Chekov ( Anton Pavlovich)- 1860/1904
October 26th, 2008
1860/1904: escritor russo de pequenos contos e peças teatrais. Nascido no sul da Rússia, em Taganrog, filho de um comerciante e neto de um ex-servo que comprou sua liberdade. Graduou-se em medicina em 1884 tendo inicialmente exercido a profissão numa pequena cidade do interior e as experiencias sobre doenças e comportamentos de seus pacientes serviram de base para muitos de seus contos.
Para ajudar a sustentar sua enorme família, Chekhov se utilizou da publicação de pequenos contos nos jornais locais, sob pseudônimo. Nesta época, quando também exercia a medicina, Chekhov escreveu à um amigo: ” Medicina é a minha legítima esposa, literatura a minha amante. Enquanto alimento uma, passo a noite com a outra. Embora isto seja irregular, nenhuma das duas fica prejudicada com a minha infidelidade” Mas a amante com o tempo superou a esposa. O escritor Dimitri Grigorovich o apresentou a Aleksey Suvorin, proprietario do jornal Novoye vremya que liderava a imprensa em S. Petersburg. Sua reputação cresceu, pois a segurança financeira permitiu-lhe se dedicar mais aos seus trabalhos intelectuais.
Em 1890, Cherkhov viajou até a ilha-prisão de Sakhalin, suas experiencias foram relatadas no livro Ilha de Sakhalin (1893-4). À época ele já carregava consigo o bacilo da tuberculose, e toda a sua curta vida foi marcada por uma constante luta contra o avanço da doença. retornando à Rússia em 1892, durante a onda de fome que assolou seu pais ele executou um trabalho relevante. Em 89, com o agravamento de sua doença mudou-se para Yalta, na Criméia onde encontrou Gorky e Tolstoi. A partir de então sua criatividade voltou-se para o drama. Faleceu na Alemanha, no sanatório Badenweiler, em Julho de 1904.
O tema central da prosa de ficção de Cherkhov é a inabilidade dos seres humanos em não encontrarem respostas uns aos outros em suas comunicações permeadas de maldades e desesperança. É também relembrado por criar uma atmosfera lírica como resposta do homem à natureza.
Em 25 de maio de 1901, Chekhov casou-se com a atriz Olga Knipper. Antes que isto ocorresse, instigado por Suvorín a se casar, Cherkhov lhe afirmara:-” Pois bem, eu posso me casar se voce deseja. Mas minhas condições são: cada um permanece onde está, ela em Moscou e eu no interior. Irei vê-la, se a felicidade for contínua, dia após dia, eu fico” Olga foi esta mulher. Visitavam-se. Trocavam cartas diárias. Numa destas escrita antes de se casarem, ele demonstrou que havia sucumbido ao amor, quando confessou a Olga: ” o destino que nos separa não deve ser amaldiçoado. Foi o demônio que colocou o bacilo em mim e o amor à arte em você.”
Chekhov é considerado um mestre dos pequenos contos. Seu lema era: “concisão é a irmã do talento”.
The Portable Chekhov -NY The Viking Press 1975
“My holy of holies is the human body, health, inteligence, talent, inspiration, love, and absolute freedom-freedom from violence and falsehood, no matter how the last two manifest thenselves.” Chekhov
Resumo de alguns contos:
VANKA
Vanka é o menino de 9 aninhos, órfão de pai e mãe, aprendiz de sapateiro, que à véspera do natal escreve uma carta para seu avô que trabalha de guarda noturno. Na carta ele externa sua miserável condição: a noite dormindo num gélido cantinho da cozinha, de dia da cozinha para a loja do sapateiro. Na carta ficamos sabendo um pouco de sua história, sua mãe trabalhava na casa onde ele continuou a viver depois que ela falecera, época em que era bem tratado especialmente pela jovem Olga que o ensinara a ler e escrever. A ausência materna o jogou na cozinha. Vanka pede ao avô que venha buscá-lo antes que morra de frio e fome. O apêlo de Vanka é pungente, embora ele confunda a realidade com suas fantasias, natural pela idade e sofrimentos.
