nos chãos. A festa maior naquele reveillon era simplesmente comemorar a Liberdade diante do Portão.   

Hoje, primeiro dia do ano 2000, meus filhos enfrentam as baixas temperaturas e trabalham animados com suas ferramentas durante horas ajudando a derrubar o “muro da vergonha”.(Guardo como lembrança, pedacinhos daquele muro). Ao longo da cerca restam alguns soldados em posição de sentido olhando para o nada. Minha filha mais velha, com aquela verve de humor irreverente dos jovens mostra-lhes suas latinhas de coca-cola, um ícone da liberdade ocidental. Milhares de transeuntes caminham tranqüilamente em direção ao “Charlie chekpoint”. E eu não me dispondo a enfrentar o frio permaneço dentro do carro, enquanto meus pensamentos revivem o final da II Guerra Mundial. Relembro o D-Day e a extraordinária vitória dos aliados na Normandie devolvendo a liberdade à França e mais tarde à Europa.. Recordo os diálogos e acordos feitos entre Churchill, Truman e Stalin (os Big Three). A última conferencia entre eles foi nesta praça em julho de 1.945, quando ficou decidido que a Alemanha seria repartida em quatro zonas de ocupação. Recordo, que de agosto de 1961, a Novembro de 1989, o muro de Berlin com suas cercas elétricas, suas pedras e desenhos separando a Alemanha Oriental da Berlin Ocidental, formou um enclave que dividiu a cidade em duas. Por quase três décadas Berlin sofreu o mais negro período de sua gloriosa história. Berlin, a cidade cosmopolita, caíra nas mãos dos comunistas! Comparo Churchill e Stalin. Quanta diferença nas atitudes de cada um, Churchill anotando em seu diário de guerra: “Na guerra, resolução na derrota, desafio, na vitória, magnanimidade, na paz, boa vontade!”, que diferença do modo de pensar e agir dos comunistas que impuseram a divisão da Alemanha!

No final da tarde atravessamos o Portão de Brandenburger, e seguimos até a Berlin ex-comunista. Atrás das cercas ha um enorme campo abandonado coberto com o lixo deixado pelos que festejaram a chegada do Novo Ano. Sinto um aperto no coração quando vejo os miseráveis que procuram objetos de algum valor no meio daqueles entulhos, revelação pungente do que resulta do comunismo! Prometem o paraíso a uma turba de incautos e lhes dão o inferno!

Seguimos em direção ao centro da cidade. A Berlin comunista assemelha-se a uma cidade fantasma. Entrego-me ao cinza da tarde de inverno, e a todas as recordações que um tempo de acontecimentos extraordinários desperta nos poucos transeuntes que se aventuram a conferir a miséria causada pelo domínio comunista. Alguns Ladas circulam pelas ruas, são latarias enferrujadas pelo uso e falta de manutenção. Os prédios destruídos durante a guerra não passaram por reformas desde os bombardeios sofridos pela cidade. O comércio aberto mostra por trás das cortinas velhas e sujas, as lojinhas “comunistas”. Que visão deprimente! Entramos numa livraria. Os livros expostos insistem nas teorias marxistas e na ideologia comunista. Um destes livros atrai minha atenção: o título? Pasmem! : “Como fazer de seu filho um bom comunista desde a vida intra-uterina” Que título revoltante! Revelam de forma incisiva as obsessões que afligem os comunistas que sofrem de uma fobia: vergar o caráter humano! É fácil à propaganda comunista enganar e conquistar adeptos. Suas artimanhas são bem elaboradas, são pacientes quando se dedicam ao objetivo de doutrinar as pessoas com as suas mentiras impregnadas de fanatismo, com o seu jogo sujo de jogar pobres contra ricos, e de instigar o coração humano a se sentir culpado pelas desgraças alheias. São hábeis em reduzir a História num tosco relato de exploração do mais fraco pelo mais forte. Entretanto, quando conquistam o poder, dada a sua notória incompetência, gerir a “coisa pública”, é-lhes tarefa impossível. Usam de todos os ardis para arrancar o que podem do cidadão e sentem uma compulsão irrefreável de destruir o patrimônio nacional, pois lhes falta capacidade intelectual para entender como funcionam a economia e a administração pública e não entendem o passado. Só entendem que é melhor destruir para recomeçar nivelando por baixo. Não aceitam quanto somos diferentes uns dos outros porque não nos vêm como indivíduos. O comunismo é um amontoado de idéias utópicas que não se encaixa na realidade. São idéias incompatíveis com a natureza humana. Mas o comunista não compreende assim, e não se conforma por ter idealizado e lutado tanto, quando o resultado é o fracasso. Em suas mãos o sonho se desmorona! A miséria se instala no país, o povo perde o ânimo, o patrimônio público e privado, frutos de um trabalho persistente e continuo através dos séculos transforma-se em sucata. Mas são teimosos. Seus planos fracassam, e eles impassíveis incrustados no poder, concedem-se uma vida de luxo e alienação e culpam a humanidade pelo fracasso de suas idéias. Inconformados pelo descrédito e impaciência do povo, que aumenta à medida que compreende que o comunismo não passa de um blefe, os gênios esquerdistas reúnem-se e tramam a idéia absurda de “orientar” as mães a doutrinar seus filhos antes do nascimento! Se me contassem tal história não acreditaria que fosse verdadeira. Mas testemunhei com meus próprios olhos! Reflito que as nações comunistas reconquistaram a liberdade, mas só entenderão os seus significados daqui algumas décadas.