O CONSELHEIRO PRIVADO
A história é narrada por um menino cuja mãe entra em pânico quando recebe a notícia de que seu único irmão, um general solteirão virá visitá-la. Todo o texto gira em torno desta visita. E o menino, ainda na idade da inocência, com a chegada do tio inicia seu aprendizado sobre a vida além do seu pequeno mundo de criança bem nascida educada por um tutor de caráter enigmático. Dentro deste contexto, o ponto alto é a paixão que seu tio nutrirá por Tatyana, uma jovem casada com um cigano. O casal trabalha na casa do menino. Como o general trouxe seu ajudante de ordens, a mãe pede ao garoto que ceda seu quarto de dormir ao ajudante, assim, ele e o tutor se transferem para um anexo situado fora da casa onde vivem os empregados. A partir de um certo dia, todas as noites enquanto eles jantam o tio aparece no anexo. O menino percebe que há alguma coisa acontecendo mas não entende o quê. Até que uma noite, já tarde, enquanto ele faz um enorme esforço para não adormecer, houve uma declaração de amor que seu tio faz a Tatyana sem a menor consideração pelo marido da moça que se encontra presente ouvindo com olhos estatelados. O general convida a jovem a partir com ele para Moscou. Toma-lhe as mãos para beijá-la, é neste momento que o marido reage seguido pelo tutor. Um após outro, avançam sobre o tio e o expulsam do anexo. Mas, durante o momento em que o tutor vai para cima do general, alguma desconfiança surge na cabeça do cigano relacionada ao tutor. Assim, tão logo o tio sai do anexo lamentando que está muito doente, o cigano pega o tutor pelo pescoço e o agride, expulsando-o a seguir. O tutor vai embora e a dona da casa fica sabendo que durante a briga ele quebrou o braço e foi hospitalizado. A mãe do menino vai até o anexo para saber o que aconteceu na véspera. Lamenta que seu irmão esteja tão doente. O menino recolhe-se no jardim e entrega-se ao pranto. Mas distrai-se ao ver na estrada uma comitiva que se aproxima de sua casa, liderada pela polícia. Assustado corre para dentro de casa e conta à mãe que entra em pânico acreditando que alguem irá preso pela briga da véspera. Mas não se trata de prender alguem, é o tio que recebe a visita do governador. Pede a irmã que prepare uma refeição para seus hóspedes. Há um movimento inusitado na casa. Patos e perús são mortos para a refeição, nem aqueles de estimação foram poupados. Um grande banquete é servido, mas depois que os hóspedes se retiram, o general critica a irmã que não cumprimentou efusivamente o governador , e também faz críticas ao almoço servido. Para a dona da casa tais críticas foram a gota d’água num copo quase cheio pelas tensões sofridas desde a chegada do irmão. Ele percebe o cansaço e a frustração da irmã e sugere que se tivesse 3 mil rublos iria embora. A irmã lhe dá o dinheiro e a seguir a familia está na estação para as despedidas.
UMA CALAMIDADE
Sofya Petrovna é a esposa de Lubyantzeve, o notário público. É uma bela mulher de vinte e ccinco anos, mãe de uma menina. Encontra-se próxima á estação de ferro ao lado de um advogado, Ivan Mihailovich que lhe envia cartas e lhe faz desesperadas declarações de amor. Sofya rejeita o amor de Ivan. Aparentemente. Pois o fato dela ir ao encontro dele para lhe dar aquelas eternas desculpas femininas de que ama e respeita seu marido, que tem uma filha, uma familia, não o convencem. Ao contrário fazem-no acreditar, e ele manifesta esta sua intuição à mulher, que ela também o deseja. Por que estaria ali para rejeitá-lo quando poderia faze-lo por carta? Num certo momento Ivan cai de joelhos aos pés da mulher, declara seu amor e pede que ela vá embora com ele. Sofya sente enorme prazer em ter um homem de joelhos aos seus pés. Mas o rejeita, pois percebe que o trem está chegando e seu marido pode estar viajando nele no retorno à casa onde passam o verão. Desculpa-se afirmando que deveria estar em casa cuidando de sua familia e abandona Ivan.
Em casa Sofya descobre-se em êxtase. Um homem ajoelhou-se aos seus pés. Seu corpo freme de emoções enquanto se esforça para se desculpar diante da própria consciencia. Neste momento não se sente mais dona de si. Insulta-se, recrimina-se, compara-se às piores mulheres. Mas ao mesmo tempo sente-se tomada de estranho prazer e desejo. Diz para si mesma que fará a melhor refeição para seu marido, toma a filhinha nos braços e quase a sufoca de beijos. Aos poucos se acalma quando conclui que o melhor para fugir de Ivan seria uma pequena viagem com sua familia. O marido chega e após o jantar se prepara para um pequeno repouso. Sofya o convida para uma viagem. Ele diz que não é possivel, falta dinheiro e não teria quem cuidasse do cartório na sua ausência. Conclui que compreende que não deve ser agradável para ela aquela estadia no campo, então que vá viajar sozinha. Enquanto o marido adormece, Sofia sabendo que lhe foi concedida a liberdade de viajar sozinha, sonha novamente com Ivan. Viajariam juntos no trem, e quando fosse noite e os passageiros estivessem dormindo ou saissem um pouco durante as paradas, Ivan outra vez se ajoelharia ao seus pés para lhe declarar amor.
No final da tarde chegam vizinhos para jogar baralho e ouvi-la ao piano. Ivan também chega. Sofya está histérica com a presença do rapaz. Canta velhas cantigas de amor, ri, suas faces queimam feito brasas. Mas ao mesmo tempo imagina que o rapaz, silencioso naquela noite, está sofrendo por ela. O que fazer?
A reunião termina por volta de meia noite. O último convidado a sair é Ivan. Sofya o acompanha até o portão e permite que o rapaz a toque e lhe declare amor convidando-a para partirem juntos. Quando ele a envolve avançando um pouco mais, ela indignada solta-se e corre para dentro da casa. Seu marido já está na cama. Sofya senta-se diante da janela do quarto e pensa em Ivan. Nisto ouve do lado de fora da casa uma voz de tenor iniciando uma canção. Entra em desespero. Sacode o marido e o convida para acompanhá-la num passeio. Ele pede-lhe que vá sozinha. Ela pergunta se ele não ficaria preocupado se ela fosse e não voltasse mais. Ele nada responde. Ela lhe grita -” Nós vamos embora!” O marido desperta, senta-se na cama e quer saber com quem ela vai embora. E faz-lhe uma preleção sobre fidelidade, casamento, responsabilidades. Ela se lamenta que ele só pense nisto e não em seus sentimentos de mulher. Depois de dez minutos de lições morais o marido volta a dormir. Sofya dá a última cartada: ” vou sair, você vem comigo? Se vou sozinha talvez não volte.” O marido não responde. Ela reflete: “é agora ou nunca” Sai apressada para o meio da noite. Avança na escuridão sem olhar para trás.
At the Mill
Nos dois contos anteriores Chekhov nos revela os comportamentos diferentes de duas mulheres: a casta Tatyana passiva diante das investidas de um general solteirão que não resiste aos seus encantos e quer levá-la consigo para Moscou; e Sofya leviana que ao mesmo tempo se excita com a perspectiva de viver uma aventura amorosa e transforma suas sensações em tortura para sí mesma e para o homem que a ama; ao mesmo tempo estamos diante de dois maridos que agem de forma diferente um do outro, em relação à mulher que amam: o cigano cuida do seu amor, protege-a dos cantos das sereias, defende-a; o notário deixa a mulher solta para se entregar às diversões e aos sonhos, não se dando conta ou talvez sendo indiferente que ela siga sua própria vida se assim o desejar. Entretanto, no conto seguinte At the Mill, Chekhov nos convida a conhecer um caráter mesquinho que coloca seus ganhos financeiros acima da compaixão e do amor filial e fraternal. Trata-se de Alexey Birukov, dono de um moinho, proprietário de terras, que no seu dia-a-dia se confronta com as mazelas que os necessitados jogam sobre seus ombros. São quatro páginas que delineam à perfeição os impulsos primitivos que afloram do fundo da mente daqueles que se apegam ao Ter e pouco se importam de mostrar ao mundo que em relação ao Ser nada são. Não se importam com a má reputação, a indignação dos mais próximos, ou o olhar surpreso de quem acredita que poderiam em algum momento demonstrar rasgos de generosidade. Pequenos gestos falam muito. E aqui Chekhov revela sua magistral percepção do comportamento humano. O ser mesquinho, encurralado pelas lágrimas maternas e pelo olhar indignado de terceiros que assistem cena tão deplorável, sente-se obrigado a ceder. Abre sua sacola de dinheiro. Toma entre as mãos um maço de notas, e lentamente devolve-as uma a uma para o interior da sacola. Em suas mãos sobra apenas a moeda de vinte rublos. Olha para a moeda na palma de sua mão. Reflete. E afinal, decide. Coloca o dinheiro nas mãos da mãe. Como diz um ditado judaico: ” é muito longo o caminho entre o coração e o bolso.”