De Berlin viajamos para Dresden e Leipzig. As estradas são de terra, sem indicações e sem iluminação. Na noite de inverno viajar por elas é uma aventura tenebrosa, pois se damos asas às nossas fantasias vemos comunistas por todos os lados a criar emboscadas. Conseguimos vencer o medo e chegamos em Leipzig que está em guerra civil. Ao buscarmos um restaurante passamos pelo desprazer de ver um comunista exaltado estapear o rosto do porteiro chamando-o de traidor, porque ele aceitou nossos cinco marcos para nos dar acesso mais rápido ao restaurante. Após o jantar caminhamos pela praça principal da cidade. Dresden e Leipzig, não refletem mais a excepcional cultura alemã, estão destruídas. Através do silencio expressamos a nossa consternação, sabendo que a ferocidade comunista destrói o passado das nações que domina. Nem sei quanto tempo passo nestas ruas, a olhar para o nada e a indagar o que se passa na cabeça de um comunista.  

Nossa viagem se completa na Tchecoslováquia. Talvez tenha sido este o melhor presente que demos aos nossos filhos. Reconhecer in loco as trágicas consequencias para aqueles que crêem nas utopias comunistas. Para que aprendam a valorizar a Liberdade em todas as suas nuances. Para que nunca se esqueçam que o sonho de alguns loucos destruiu cem milhões de vidas, destruiu sociedades inteiras como aconteceu com a Ucrânia.

Dou um salto de seis meses no tempo, e tenho entre as mãos a revista Steiner, de abril/1990. Há uma longa reportagem repleta de entrevistas nas quais os alemães ex-comunistas contam como se sentem usufruindo a liberdade. Eu estava certa quando conclui naquela pequena livraria comunista, que a liberdade não seria compreendida por aquela geração. De fato. Uma enfermeira entrevistada, da janela de seu apartamento, no final da tarde olhava o vai-e-vem dos trabalhadores retornando ao lar. Seus passos já não eram lentos como outrora. O corre-corre nas ruas transpirava expectativas que a enfermeira não entendia. Assim, apontando as pessoas ela perguntou ao repórter: “- Foi para isto que conquistamos a liberdade?”.

 

Os quatro cavaleiros do Apocalipse

September 1st, 2008

Existem cenas de filmes que jámais esquecemos. Uma destas assisti no filme acima. O casal se encontra no hall de entrada do apartamento. A mulher retorna de uma “traição” ao marido. O marido retorna do trabalho, traz o lunch da tarde. Embaraçada a mulher mente sobre o que fez durante a tarde. E ali, naquele pequeno quadrado de acesso ao apartamento se desenrola a cena que jamais esqueci. Indignado, sabendo-se traido, o marido diz á esposa:

“- Mentiras, traições, até que ponto suportamos?”

A frase calou fundo em mim, pois desde então tonei-me uma observadora do caráter humano e de minhas atitudes. Eu era bastante jovem quando assisti ao filme. Nem sei o quanto esta frase influiu na formação da minha lealdade comigo e com meus semelhantes. Sei que naquele momento tornei-me adulta, quando percebi como deveria assumir a responsabilidade pelas minhas palavras e ações. Desde então reflito sobre este tema. A lealdade que devemos às nossas ações e aos nossos pensamentos. Suponho que aqueles que não são leais consigo não se encontram, vivem no escuro emaranhado das fantasias e mentiras.

Quem deseja conhecer a si proprio deve partir da compreensão do “ser leal”. Ser leal é uma virtude. Mas os Homens falam raramente da prática das virtudes. Relegam-na áqueles que praticam religiões. Virtudes são entretanto qualidades do bom caráter: lealdade, generosidade, fidelidade, gratidão, alegria, magnanimidade e tantas outras. Nascemos com elas ou pela educação e ambiente em que vivemos somos treinados para praticá-las? È uma questão dificil de ser respondida, mas penso que um caráter bom ou mau se forma desde a mais tenra idade. È a soma da educação que recebemos com as nossas tendencias naturais. A tendência hoje é jogar a culpa do mau caráter no meio em que a criança nasce e se desenvolve. Mas sabemos que não é por ai. Milhões de crianças que nasceram e continuarão nascendo em lares pobres, localizados em ambientes inadequados ao seu desenvolvimento tornaram-se (ou tornam-se), entretanto, cidadãos excepcionais. tais crianças cresceram à sombra de alguém que as amparou, que lhes deu amor, dedicação e bons exemplos. O máu caráter decorre do descaso que se dá à educação. Aquela educação que chamamos de “educação de berço”. Berço no sentido de um braço adulto e responsavel que guie os passos da criança pelo caminho certo.