A Sirene
Um pequeno conto divertido, realista e sutil. A começar pelo título. Traduzido do inglês a palavra “siren” significa tanto sereia quanto sirene. Sereia atrai os navegantes com o seu canto suave. Sirene é um aparelho utilizado para emitir sons que alertam para algum perigo. Na presente história alguns juizes estão reunidos na Câmara de Julgamento aguardando que o Juiz presidente da Corte faça o relatório de um caso no qual atuaram juntos. Estão atrasados para o almoço. Sentado diante dos colegas, o secretário da corte comenta baixinho: “estamos famintos agora, porque estamos cansados e já passa das 15 horas. Isto não é, meu caro Grigory, o que podemos chamar de verdadeiro apetite.” E sem dar tempo aos colegas, dispara a falar sobre os mais deliciosos cardápios. Num crescendum suas palavras aguçam a fome de todos. O presidente esbraveja que o secretário deve falar mais baixo, pois aquela conversa o distrai e ele precisa refazer páginas de seu relatório. O secretário promete falar mais baixo, entretanto, no mesmo tom de voz anterior continua falando de assados, caviar, vodka, sopas e saladas. Sádico cria um ambiente onde alguém chega na cozinha e prepara uma refeição completa e requintada. As entradas enquanto se aguarda que o assado fique pronto, o aperitivo colocado em pequenos copos contendo incrições do tipo” As you clink, you may think, monks also thus do drink” ” A sopa, o assado, enfim, uma verdadeira aula de culinária que seria incompleta se tais refeiçoes não fossem seguidas de um descanso onde voce toma um brandy, lê seu jornal, vê a mulher amada e a chama para que lhe de um beijo. Um a um, os juizes pedem licença, passam a mão em seus chapéus e vão se retirando com ares de urgencia. O Presidente não consegue completar seu relatório e impaciente vai embora. O secretário lhe pergunta: ” meu querido amigo, quando terminará seu relatório?” O presidente levanta suas mãos em desespero e se apressa em direção a porta. O assistente faz o mesmo. Enquanto o secretário falante olha atrás deles desaprovando e começa a recolher os papéis.
Um ataque de nervos
Esta história é hilária. Vasilyev, o terceiranista da faculdade de direito é convidado por seus dois amigos, um cursando medicina e o outro a Escola nacional de Pintura, para que passem a tarde num bordel. Ele nunca esteve num bordel e aceita. No caminho ele fantasia um ambiente caloroso, repleto de glamour. Após uma caminhada sobre a neve os amigos chegam na S….Streeet repleta de casas de tolerância. Entram na primeira, são recebidos por um valet de feição glacial e indiferente. Subindo as escadas que conduzem a um ambiente mal iluminado, mulheres de faces pintadas e roupas escandalosas, não dão margem á dúvidas para Vasilyev, entraram pela porta errada. E assim, sucessivamente, os amigos cedem às críticas do futuro advogado indo de casa em casa, até que entram numa que fica mais ou menos aprovada por ele. Nesta há uma orquestra e dança-se a quadrilha. Enquanto os amigos dançam, Vasilyev acomoda-se bastante constrangido numa poltrona e analisa o ambiente. Horroriza-se sabendo que ai as mulheres se vendem em troca de um pouco de dinheiro que lhes garanta abrigo, alimento e roupas. Sente-se curioso para saber suas origens, como são suas famílias, como chegaram até aquela vida para a qual não há perdão, já estão condenadas ao inferno. Acreditando na condenação das mulheres decaídas, Vasilyev também reflete que os homens, todos os homens são criminosos duplamente: matam as esperanças daquelas mulheres e as condenam ao inferno. E num crescendum, o jovem estudante olha com nojo para as faces de cada um dos presentes, sente-se mal, excitado, e seus pensamentos sobre o ambiente são cada vez mais trágicos e sufocantes. A tarde finda e os dois amigos finalmente atendem aos apelos de Vasilyev e retornam à casa onde moram. Vasilyev recolhe-se em seu quarto e não consegue dormir. Reflete sobre bordeis e suas mulheres, seus frequentadores. Agonia-se, mas decide se manter sob controle. “Sou um advogado não sou? Defendi uma tese brilhantemente, então devo saber me controlar. Vou traçar um plano para salvar estas mulheres, e de início vou criar tres ambientes de salvação para elas” Imagina-as salvas sob tres condições diversas: 1) homens querendo tirar mulheres de um bordel instalando-as num quarto, dando-lhes máquina de costura para que possam ganhar a vida com decência, e eles em pouco tempo transformando-as em suas amantes. Neste caso a mulher decaída continua decaída. 2) Outros, após comprá-las colocam-nas em apartamento com a inevitável máquina de costura, dão-lhes aulas e elas aprendem a rezar e a ler. Enquanto tudo é novidade elas aguentam, mas logo reiniciam suas antigas atividades… continuam decaídas portanto. 3) um terceiro grupo de homens que casam-se com elas. E o casamento, a maternidade as transformam em boas mulheres. Mas Vasilyev depara-se com uma dificuldade. Mulheres em bordéis há aos milhares em todos os cantos do mundo. E ainda que todas fossem salvas outras seriam seduzidas e em breve estariam ocupando os espaços deixados vazios. Que agonia. Como salvar estas almas decaídas? Sim! uma boa idéia, talvez tornando-se missionário. Toma um pedaço de papel, lápis e rascunha um discurso de salvação das mulheres decaídas e de convencimento dos homens a não matá-las duas vezes. Sentar-se-á próximo à rua dos bordéis e à cada transeunte masculino indagará se acredita em Deus, se não teme o inferno, se…se….A noite passa, o rapaz não dorme. Sente dor no fundo do coração. Tem a cabeça confusa. Muitos são bons em vários segmentos da vida. Mas ele nasceu com um coração generoso. E a dor alheia entra fundo em seu ser. É-lhe insupórtavel o sofrimento alheio. Amanhece. Os amigos vão para a faculdade. Ele continua no quarto, prisioneiro de um ataque de nervos. Decide sair para a rua e caminha a esmo pela cidade. Vai até o rio agora congelado. Aproxima-se da ponte. Tem idéias suicidas. Sente medo e volta para casa. Os amigos chegam da faculdade e vão ao seu quarto. Em prantos Vasilyev pede-lhes ajuda afirmando que desejou se matar. É levado ao médico psiquiatra, que,friamente sorrindo de um lado só, o questiona sobre seus antecendentes. Dadas as respostas, Vasilyev pergunta ao médico se a prostituição é um mal ou não. O médico responde: meu querido cliente, quem as disputa? E Vasilyev:- O senhor é um psiquiatra não é? Talvez vocês estejam certos….
O médico dá um remédio para Vasilyev e ele se acalma. Os tres rapazes saem do consultório, o paciente levando entre as mãos duas receitas, uma de brometo a outra de morfina. Ele exclama: ” mas já tomei estes remédios antes!” e serenamente afasta-se de seus amigos e segue em direção à faculdade.