Não podemos confundir quantidade com qualidade quando se fala em educação infantil. Muitos pais   quando não se concedem tempo para conviver com seus filhos adotam um sentimento de culpa e tendem compensá-lo com presentes e mimos em excesso. Não é o tempo que se passa ao lado de uma criança que fará dela “um bom caráter”. São os bons exemplos, a disciplina, o respeito do adulto pela criança e vice-versa, ensiná-la a cumprir com seus deveres, a cordialidade e o amor. Citarei um exemplo: tive um casal de empregados pais de um menino de uns oito anos e uma menina de seis. O marido trabalhava como faxineiro na fábrica. A mulher trabalhava em minha casa. Moravam numa casa situada no terreno da fábrica que fazia fundos com um grupo escolar. Os pais saiam logo de manhã para o trabalho. Ao menino cabiam algumas tarefas como preparar o almoço para ele e a irmã e deixar a casa organizada. enfim, ele era o responsavel para que num certo horário, no inicio de cada tarde, ambos estivessem no grupo. E á tarde quando retornassem da escola cabia-lhe orientar a irmã nas tarefas escolares. Só no final do dia usufruiam da companhia dos pais. Eu acompanhava maravilhada a forma como aquela familia vivia, feliz, unida e bem organizada. Nunca ouvi aquela mãe se queixar que seus filhos não iam bem na escola ou que estivessem dando algum trabalho em casa. Isto se chama educação de berço, algo que ninguem ou nada nos rouba. Foi uma pena que após alguns anos aquela familia precisou retornar ao seio de sua familia. O pai sofria do mal de Chagas, não estava bem e o casal preferiu retornar para junto da familia afim de obter maior apoio emocional que lhes desse suporte nos momentos dificeis que logo enfrentariam. Mas eu tenho certeza que hoje, passado tantos anos, aquelas crianças são adultos sérios e responsaveis e devem viver bem, pois receberam na infancia as melhores ferramentas que os pais podem legar aos filhos: formação de um bom carater.

Correção: Manhã Triste

July 22nd, 2008

Hoje a manhã nasceu triste….

Manhã Triste

July 22nd, 2008

13/09/1963

Hoje a manhã nascei triste,

Tão triste e fechada,

Que toda a natureza ao seu redor,

Quedou-se no silencio.

Pobre manhã,

Por onde andou?

Amanheceu assim,

com vontade de chorar.

Mas não chora!

permanece cinzenta,

envolta num alo de tristeza.

Chora manhã!

Conta para a terra toda a sua mágoa.

Chora, até que venha o sol,

Ele secará as suas lágrimas,

Ele fará o seu rosto tão lindo, sorrir!

O LUAR

Caminha no céu um luar de prata,

vai beijar teu rosto amado.

O luar hoje será luz em teu olhar,

será o guia do teu caminho.

Nesta noite,

o luar te encontrará triste,

porque nos dissemos adeus.

E nos caminhos por onde andavamos,

o luar te encontrará só….

NOITE DE RONDA

Mirando la luna, estremeço..

É noite fria, geme o vento…

Meu coração está atormentado,

“onde estará o meu amor?”

indago à noite..

Indiferente me olha a lua..

descre de meus sentimentos..

segue-me por onde vou!

Que solidão em mim,

que solidão encerra a noite!

silenciosa a lua me escuta,

“onde estará o meu amor?”

Não o sabe a lua….

RASTRO DE LUZ

Há um caminho em meu coração,

é o teu caminho meu amor.

Há uma lâmpada em meu coração,

estás aqui, este é o teu abrigo.

Repousa, esquece o mundo lá fora,

Volta a ser criança,

e adormece em paz…

Ao surgir a aurora,

terás que partir.

Mas não te esqueças,

quando outra noite chegar,

reguressa ao coração meu,

Vem pelo rastro de luz

que o amor deixa em minha vida…

CREPUSCULO

23/11/63

“dardeja o sol no poente,

seus últimos raios de luz,

que se espalham em clarões roseos

por todo o firmamento”.

Brilha solitária num cantinho do infinito,

a estrêla Vésper.

Canto a melodia do seu nascer,

nostálgica melodia de quem esatá só

sob um azul belo demais!

A tarde se espande

na alma de quem caminha na solidão..

está só todas as tardes,

e segue pela alameda florida,

de uma tarde triste porquê bela demais,

para quem está só…

De tanto azul, que faço eu?

os pássaros seguem para os ninhos..

os sinos repicam a Ave-Maria,

a seguir..o silencio,

e quem está só,

de nostalgia,

morre um pouco em cada fim de tarde…