Gusev
Aqui são marinheiros retornando ao lar, num barco onde reina o cáos onde a maioria está a beira da morte. Gusev é o personagem principal, um pobre coitado que conta à um outro colega, Pavel, que um soldado em Sucham enquanto estava navegando, seu barco chocou-se com um enorme peixe causando um buraco em seu fundo. Pavel parece não ouví-lo. Trés inválidos jogam cartas e deliram. O tempo está ruim, o mar agitado e Gusev também delira. A curta história se limita a narrar a briga entre o barco e as ondas agitadas, o delírio dos doentes sujeitos ao calor estafante e com dificuldades respiratórias, (um drama que deve ter corroído a mente de Chekhov que desde os tempos de faculdade tinha em sí incubado o bacilo da tuberculose). Um dos jogadores morre e é atirado ao mar. Gusev se aproxima da morte, mas não a pressente e sonha com sua chegada na terra natal, pensa em sua familia. Passam-se dois dias. Pavel parece estar muito mal, mas quando Gusev pergunta sobre sua saúde ele afirma que está bem melhor. E Gusev se pavoneia afirmando que quando se compara com o amigo embora sinta pena dele, sente-se feliz porque seus pulmões estão bem e pode ficar no inferno…sozinho no mar Vermelho. As horas passam silenciosas até que chega a noite. Pavel tambem faleceu. Um dos soldados que jogavam cartas depois de questionar se Pavel entraria no Reino dos Céus, senta-se diante de Gusev e afirma: ” Você também Gusev, logo partirá deste mundo. Não retornará à Rússia. Eu vejo a morte em você. A conversa deixa Gusev atormentado. Tenta pensar no lar. mas não aguenta e pede ao amigo que o leve para o deck para que possa respirar melhor. No deck soldados mortos e marinheiros parecem dormindo lado a lado. Estrelas brilham nos céus, lá em cima há quietude e paz, mas abaixo ondas gigantes agitam o mar, Gusev quebra o silêncio: ” não há nada atemorizando aqui..só você se percebe esquisito como se entrasse numa floresta escura, mas se eles me mandassem cinco milhas adiante para pescar eu iria..se um cristão caisse na água agora eu o salvaria…”- você está preocupado em morrer, lhe pergunta o soldado. -Sim, penso na fazenda, meu irmão bebe, bate em sua esposa, não honra seu pai e mãe. …Mas as minhas pernas não me aguentam, deixa-me dormir, irmão….Gusev retorna à enfermaria onde dorme por dois dias seguidos. No terceiro, à tarde, dois marinheiros vão vê-lo, e o carregam fora da enfermaria. Ele é costurado dentro de um saco de marinheiro, e para torná-lo pesado, colocam junto dois pesos de metal. Quando o sol desaparece levam-no para o deck. O sacerdote ora: “Abençoado é nosso Deus…” Gusev é jogado ao mar e está numa escola de peixes chamados “peixe piloto”. O peixe pilôto está em êxtases. Brinca com o corpo de Gusev….enquanto lá em cima finda o cepúsculo e as nuvens maciças formam desenhos: um arco, um leão, um par de tesouras…Os céus se transformam em tinta lilás…enquanto este magnífico poente tem suas luzes captadas pelo mar em cores e beleza que não podem ser descritas por ninguem.
O HOMEM NUMA CONCHA
Nos limites de uma pequena vila dois caçadores conversam. Eram o veterinário Ivan Ivanych e o professor Burkin. Ivan vivia próximo da cidade e saíra aquela noite para respirar um pouco de ar fresco. De um comentário que fizeram sobre a senhora Mavra, que nunca saira da cidade e sequer sabia o que seria uma estrada de ferro, Burkin refletiu que existiam pessoas anti-sociais que se mantinham dentro de uma concha como o caranguejo. Aqui mesmo tínhamos Belikov, um professor meu colega sempre vestido com um casaco de inverno e levando um guarda-chuva mesmo nos dias mais claros, em resumo, era um tipo que construia ao seu redor uma membrana, uma capa protetora.. Lecionava grego, e mantinha um sorriso adocicado quando pronunciava a palavra: “Anthropos”. Para ele o que interessava eram as regulamentações do governo e as notícias dos jornais onde alguma coisa ficava proibida. Quando alguma lei proibia estudantes de 2o grau a ficarem nas ruas após as nove horas da noite, ou algum artigo censurando amor carnal, para Belikov isto se tornava proibido e assim tinha que ser. Mas aqui sempre existia alguma coisa vaga e indefinida para ele, algo não totalmente expresso em qualquer sanção ou permissão. Quando algum clube de drama ou casa de chá eram licenciados, ele chacoalhava a cabeça e cochichava: Tudo bem, mas você não sabe o que pode vir dai. Ele tinha o costume de visitar nossos quartos. Sentava-se e permanecia em silêncio por uma, duas horas, e então ia embora, e isto ele designava como manter boas relações com os colegas. na escola o diretor e todos nós, professores, nos preocupavamos com ele. Por quinze anos ele teve a cidade debaixo de seu polegar. Todos se preocupavam com o que faziem por temer as críticas de Belikov. Até que um dia….
Mihail Kovalenko, um ucraniano, chegou na vila para tornar-se o novo professor de geografia. Veio acompanhado da irmã, Varenka, uma jovem de trinta anos, bem feita de corpo, que sempre cantava pequenas canções russas e sorria. Sua risada às vezes soava como um sino Ha-Ha-Ha! Ela nos fascinava e tambêm a Belikov que comentava com um açucarado sorriso: ” A pequena língua russa lembra o velho grego na sua suavidade e agradavel sonoridade”. Nós viamos os dois conversando e uma idéia passou pelas nossas cabeças, casá-los. E foi só nesta ocasião que nos demos conta que o nosso Belikov não era casado. E nós poderiamos pinçar Belikov de seu quarto para casá-lo com Varenka. Eu poderia dar uma recepção e convidá-los. E assim, a máquina foi acionada. Em breve Belikov trouxe um retrato de Varenka para seu quarto, e viamos os dois caminhando juntos em longas conversas, e começou a me falar sobre casamento e suas responsabilidades. Eu gosto dela costumava me dizer, mas preciso pensar um pouco mais sobre casamento. Mas o romance foi se tornando assunto de todos na vila. Embora o irmão de Varenka odiasse Belikov, não colocava impecilho para um futuro casamento.
Certa ocasião, circulou pela escola uma caricatura de Belikov vestindo seus trajes habituais, caminhando com seu guarda-chuva, com Veranka se apoiando em seu braço e abaixo a legenda: “Anthropos apaixonado” A caricatura causou pânico em Belikov. Era domingo, Io de maio, e todos pretendiam se encontrar na escola de onde partiriam para um passeio pelos arredores da cidade. Belikov tendo saído em minha companhia queixava-se da malícia popular, quando Kovalenko e Varenka passaram pelo nosso caminho pedalando suas bicicletas. – ” Céus, o que é isto, exclamou Belikov apontando para Valenka. Ele estava escandalizado ao vê-la na bicicleta, que voltou para casa. Ferchou-se em seu quarto permanecendo incomunicável. No final da tarde ele foi até a casa de Kovarenko. Embora mal recebido despejou uma série de críticas sobre a caricatura e advertindo Kovarenko sobre a inconveniência de um professor pedalar bicicleta dando máu exemplo aos estudantes. Kovarenko não entendeu nada! Mas deixou claro que não era da conta de ninguém que ele e a irmã andassem de bicicleta. Ambos discutiram nervosamente. E já se retirando Belikov informou que levaria ao diretor da escola o conteúdo daquela discussão entre eles. Kovarenko enquanto lhe respondia de forma malcriada agarrou Belikov pelo pescoço e lhe deu um empurrão. Belikov rolou escada abaixo. naquele momento Varenka chegava em casa acompanhada de duas senhoras e ao reconhecer Belikov, supondo que ele caira por acidente, deu aquela sua gargalhada, Ha-Ha-Ha!! E este reverberante sino colocou um ponto final no romance entre os dois. Berlikov voltou para sua casa, trancou-se no quarto e, dois dias depois, seu criado Afanásio procurou-me preocupado para dar péssimas notícias sobre seu patrão. Fui vê-lo. Ele não se alimentava, respondendo às minhas perguntas apenas com um sim ou não. Um mes mais tarde faleceu. Uma semana mais tarde a vida em nossa vila voltou ao normal. Tão estúpida quanto antes. Nada explicitamente proibido, mas também nada plenamente permitido.
-Que lua! comentou Burkin. Era meia-noite. À direita podiamos ver a vila onde cada coisa permanecia em silencio. Quando numa noite de luar voce vê as ruas vazias da cidade, com suas casas, e os seus habitantes estão dormindo, você fica tomado de serenidade e imagina que as estrelas estão olhando para isto ternamente e que não existe mais o mal sobre a terra.
Burkin foi dormir e Ivanych sentou-se outra vez à porta de sua casa, acendeu seu cachimbo e alí ficou.
Thomas Mann
October 26th, 2008
Dead in Venice: Thomas Mann:
Aschenbeck